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quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Escolho não saber porque não sei

Vejo dois problemas sobre certos dogmas calvinistas, dos quais tiro um ponto três como conclusão.

1. Deus não escolheria pessoas de forma arbitrária, seus critérios para uma escolha só podem ser baseados em um justo julgamento. Por isso o "propósito de Deus" não poderia se aplicar a indivíduos de forma específica [antes que esses indivíduos apresentassem suas próprias escolhas, seu caráter, suas atitudes, suas obras]. Ou não poderíamos falar de escolha ou eleição, mas de sorteio.

2. A grande premissa, "É uma verdade revelada na Escritura", que parece conferir aos dogmas status de VERDADE não passa de um sofisma, pois as Escrituras estão passíveis de interpretação. E todas as "verdades", como a soberania divina e eleição não passam de interpretações literais do que o texto diz. E isso pode ser muito perigoso. Exemplo? A questão do Livro da Vida: é mencionado na própria Bíblia que nomes podem ser riscados (o que contradiz a soberania ou a eleição) - e não entendo isso só como uma ameaça amedrontadora para manter as pessoas na linha.

3. Concluo: a verdade é que as coisas não estão claramente reveladas, pois vemos como que por um espelho. O homem tem liberdade? Nem tanto... Por outro lado, onde está a justiça ou bondade divinas quando criancinhas morrem em catástrofes naturais? Não sabemos... As coisas não são aparentemente contraditórias, elas SÃO contraditórias. Nem só a Bíblia é contraditória, a realidade é contraditória. Nem só porque está escrito de forma literal na Bíblia temos que dar um tiro em nosso bom senso ou razão e dizer, aceito como verdade. Prefiro não estribar em meu próprio entendimento (bíblico) e dizer, há algo obscuro: Deus não pode ser injusto e eleger arbitrariamente, não poder ser mau e condenar pessoas deliberadamente como se fosse um sádico déspota, por outro lado, a liberdade e a responsabilidade do homem não é absoluta, os estreitos limites são óbvios. Há muita obscuridade e não sabemos tudo.

Entre a escolha por saber verdades rígidas, ou não sabê-las, fico com o não saber. Pois, aquele que pensa saber alguma coisa, ainda não sabe como convém.

2 comentários:

Rubinho Osório disse...

O ponto 2 é excelente! Como bem disse Boff: "todo ponto de vista é a vista de um ponto"
Já o ponto 3 me traz uma pergunta: por que vc não aventa a hipótese de não ser contradição, mas, sim paradoxo? A solução da contradição é por eliminação de um dos contraditórios, enquanto a solução para um paradoxo é ampliar a compreensão.
Salvo engano.

Roger disse...

Amigo Rubinho,

não pense que um paradoxo não possa se resolver eliminando um dos contraditórios; e do mesmo modo não pense que uma contradição não possa se resolver ampliando a compreensão.

Abraços,