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sexta-feira, 24 de setembro de 2010

O silêncio de um Deus maltrapilho fala mais alto que sua Palavra

Odeio quando fundamentalistas conservadores me recomendam leituras sem eu ter solicitado (passa um certo ar de superioridade). Minha vingança seria em troca recomendar-lhes a petista Marilena Chauí, “Um convite à Filosofia”.

O GRANDE problema da inerrância é que damos à Bíblia o lugar de Deus, ela vira uma QUARTA PESSOA na trindade. Se não a única!

Prefiro crer, então, que Deus se revela, ou que esta quarta pessoa, estaria no silêncio dos sedentos, dos famintos, dos expatriados, dos desnudados, dos doentes e dos presos. Temos que buscar a revelação de Deus nas esquinas da vida e não necessária e avidamente em textos sagrados. De fato a Teologia da Libertação marcha nessa direção.

A tendência pós-moderna é justamente rever pressupostos. Se há algum pressuposto, então, é o esforço para não se ter um. De maneira nenhuma a Bíblia poderia cobrir toda a realidade, isso é um absurdo. Concordo que ela trate de temas espirituais ou essenciais ao ser humano, mas que ela cubra até mesmo nessas áreas toda a realidade não seria querer de mais?

Não estou certo se saber o que é essencial ou não na vida (ou na fé) dependerá de alguns pressupostos. Se a descoberta do essencial (ou não essencial) dependerá do “ponto de partida”, posso questionar: Não seria esse “ponto de partida” obviamente algo essencial? Quem o estabeleceu? Veja a coisa se torna cíclica. Não seria mais seguro, nesse aspecto, ficar preso ao Espírito, ou até mesmo à pessoalidade do Messias, que são elementos dinâmicos, flexíveis, soltos e declaradamente subjetivos; ao invés de querer se prender a textos, suas rígidas interpretações e “ilusória” objetividade?

Novamente cito Marx e Freund que vem denunciar respectivamente os “pressupostos” inconscientes do indivíduo e os “pressupostos” da coletividade ou classe dominante. Então não é a TL que seria sociologia, mas sim Marx e Freund que fizeram Teologia! Assim como a Bíblia irá esbarrar em questões psicológicas e sociológicas, ainda que esse não seja o seu foco, a sociologia e psicologia irão também fatalmente abordar teologia.

Por isso é preciso muito “bom senso” (e sabe lá Deus quem é que o tem)…

12 comentários:

Lou Mello disse...

Olha só pro cÊ vê, tenho um monte de livros para te indicar, mas estou de saída, agora. Mais tarde, quando voltar eu mando a lista. Se tiver pressa, entre no meu blog e veja lá. Não que eu queira ser superior, mas sabe como é né... :)

Neto disse...

Sabe Roger, ao ler essa matéria, me lembrei de uma história que eu li (Uma "releitura" de Atos 8.26-39).

Acompanhe:

Era uma vez um homem chamado Felipe. Ele era um guia espiritual de uma comunidade emergente. Um dia ele decidiu ir em uma viagem. Então, ele o fez. Como ele estava caminhando ao longo da estrada, concentrando-se mais na viagem do que no destino, ele se encontrou ao lado da carruagem de um oficial africano. O homem na carruagem estava fazendo a leitura de um pergaminho. Ele estava lendo em voz alta, tanto que Felipe foi capaz de ouvir o que o homem lia.

"Foi levado como a ovelha ao matadouro,
e, como está mudo o cordeiro diante do que o tosquia,
assim ele não abre a sua boca.
Na sua humilhação foi tirado o seu julgamento;
quem contará a sua geração?
porque a sua vida é tirada da terra."

Felipe se juntou a carruagem e disse: "Você leu o texto lindamente. Isso me fez sentir importante e ligado a tradições antigas ao ouvir-lo ler.”

"Eu só desejo poder entendê-lo", respondeu o homem.

"Entendê-lo? Você não precisa entender. Só precisa experimentar. Leia-o novamente, desta vez mais lentamente. Quero ouvir as formas poéticas e imaginar-me no contexto da antiga tradição", disse Felipe.

