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sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Carta a um amigo cristão de direita

Meu caro amigo,

você e eu passamos pelo movimento estudantil na universidade e tínhamos afinidade em nossas visões políticas. Lembra-se, você PSDB apaixonado e eu, não filiado, sem carteirinha mas simpatizante do PT. Eram os anos 90. Tínhamos acabado de pintar a cara e tirar um presidente e o FHC incomodava nossa classe cortando o orçamento da educação.

Tínhamos também afinidade espiritual. Você participante do grupo católico fé e política e eu da ABU.

Em nossa luta partidária estava claro que os radicais do PCdoB, em seu fanatismo cego, estavam desvirtuando a lógica da representação estudantil no Campus, para fins meramente politiqueiros.

Juntos conseguimos derrotá-los e passar por duas gestões do DCE e influenciar nossa Universidade de forma notoriamente positiva. Bons tempos aqueles!

Você sempre foi uma voz de dentro da esquerda que sabia criticar os exageros da esquerda. Especialmente as maluquices antropológicas do governo e as questões indígenas te indignaram demais. Suas críticas estavam cada vez mais impiedosas. Tudo isso te empurrou para os braços de formadores de opinião fundamentalistas e reacionários… Há muito já estava óbvio para todo mundo que o caldo tinha entornado para você.

Hoje fiquei sabendo que você resolveu assumir-se de “direita” e isso mexeu comigo. Conto porque:

Primeiro, você diz que cansou “das propagandas que pretendem explicar direita e esquerda com clichés mentirosos  que idealizam a esquerda e demonizam a direita. Entendo perfeitamente seu cansaço. No fundo parece-nos que essa dicotomia só cabe mesmo à nossa geração que vivenciou a cortina de ferro. Hoje o mundo é outro. Não demora muito chegará o tempo que esses clichés não farão mais sentido nenhum. E para muitos com certeza, já não faz. Mas como você poderia esquecer que a direita usou e usa das mesmas armas propagandistas nesse jogo?

Segundo, ano que vem é ano de eleições e você sabe que como líder que você é sua postura influenciará outros. Penso que o PSDB (do Aécio) seria a melhor via para o Brasil reassumir sua trajetória econômica.  Sou entusiasmado com a distribuição de renda que o PT proporcionou, creio até mesmo que a Dilma faz bem o seu papel, e até mereceria uma reeleição. Mas suas falhas não nos são ocultas e o partido de forma geral esgotou-se. Foram 12 anos… É hora de revezar. Até onde sabemos o PSDB ainda é de “esquerda”, ainda que tenha uma linha mais concentradora de renda do que a do PT. Mas como você se posicionará agora?

Terceiro, tomo como exemplo a Alemanha. Pelas possibilidades do sistema aqui, pude votar esse ano tanto na “direita” CSU/CDU como na “esquerda” SPD. E tudo indica que ambos construirão uma coligação. Ou seja, a União Cristã parece ter se cansado do antigo aliado, o Partido Liberal (que está mais à direita), e se “livrou” dele. Agora está a ponto de se coligar com os socialista. O SPD defende claramente algumas intervenções na economia, como aumento da alíquota de imposto para ricos, criar um salário mínimo (coisa que não existe na Alemanha) e limite para salários de “top managers”. Isso para que haja maior divisão da renda e mais recursos para os cofres públicos. O CDU advoga que sua política “liberal” tem garantido à Alemanha os fundamentos para sobreviver à crise do Euro, mas de fato tem faltado dinheiro para manter a tão moderna e pesada infraestrutura que a Alemanha já possui e a lacuna entre ricos e pobres tem aumentado. A Alemanha e seu sistema político possibilita aquilo que vivenciamos no DCE, um esquerda moderada, de centro. Você riscou completamente de suas opções a causa esquerda então com qual partido você se simpatizará agora?

Do grupo fé e política e da teologia da libertação você abençoaria o que então hoje, uma TFP e uma teologia da prosperidade?

Penso que seja lá qual for a base teórica que se adote para conceituar uma coisa ou outra; sejá lá quais as formas que tanto um lado como outro encontram para tomar e permanecer no poder; não poderemos nunca abrir mão de três coisas:

  • da ética
  • do estado democrático de direito, tendo como base os direitos fundamentais do homem (liberdade de expressão, de crença, de ir e vir e etc); e
  • da garantia e fomento à justiça social e do amparo aos pobres.

Na verdade esses três pontos independem da linha ideológica, se progressista ou conservadora. Ambos os lados irão fatalmente negligenciar essas três coisas devido à própria força e sedução do poder. Por isso minha posição particular é que, o que garantirá o sucesso de um governo está muito mais relacionado à “pessoa” que governa, suas qualidades morais, humanas, sociais, do que à competência meramente técnicas ou político-ideológicas.

Na Alemanha costumo porém dizer que, como vim de um país com um dos piores índices de distribuição de renda do mundo, sou forçosamente levado a optar pela esquerda, cuja principal bandeira é a redistribuição. Como vivenciamos recentemente uma crise econômica cuja origem se deu na especulação e imoralidade do setor financeiro americano, sou forçado a protestar contra esse “liberalismo de direita”.

Lembre-se, ninguém poderá segurar duas mãos invisíveis de senhores diferentes, ou você segura a de Deus ou a do mercado.

Saudações fraternas,

Roger

3 comentários:

Alex Esteves da Rocha Sousa disse...

Roger,

Passe no meu blog e leia meus comentários a este texto - alexesteves.blogspot.com.
Cordialmente,
Alex Esteves da Rocha Sousa.

Roger disse...

Obrigado, Alex, pela réplica. Deu para matar a saudade.
Gostei do seu bom humor.
De fato o texto é uma mistura de acontecimentos reais que teve como ponto de partida o Texto de Bráulia Ribeiro na Ultimato.
Evidentemente que em certos pontos exagerei, e você parece que apanhou todos eles. Mas não acho isso mau, faz parte da conversa.
Acho que nós todos queremos muitos fundamentos lógicos, científicos, em nossos argumentos. Mas o que escrevi foram meras impressões, sentimentos, que espero fazerem algum sentido lógico, mas não exigiria tanto delas.
No mais, saudações fraternas!

Luciano disse...

Gostei muito desse texto.
Concordo que o momento histórico acaba nos forçando a abandonarmos/abraçarmos uma posição político-ideológica.