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quarta-feira, 7 de abril de 2010

Bíblia ou tradição - por uma prática cristã coerente

roc0041[1] Se você lê a Bíblia como um livro de regras (seja de fé, seja de prática ou ambas) estará em sérios apuros. Infelizmente essa forma de se ler as escrituras tem sido uma tendência, desde que a cristandade elegeu profissionais para pregarem (interpretarem e comentarem seu sentido) durante as reuniões (seja na missa ou culto) dominicais. Para sermos bem honestos a Torá já provocava este viés tendo em vista suas muitas e minuciosas leis.

Mas na cristandade, a coisa descambou de vez quando o evangelho se misturou com a cultura pragmática dos Estados Unidos. Rick Warren, por exemplo, disse certa vez que decidiu pregar sermões práticos pois as pessoas querem escutar no domingo algo que podem colocar em prática na segunda feira.

Esqueça, você não é uma máquina nem a Bíblia o manual do fabricante!

O problema é que a Bíblia em sua grande parte, se não toda ela, foi escrita de forma figurada e está lá para nos inspirar, para nos dar impulsos e não para oferecer de bandeja respostas prontas. Ela dirá, por exemplo, ame seu próximo, mas não dará lições realmente práticas de como você deva tratar seu vizinho que semana passada te insultou por razões injustas: Partir para uma conversa franca? Ignorá-lo? Esquecer o caso? Partir para a ofensiva mostrando-lhe os limites? Acionar uma autoridade? Combinar tudo isso?

Geralmente em situações assim de conflito o cristão ordinário apela para a passividade, afinal quem não faz nada, não pode fazer nada errado, certo? ERRADO! Muitas vezes o não fazer nada já é o erro. A regra geral contudo é não reagir, não vingar-se, não revidar, oferecer a face e ser bonzinho como uma ovelha.

Primeiro é bom lembrar que a não violência como princípio geral também possui seus limites. Foi Jaques Ellul quem esfregou impiedosamente em nossas caras a verdade da relatividade da eficácia dos princípios da não violência vividos por Gandhi (e portanto, baseados nos ensinos de Jesus):

"…coloquem Gandhi na Rússia de 1925 ou na Alemanha de 1933. A solução teria sido simples: depois de alguns poucos dias ele teria sido preso e ninguém mais ouviria falar dele."

Martin Luther King estava também determinado a enfrentar o ódio com amor e disse que o amor é a única força capaz de transformar um inimigo em um amigo, pois tem poder criativo e redentor. A maneira prática, contudo, que King (e isso vale também para Gandhi) mostrou esse amor, não foi de forma alguma entendida pelos seus inimigos como sendo amor; e muito menos estava descrita de forma objetiva e pontual na Bíblia. King e mesmo Gandhi rebeldemente precisaram inventar novas formas de manifestar este amor, que para muitos era por demais ofensivo - a tradição não oferecia nenhuma resposta para aquela situação específica.

Aqui batemos então de encontro com o problema da tradição que teoricamente seria a segunda via quando a Bíblia se calasse; ou seria a mola mestra a libertar o cristão do legalismo das "regras" pré-digeridas e pré-estabelecidas nos sermões. Todavia, a boa e velha tradição repassada pelos antigos na maioria das vezes não oferece métodos para lidar com as situações atuais. E quando oferece algo, ela pode conter - e normalmente contém - o mesmo poder normativo dos "comentários bíblicos", se não ainda mais forte.

Richard J. Foster foi direto ao ponto ao tratar do perigo do legalismo em Celebração da Disciplina lembrando que:

Quando as Disciplinas se degeneram em lei, elas são usadas para manipular e controlar pessoas. Tomamos ordens explícitas e as usamos para aprisionar outros. O resultado de tal deterioração das Disciplinas Espirituais é orgulho e medo. O orgulho domina porque chegamos a crer que somos o tipo certo de pessoas. O medo domina porque o poder de controlar os outros traz consigo a ansiedade de perder o controle, e a ansiedade de ser controlado por outros.

Foi exatamente esta atitude que fez Fernandes contrair Artrite e virar uma estátua.

Nas questões realmente práticas da vida Deus deixará sempre você com o peso e a responsabilidade da escolha, Ele jamais te roubará a liberdade de decidir por si mesmo seu próprio destino

Os problemas práticos da fé (fumar ou não, beber ou não, andar ou não sobre as águas, sacrificar ou não o próprio filho, dar ou não tudo aos pobres, transar ou não, comer ou não do fruto da árvore da sabedoria do bem e do mal, divorciar-se ou não, adulterar ou não, odiar ou não, matar ou não, pena de morte, ser de esquerda ou de direita, venerar Maria ou não, orar, jejuar, dar esmolas ou não e assim por diante) estarão, de fato, colocados na Bíblia, mas sempre de forma subjetiva e sempre acompanhados de pelo menos uma ou duas outras passagens paradoxalmente opostas que contradigam as soluções aparentemente propostas. Então esqueça, você não é uma máquina nem a Bíblia o manual do fabricante!

Assim não faltam correntes e agrupamentos que defenderão essa ou aquela prática, e todos eles estarão firmados na Bíblia e na sua própria tradição. O indivíduo que se rende a um desses agrupamentos estará fatalmente comprometendo sua liberdade e outorgando sua capacidade de julgar por si mesmo.

A verdade é que nas questões realmente práticas da vida Deus deixará sempre você com o peso e a responsabilidade total da escolha, Ele jamais te roubará a liberdade de decidir por si mesmo seu próprio destino e de andar com seus próprios pés. Ainda que você queira (e pense que possa) transferir esse enfadonho fardo a outro.

Nesse sentido resta àquele que crê uma, e somente uma saída, zelar por uma boa consciência e confiar desavergonhadamente mais na companhia do que na orientação do Espírito Santo. Para isso, não somente a Bíblia e não somente a tradição cristã, mas toda e qualquer religião que se preze, te apontará como meios de ajuda a oração e a meditação.

Queres ainda conhecer as regrar para praticar a oração e a meditação que verdadeiramente funcionem? Então leia: Bíblia ou tradição - por uma prática cristã coerente.

2 comentários:

Rubinho Osório disse...

Mais uma vez eu sou o primeiro a dar um pitaco (ô cara inxerido!). Que "seje"...
"How should we then live?", essa é a pergunta. Que teu fã - Schaeffer - tentou responder, não sei se conseguiu ou não porque faz tempo à bessa que eu li e não me lembro mais...
Mas, teu texto nos dá boas dicas de como não viver, o que já é uma boa ajuda! :-)

Roger disse...

Rubinho,

li "então como viveremos" ano passado e quase já não me lembro mais. Mas acho que a tese central é a mesma da "trilogia": Deus fala através da Bíblia, a Bíblia pode ser racionalmente entendida, os reformadores entenderam a Bíblia, assim tudo que foge disso leva à perdição ou é de valor questionável.

Minha humilde tese pode ser assim entendida: a Bíblia pode até ser (ou conter) a palavra de Deus, mas ela mesma não é Deus.

Brabo frisou isso no debate de lançamento de seu livro (se opondo a ao Ed Rene), nossa fé não é baseada num livro, mas numa pessoa.

Estou pensando no que você disse, mas a princípio diria que a intenção do texto é justamente deixar um pouco o "como (não) viver" de lado e dizer: viva!

Um abração,

Roger