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sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Pátria armada, Brasil

Houve uma grita na mídia quando a Rússia, há pouco, vendeu à Venezuela cerca de US$ 4 bilhões em armas. Interrogações acima de qualquer suspeita logo brotaram: o que pretende Chávez? Declarar guerra à vizinha Colômbia? Dar um golpe de Estado e governar como ditador?

Em setembro de 2010, o Congresso dos EUA divulgou relatório sobre os países em desenvolvimento que, em 2009, mais compraram armas. O Brasil é o primeiro da lista. Gastou US$ 7,2 bilhões (cerca de R$ 12,24 bilhões) em armamentos. Preste atenção: o orçamento do Bolsa Família, em 2010, foi de R$ 13,7 bilhões.

Em gastos bélicos, atrás do Brasil seguem Venezuela (US$ 6,4 bilhões), Arábia Saudita (US$ 4,2 bilhões) e Taiwan (US$ 3,8 bilhões). No período entre 2002 e 2009, Brasil e Venezuela aparecem entre os 10 primeiros compradores de armas no mundo em desenvolvimento.

Entre 2006 e 2009, a América Latina quadruplicou seus gastos em armamentos: pulou de US$ 5,763 bilhões para US$ 23,726 bilhões.

Outra novidade é a Rússia suplantar os EUA como principal vendedora de armas para a América Latina. Entre 2002 e 2005, Moscou vendeu apenas US$ 600 milhões, enquanto Tio Sam faturou US$ 1,362 bilhão. Mas entre 2006 e 2009, a Rússia vendeu US$ 11,1 bilhões -quase 50% do mercado latino-americano- e os EUA apenas US$ 2,426 bilhões, pouco mais de 10% do mercado continental.

O segundo lugar pertence, agora, à França. Até 2005, este país abocanhava apenas 5% do mercado latino-americano, com vendas que não ultrapassavam US$ 300 milhões. Entre 2006 e 2009, passou a vender US$ 6,3 bilhões, cerca de 25% do total, superando os EUA.

Segundo o Ministério da Defesa da França, o Brasil é, hoje, o maior importador de armas fabricadas por aquele país. Os contratos assinados entre os governos Lula e Sarkozy, de 2005 a 2009, somam R$ 12,8 bilhões. As importações brasileiras de armas da França pularam de US$ 101 milhões, em 2005, para US$ 3,8 bilhões, em 2009, salto de 3.700%.

O relatório francês revela que a predominância do Brasil se deu graças, sobretudo, à aquisição de submarinos do tipo Scopèrne. Em Brasília, o Ministério do Desenvolvimento não divulga valores de importação de armas estratégicas. As compras de armas comuns (fuzis, bombas e artilharia) feitas pelo Brasil de diversos parceiros subiram de R$ 8,5 milhões em 2005 para R$ 46 milhões em 2009, um aumento de 440%. A conta exclui equipamentos pesados, como submarinos e aviões.

Em dezembro de 2002, quando Bush pediu a Lula o apoio do Brasil à invasão do Iraque, o presidente eleito respondeu: "Nossa guerra não é para tirar vidas e sim para salvá-las. Vamos combater a fome!" Por que, em vez de volta da CPMF, não se aplica igual valor do orçamento militar na melhoria da saúde, da educação, da preservação ambiental e da qualidade de vida de nossa população?

O relatório mostra ainda que a França exportou, em 2009, 7,2% dos armamentos no mundo. Ficou atrás dos EUA, responsáveis por 52% das exportações mundiais; do Reino Unido, com 13,4%; e da Rússia, com 8,4%.

O lobby bélico é mundialmente poderoso, pois a indústria da morte assegura a vida abastada dos que obtêm, graças a ela, abundantes lucros. Contudo, já não multiplica empregos, como o comprova a atual conjuntura dos EUA. As novas tecnologias dispensam mão de obra numerosa.

Lamento que os bispos que se indignam com a proposta de descriminalização do aborto não digam uma palavra quando se trata da produção e do comércio de armas.

Segundo o TSE, no Brasil os fabricantes de armas destinaram, nas últimas eleições, R$ 1,55 milhão a candidatos. É a "bancada da bala", empenhada em evitar qualquer restrição legal ao setor. E quem agradece são os narcotraficantes que, refugiados no alto de favelas, possuem armas de última geração, a ponto de derrubarem helicópteros da polícia.

Cerca de 40 mil pessoas morrem assassinadas, por ano, no Brasil, vítimas de armas de fogo.

A paz jamais virá do equilíbrio de forças. Como profetizava Isaías há nove séculos, ela resultará, sim, da promoção da justiça, o que supõe desarmamento de espíritos e fim dos arsenais.

Fonte: Frei Betto em Adital

5 comentários:

israel batista disse...

muito bom o seu blog adorei as postagens são muito boas e nos prende a leitura adorei de verdade agora visite o meu blog www.blogdoisraelbatista.blogspot.com abraços

Eduardo Medeiros disse...

roger, num mundo ideal não haveriam forças armadas, armas e nem guerras. como sou militar reformado, sei o quanto as nossas forças armadas estão obsoletas. existe um lema entre os militares brasileiros de que é preciso estar bem armado na paz para se evitar a guerra. era o tal equilíbrio dos tempos da guerra fria.

em todo caso, é de fato lamentável termos que gastar tanto em armas quanto em bolsa família.

abraços

Roger disse...

Oi Eduardo,

parece-me que a principal ambição do governo nessa área está no conselho de segurança da ONU.

Realmente não tenho nenhuma idéia de como equacionar gastos bélicos, principalmente num país como Brasil.

Eduardo Medeiros disse...

pois é, roger, o brasil do lula quer ser grande e para ser grande tem que ter forças armadas respeitáveis...então...

gostaria muito de antes de termos assento no conselho de segurança, que os governos pudessem trabalhar para pagar a imensa dívida social que tem para com o sofrido povo brasileiro.

abraços

Rubinho Osório disse...

Só pra provar a possibilidade, a Costa Rica não tem forças armadas. E ainda existe, soberanamente.
A única justificativa que eu aceito para a existência das forças armadas seria o policiamento das fronteiras (contrabando e tráfico) e ação em situação de tragédia (enchente, seca, terremoto).
Esse dinheirão todo podia ser distribuído aos pobres, eu não me importo. Usar com armas é um absurdo!