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domingo, 30 de janeiro de 2011

O Teísmo Aberto (segundo Paulo) Brabo

RichardRice…pesando menos de 30 anos mas alegando ser a reencarnação de um espírito muito anterior ao nascimento do calvinismo, está o teísmo aberto, batizado com esse nome em 1980 pelo adventista Richard Rice. O teísmo aberto traz à tona idéias que já circulavam sob alguma forma no pensamento de Jacobus Arminius, de John Wesley e de diversos teólogos do século XIX, porém aplica-lhes um matiz muito peculiar e arma-se de novos argumentos.

O teísmo aberto fundamenta-se na premissa de que muitos dos dogmas do teísmo clássico (e portanto do calvinismo) não tem sua origem na Bíblia ou na tradição dos apóstolos, mas são fruto de uma assimilação sacrílega de conceitos importados da filosofia grega. É o pensamento grego clássico e não a Bíblia – sustentam eles, e com acerto – que descreve Deus como sendo imutável, impassível e fora do tempo.

Seus partidários enfatizam que “atributos” de Deus como onisciência e onipotência não aparecem na Bíblia com esse nome, sendo generalizações posteriores forjadas a partir de indicações muito cautelosas dos autores bíblicos; mesmo o conhecido título de “Todo-Poderoso” é resultado da tradução arbitrária de uma expressão hebraica cujo significado original se perdeu. O Deus descrito na Bíblia é por um lado tremendamente poderoso, sábio e constante, por outro prefere definir-se por qualidades de auto-esvaziamento como misericórdia, tolerância e amor.

Em contraste com o calvinismo, o teísmo aberto enfatiza o caráter relacional de Deus (Deus desce da sua soberania para inaugurar um relacionamento aberto com o homem) e a liberdade e a responsabilidade humanas (Deus concedeu verdadeiro livre-arbítirio ao homem).

O partidário do teísmo aberto crê encontrar na Bíblia que Deus concedeu autonomia mais do que ilusória ao homem, e entende com isso que Deus não pode ser soberano como o classificam os calvinistas. O homem não pode salvar-se por si mesmo da sua condição, mas Deus desce da sua grandeza para convidar o homem a estabelecer um relacionamento livre com ele. Embora seja no fim das contas salvo apenas pela conduta galante e inclusiva de Deus, cabe ao homem rejeitar ou aceitar o convite para o abraço de reconciliação.

A morte sacrificial de Cristo beneficia de forma potencial toda a humanidade, porque o futuro permanece em aberto e enquanto vive o homem pode aceitar o convite da graça – convite esse que é tremendamente atraente mas não irresistível, já que Deus achou por bem relacionar-se com agentes livres e não com (a imagem é recorrente na argumentação dos teístas abertos) marionetes.

Todos estão portanto “predestinados” à salvação, mas o homem é livre para recusar esse destino glorioso e, como o Don Giovanni de Mozart, dizer no! ao mais sedutor dos apelos e abraçar voluntariamente o inferno. Como resultado dessa terrível liberdade que concedeu ao homem, Deus não tem como conhecer todos os detalhes do futuro – daí a corrente definir-se por uma visão “aberta” de Deus.

O Deus do teísmo aberto está inserido na história e não num inconcebível lugar fora do tempo; é um Deus que sofre e se relaciona; que está aberto ao diálogo e a mudar de opinião. É um Deus que, basicamente, recusou-se a viciar os dados e resolveu correr o risco da rejeição, na esperança de poder experimentar o verdadeiro amor.

Também não é sem fundamento bíblico que o teísmo aberto define suas proposições. O Deus da Bíblia sente-se muito à vontade no fluxo da história; as Escrituras judaico-cristãs fornecem abundante testemunho de Deus cedendo a pedidos, experimentando surpresa e desapontamento e mudando de idéia a partir da perfomance humana – incidentes que parecem contradizer a visão determinista do calvinismo. Inúmeros textos bíblicos enfatizam a responsabilidade humana no processo de salvação e o caráter relacional e recíproco das alianças de Deus com o homem. Algumas passagens chegam a falar de gente rejeitando trágica e deliberadamente (precisamente como Don Giovanni) o desígnio de Deus para suas vidas.

Arrependo-me de haver posto a Saul como rei; porquanto deixou de me seguir, e não cumpriu as minhas palavras (1 Samuel 15:11).

O Senhor se arrependeu de haver constituído Saul rei sobre Israel (1 Samuel 15:35).

Viu Deus o que fizeram, como se converteram do seu mau caminho; e Deus se arrependeu do mal que tinha dito lhes faria, e não o fez (Jonas 3:10).

