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sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Onde estava Deus, quando tudo deu certo?

Outro dia estava conversando com minha afilhada e ela jogou-me essa bomba, não nessas palavras, mas o sentido foi mais ou menos esse: Onde está Deus, quando tudo dá certo? E me passou o desafio de escrever algo sobre assunto até o Natal.

Para não ficar com mais uma tarefa pendente tento liquidá-la, aqui.

De fato, normalmente as pessoas perguntam o oposto, Onde está Deus quando tudo dá errado? E teólogos se esforçam na busca de um sentido para o sofrimento, afinal, como pode Deus ser bom e todo poderoso simultaneamente se o mal, o sofrimento, está presente – e não poucas vezes até reinando – no mundo?

E essa é a pergunta comum, normal, frequente. E muitas respostas já foram achadas. Para todos os gostos. Pois essa pergunta é quase que universal.

E este é justamente o nosso problema, se grande parte, talvez maioria da população mundial vive hoje uma tragédia, por que será que pra mim está indo tudo bem?

Em meu trabalho, e aqui exponho a primeira hipótese que me ocorre, costumo saudar um colega, um alemão grisalho que já avista a aposentadoria, com o tradicional “Wie geht’s” – como vai – pelo que ele geralmente responde: Tudo bem! E explica: Pra gente má vai sempre tudo muito bem…

Irônico não? Mas isso faz parte do inconsciente coletivo. “Aquele ali tá rico foi porque roubou”, “aquele outro tá rindo é porque é um irresponsável” e assim por diante. Até mesmo um salmista, na Bíblia, diz que enquanto o justo sofre, os maus prosperam e nem por isso devem ser invejados, pois o fim deles será a perdição.

E esse pensamento esbarra na segunda hipótese:

Mas se você tem aquela impressão e convicção de que mal caráter, ou uma pessoa categoricamente má, você não é… Fica ainda aquela sensação então de que as coisas não deveriam estar indo assim tão bem, e então é uma questão de tempo, e uma hora, a bomba relógio explodirá.

Ou seja, as coisas vão bem, mas não porque sou mau, mas porque é momentâneo e uma hora chegará o dia mau. Basta esperar. É pagar pra ver.

E isso também não está longe do inconsciente coletivo e nem dos ensinos contidos na Bíblia. Jesus mesmo disse “ai daqueles que riem, pois em breve vão chorar” ou qualquer coisa nesse sentido; e disse “bem aventurados os que choram”. O estado normal do justo é algo que beiraria o martírio…

A tristeza viu lâmpada acesa e tratou logo de entrar e trancar a porta. Seguiu-lhe, porém, a solidão, essa especialista em portas fechadas.”

Por isso não é incomum a uma pessoa que prospera seja no campo familiar, financeiro, social, profissional (e normalmente essas coisas estão todas atreladas umas às outras), essa pessoa, logo trata de minimizar sua prosperidade e achar um revés aqui e ali para justificar e calar sua consciência. É o típico caso do magnata que se queixa e resmunga, como o mais miseráveis dos homens, pois teve que pagar uma fortuna para fazer o concerto do iate ou do jatinho. E coisas do gênero.

Não é raro que as pessoas se sintam culpadas quando as coisas vão bem, e Paul Tournier, famoso psiquiatra suíço, trata com muita propriedade do assunto em seu livro “Culpa e Graça”.

Por isso não acredito, que nenhum de nós trocaria a sua própria vida, ou seu estilo de vida (como todos os ônus e bônus que ele carrega) pela de um outro qualquer. Nem mesmo que esse outro estilo fosse o viver das pessoas que mais admiramos e respeitamos e aos nossos olhos mais bem sucedidas são. No balanço entre perdas e danos, acho que cada um de nós é mais ele mesmo.

Lembrei-me então do nascimento de minha primeira filha, de todos os medos que alimentamos no período de gravidez e que, no fim das contas, tudo deu maravilhosamente bem (e estamos todos bem cientes que nem sempre acontece assim…) Perguntei então na ocasião, ainda na clínica, ao Chris um amigo inglês, que nos visitava, como poderia ser isso? Ele me disse sem nenhum drama, Roger, simplesmente seja agradecido e aproveite!

No fundo, o que me ocorre tem a ver com o que postou esses dias outro amigo e primo, o Gidiel Câmara Júnior@gidielcamara, em seu twitter :

O simples fato de viver (se é que eu posso dizer que viver é simples), já nos expõe aos perigos, às tempestades, às dores, aos sofrimentos.

Estamos todos expostos. Uns em maior grau outros em menor, mas estamos expostos. E acrescento, seremos atingidos. Uns em maior grau e outros em menor. E o grau de exposição nem sempre tem uma relação direta com o grau do impacto do perigo, das tempestades, das dores, dos sofrimentos, quando eles nos atingem.

A verdade é que nunca “tudo” dará certo.

Todos nós conhecemos o fracasso. Somos participantes do drama humano, quer queiramos ou não. Quer sintamos ou não. A tragédia alheia, se já não é, deveria ser também minha. Para isso há pouco espaço para fuga.

O curioso é que a tendência geral é procurar logo uma relação de causa e efeito, não poucas vezes carregada de preconceitos e espírito condenatório: Ele está sofrendo porque pecou, logo se eu não pecar não sofrerei. A tragédia lhe atingiu porque Deus tinha um plano, ele está sofrendo mas Deus sabe que é um santo passando pela provação; logo se eu for santo, o sofrimento fatalmente virá.

Um dos excelentes teólogos que nossa geração tem produzido no Brasil, o Ricardo Gondim, tem sofrido por apresentar uma outra perspectiva de relação sofrimento x vida espiritual, na qual uma coisa pouco tem a ver com a outra no patamar de causas e efeitos. Para ele muito do sofrimento (e eu acrescentaria do sucesso) que experimentamos são por meras razões contingenciais. Nem mesmo Deus estaria por trás controlando e engendrando um plano pelo qual o sofrer (ou o sucesso) faria parte. A contingência, o acaso, é um elemento proposto pela vida, o qual capacita os seres humanos a serem, simplesmente, humanos.

Philip Yancey, outro teólogo fenomenal de nosso tempo, se esforçou em diversos de seus livros para demonstrar que no sofrimento, não há espaço para se perguntar onde estaria Deus quando a tragédia aconteceu. Pois o Deus, revelado em Jesus se mostrou presente ao lado das pessoas que sofriam, e sofreu com elas. Nem sempre Deus estava evitando o sofrimento, nem sempre ele estava solucionando os sofrimentos. Mas Ele estava sempre presente no sofrimento, como força consoladora, como ombro amigo. Como alguém que sofria junto.

Não tenho nenhum medo de transportar essa mesma lógica para a questão do sucesso, ou, “quando tudo dá certo”. Afinal de contas Jesus também estava presente com os que festejavam, Ele estava presente nos banquetes e “comendo e bebendo” com os “pecadores”, as “pessoas más”. Uma das características marcantes do Reino inaugurado pelo Rei dos Judeus é a alegria.

Portanto a vida será composta de instantes, uns de intensa vitória, outros de intenso abismo. A sabedoria reside em saber diferenciá-los, avaliá-los e vivê-los integralmente.

Para lermos os dias, precisaremos aprender com afinco o exótico alfabeto dos segundos, dos pequenos instantes.

Um comentário:

Rubinho Osório disse...

Veja se essa música retrata o teu texto:
http://youtu.be/-tkSFVagWeA