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quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Evangelho a partir da cultura anglo-americana

Puxa, quantos rostos conhecidos e quanta gente feliz! Quantas Very Strong Opinions©! E eu que achei que jamais teria de pisar aqui de novo. Norma, aqui também tem banquete?

- Texto surrupiado de um comentário displicente e inteligente de Paulo Brabo no Blog da Norma, quando ainda a Blogesfera crente  estava arrepiando.

O Kivitz é muito mais ocupado do que eu e tem esse costume anticristão de não se misturar aos pecadores, então deixa que eu respondo por ele, com menos brilho mas com menos paciência, como convém.

>>> O que é exatamente “o evangelho pregado a partir da cultura anglo-americana”?

Essa eu sei! Eu sei! Deixa eu responder! “O evangelho pregado a partir da cultura anglo-americana” é, basicamente, utilitarista, mecanicista e mercantilista. É um evangelho de resultados, que tem por apoteose a mão levantada e não a transformação de vida; que chega a utilizar a retórica da "transformação de vida" mas está longe de promovê-la - quanto mais a transformação do mundo exigida pelo evangelho irretocável dos evangelhos.

Epa, peralá, o Kivitz já havia respondido essa pergunta no blog dele! Que feio da sua parte me fazer responder uma pergunta cuja resposta sabia onde encontrar...

"O evangelho dos evangélicos é mercantilista, de lógica neoliberal. Nasce a partir dos pressupostos capitalistas, como, por exemplo, a supremacia do lucro, a tirania das relações custo-benefício, a ênfase no enriquecimento pessoal, a meritocracia – quem não tem competência não se estabelece. Palavra chave: prosperidade. Desenvolve-se no terreno do egocentrismo, disfarçado no respeito às liberdades individuais. Palavra chave: egoísmo. Promove a desconsideração de toda e qualquer autoridade reguladora dos investimentos privados, onde tudo o que interessa é o lucro e a prosperidade do empreendedor ou investidor. Palavra chave: individualismo. Expande-se a partir da mentalidade de mercado. Tanto dos líderes quanto dos fiéis. Os líderes entram com as técnicas de vendas, as franquias, as pirâmides, o planejamento de faturamento, comissões, marketing, tudo em favor da construção de impérios religiosos.

Enquanto os fiéis entram com a busca de produtos e serviços religiosos, estando dispostos inclusive a pagar financeiramente pela sua satisfação. Em síntese, a religião na versão evangélica hegemônica é um negócio."

>>> Será mesmo que todo mundo na igreja pensa que o céu é um lugar? E, ainda que isso seja verdade, a Bíblia não dá margem para isso nas próprias palavras de Jesus: “Irei preparar-vos lugar”, “Hoje mesmo estarás comigo no paraíso”? Assim, qual seria a vantagem de suprimir essa interpretação de “lugar”, já que a outra, de mudança interior na conversão e presença de Cristo, também é abundante na Bíblia?

Essa eu também sei, e é fácil. Na Bíblia, ao contrário do que você dá a entender, o céu não chega a ser identificado com mudança interior na conversão. É a mudança interior da conversão que produz (ou, idealmente, deveria produzir) a mudança exterior no mundo visível. Faz com que as pessoas do mundo "vejam as nossas boas obras" e intuam a presença de Cristo - ou seja, a inusitada proximidade do Reino - e experimentem assim o céu. "Venha o teu reino" é o sentido trajeto, e não o contrário. Não é preciso "suprimir" a noção de céu como lugar, mas é por certo necessário ampliá-la para incluir também este lado da vida; não limitar a esperança de justiça e a presença transformadora de Cristo ao porvir. Mas naturalmente toda ação transformadora deste mundo é comunista, então esqueça o que acabo de dizer. O céu pode esperar.

>>> Considerando que "aceitar Jesus como salvador como credencial para ir para o céu" é uma simplificação da conversão cristã (e não acredito que muitos neguem isso), você não acha que sua proposta para um melhor chamado, "para se tornar uma outra pessoa", é redução maior ainda, por confundir-se com a transformação interior que todas as religiões costumam reclamar para si? Não estaria, assim, advogando a troca de uma simplificação por outra menos rica ainda e de difícil identificação com a fé cristã? A salvação ainda se relaciona com a necessidade de arrependimento; a transformação interior é apenas uma necessidade íntima, subjetiva, que não se associa a uma dívida real que temos com Deus por causa do pecado. Será que sua proposta de mudança discursiva não aponta para uma rejeição dessas noções básicas do cristianismo?

Essa pergunta contém tantas perguntas e tão capciosas que me cortaram o ímpeto e a fome de responder. Só tenho a reconhecer que sua fé é maior do que a minha, por acreditar que sejam muitos os cristãos evangélicos a enxergar que "aceitar Jesus como salvador como credencial para ir para o céu" é uma simplificação da conversão. O mecanicista "aceitar Jesus como Salvador" é virtualmente a única forma pela qual o evangelho tem sido pregado nos últimos séculos a partir da cultura anglo-americana, mas essa pergunta já respondi.

A proposta do Kivitz, de colocar a coisa como transformação de vida, "tornar-se outra pessoa," está longe de ser maior simplificação do que "aceitar a Cristo" e é ao contrário desta última, bíblica. Regeneração é, como se sabe, nascer de novo, tornar-se outra pessoa; converter-se é mudar de rumo, metanóia é transformação de mentalidade.

Ao contrário também do que você sugere, são relativamente poucas as religiões contemporâneas que propõem uma "transformação interior" nos termos da conversão cristã. Tecnicamente, nem o judaísmo nem o islamismo a exigem - muito menos as religiões orientais, cujo fim é a busca de uma identificação com a divindade e não a reparação de um relacionamento com ela. Tornar-se outra pessoa pelo contato com Cristo tem sabor definitivamente cristão.

Agora vou dar uma passada no Gondim, que não quero dormir com fome.

(A imagem eu não roubei d`aqui – quem quiser conferir veja que ela está lá ainda, sempre caminhando de pernas pro ar)

Um comentário:

Juber Donizete Gonçalves disse...

Roger,

Norma e Paulo Brabo, duas interpretações de óticas distintas. Mas é garantia de um bom debate.

Abraço.