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domingo, 29 de novembro de 2009

Respondendo ao Ari: 2 ou 3, onde?

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Dentre os paladinos da igreja, Ari talvez seja o mais estrênuo deles. Foi Tuco Egg (Segunda onda) quem me despertou para o fato de que existem tais paladinos na chamada ala progressista do movimento evangélico e que eles descartam a possibilidade de um "plano B" divino, pelo menos, em se tratando da igreja.

Não estou aqui querendo fazer crítica transversal ou alpinismo com o nome de ninguém. Como já disse há um ano atrás, há certos temas sobre os quais eu preferiria simplesmente teologizar e não ter que vivenciá-los na pele. O plano B para a igreja é um deles.

Estou com Tuco quando ele afirma:

Mas ainda penso que o melhor que temos a fazer é permitir que o barco da formalidade afunde com todos aqueles que amam o barco e não o vento, nem o mar.

Mas pensemos um pouco neste outro argumento do Ari, publicado aqui: "o lugar, onde 2 ou 3 se reúnem é na igreja em torno da ceia do Senhor".

Definitivamente esse argumento diz muita coisa, se não tudo, do que é a igreja institucional. Nas palavras de Ari: "Isso é formalização: tem hora, tem maneira e tem lugar. E é seríssima…" . Só que eu acrescentaria a essa formalidade algumas outras que se tornaram monopólio do sacerdócio eclesiástico, são os chamados sacramentos, como o batismo, o matrimônio, a ordenação e todo tipo de oração "mágica", como para um enfermo, desempregado ou na hora de um funeral. Quem determina afinal de contas a hora, o lugar e principalmente a maneira? Quem detém o Know How? Esta é a dominação da lógica gerencial.

E aqui temos uma variedade de maneiras dentro e fora da igreja, dentro e fora do cristianismo, dentro e fora da religião. O problema é que existe uma guerra institucional (às vezes declarada, às vezes não) para se determinar quem é que detém a fórmula correta.

Para responder a questão do "como", Deus em sua imensa sabedoria nos deixou dois parâmetros claros e confiáveis, a Bíblia e seu próprio espírito, que é Ele mesmo. A Bíblia é de fato confiável (na maioria das vezes), mas não as interpretações humanas e falhas que fazemos, todos sem exceção, dela. Resta então o Espírito.

Houve uma época que Ele, o Espírito, se valeu de formalismos, de uma estrutura, deixou até mesmo que suas palavras fossem escritas em tábuas de pedra. Mas no tempo presente por razões não muito ortodoxas, ou talvez por simples transgressão, ou pela paixão pela liberdade ele resolveu escrever nos corações humanos. Então não é necessário que ninguém ensine ninguém, basta cada um checar seu próprio coração. Não há necessidade de monopólio e transmissão de Know How.

Por isto existem pelo menos dois versículos na Bíblia ou talvez três que de tão utópicos me desafiam para vê-los cumpridos em nossos dias:

  1. O que fazeis pois quando vos reunis? Todos tem…
  2. Um ou dois profetizem e os outros julguem
  3. Uns para apóstolos, outros para evangelistas, profetas, pastores e mestres.

Descentralizando a tomada de decisão, democratizando o direito à palavra, a estrutura de poder tende a desmoronar e com ela toda a parafernália física. Então abre-se caminho para o cumprimento do sonho coletivo, daqueles que ainda tem coragem para sonhar, "todos tinham tudo em comum e ninguém passava necessidade". Pois comunhão, Koynonia, vai bem além da ceia. Mas enquanto os recursos estiverem comprometidos com a estrutura física e organizacional não sobrará muito para os necessitados, que é a razão de ser da igreja nesse mundo, o próprio "Plano A".

Se o "como" for resolvido permanece então a pergunta, onde?

Jesus, o herdeiro dos negócios do Pai, deixou algumas pistas, quanto ao lugar:

  • Onde? Não é relevante, mas será em espírito e em verdade
  • Onde? No templo, que é o corpo, pois Deus não habita em templo feito pelas mãos de homens
  • Onde? Embaixo de uma figueira, num barco, num monte, na praia, na mesa com pecadores
  • Onde? Numa sinagoga, num templo, num jardim, numa cruz

Você obviamente está agora, se é que conseguiu chegar até aqui passando por cada linha do texto com atenção e sem pressa, a perguntar: quem? Quem são os 2 ou 3 ou mais? Já que "onde" não é relevante, "o como" é livre, poderia eu então me reunir com qualquer um?

E aqui está a seriedade da santa ceia, bem lembrada por Ari, a morte prematura, que está justamente ligada ao discernir do "quem", do corpo de Cristo, que é a sua igreja.

Minha curta experiência destes poucos meses "sem igreja" tem me mostrado que quanto menos apego ao barco, quanto mais amor pelo vento e pelo mar, mais abrangente se torna a igreja e ao mesmo tempo, paradoxalmente, mais seletiva.

5 comentários:

Graça disse...

Roger, suas reflexões têm sido bem profundas e relevantes. Concordo em quase tudo com você. O que discordo é usar um rótulo que estigmatiza mais que alerta. Até 2005, Ari era um valente defensor (talvez a única voz) de uma igreja livre. Questionava essa "briga de estancieiros", defendia a igreja de dois ou três que se movia ao vento, sem saber aonde ia. As pessoas mudam. Ele mudou. O que provocou isso, eu não sei. Mas agora parece congelado nas idéias que não têm a ver com ele, talvez por isso essa sensação sua e minha também. Eu oro, torço e cutuco ele para voltar ao ponto. É uma grande voz, com uma mente brilhante! Esse Ari...

Graça disse...

Olha a prova do que eu disse acima

http://www.videogospelbr.com/watch/08345f7439f8ffabdffc/Ariovaldo%20Ramos%20no%20Congresso%20Brasileiro%20de%20Missoes%20em%202005
Por que esse cara mudou?

Roger disse...

É, Graça, houve uma mundança mesmo. Há semelhanças da palestra dele de 2005 com esse texto meu.
Um grande abraço e obrigado pelas visitas!

Rubinho Osório disse...

Irretocável!!!
Quem disse que um dia eu não teria um "mas" pra colocar no teu texto, hein?
Mas... não se acostume!!!

Rubinho Osório disse...

Vou dar uma olhada no Ari...