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sábado, 13 de dezembro de 2008

Honrar a Mãe

As vezes tenho a impressão que na prática, as igrejas de linha reformada e de cunho mais tradicional se prestam a um único papel: ser ANTI alguma coisa.

  • Anti-católica
  • Anti-mariana
  • Anti-ecumênica
  • Anti-socialista
  • Anti-alcoólica

...e por aí vai.

O pior é que se chega a conclusão é que no fim das contas se não houvesse algo a que ela pudesse se opor ela não teria identidade, igrejas que mantém esse tipo de posição não entenderam muito bem o real sentido da Reforma Protestante promovida por Lutero em 1517, por mais que alguns possam discordar, Lutero não queria uma igreja separada da igreja católica, e não estava fundando um movimento que seria contra tudo e contra todos o tempo todo, com o passar dos tempos algumas igrejas que surgiram desse movimento acabaram se apoiando demasiadamente no termo "protestante" e esqueceram da "reforma", ninguém reforma algo do qual não quer usufruir mais ou não quer cuidar, tudo que nos propomos a reformar em nosso dia a dia é para o nosso próprio bem estar, enfatizar demasiadamente o termo "protestante" e protestar contra tudo e contra todos o tempo todo, não é protestar, é "fazer birra", é demonstrar imaturidade ao não querer se adaptar com aquilo que é diferente de você ou pensa diferente de você, é querer ser sempre uma igreja "do contra". E o pior dos "antis" ao meu ver, é ser anti-mariana. 

Não que eu seja a favor da idolatria, não sou a favor da idolatria à qualquer pessoa e objeto que seja, porém uma igreja que diz seguir os mandamentos do Filho se prestar quase que exclusivamente à denegrir a imagem da Mãe, é uma coisa que me intriga e ao mesmo tempo revolta.


Intriga-me a insistência de vários teólogos e pastores de linha reformada em afirmar a não-virgindade de Maria, como se isso fosse de extrema importância à fé cristã. Durante 1535 anos ninguém pôs em cheque a perenidade da virgindade de Maria, é à partir de Calvino e sua tradição protestante reformada que isso é colocado em cheque, nenhuma outra tradição protestante compactua com tal afirmação, ela só vai ganhar apoio depois do surgimento do movimento evangélico. Agora pergunto: QUAL A RELEVÂNCIA DE SE AFIRMAR JUSTAMENTE O OPOSTO? Ao meu ver é uma ofensa barata e picuinha, pois não haveria mal algum se Maria tivesse outros filhos com José, no entanto, a insistência em contrariar uma tradição de 1535 anos é puramente querer ser "do contra", de nada acrescenta de positivo uma afirmativa dessas, muito pelo contrário, pois ao meu ver só se destaca pelo aspecto negativo. Ao afirmar a perenidade da virgindade de Maria, se valoriza o impacto e a importância que a mesma deu ao que aconteceu com ela, como ela mesma se manifesta quando lhe é revelado que ela dará a luz ao Filho de Deus:

"Minha alma proclama a grandeza do Senhor,
meu espírito se alegra em Deus, meu salvador,
porque olhou para a humilhação de sua serva.
Doravante todas as gerações me felicitarão,
porque o Todo-poderoso realizou grandes obras em meu favor: seu nome é santo,
e sua misericórdia chega aos que o temem,
de geração em geração." - Lucas 1:46b-50


Se tal revelação já suscita em Maria tamanha admiração por ter sido a escolhida, todo o processo que ela passou até a concepção de Jesus, só me faz crer que aquele sentimento inicial se tornava cada dia mais crescente quando a promessa se tornava cada vez mais real, dia após dia.

Gostamos muito de ressaltar que quando a bíblia diz "Jesus habitou entre nós", a palavra "habitou" é o mesmo sentido da presença do Tabernáculo quando o povo de Israel andava pelo deserto, dizendo que Jesus "tabernaculou" entre nós. Mas essa presença como Tabernáculo não foi ocupando o mesmo espaço, exceto em Maria, antes de Jesus "tabernacular" entre nós, Ele "tabernaculou" Maria, na figura do Tabernáculo, seria algo como se o "Santo dos Santos" no Tabernáculo, agora fosse Maria, pois nela se encontrava não só a presença de Deus através do Espírito Santo, mas também o próprio Deus através de Seu Filho.

Necessita-se  de um argumento muito mais sólido do que o argumento protestante da "Sola Scriptura" para tentar refutar o argumento da perenidade da virgindade de Maria, pois nesse caso, esse argumento torna-se totalmente obsoleto e irrelevante, pois Maria não é algumas linhas de um escrito, ela foi um ser humano, por isso me chamou a atenção o relato de uma análise que uma psicóloga protestante fez quando se propôs, junto com outros psicólogos protestantes analisar o impacto psicológico sofrido por Maria, devido o fato de ser escolhida para dar à luz ao Messias. Quando digo o "impacto psicológico sofrido", não imputo aí algo de negativo, mas algo de relevante, pois todo e qualquer acontecimento nos causa um impacto psicológico, que pode ser um impacto menor ou maior, positivo ou negativo. E imagino eu, que dada a importância que é ser escolhida para dar a luz ao Filho de Deus, é um grande impacto e portanto, chegaram à conclusão que tamanho impacto poderia sim, marcar uma mulher de tal modo que ela realmente poderia optar por nunca mais ter outro filho. 