"De quem ele está falando?" O homem insistiu. "O profeta escreve sobre si mesmo ou sobre algum outro?"

"Acho que ele está escrevendo sobre todos nós", disse Felipe. "Acho que todos nós somos parte de uma história maior."

"Mas que história?", perguntou o oficial. "Parece-me que o escritor está falando de algo em particular, e eu sinto que é importante. Eu só gostaria de saber sobre o que. O que exatamente significa isso? "

"O que você acha que isso significa?", perguntou Felipe.

"Eu não sei. É por isso que estou perguntando."

"Bem, é verdade que sou um seguidor de Cristo, e a minha tradição impõe certos significados sobre este texto. Mas eu não quero forçar a minha afirmações a respeito da verdade sobre você. Suas afirmações sobre a verdade seriam igualmente válidas. Como você vê, estamos ambos em uma viagem, e nós dois nos encontramos na mesma estrada. Assim, conclui-se que o nosso destino também é o mesmo. Então, vamos aproveitar este tempo de comunidade e evitar nos dividirmos, discutindo sobre significados e dogmas", disse Felipe.

Depois de algum tempo, chegaram a um local onde havia água ao lado da estrada. Havia também uma bifurcação na estrada neste ponto, e o oficial escolheu o caminho da direita. Felipe, planejando pegar a estrada para a esquerda, primeiro se sentou à beira do lago para escrever suas experiências do dia em seu diário. Ele ficou muito contente que teve uma oportunidade única para iniciar um diálogo com a pessoa de uma cultura tão diversa da sua.

Enquanto isso, o funcionário Africano continuou no seu caminho, ainda buscando o significado do texto que poderia ter lhe trazido a vida eterna.

Rubinho Osório disse...

Há dois problemas com a autoridade: quem é, e quem a colocou lá.
A Bíblia oferece um bom exemplo:
O que é?
E quem a fez assim, ou dizendo de outra forma, quem decidiu que ela seria isso?
E aí, meu mano, a coisa engrossa...

Neto disse...

Roger,

não sei se você toma a Bíblia como inspirada realmente por Deus.

Mas se o caso for "sim", esses textos deveriam tirar as suas dúvidas:

"E também todos os que piamente querem viver em Cristo Jesus padecerão perseguições.
Mas os homens maus e enganadores irão de mal para pior, enganando e sendo enganados.
Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste, e de que foste inteirado, sabendo de quem o tens aprendido,
E que desde a tua meninice sabes as sagradas Escrituras, que podem fazer-te sábio para a salvação, pela fé que há em Cristo Jesus.
Toda a Escritura é divinamente inspirada, e proveitosa para ensinar, para redargüir, para corrigir, para instruir em justiça;
Para que o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente instruído para toda a boa obra."


"Toda a boa obra" inclui também "ajudar os sedentos, os famintos, os expatriados, os desnudados, os doentes e os presos."

Teologia é vida. Não por sí mesma, como um fim em sí mesma (muitos fazem isso!!!). Mas por nos conduzir a conhecer quem Deus É e, por consequencia, quem nós somos.

Abração.

Djalmir disse...

A bíblia é um bom livro, assim como alcorão e o I chang..., o problema são os seminários. Os teólogos são inúteis e não percebem, o mundo seria melho sem eles!

Roger disse...

A lista da Caverna, Lou, é rica, mas na primeira página está encabeçada só por livros do Paulo Bravo, que todos sabemos não passa de um subversivo transgressor.

Como bom mineiro, disconfio muito da superioridade de vocês dois. :P

Roger disse...

Caro Neto,

seu esforço para o diálogo comigo aqui e louvável. Gosto do tom que você escreve e me lê. Sinto que há pouco ruído ou distorção, e uma certa confiança.

Mas claro, as diferenças "bairristas" nos separam...

Como você deve ter notado continuo adotando a tática de copiar comentários e transmutá-los em postagem. Mudo uma coisa ou outra exagero num ponto aqui outro ali. Mas a essência do pensamento é o mesmo.

Sobre a estória que você nos tras, vejo que o exagero mudou algo do essencial:

Normalmente quando se relativiza a Bíblia, pelo menos entendo assim, não se faz frente a indivíduos que gostam dela ou se interessam por ela (como foi no caso do Eunuco). Essa estratégia é usada para pessoas que já tem aversão à coisa ou que tem outros livros como sagrado.

