Me lembrou o talento de @tucoegg Tuco Egg, nosso querido amigo artista.
Vivíamos o tempo glorioso do mito. O mito traduz melhor a verdade que a pura e simples descrição histórica. Como falar de um Deus que se fez criança, do mistério do ser humano, de sua salvação, do bem e do mal senão contando histórias, projetando mitos que nos revelam o sentido profundo do tais fatos? Os relatos do nascimento de Jesus contidos nos evangelhos, contem elementos históricos, mas para enfatizar seu significado religioso, vem revestidos de linguagem mitológica e simbólica. Para nós crianças tudo isso eram verdades que assumíamos com entusiasmo.
Acho bom que uma vez por ano pelo menos, celebramos o Deus menino. O reino celestial, nos garantem os Evangelhos, tem características infantis. Cristãos festejam a fragilidade do bebê que dependeu dos braços maternos e das decisões paternas para sobreviver. Esvaziado, humilde e carente, Deus se revelou à humanidade numa estrebaria. Talvez nessa revelação repouse a mais alvissareira mensagem do cristianismo: Deus abraçou a humanidade em sua pequenez. Desde cedo, no desterro do Egito, conviveu com olhares odiosos. Criticado dentro de casa, soube amargar a incompreensão. Caçado e morto por sacerdotes e políticos promíscuos, experimentou o abandono derradeiro. No que sofreu, Jesus se tornou o patrono dos desgraçados, paraninfo dos sem-teto, amigo de proscritos. Ele é o ânimo dos que se desgastam pela justiça; o aceno de esperança para os que nadam contra a correnteza. Nele reside a promessa de que o bem semeado no mar da iniquidade jamais será esquecido.
Lá estava um marido, uma mulher e uma criança.
Animais, pastores, gente simples.
Uma viagem a ser feita.
Um rei irado.
Um cheiro desagradável, que não sabia-se se vinha do gado ou do bebê.
Um criança, que não ria, que chorava, que mamava, que dormia.
Sangue, estrelas, noite, anjos.
A falta de uma cama, de um teto, de um bercinho.
Um marido que casara com uma mulher grávida. Um filho que não era seu… Uma mulher que casara para não ser mãe solteira.
As dores do parto que haviam há pouco cessado iriam se prolongar humanidade a dentro pelos próximos trinta e poucos anos e gerar um Monstro de estatura qual a humanidade jamais conhecera, e jamais esqueceria: o Messias judeu, o Cristo.
O peso das preocupações e tristeza daquele estábulo iriam pelos próximos dois mil anos não somente alimentar o apetite desenfreado de consumo do mundo, como também os sonhos românticos de humildade do imaginário coletivo ocidental.
No momento, porém, nada de especial, nem o marido, nem a mulher, mas só mais uma criança, um anjinho, um Deus, que nem dormia em paz, mas chorava alto e incessantemente grudado nos seios e lábios de uma mãe virgem e sob o olhar assombrado de um carpinteiro.