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quinta-feira, 3 de junho de 2010

O céu, o inferno e a substituição

Quem já se aventurou por Tomás de Aquino, Calvino de Genebra, Agostinho de Hipona ou Anselmo de Cantuária, irá perceber, fatalmente ou não, mais cedo ou mais tarde, que toda teologia sistemática não passará de palha.

Tudo será meramente uma questão de lógica.

A linguagem lógica é a da matemática, onde 1 +1 sempre será = 2. Para variáveis incógnitas como no problema 1 + 2x = y não se teria muitas dificuldades de, linearmente, chegar-se a um resultado e mais ainda, demonstrá-lo.

O real problema, e esse é o grande nó da teologia e a pedra onde muitos tropeçam, é quando se começa a derivar (não confunda com delirar). Tanto na lógica da matemática quanto na dos argumentos, quando você deriva uma, duas três vezes ou mais, e fatalmente sai do plano linear, tanto a solução do problema quanto, mais ainda, sua demonstração tornam-se por demais complexos. Pior ainda, viram “um saco”, não tão difícil como muito mais entediante de ser compreendido.

Schleiermacher veio trazer certo refrigério ao desertar da razão e marchar rumo à emoção.

Jesus fincou pé nas parábolas e dali não arredou um centímetro. Muito dificilmente o encontraremos fazendo interpretações de textos das Escrituras. Aliás, seus ensinos foram predominantemente práticos e menos teóricos, predominantemente empíricos e experimentais e menos idealistas e racionalistas. O Logos encarnado falou menos de céu e inferno, mas vivenciou-os intensamente. Falou menos de demônios e anjos, mas confrotou-os no cotidiano. Não dissertou sobre substituição, mas efetuou-a.

Da mesma forma - seu discípulo, que não foi o mais amado mas, talvez o mais próximo – em seus primeiros discursos deixou certos temas ausentes, mas não ausentou-se na hora de vivenciá-los na pele. Posteriormente em suas epístolas veremos Pedro tratar clara e abundantemente do céu, do inferno e da substituição.

Mas esses são temas que, por terem sido tratados de forma equivocada e abusiva séculos a fim, preferimos descartar. Por isso quando se vivencia o céu ou o inferno pensa-se logo na possibilidade de substituir alguém por outro alguém. Mas quem substitui quem?

Pedro mesmo nos dá a dica: “Cristo sofreu no lugar de vocês, deixando-lhes exemplo, para que sigam os seus passos” (1 Pe 2:21).

Então a pergunta não é:

“Em teus passos o que faria Jesus”? E nem:

Em seis passos o que faria Jesus?”, mas mais linear que poderíamos imaginar:

“Nos passos de Jesus o que VOCÊ fará”?

3 comentários:

Rubinho Osório disse...

Além da mudança de ponto de vista, de Jesus para mim - eu mesmo! -, há uma segunda mudança que é o tempo do verbo - "faria", pretérito para "fará", futuro - importantíssima do ponto de vista prático, pois "faria" está no campo hipotético, mas "fará" é pura intenção e ação.
Essa pergunta é nitroglicerina pura!!!

André von Held Soares disse...

É rapaz, quanto mais a gente anda pelas searas da sistemática, mais vê que um céu plúmbeo se afigura: fechado, pesado, misterioso, e, por que não, muito sem graça. Em especial o calvinismo, meu atual desafeto teológico.
Bom voltar aqui.
Um abraço.

Roger disse...

Danke André,

es ist immer gut was von dir lesen, hier oder in deinem Blog.