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sábado, 24 de julho de 2010

Saudade doida doída

Cantávamos na nave da igreja católica da Sagrada Família, ou da Floresta – não me lembro mais ao certo onde, mas o texto ficou:

“olhos jamais contemplaram, ninguém pode explicar, o que Deus tem preparado àquele que em vida o amar”

Em Adão, em nossa genética, sei lá, mas de alguma forma, já contemplamos o Éden e sentimos falta dele. Essa saudade é explicável, mas como explicar a saudade da “Nova Jerusalém”?

Aquela letra do louvor católico derivada de um texto do Novo Testamento, que por sua vez vem de outro do Velho, evoca a esperança de algo bem melhor do que jamais experimentamos aqui. Meu amigo Rubinho está corretíssimo ao parafrasear cuidadosamente Belchior:

A gente teoriza demais, mas "a vida é muito pior"!!!

Ela é pior, não só quando comparada com nossas vãs teorias, mas muito mais ainda quando comparada com aquilo que está por vir. Então por que Deus nos privaria do melhor? Por que Ele não nos leva logo para o melhor, se é que Ele é bondoso?

Afoitos por responderem essas perguntas, crentes inventaram as Mentirinhas evangelicais. Afinal de contas nossa vida não é preciosa e deveria haver uma boa razão por termos que suportar a nós mesmos (mutuamente) anos afim até a tão esperada redenção.

Há muitas maneiras de se entrar numa sala. A mais bruta delas é quebrando a parede, a mais cômica é como Papai Noel, descendo pela lareira e a mais usual e natural é pela porta. Nas salas do conhecimento nem sempre as portas estão abertas e nem sempre possuímos as chaves, mas isso não nos dá o direito de sairmos por aí com uma marreta nas mãos a arrebentar paredes. Quando se pergunta, por que Deus não nos leva direto para o céu quando nos convertemos, sentamos com toda brutalidade nossa marreta nas paredes do cômodo que abriga os sagrados mistérios do por vir, da vida eterna. E quando inventa-se respostas para essa violência, faz-se buracos na parede daquele belo aposento.

Seria mais nobre, embora não menos patético, cairmos lá sujos de fuligem, como o velhinho natalício. Dessa façanha a história cinematográfica e teatral está cheia, desde a Divina comédia até O céu pode esperar. Elas nos oferecem caricaturas do que seria o porvir normalmente geradas através de uma interpretação literal das pistas que a Bíblia nos proporciona.

Podemos todavia nos valer da correta chave. Brabo não está muito errado ao sugerir que:

Deus (em nossa conversão, de alguma forma já) nos leva direto para o céu, ou que o céu não será/seria muito diferente da experiência diária.

Note que aqui não há buracos na parede. Mas sim a posse de uma chave de fé: Você quer saber sobre, ou experimentar o céu, o porvir? Olhe a conversão, o arrepender! Olhe bem aqui dentro de seu próprio mundo, da vida diária!

É verdade, nem sempre, até mesmo as chaves mais certas, se encaixam bem e abrem as portas prontamente. É necessário certo grau de paciência e esforço e jeito. Mas as pistas do Brabo estão corretas, porque o céu é também um estado de espírito (ao contrário do que Neto pensa e afirma).

Concordo que (e espero de todo coração que - aliás é exatamente isso que a experiência diária me assegura) o céu seja mais do que um estado de espírito, mas não posso extrair dele esta sua essência. O ladrão na cruz só vem a confirmar isso, uma vez que o Messias Judeu prometeu-lhe adentrarem juntos naquele mesmo dia o paraíso – pela história sabemos que isso só foi possível em espirito, o qual Jesus entregou ao Pai, seus corpos foram sepultados (o de Cristo por três dias) e teoricamente sua alma (pelo menos a de Cristo) desceu ao inferno ou à mansão dos mortos.

O bom ladrão foi alguém que não precisou inventar respostas para a tal pergunta marreta, uma vez que foi levado para o céu no dia de sua conversão – ou melhor dizendo, pois se converteu, no dia em que foi levado para o céu.

Deixando um pouco de lado os objetos mais simples e mais caros do aposento do porvir, e concentrando nas pessoas que se encontram ali, analisemos o que Jesus disse àquele companheiro de calvário. Mudemos porém a ênfase do “quando”, “o que” ou “onde” para o “quem” (vou usar os recursos de marcação de textos do meu editor para deixar a coisa bem patente):

“Eu lhe garanto: Hoje você estará comigo no paraíso

A companhia de Jesus!

Eu terei que concordar com qualquer um que afirmar que a companhia de Jesus aqui é só uma piada quando comparada à companhia d’Ele no porvir. Mas confesso que adoro piadas, pois elas sempre revelam (ou escondem) uma verdade alegre e simples.

Para sermos bem sinceros, e se formos especular, existem muito mais boas razões de nossa parte e também da de Deus, para ficarmos vivos, por aqui, mais tempo possível. Então o que nos assustaria é porque afinal de contas Ele leva alguns! E alguns até mesmo no dia de sua conversão! Por que Ele não ressuscitou aquele cara, o bom ladrão, para que ele agora então vivesse uma vida que valesse a pena?

A companhia de Jesus, prometida ao ladrão, também nos foi dada na pessoa do Espírito Santo, do Consolador. Dentre tantos consolos seus, um deles é sem sombra de dúvida, acalentar a dor dessa saudade doida e doída de tudo que ninguém jamais viu ou imaginou.

E é só Você que tem
A cura pro meu vício
De insistir nessa saudade
Que eu sinto
De tudo que eu ainda não vi.

-Renato Russo em Índios-

5 comentários:

Alice disse...

Roger,

vc é muito mais que um ser humano...vc é é um ser especialmente humano.

beijos na família toda !

Djalmir disse...

A companhia de Jesus!

Como no link ao lado: Alice No País do pensamento.

Felipe disse...

Meu avô materno costumava dizer que tinha saudades do Céu. Essa postagem me lembrou dele.

É interessante como a Bem Aventurança final nos é dada numa amostra, ou trailler, atravéz do arrependimento e conversão, que seriam já o início do Reino de Deus. De como não é algo para nos fazer contemplativos, distantes e indiferentes à vida, mas ao contrário, quando corretamente entendido, leva-nos à vida, à atitude e ao engajamento no mundo.

Grato pela reflexão, Roger.

Eduardo Medeiros disse...

Ter saudade do céu e ter saudade da utopia. Mas se render e dizer que aqui não é o “meu lugar”pois nada aqui me interessa, é alimentar a utopia que jamais se concretizará. Recebemos a vida e a Terra para cuidar. Este é todo céu que o homem está destinado a ter e a construir. Com a graça de Deus.

um abraço

Janete Cardoso disse...

Que bom que vim até aqui. Li o que precisava ler :)
abraços