Os céus e a terra tomo, hoje, por testemunhas contra ti, que te propus a vida e a morte, a bênção e a maldição; escolhe, pois, a vida, para que vivas, tu e a tua descendência (Deuteronômio 30:19).

Quem crer e for batizado será salvo; quem, porém, não crer será condenado (Marcos 16:16).

Deus deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade (1 Timóteo 2:4 ).

Ora, é para esse fim que labutamos e nos esforçamos sobremodo, porquanto temos posto a nossa esperança no Deus vivo, Salvador de todos os homens, especialmente dos fiéis (1 Timoteo 4:10).

Mas os fariseus e os intérpretes da Lei rejeitaram, quanto a si mesmos, o desígnio de Deus, não tendo sido batizados por ele (Lucas 7:30).

Ancorado nessa qualidade de testemunhos o teísmo aberto sustenta que a soberania divina deve ser entendida como uma supervisão geral do Deus poderoso sobre uma história que ainda não está pronta. No fluxo dessa narrativa Deus intervém, mas não manipula; age, mas não condena ninguém ao inferno. A liberdade do homem é terrivelmente real, refletindo a liberdade do próprio Deus; é o encontro dessas liberdades que qualifica o tipo de relacionamento que Deus propõe experimentar com o homem. Deus não escolhe se definir pelo seu tremendo poder, mas pelo esvaziamento de poder, conforme exuberantemente manifesto na encarnação e na carne de Jesus.

As particularidades do teísmo aberto refletem com exatidão as condições ideológicas do mundo em que nasceu: o nosso. Desde meados do século XX a posição político-ideológica prevalente no ocidente e em suas colônias é essencialmente libertária, isto é, glorifica aautodeterminação. A liberdade de decisão é o único valor inegociável da nossa cultura, e qualquer relação entre dois agentes é concebível, desde que seja consensual. Como resultado, nenhuma relação não-consensual nos parece legítima. Pela lógica libertária, dizer graça irrestível é o mesmo que dizer graça nenhuma. O determinismo calvinista incomoda os teístas abertos não apenas por negar a liberdade do homem, mas por limitar a liberdade de Deus. Entendem eles que o Deus da Bíblia é poderoso não por dirigir a história com punho de ferro, mas por garantir um resultado final positivo sem dobrar-se à solução fácil que seria controlar todas as variáveis.

O teísmo aberto é o resultado de se levar a idéia da predestinação às suas últimas conseqüências lógicas. Se Deus predestinou, a liberdade humana é uma farsa. Se Deus predestinou, Jesus morreu para beneficiar uma elite arbitrária de eleitos, o que é moralmente inaceitável e incompatível com o caráter amoroso e inclusivo de Deus revelado no tom geral da Escritura. A missão do sistema do teísmo aberto é libertar Deus das amarras da sua soberania e a devoção cristã das contradições impensáveis do determinismo.

[…]

Os teístas abertos começaram a ganhar terreno e adeptos denunciando, basicamente, o que vêem ser as abomináveis conseqüências morais do calvinismo. Para aceitar o calvinismo da ortodoxia, argumentam eles, é preciso endossar uma série de noções teológicas incompatíveis com o caráter generoso e relacional de Deus. Por exemplo: [1] que Deus é o único responsável pelo mal, [2] que Deus está mentindo quando dá entender que o homem é responsável por suas ações, [3] que a oração de súplica é uma farsa perversa, visto que o futuro é imutável e Deus não pode ser persuadido a mudar de idéia, [4] que de nada adianta pregar a boa nova, visto que os eleitos acabarão encontrando a luz de uma forma ou de outra, [5] que não existem injustiças sociais ou morais, visto que cada baixa de todas as guerras e de todas as pobrezas estavam previstas no roteiro original do próprio Deus.

TEÍSMO ABERTO: Em defesa da liberdade

2 comentários:

Leonardo Pessoa disse...

Acompanho seu blog a bastante tempo e tenho aprendido bastante, e repensado um bocado de coisas a respeito de Deus e sobre a vida. Até descobri que tenho uma postura batante favorável ao teísmo aberto. Meio que o praticava sem saber o seu nome.

Parabens pelo texto e pelo blog.

Rubinho Osório disse...

Leonardo, não se apegue a "ismos". São todos "vaidade" - como dizia Salomão. Seja um crítico feroz e ardoroso defensor, tanto do teísmo quanto do calvinismo. Encha-se de perguntas, de dúvidas, de incertezas. E caminhe, assim mesmo, caminhe. Apenas com esperança e amor.