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segunda-feira, 26 de abril de 2010

O pecado não é original

versuchung_schlange_vertreibu_hi Original é a imago Dei.

Não penso que só regenerados (pelo evangelho) sejam capazes de "em Cristo" serem bons, ou serem salvos. Já pensei assim por longos anos após me tornar evangélico, mas aos poucos fui percebendo o disparate dessa teoria com a prática e a abandonei. Um dos grandes problemas dessa doutrina, além de não ser real, é o preconceito (e orgulho) que ela normalmente gera.

Não creio que só exista o preto e o branco. As pessoas são espetacularmente distintas e todos nós nos encontramos numa área cinza. Determinadas circunstâncias nos fazem parecer moralmente melhores ou piores, dependendo da perspectiva. O filme Crash, retrata bem essa ironia.

A Bíblia diz que Cristo levou nossas contradições. Por contradições entendo também, aquelas que acabam por nos fazer bons, quando tudo prometia que seríamos maus. "O bom homem tira do tesouro de sue coração coisas boas". A imago dei está naturalmente em todos homens. Creio que todo homem é capaz de, e pratica, atos bons, motivado por razões boas como o altruísmo ou misericórdia. Um bom exemplo disso está na parábola do bom samaritano, ou na atitude do bom ladrão na cruz.

Concordo que existe de alguma forma uma transformação nas pessoas e em última análise ela é efetuada por Deus. Mas no fundo penso que as pessoas dificilmente mudam. Você e eu sabemos de pessoas que passam anos a fim em uma igreja e não mudam em nada. Tem sempre aquele cara que irrita todo mundo no futebol e no domingo, todo espiritual, dirige o louvor.

As pessoas (que são um misto de boas e ruins) que se sentem chamadas para seguir Jesus deveriam levar a sério esse chamado, assim a transformação se efetuará, com a ajuda de Deus, primeiramente nela e depois na sociedade a seu redor. Independente dos indivíduos dessa sociedade terem sidos "regenerados" (convertidos) ou não.

Creio que Jesus morreu na cruz para possibilitar essa transformação. Ele fez a sua parte, o trabalho principal. Ele também fez outras coisas, além da cruz, para nos salvar. Aliás, ele ressuscitou para que sejamos salvos. Existe a parte de cada um de nós também, que contribuirá para a salvação própria e para a do outro também. Vejo a questão do "preço pago na cruz" como algo pura e belamente emblemático. Não acredito num mercado de compra e venda de almas; além daquele que se efetua nos porões de nosso mundo caído.

Certa vez um pastor teve uma discussão comigo, pois queria me convencer que sua interpretação de Romanos 8:24 deveria ser a minha também. O texto diz "somos salvos em esperança, mas como alguém espera aquilo que vê?" Ele insistia que já podemos ver essa salvação (ou regeneração), então quase não haveria mais o que esperar! Eu ao contrário pensava, e ainda penso, que não vemos ainda essa regeneração. Nós e as pessoas, até mesmo as "regeneradas", estamos fadados a pisar na bola, às vezes feio, e isso exige uma boa dose de perdão e amor, e acima de tudo dessa esperança de que um dia será bem diferente. E assim esperamos pacientemente.

Resumindo, acho que percebo os cristãos menos santos do que nós gostamos de anunciar, e percebo "o mundo" menos pecador do que gostamos de proclamar. Não somos nem precisamos ser tão "separados" assim. E o mundo não é tão contaminante assim. Não enxergo a igreja como comunidade de salvos, mas como comunidade salvadora. Ela não deveria almejar agregar perdidos, para salvá-los, mas sim integrar-se a eles, e exercer humildemente sua boa influência. Provavelmente não exista base bíblica para isso, mas é assim que hoje eu terrivel e irremediavelmente creio.

3 comentários:

Rubinho Osório disse...

"A igreja como comunidade salvadora e não comunidade de salvos" é uma frase interessante e perigosa, pois se, por um lado abre a igreja para o mundo, por outro dá uma impressão de autoridade que ela não deve ter. Será que fui claro?

Roger disse...

Você foi claro Rubinho, e concordo, quem tem autoridade para salvar é o cabeça, Cristo. Relutei bastante antes de colocar o "salvadora", mas na falta de outro termo ficou esse mesmo. Outras opções seriam instrumento de salvação, ou catalizadora de salvação, mas esses acabariam por dar o mesmo sentido e roubar a ênfase de nossa missão. A ênfase que quis dar é tão perigosa como entender que somos o Corpo de Cristo, nesse mundo.

Outra abordagem que gostaria de ter dado mas não o fiz pois o texto ficaria por demais longo é que quando a igreja é esse instrumento de salvação, no fundo é ela quem está sendo salva. Talvez no próximo post...

Abraços e obrigado pela sua fidelidade como amigo da bloguesfera.

Felipe disse...

Caro Sr.Roger,
Excelente sua postagem. A idéia do Imago Dei hoje é tão negligenciada, que acaba distanciando a Igreja das pessoas, vistas como "seculares", "filhas do diabo", e por aí vai.
Paz.