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quinta-feira, 19 de setembro de 2013

O professor

Pai- O professô tá aí?

Não raras vezes a campainha lá de casa era tocada pelo dedo sujo de um pedinte qualquer perguntando pelo nosso pai, o professor.

Lembro-me de ter sido rebocado com meu irmão mais velho uma meia dúzia de vezes para a quadra de um ou outro colégio onde o meu pai lecionava, para ali podermos jogar uma pelada. Foram raras vezes, pois de fato meu pai pouco lecionou em sua carreira profissional.

Formado em advocacia ele também não exerceu a profissão.

Ao contrário do que a foto mostra, o pai era um cara pouco relaxado. Geralmente estava engravatado tentando articular algo, ou, tentando dar um bom fim a algo que já havia articulado. Ele tinha algo do leonino que queria movimentar sua comunidade. E para isso ia de cedo até a altas horas da noite.

Evidentemente ganhou dinheiro com isso e soube multiplicar o dinheiro que ganhou, e soube poupar o dinheiro que multiplicou.

A fama poucas vezes chegou a lhe acariciar. Uma entrevista num jornal, uma foto com um ministro, uma outra com o presidente da república. Um encontro com um artista pop. Alguns títulos de cidadão honorário e várias homenagens locais.

Seu forte estava em sua sabedoria. Era um cara inteligente. E por isso, às vezes, cabeça dura.

Sua postura ética também incomodava. Não sabíamos se ríamos ou se tremíamos quando, em uma ou duas ocasiões, ouvimos escapar um palavrão de sua boca.

Era um homem misericordioso.

Por isso o dedo sujo dos mendigos em nossa campainha.

Fato é que o pai não vibrava muito quando alguém ia lhe pedir dinheiro. Eu pessoalmente nunca conseguia mover o seu bolso com pouco esforço.

Todavia ele patrocinava e doava para coisas que via futuro. Seja naquela gente pobre sem o almoço de amanhã, seja a lágrima de um filho ou seja uma moradia melhor deles. Certamente algo regado na cultura católica que cresceu, meu pai sabia dar esmolas.

Dom Elder Câmara prefaciou um de seus livros. E meu pai lia muito. Principalmente coisas técnicas ligado a sua área, pedagogia, administração…

Não sei por que hoje, qual outro motivo teria além da saudade, para honrá-lo com minhas palavras.

Talvez seja a vida fazendo a ficha cair e as peças do quebra cabeça se encaixar aqui e ali, e eu vou podendo compreendê-lo melhor.

Talvez seja a simples gratidão por ter tido nosso professor Augusto como papai.

O fato é que não sai de minha lembrança ele andando pelo chão de nossa sala ou cozinha cantarolando um salmo:

“O Senhor é meu pastor nada me faltará”

Com todas as suas imperfeições - e poucas pessoas, melhor do que nós da família, estariam tão habilitadas para fazer um lista delas – o cara era um encanto de pessoa.

Que nós, seus alunos mais íntimos, saibamos repetir de cor e vivenciar todas suas lições que nos foram confiadas. Amém.

Um comentário:

Gilmar Morais disse...

Eu sou suspeito para pronunciar qualquer palavra que seja... E, confesso-lhe, ainda me emociono ao lembrar o grande Mestre que tive. Não é sem razão que meu filho, de 13 anos, se chama Augusto! Eu o guardo aqui no coração, mas sobretudo, eu anuncio, a cada dia, nas minhas jornadas educacionais, os princípios e valores que ele tão bem soube emprestar a este mero caminhante! Serei sempre grato!