Acho que esse é o principal furo da paráfrase.

Por exemplo, imagino que quando F. Schleiermacher ensinava os princípios bíblicos para os seus conteporâneos românticos, através de outras vias, era porque eles, ao contrário do Eunuco, já olhavam a Bíblia com certa desconfiança. Já estavam fechados.

Ou não?

Abraços fraternos,

Roger

Roger disse...

Caro Rubinho,

vejo que tivestes uma recaída.

Jesus resolveu essa coisa colocando um primo mais velho na história. Pelo jeito funcionou.

Normalmente as pessoas não derivam uma equação mais de uma vez. Ou seja ninguém vai tentar saber quem foi que passou o bastão para João, o Batista.

Abraços,

Roger

Roger disse...

Neto,

estou para te dizer que ultimamente meu problema está em achar coisas que não sejam realmente inspiradas por Deus.

Duvido porém das interpretações e uso que fazemos dessas coisas, palavras, livros, canções e etc.

Peguemos só por exemplo a primeira linha deste texto que você cita: "todos os que piamente querem viver em Cristo Jesus padecerão perseguições..."

1) Tem os cristãos (pensemos só no Brasil) sofrido perseguição?

2) Ou será que eles não tem querido viver piamente em Cristo?

3) Ou seria que todo e qualquer desafeto e revés (aos quais todos estão sujeitos e padecem) é uma espécie de perseguição?

Poderíamos dar sequência vendo que nem sempre "os homens maus vão de mal a pior" e pelo menos um salmo bíblico alerta para isso.

E por aí vai...

Mas fecho contigo, as boas obras são necessárias e a Bíblia fala abundantemente sobre isso.

Abração para ti também e bom fim de semana!

Neto disse...

Roger,

Eu gosto de discutir idéias e, não posso negar, semear a Palavra de Deus. É perfeitamente possível ser cortez com nosso próximo mas, ao mesmo tempo, dar uma "machadada no crânio das idéias" (sim, foi forte...).

"Duvido porém das interpretações e uso que fazemos dessas coisas, palavras, livros, canções e etc."
Somos dois. Foi por duvidar das interpretações que comecei a estudar com afinco a Bíblia.

"1) Tem os cristãos (pensemos só no Brasil) sofrido perseguição?"
Os verdadeiros, SIM. Mas no Brasil, a perseguição na gigante maioria é "apenas" não-física.

"2) Ou será que eles não tem querido viver piamente em Cristo?"
Os falsos não. Os verdadeiros SIM, em maior ou menor grau.

"3) Ou seria que todo e qualquer desafeto e revés (aos quais todos estão sujeitos e padecem) é uma espécie de perseguição?"
Na realide não... Perseguição é aquele embate, aquele ódio, um desejo de fazer o mal para o perseguido, cercando-o, querendo-o eliminar, e por aí vai...

Pra terminar: As boas obras são necessárias não à Salvação, mas como evidencia dela.

Um abração também, e um ótimo fim de semana!

Felipe disse...

Parece-me que os antigos sabiam que a Bíblia não cobre toda a realidade, e assim se formava, com o tempo, a Tradição. Os judeus formaram o Talmud; os cristãos, a Patrística e a Escolástica. Do outro lado, havia a Experiência, solta e que causava reações diversas.
Devido aos abusos ocasionados por uma Tradição corrompida por superstições diversas(e por más intenções na cátedra dos apóstolos), optou-se pela Bíblia como única regra de fé e prática, o Sola Scriptura. Mas novo abuso surge, e agora, a realidade deve ser explicada a luz dos 66 livros sagrados, e a experiência presa a textos dos evangelhos e das cartas paulinas. Um fechar-se em si, terrivelmente limitador, surge daí. Os que possuem a Tradição às vezes se acham em melhor estado.
O que fazer? Será que já não passou da hora de revermos isso?

Brilhante postagem, caro Roger.
Abraços flaternos.

Roger disse...

Contribuição precisa, Felipe, obrigado.