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segunda-feira, 15 de setembro de 2008

O impulso de oferecer flores

Flores Percebi desde minha adolescência que se um homem, que eu nunca vi na vida, de repente me oferecesse flores (ou no mínimo fosse gentil e puxasse conversa), isso não era impulse[*]!

A coisa estava clara na minha mente: ou o cara era gay ou crente. Naquela época, pelos idos dos anos 80, era difícil imaginar um crente gay, ou um gay crente. E evitava tanto estes como aqueles (por razões óbvias).

Mas como ambos sempre mostravam a mesma gentileza, quase que esbarrando na ingenuidade (características próprias dos sedutores profissionais), nutria certa compaixão com aqueles sujeitos. Independentes de suas intenções, eu sabia que eles tinham o mesmo problema, carência emocional e afetiva.

A solução para o gay era para mim, a mais fácil. Afinal não era nenhuma tarefa difícil convencer a grande maioria dos meus amigos de minha faixa etária, ou os mais velhos, das vantagens incomparavelmente superiores da atratividade nata do corpo de uma mulher. Então, mais cedo ou mais tarde o cara cairia na real. Como estava "convicto de minhas convicões" a conversa girava em torno de outros assuntos e qualquer que fosse a hipótese o meu amigo desconhecido era (para mim) um homem heterosexual como eu e deveria ser assim tratado.

Com o crente já era diferente... Não conhecia muito ou quase nada sobre os evangélicos - acho que esse termo ainda nem existia. Mas sabia que se um se aproximasse e puxasse assunto, a coisa mais cedo ou mais tarde terminaria numa pregação. O que não era necessariamente ruim, afinal de contas também era um cristão. E jogávamos no mesmo time. E justamente por causa dos meus amigos da mesma faixa etária, o ser cristão não era tarefa das mais fáceis para ninguém. Então tentava me solidarizar com o crente. Acho que nunca pensei que eles precisassem se converter ao “meu” catolicismo, simplesmente queria que eles entendessem que eu também não precisaria me converter ao “seu” ‘crentinismo’.

Mas um dia me converti. E lá estava eu, de repente, pela rua, pela escola, pelo trabalho, no ônibus oferecendo flores para gente que eu nunca tinha visto antes: para homens, para mulheres e também para gays.


[*] Esse era um tema da propaganda de um desodorante feminino

6 comentários:

Rubinho Osório disse...

Cara, vc é gay? Porque eu nunca saí por aí oferecendo flores pra homem. E olha que eu já fui "crente"! Hoje não sou mais, não por ter mudado, mas porque o termo "crente" foi deturpado a tal ponto que já não me reconheço nele.
Agora, que esse negócio de dar flor pra homem é estranho, ah, isso é!!!

Roger disse...

Caríssimo Rubinho,

acho que você merece algumas explicações, pode ser que ajude outros leitores...

Normalmente as pessoas pensam que um cristão não pode ser gay. Elas dão crédito àquilo que elas escrevem, desde que ela siga uma cartilha moral que bata com suas crenças.

Já teve uma época remota em que eu ficaria até meio que ofendido se alguém me perguntasse isso! Mas não, não sou gay. Aliás, deixei isso claro no texto. (mas saquei: sua pergunta é didática para forçar essa resposta para outros leitores mais desavisados). Oferecer flores é somente uma hipérbole, para expressar gentileza e graça. Acho que isto também está bem claro no texto, não?!

Concordo com você, o termo crente deturpou-se. Mas evangélico também. Normalmente prefiro o rótulo de cristão. Ainda que este último tornou-se há muito algo bem vago. Mas preferi nesse texto usar "crente" pois era o contexto da época além do mais ele possui um significado intrínsico bonito e fundamental: aquele que crê, que tem fé. Na Alemanha ele ainda é usado sem conotação prejorativa: "gläubig".

Sim, concordo com você. Ao pé da letra, dar folres pra macho é estranho (mas esse é o elemento provocativo do meu texto, rsrs, e você caiu nele. Desculpa, mas a armadilha tava aí, na verdade pra outros...)

Mas se pensarmos bem, até que dar e receber flores de machos não é nada de mais: veja bem, quando vou ao Brasil, já acostumado com o padrão Europeu, tenho muiiiito mais medo de receber uma bala, uma ameaça ou qualquer agressão do que flores. Não por simples medo ou preconceito, mas já morei por essas bandas e acho que as estatísticas só pioraram de lá pra cá.

Quem dera se o filme brasileiro que ganhou o urso de ouro em Berlim versasse sobre as ONGs e uma crscente mundança de hábito na sociedade brasileira no trato com seu próximo. Ou se o avanço do evangelicalismo fosse atrelado à não violência como arma de uma população injustiçada na conquista de seus direitos civis.

Enfim, ficaria feliz se as manchetes aqui e as reportagens sobre o Brasil fossem não sobre miséria e criminalidade, mas sobre uma moda entre os homens adultos de distribuir flores, justiça, gentileza e graça entre si.

Assim, um grande abraço e como não poderia deixar de ser receba um buquê de flores virtuais não só de mim, (porque pega mal) mas também de minha esposa e filha.

Roger
PS: Ufa... quase que não saio dessa! Tava pensando em mandar esse texto pra Ultimato acho que já vou mandar com esse comentário pra facilitar as coisas, ainda que ele também tenha lá uma arapucazinha.

Rubinho Osório disse...

Realmente, Roger, a pergunta era humor e ironia.
Aqui na terrinha, de uns tempos prá cá, levei alguns sustos ao ser cumprimentado por amigos "machos" com singelos beijos na face!!! Flores não são nada! A demonstração de afeição e carinho está mais liberada, e isto é bom.
Quanto a ser "cristão", a gente o é porque se não o fosse, não seria quem sou...

Roger disse...

Pô, Rubinho, vc é um sacana, cara, eu achando que eu tinha te pegado na arapuca e vc que me pegou.
Agora vc tá me devendo essa. Minha vingança será maligrina!!! Mas valeu, passei ele para a Ultimato com todos os pontos nos is!

Se não fosse essa sua barba te mandava um beijo também,

Roger

Felipe Fanuel disse...

Roger,

O texto está lindo e a sua resposta ao Rubinho também.

Um abraço.

Anônimo disse...

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