“Enquanto estou no mundo, sou a luz do mundo.” - O Messias
Uma
pergunta clara é feita sobre um tema perturbador: o pecado é a causa de todos
os males que nos ocorrem?
Costumou-se
cravar um jargão para tal questionamento: não pergunte por quê, mas para quê!
De
fato, é essa a resposta de Jesus: para quê? Para a glória de Deus.
O
fato é a cura de um cego. E contra fatos não há argumentos. O homem está lá,
vendo. Era cego desde nascença. Mas agora vê. Não há como negar esse fato.
Mas
as pessoas não querem crer nos fatos. Por quê? Porque fé é também querer. É
preciso querer acreditar. O que te impede de crer? Seria o seu querer?
A
guerra de narrativas da política não pode ultrapassar a linha dos fatos.
Escrevi um livro que aborda, entre outros, esse assunto: Esquerda &
Direita do Rei no Brasil: Um manual para todo cristão votar bem (ou, pelo
menos, pelas razões certas). Esquerda & Direita do Rei no Brasil — Amazon Kindle Ali procuro
destacar fatos que nos ajudam a perceber a supremacia da realidade do Reino de
Deus sobre narrativas políticas meramente ilusórias.
A
política importa. O cristão não pode ser indiferente à justiça, à verdade, à
pobreza, à violência, à corrupção ou à dignidade humana. Mas a política não
pode ocupar o lugar que pertence ao Reino de Deus. Jesus reina sobre a
história, mas declarou que seu Reino não é deste mundo. Por isso, nenhum
partido, candidato ou projeto político pode pretender ser a expressão
definitiva do Reino de Deus.
O
filme Deus Não Está Morto 5 também aborda a importante relação entre
cidadania e fé. Ele convoca o cristão a não se omitir do debate público,
especialmente quando valores que considera fundamentais estão sendo retirados
da arena política. Entretanto, participar da política não significa batizá-la.
O cristão entra nela como cidadão, não como sacerdote de um partido.
Quando
Jesus cura aquele cego, surge também um confronto com aqueles que afirmavam
enxergar. O problema deles não era simplesmente a falta de informação. Eles
estavam diante de um fato extraordinário, mas sua interpretação da realidade
estava condicionada por seus próprios pressupostos. A cegueira mais perigosa
não é aquela dos olhos, mas aquela que nos faz enxergar apenas aquilo que
desejamos ver.
Essa
advertência vale especialmente para a política. A ideologia pode tornar-se uma
espécie de lente através da qual selecionamos fatos, justificamos aliados e
demonizamos adversários. Passamos a chamar de “verdade” aquilo que confirma
nossa posição e de “mentira” aquilo que a contraria. O resultado é uma cegueira
seletiva.
Por
isso, não apenas a política, mas também as ideologias e os grupos aparentemente
antagônicos precisam ser examinados à luz do Evangelho. O cristão não deve
perguntar apenas: “A esquerda está certa?” ou “A direita está certa?”. Deve
perguntar antes: “O que, em cada uma delas, corresponde à verdade, à justiça, à
misericórdia e à dignidade ensinadas por Cristo?” E, igualmente importante:
“Onde estão os meus próprios pontos cegos?”
Essa
postura exige humildade. Afinal, somente Deus é absolutamente bom. Jesus mesmo
recusou a pretensão humana de estabelecer uma divisão simples entre bons e
maus. O Evangelho reconhece a existência do bem e do mal, da verdade e do erro,
mas nos impede de transformar nossa preferência política em medida absoluta da
bondade humana.
É
justamente aqui que o cristão precisa permanecer vigilante. O perigo não está
apenas em escolher o extremo errado, mas em transformar qualquer extremo em
esperança última. Uns depositam sua esperança no Estado; outros, no mercado.
Uns esperam a salvação de uma revolução; outros, da conservação de uma
determinada ordem. Uns elegem seus políticos como defensores da fé; outros
enxergam nos adversários a encarnação de todo o mal.
Em
todos esses casos, a política deixa de ser instrumento e passa a ser objeto de
fé.
E
quando um político se transforma em messias, o eleitor deixa de ser cidadão e
passa a ser discípulo de um homem.
O
Evangelho nos chama a algo diferente. Não somos chamados a salvar o Brasil.
Somos chamados a seguir o Salvador. Não somos chamados a construir o Reino de
Deus por meio de um partido. Somos chamados a viver os valores do Reino onde
Deus nos colocou. A luz de Cristo deve alcançar o político, mas também o
professor, o empresário, o trabalhador, o estudante, o pai e a mãe de família,
o policial, o padeiro e todos aqueles que exercem alguma influência na
sociedade. O Reino começa no coração e transborda para a vida.
Por
isso, a pergunta decisiva não é: “De que lado você está?”. É: “A quem você
pertence?”
Cristo
está acima da esquerda e da direita. Ele não precisa ser capturado por nenhuma
delas. Ao contrário: ambas precisam ser julgadas à luz dele. Podemos discordar
politicamente e continuar amando. Podemos denunciar erros sem odiar pessoas.
Podemos defender convicções firmes sem transformar adversários em inimigos
absolutos. Podemos votar com consciência sem colocar nossa esperança na urna.
A
fé cristã não nos autoriza a fechar os olhos para a realidade. Pelo contrário:
Jesus é a luz que nos permite enxergá-la melhor.
E
talvez esse seja um dos maiores desafios do cristão na política: manter os
olhos abertos sem perder o coração; defender a verdade sem perder o amor;
reconhecer o mal sem imaginar que ele existe apenas do outro lado; lutar pela
justiça sem acreditar que somos nós mesmos os justos.
A
salvação não está na política, nos partidos ou nos candidatos. O Evangelho é o
poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê. Quem atribui à política
aquilo que somente Deus pode realizar está, ainda que involuntariamente,
usurpando o trono divino.
Portanto,
participe. Vote. Discuta. Questione. Denuncie a injustiça. Defenda a verdade.
Mas não entregue sua alma a nenhum projeto político.
Não
queira ganhar o Brasil e acabar perdendo a própria alma.
Enquanto
estamos no mundo, somos chamados a ser luz no mundo. Não para substituir o Sol,
mas para refletir sua luz.
E
a verdadeira Luz tem nome: Jesus Cristo, o Rei.