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terça-feira, 7 de setembro de 2010

Em defesa das tulipas (ou... corrija sua Bíblia)

Melhor seria deixar as flores serem flores e doutrinas serem doutrinas...

Há séculos a beleza das tulipas vem sendo manchada com pontos doutrinários que levam, senão ao erro, à má conduta.

Mas caso queira manter a tulipa, ainda que depetalada, será necessário corrigir (leia-se violentar) a sua Bíblia:

Comece riscando a palavra “justo” e substituindo-a por “ímpio”, pois a rigor, não há um justo se quer e todos os homens são totalmente depravados. Jesus, que poderia ser considerado o único justo, foi feito pecado.

Mas Jesus foi feito pecado para que alguém ou alguns fossem feitos justos, certo? Isso nos levaria à segunda correção:

Risque toda a palavra “impio” e substitua por “eleito”, uma vez que não existe diferença essencial entre um e outro, a não ser que um foi eleito para o céu e o outro para o inferno, e tal nuância poderá ser facilmente percebida no contexto.

Para que as tulipas permaneçam de pé continue a correção:

Um coisa que o contexto, contudo, não deixará claro é o alvo da obra redentora de Cristo, por exemplo quando se diz que Deus amou o mundo (poderá dar entender que ele amou tanto eleitos para o inferno como para o céu), ou que Jesus é o salvador do mundo. Melhor então também riscar, as palavras como “mundo”, “todo”, “todos” e semelhantes e substituir por “eleitos”. Assim o contexto deixará claro se se trata de pessoas amadas ou odiadas por Deus, se são aqueles por quem Cristo morreu ou se seriam pessoas que não foram alvo de sua obra redentora.

Prossiga:

Como a obra redentora é exclusiva do Espírito Santo, não havendo mérito ou ação nenhuma por parte do eleito, retire simplesmente tudo que incite o raciocínio, a vontade, ou sentimentos humanos de sua Bíblia. Tudo aquilo que possa levar uma pessoa eleita para o inferno a querer mudar, pensar em mudar, ou decidir mudar sua rota. Afinal ela por si só não fará isso. E Deus sendo soberano, não precisará contar e nem mesmo poderá contar com a vontade, razão ou sentimentos de um impio depravado e caído.

Agora sua Bíblia estará quase pronta: a palavra justo já foi abolida, e devidamente substituida por impios, essa por sua vez por eleitos, a obra redentora de Cristo já foi devidamente restringida ao grupo correto, e toda a pregação que vise sensibilizar o homem já foi devidamente removida uma vez que esse permanecerá insensível. Agora você estará pronto para fazer a mudança principal:

Todo o ensino moral, desde o mais simples amarás o teu próximo, até os mais complexos como, não comerás lagostas, deverá ser direcionado ao eleito para o inferno. O eleito para a salvação, não precisará se preocupar com nada disso pois de uma forma ou de outra será mesmo salvo.

Pronto você salvou as tulipas e deixou sua Bíblia no estado perfeito, sem erros. Agora sim, mais do que nunca ela é inerrante!

4 comentários:

Neto disse...

Olá Roger!

As doutrinas Bíblicas são flores. No sentido de que elas são valiosas, que elas embelezam e dão cheiro à vida do cristão.
Além disso, é pela doutrina vivida que você sabe quem é cristão ou não. “Em vão, porém, me honram, Ensinando doutrinas que são mandamentos de homens.” Marcos 7:7
Às vezes tenho a impressão de que você sente “asco” pelo termo “doutrina”. Creio que é por causa do conteúdo pejorativo-religioso que o termo normalmente carrega; Mas se sua Teologia é Livre mesmo, sabe que, Bíblicamente falando, a doutrina é algo saudável, valioso, honrado por Deus e VIVA.

Queria comentar algumas coisas:

-Quando a Bíblia fala de “justos”, fala de pessoas justificadas pela fé. Totalmente depravados são os não convertidos apenas.
-A estratosférica diferença entre o ímpio e um eleito é a fé em Cristo, e não o crachá escrito “eleito”...
-A palavra “mundo”, “todo” e “todos”, infelizmente, sempre dependem do contexto para podermos entender o sentido...
Por exemplo, em João 12:19, os Fariseus disseram sobre Jesus: “Vedes que nada aproveitais? Eis que todo mundo vai após ele.”
Te pergunto: a palavra “mundo” aqui significa “todas as pessoas do planeta”? Ou pelo menos “Todas as pessoas da região?”. Claro que não. É linguagem de expressão.
-Realmente o mérito da Salvação é de Deus, e no novo nascimento não há “dedinho” algum do ex-defunto. Mas a Santificação é uma obra conjunta de ambos. Além disso, o “tudo que incite o raciocínio, a vontade, ou sentimentos humanos de sua Bíblia” é o instrumento usado por Deus pra trazer vida ao moribundo. Por isso não pode ser tirado.
-Pra terminar: O “Todo o ensino moral” não pode ser tirado. Afinal, “Porque tudo o que dantes foi escrito, para nosso ensino foi escrito, para que pela paciência e consolação das Escrituras tenhamos esperança.” Romanos 15:4. Se um “eleito” (Cristão) despreza a Bíblia e seus ensinos e não os vive, não é um eleito.

