Páginas

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Amor não é poder

Pense comigo nessas duas abstrações: amor e poder. Como elas estariam inter-relacionadas?

Classifiquemos amor como a força mais poderosa do universo. Estou, porém, para crer que isso seria uma conclusão por demais precipitada tendendo fortemente ao equívoco. Se não vejamos:

Alguém notou que o mais importante para o homem não é o dinheiro ou riquezas, mas o poder. Poder é normalmente entendido como a capacidade de influenciar pessoas. Influenciando as pessoas você não precisará de dinheiro, pois elas te trarão o dinheiro. Se você influenciá-las não precisará de saber ou informações, pois elas te darão todo saber e informação que precise ou queira. Obviamente a maneira mais objetiva de se influenciar pessoas é através do dinheiro. Mas não é a única e nem a mais eficaz. A força física pode, por exemplo, até ser usada com mais eficácia. O próprio saber e as palavras podem também surtirem melhor efeito. Assim, o dinheiro não é tudo, mas o poder da influência que ele proporciona, sim, é o que seduz os homens.

Ter o poder nas mãos não é necessariamente mau. Quem tem influência não precisa forçosamente manipular ou usá-la em benefício próprio. Mas geralmente e infelizmente é assim que acontece.

O amor é diferente.

Quando uma pessoa abre mão da influência que ela exerce sobre outra, para se relacionar com ela de forma amorosa, o poder desaparece do jogo e a paixão surge. De forma inversa na medida que o amor entre dois indivíduos vira o canal onde um influencia o outro, na medida que ele vira poder, ele perde seu caráter de incondicionalidade. Ele deixa de ser amor.

Por isso a dificuldade em se fazer de forma isenta e pura um gesto de caridade, de se ter uma atitude altruísta. Por isso Jesus insistiu tanto em se fazer no oculto, as boas ações. Por isso a Bíblia mostra que é do coração que procede as saídas da vida, alertando nos para sua guarda absoluta. Não é de se estranhar que no dia do juízo aqueles que acolheram ao Senhor, na pessoa do próximo, não terão consciência de seus atos: "Senhor, quando foi que fizemos isso?"

Não, o amor não é poder. De certa forma ele é o anti-poder, pois o amor espera, esvazia-se, oferece a outra face. Ele não influencia, mas deixa-se influenciar.

Ao longo das páginas da Bíblia Deus passa de poder para amor. Do velho testamento para o novo, o Criador se transveste em criatura, o senhor dos exércitos transforma-se em um noivo a espera da noiva. O pastor vira cordeiro. De Gênesis a Apocalipse, a tônica move-se do atributo todo poderoso do Deus, El Shadai, para o seu caráter amoroso, Àgape. Ao passo que o poder começa a sumir das mãos de Deus, a paixão e o amor começam a queimar e estralar através de seus olhos e coração.

O Espírito Santo deixa de exercer sua influência poderosa sobre a face do mundo, para se misturar de forma indivisível e radical nele, direto no âmago da história, nos corações humanos. A partir dali ele não governa e dita, mas geme, se alegra, entristece, vive, ama, consola.

A forma escandalosa que Deus ama e exerce sua graça será dificilmente crida e aceita por aqueles que estão seduzidos e embriagados pelo poder. A cruz se levanta como divisor das águas. Ali no Gólgota é o lugar onde Deus proclama em alto e bom som: não sou um poder imbatível, sou simplesmente o Amor.

Um comentário:

Rubinho Osório disse...

Vou ler mais umas vezes, meditar mais uns dias, depois tentarei fazer algum comentário que não seja bobo nem supérfluo.
No momento - respirar é difícil, o peito bate acelerado, a visão turva - sentimentos e pensamentos povoam a mente e o coração.
Texto tocante!