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quinta-feira, 5 de março de 2009

Deprecação total do homem

“Deus e religião são invenções dos homens para que a sociedade mantenha-se sob controle e as pessoas não saiam por aí matando umas às outras.” Disse-me certa vez, na adolescência, um amigo meu, em nossas divagações madrugada adentro em meio a tragadas de cigarro barato e doses de caipirinha e “cuba livre”.

Hoje fico a pensar que tal “invenção humana” não foi lá muito eficaz: a sociedade não está nada sob controle e as pessoas continuam se matando umas às outras (essa semana mesmo, uma vizinha minha de 24 anos e seu namorado morreram carbonizados em uma explosão no apartamento, que chocou o bairro e a cidade. Causa: provavelmente ciúmes).

Nesse contexto a igreja desenvolveu um termo “curinga”. Quando a canastra teológica do “poder e bondades divinas” não fecha bem com as cartas da realidade humana postas sobre a mesa, lança-se mão do curinga, avivamento: “Precisamos de um novo avivamento!”

Conheci um pastor que possuía em sua cadernetinha de sermões um esboço sobre avivamento, copiado de Charles Finney. Já perdi a conta de quantas vezes o vi pregar esse sermão na mesma ou em diferentes igrejas. No fundo era um curinga que ele possuía quando estava sem inspiração. O resultado é que o povo sempre dormia ouvindo aquelas palavras repetidas e vazias.

O mal está por aí e não há como negá-lo e em certa medida nem há mesmo como evitá-lo. A diferença talvez seja que antigamente havia mais esperança. Paul Tournier compara muito bem as épocas quanto diz:

“Os ‘livre-pensadores’ do início do século eram otimistas. Eles podiam rejeitar a Deus com um sorriso, porque eles tinham confiança no homem e pouca consciência de sua culpa. Hoje em dia, os ateus têm um sentido agudo de pecado, e são mais pessimistas sobre o homem que os calvinistas!”

Ateístas estão corretos em afirmar que o código moral fornecido pelas religiões não é nem evidência da existência de Deus e nem prova da utilidade daquelas. Aliás, essa é a lição do Éden: o conhecimento do bem e do mal não é o que nos leva à Vida, ele pode até nos tornar mais parecidos com Deus, transformando-nos em juízes cheios de conhecimento, mas ao mesmo tempo, nos afasta radicalmente do Deus de amor e graça.

Fala-se de total depravação do ser humano e da “natureza humana” como se fosse algo essencialmente maligno e nos esquecemos que Deus se fez homem! Ele mesmo nos lembrou que a própria escritura nos chama de deuses! O salmista exclama estupefato: “Que é o homem mortal para que te lembres dele? e o filho do homem, para que o visites? Pois pouco menor o fizeste do que os anjos, e de glória e de honra o coroaste” (Sl 8:4,5). O mesmo espanto é visto nos lábios de Jó (7:17).

Então o bem está espalhado igualmente pela face da terra e me fez recordar outro grande amigo da infância e adolescência que um dia ao ver meu zelo evangélico de “novo convertido” me alertou: “Roger, no coração do bom homem há também um bom tesouro”.


OBS: A Ultimato confundiu o título do artigo... Deprecação está em referência à total súplica por perdão à humanidade feita por Jesus na Cruz "perdoai-os porque não sabem o que fazem". Ou seja o título é mesmo total deprecação e não total depreciação. A total depreação de Cristo anula a total depreciação.

10 comentários:

Alice disse...

...é querido Roger, esse é uma boa reflexão. Simplificando e nos eximindo de culpas, diríamos num bom crentês: São os fins dos tempos !... mas todos sabemos que desde que o mundo é mundo e o homem caminha sobre ele essas coisas acontecem ....há maldade em nós e é preciso ser domada por nós . O mal é um virus que nunca morre, pode adormecer, mas nós, os que estamos em pé, devemos vigiar demais para que não venhamos a cair nas garras dele.
A saída ?... é mais simples do que a justificativa: Cristo e sua maravilhosa Graça.


bjkas

Rubinho Osório disse...

Meu pai vive dizendo que o mal cresceu no mundo. Acho que não. Foi o otimismo que diminuiu.

zwinglio disse...

Roger, paz!

1 - O código moral cristão aponta para a existência de Deus e salienta a ímpar importância da "religião" cristã para a práxis humana;

2 - Falar de depravação humana é falar sobre o que é; exatamente por isso que o Deus que tabernaculou-se dela não se fez partícipe;

3 - As Escrituras falam da iniquidade multiplicando-se, mas nunca do bem...

4 - deuses?

É mais ou menos por aí que caminho...

Roger disse...

Alice,

"final dos tempos" é outro bom curinga! Basta acontecer uma tragédia que lançamos mão dele.

A maravilhosa graça, como você bem salientou, é o que de fato nos exime de toda culpa.

beijos,

Roger

Roger disse...

Rubinho,

talvez os dois Rubens tem razão. Ou não?!

Abraços,

Roger

Roger disse...

Caro Zwinglio,

quando falo de deuses me refiro à passagem abaixo:

Jo 10:34,35 Respondeu-lhes Jesus: Não está escrito na vossa lei: Eu disse: Sois deuses? Pois, se a lei chamou deuses àqueles a quem a palavra de Deus foi dirigida (e a Escritura não pode ser anulada).

Em apocalípse 22:11 vejo que há a multiplicação tanto do bem quanto do mal: "Quem é injusto, faça injustiça ainda; e quem está sujo, suje-se ainda; e quem é justo, faça justiça ainda; e quem é santo, seja santificado ainda." Afinal de contas o Espírito Santo é derramado sobre toda carne, o que nos leva a pensar numa ação positiva. Além disso podemos ver o bem em várias facetas da vida no mundo a fora ser multiplicado.

Abraços,

Roger

Roger disse...

OBS: A Ultimato confundiu o título do artigo...

Deprecação está em referência à total súplica por perdão à humanidade feita por Jesus na Cruz "perdoai-os porque não sabem o que fazem".

Ou seja o título é mesmo total deprecação e não total depreciação.

A depreação de Cristo anula a Depreciação.

MamaNunes disse...

Perdemos a ingenuidade isso sim, e não há "religião" que dê jeito nisso. Eu creio na Graça e seus efeitos. "O bem está espalhado pela face da terra..."
Foi ótimo ter vindo!
Um grande abraço
\o/

zwinglio disse...

Roger,paz!

1 - É evidente que o Espírito Santo não é derramado sobre qualquer carne... a analogia da fé nos mostra isso com clareza...

2 - Sim... no texto joanino está escrito: "...vós sois deuses..." Mas o que significa esta designação... o que o amigo quis dizer com o uso dela?

3 - No texto de Apocalipse não há o estabelecimento de uma proporção númerica... a meu ver... o que há ali está não passa de uma constatação...

Mas, não quero gerar polêmicas... visito seu blog a uns dois meses e apenas agora resolvi dar meu PITACO...

Abraços!!

Roger disse...

Oi Zwinglio,

só posso dizer que você faz bom jus a seu nome!!

Um polemicazinha é sempre boa, kein problem.

Abraços,

Roger