Mesmo antes de ouvir essa palestra, a minha opinião já era a favor da perenidade da virgindade de Maria, pois ao meu ver não há nada de positivo em teimar em afirmar o contrário, e a palestra só veio reforçar esse meu pensamento.

Fora esse aspecto, há o aspecto dúbio da exegese quando se fala em irmãos de Cristo (na tradução João Ferreira de Almeida), quando a palavra usada no grego abre precedentes para a possibilidade da mesma palavra grega ser usada para "primos".


E argumento exegético por argumento exegético, onde se encaixa então o fato de Jesus ter apresentado João à Maria e vice-versa? Com certeza ambos se conheciam e não havia necessidade de apresentações formais, principalmente numa situação tão dramática como aquela. A única coisa que podemos entender é que, ali Jesus estava entregando à João, sua mãe, para que ele cuidasse dela, e para que ela não se sentisse só, Jesus apresenta a ela o seu "apóstolo amado". Mas qual seria o próposito disso se Maria já tinha outros filhos e um esposo? Aliás onde estão os irmãos de Jesus quando o mesmo está sendo crucificado? Se caso existiram, que espécies de irmãos eram esses que não compareceram em solidariedade num momento de tanta dor? A Bíblia não diz, a única coisa que a Bíblia nos deixa entender nesse momento é que Maria e João estavam sozinhos à essa altura da vida, por isso que a atitude de Jesus foi necessária. 

Em termos de ética, prefiro ficar com a posição que preserve a integridade de alguém tão importante para a fé cristã quanto foi Maria, do que me empenhar no trabalho de tentar denegrir à sua imagem. Aí você me pergunta:"Como que um esposo ter relações com sua esposa é denegrir a imagem de alguém?". Via de regra não é, mas se somos considerados templos do Espírito Santo e por isso devemos ter uma vida santa(separada), uma convicção muito mais forte(ao meu ver) ficaria no coração de Maria de querer fazer daquela experiência a única. E se José à apoiou no primeiro momento, não teria "porquê" depois ele não a apoiar. Pois aquilo que os unia era algo muito mais elevado que isso. Era o casamento e não apenas uma união carnal. Tão banalizada no mundo hoje, dentro e fora da igreja.

No meio evangélico, por exemplo, casais noivam do dia para noite e adiantam casamento porque não conseguiram manter a sua castidade enquanto casal, sem falar nos casais que casam exclusivamente porque querem manter relações sexuais, esse fenômeno pode ser verificado conferindo a idade média desses casais que variam entre 18 a 22 anos, e fazem isso para tentar encobrir o fato. E no meio evangélico ninguém diz nada à respeito e acha tudo normal.

Ao meu ver é uma grave violação à santidade e importância do casamento.

No entanto, esses mesmos evangélicos não poupam esforços pseudo-exegéticos argumentativos para afirmar a não-perenidade da virgindade de Maria. Fazendo isso, coloco em cheque sem nenhuma dúvida se realmente essas pessoas são seguidoras de Cristo, pois como alguém pode se dizer seguidora de Cristo e ao mesmo tempo se esforçar no papel de denegrir a imagem Daquela que foi escolhida por Deus para que o Seu Filho viesse ao mundo?

3 comentários:

Roger disse...

Belo texto, Lucas,

interessante sua abordagem tendo em vista nosso contexto que vivemos no maior país católico do mundo.

Dando meus pitacos, penso o seguinte é interessante notar que os países de lingua espânica se referem a Maria como, la Virgem.

Uma outra exegese que me leva a crer em seu argumento é que após a morte de Jesus, Maria foi morar com Joâo, ou seja o natural seria ir para a casa de um outro suposto filho... logo...

A questão da virgindade até no matrimônio, embora seja para nossa sociedade difícil de entender, pode ser bem factual se compararmos com um Gandhi que fez voto de castidade no casamento por questões espirituais. Eu particularmente não creio nisso. Mas como você disse também não vejo a necessidade de advogar o contrário. Afinal de contas o que se ganha com isso?

Parabéns e obrigado por sua colaboração aqui!

Abraços fraternos,

Roger

TESTEMUNHOS DE FÉ disse...

LUCAS,
MEUS CALOROSOS CUMPRIMENTOS! Você foi iluminado por Deus para produzir esta mensagem. Disto não tenho a menor dúvida.Preciso, conciso, clareza e excelente fundamentação bíblica. Fiquei muitíssimo emocionado ao fazer esta leitura vinda de você, um novo teólogo de que muito nos orgulhamos! Parabéns! MAS PARABÉNS MESMO!(Ela já está reproduzida no meu site http://br.geocities.com/aufenet

TESTEMUNHOS DE FÉ disse...

LUCAS,
Meus calorosos cumprimentos! Você foi iluminado por Deus para produzir este texto. Profundo, conciso,preciso, claro e pertinente. Nunca li algo ecumênico que fosse tão simples e profundo na abordagem desta questão de intrigante polêmica religiosa. Os caminhos de nossa fé necessitam de teólogos com esta isenção, equilíbrio e profundidade. Como novo teólogo de você nos enche de alegria nesta caminhada da fé. Parabéns! MAS PARABÉNSMESMO! PS-Tomei a liberdade de transcrevê-la no meu site e enviar por email para todos os meus contatos. Sites: http://br.geocities.br.aufenet
http://www.profaugusto.xpg.com.br