Espero ter dado uns pitacos bons dessas vez.
Eu ficaria muito contente em ver que sua Teologia é Livre de religiosidade morta, e não Livre da Bíblia. Porque se for esse o caso, ela não é livre, é presa ao Roger.

Um abraço.

Roger disse...

Amigo Neto,

seus pitacos são sempre bons e bem vindos!

Gosto muito de comentários - quem não gosta? Especialmente os comentários que sopram contrariamente como o seu. Eles são no mínimo desafiadores.

Acho que nos conhecemos no 5 Solas do Clóvis. Sei que essa minha postagem é bem provocativa e tentei o máximo não ferir pessoas queridas, como o Clóvis ou outras, em suas crenças. Ainda que sei que estão seguros e não se abalam por palavras de um blogueiro. Às vezes exagera-se na dose e as palavras podem machucar.

(Dito isso vamos ao que entereça)

- será que os justificados na fé já foram um dia "totalmente depravados"?

- essa "fé" em "Cristo", é hoje entendida em moldes bem rígidos. Como você entenderia isso antes do advento de Cristo. Haveria fé? Haveria Cristo? Daí minhas aspas, Davi obviamente teve visões proféticas do Messias, mas isso não era comum, nem em Israel, muito menos em outros povos. Será que tanto no passado como hoje não é possível se ter "fé" em "Cristo" longe da rigidez otordoxa?

- Concordo plenamente contigo em sua colocação sobre o sentido da palavra mundo e etc.

- Concordo também sobre os intrumentos de Deus para trazer vida, são aqueles e tantos mais, mas o morto-vivo, segundo entendo, e vejo que a Bíblia também diz assim, participa tanto na santificação como na salvação.

Volto a reafirmar, minha teologia é fatalmente presa ao Roger assim como a vossa é presa ao Neto. Essa é nossa sina...

Abraços fraternos,

Neto disse...

Agradeço as boas vindas, Roger.

Quando comentei aqui, nesse tópico, não tive como intenção bombardear o tópico em sí, mas idéias comuns que vagueam por aí.

-Por exemplo, você disse: "será que os justificados na fé já foram um dia "totalmente depravados"?"
Eu não vou responder essa. "A Bíblia vai: Eis que em iniqüidade fui formado, e em pecado me concebeu minha mãe." Salmos 51.5

-Quanto à fé em Cristo no AT, ela era realmente meio nebulosa. Claro, afinal, Jesus não tinha vindo. O que se cria, e não estavam errados, era que Deus enviaria um que Salvaria Seu Povo dos seus pecados. Aqueles que morreram, no AT, crendo na promessa mesmo sem vê-la, foram justificados tanto quanto um crente no NT.
Mas isso, Roger, nem de longe é desculpa para "desortodoxizar" a fé em Cristo de HOJE. Afinal, naquela época, eles não tinham a Luz que nós temos hoje. Aconteceu. Foi consumado. Está escrito, e tudo para nós.
A nossa responsabilidade é infinitamente maior, pois o que era sombra virou luz como a do meio-dia. Tornar a querer viver em sombras é desonrar a revelação que chegou até nós.
Nessa questão, não podemos comparar a ortodoxia do AT e agora na nossa época. A fé em Cristo TEM que ser rígida. Pois é como Pedro disse:
"E em nenhum outro há salvação, porque também debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos." Atos 4:12

-Roger, na questão da participação na Salvação, eu acho que existem muitos mal entendidos.
O pecador se arrepende e crê. Sim, de verdade, de fato, ele crê. Não é mera profissão. Mas, mesmo ele não fazendo conta disso, e talvez vivendo 20 anos e morrendo sem saber disso, aquela "vida espiritual", aquele coração aberto para ouvir, entender e crer, nascendo de novo, veio de Deus, e não dele.
Pra ele, ele ouviu, creu se arrependeu e foi salvo. Mas essa operação de vida não veio dele, veio de Deus.
"E uma certa mulher, chamada Lídia, vendedora de púrpura, da cidade de Tiatira, e que servia a Deus, nos ouvia, e o Senhor lhe abriu o coração para que estivesse atenta ao que Paulo dizia." Atos 16:14

Roger, com certeza a minha teologia é, de várias formas, presa ao Neto. O que eu quis dizer é que eu faço um esforço monstruoso para ficar o máximo possível com o que a Bíblia diz, "esgoelando" as minhas opiniões próprias, que vão morrendo aos poucos, deixando minha Teologia realmente "livre". No seu caso, eu não vejo quase nunca esse "esgoelamento", mas vejo o Roger falando mais alto do que a Bíblia muitas vezes.

E era isso, esse processo de libertação, que eu queria que você participasse, e fizesse juz ao nome desse blog.

Um abraço.

Clóvis Gonçalves disse...

Roger,

Este comentário está bem atrasado. Reconheço.

Sinceramente, não me senti ofendido pelo seu texto. Talvez porque não entendi muito bem a reforma proposta da Bíblia, para manter-se intacta a tulipa.

Acho que você escreveu com um filtro mental que somente quem usa o mesmo filtro entende exatamente onde quer chegar.

Também não entendi o email que me enviou, sugerindo que duas pessoas na verdade são apenas uma. Pois conheço pessoalmente a pessoa e sei que não é quem você sugeriu que fosse. Mas vou responder por email.

Em Cristo,

Clóvis