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domingo, 26 de julho de 2009

A escadaria da Graça

A princípio, o território neutro da Igreja da Graça era ocupado por adolescentes e crianças, organizando suas batalhas em tabuleiros ou cartas, à sombra de um flamboaiã. À noite, vinham empregadas em geral, providas de namorados civis e militares.
 
Mas impõe-se a descrição sumária do território: simples escada pavimentada em frente ao edifício de esquina, separando o portão de entrada da calçada, que por estar no alto de um morro e de tão lisa convidava a pousar e repousar. Os adolescentes cediam ao convite, e ali ficavam praticando sobre o tempo, sobre as mulheres, futebol, verdades e inverdades da semana. (Na parte da tarde). Os adultos não conversavam, pois outros meios de comunicação se estabeleciam naturalmente na sombra, mormente se o poste da CEMIG, que ali se alteia, falhava a seu destino iluminatório, o que era freqüente. (Na parte da noite.)
 
Nos degraus propriamente ditos, as pessoas encontravam descanso, e era uma espécie de átrio dos gentios, visto que o edifício da igreja era tido como templo. Ali pisavam tanto crentes como não crentes sem a ameaça de profanar o “santo dos santos”. Não se sabe ao certo até que ponto os transeuntes desavisados identificavam o local como um igreja evangélica, mas para a garotada ali era a “esquina” onde a turma se reunia, ou “escadaria da Graça”, nome exagerado dado à escada de meia dúzia de largos graus.
 
E assim corria a Idade de Ouro, quando começaram a surgir, no expediente noturno, alguns maltrapilhos sós ou mesmo acompanhados de toda família, para ali pernoitar. Na maioria das vezes, que não eram nem tantas assim, ficavam provisoriamente, por uma ou duas noites. Depois prosseguiam sua jornada fugindo da fome do Jequitinhonha ou outro recanto desprivilegiado em busca de alguma oportunidade em Belo Horizonte. O mais conhecido deles era um alcoólico (inicialmente anônimo), que por molecagem infantil foi apelidado de Biguilim. Chegou até mesmo a freqüentar a igreja e se converter (e desviar-se) várias vezes. Os retirantes, porém, apareciam e sumiam sazonalmente como os bem-te-vis que perambulavam e cantavam no alto da torre.
 
Bem antes dos adolescentes com seus gritos e risadas altas às altas horas da madrugada e da maré de maconha deixada por alguns dos mais ousados, os mendigos e sua falta de higiene, era sem dúvida o maior inconveniente para aquela comunidade cristã.
 
Logo as primeiras queixas começaram a surgir, sabe lá Deus na boca de quem. Talvez foi o zelador, ou o próprio pastor, ou mesmo um fiel apressado que chegava no domingo antes da escola dominical iniciar e encontrava alguém ainda por lá ou apenas os vestígios deste alguém.
 
O zelador saiu a parlamentar, e desacataram-no. A rua era pública, a igreja a casa de Deus. Na próxima noite já estavam ali novamente e logo antes do raiar do dia já desocupavam a estalagem, não faziam nada de mais. Os crentes tinham que ter caridade ou não passavam de hipócritas.
 
Caridade era coisa para espíritas ou católicos e ouvindo-se tratar de hipócritas, no santo dos santos, por trás da cortina, os crentes se indignaram. O telefone chamou a Rádio Patrulha, que foi rápida, mas os maltrapilhos ainda mais: ao chegar o carro, o zelador estava falando sozinho.
 
No dia seguinte, não houve hospedagem grátis, mas já na outra noite, meio cautelosos, eles reapareceram. A esse tempo a rua se dividira. Havia elementos solidários com os evangélicos, e outros que defendiam os descamisados; estes argumentavam que aquela gente era sofrida e precisava do apoio comunitário e não mais peso para carregar. Preferível à graduação dos casais suspeitos, que antes envergonhavam a rua.
 
Mas a Igreja da Graça tinha membros metódicos e burgueses, aos quais aquela miséria torturava; tinha também gente pobre e trabalhadora, que preferiam fugir da indigência a encará-la logo pelo domingo cedo. Por que os vagabundos não voltavam de onde vieram e iam pegar duro na enxada?
 
Como não houvesse culto administrativo, e os poucos crentes mais progressistas, já estivessem engajados em visitar a FEBEM ou em ajudar alguma ONG qualquer, o filho de uma corista assumiu a ofensiva e txááá´! Um balde de água suja “acidentalmente” conspurcou os poucos pertences daquela pobre família.
Consternação, raiva, debandada – mas na noite seguinte voltaram. E voltaram e tornaram a voltar.
 
Ontem pela manhã, um pedreiro começou a furar o cimento da calçada e paredes, e a colocar nelas uma grade de ferro, de pontas agudas. Oferta especial dos membros da igreja? Não: outra iniciativa pessoal de um deles, coronel reformado e solteirão. “Logo vi que ele não tem filho!” – comentou a mulher de um mendigo, com desprezo. “E eu, que ele não tem mãe” – emendou Bigulim com um riso de canto de boca. Mas os maltrapilhos estão desoladíssimos, e nunca mais ninguém ousará sentar na escadaria da graça – nem mesmo a turma da esquina e a criançada, nem mesmo os casais noturnos.
 
(Adaptado de "O Murinho" Carlos Drummond de Andrade e baseado em fatos reais).

Um comentário:

Juber Donizete Gonçalves disse...

Roger,

Que retrato hein? Os maltrapilhos como diria o Manning, não encontram lugar na igreja da graça. Gostei também da postagem sobre o Viola, pelo jeito vem mais erro por aí.

Abraço.