Páginas

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Conheceria Deus o futuro? (16)

180px-Jean_Calvin[1] Chamamos predestinação o eterno decreto de Deus pelo qual houve por bem determinar o que acerca de cada homem quis que acontecesse. Pois ele não quis criar a todos em igual condição; ao contrário, preordenou a uns a vida eterna; a outros, a condenação eterna. Portanto, como cada um foi criado para um ou outro desses dois destinos, assim dizemos que um foi predestinado ou para a vida, ou para a morte. (Calvino)

Ainda que minha ou sua Bíblia omitisse um versículo onde fosse, de forma tão clara e tão contundente, declarado que a vontade de Deus é que todos homens sejam salvos, assim mesmo, eu e você saberíamos e creríamos cega e obstinadamente nisso. Foi justamente essa a expressão maior de toda a vida do carpinteiro que viveu na Galiléia dos gentios, concordando assim absolutamente com o caráter do Deus bom, agradável e perfeito, que ele mesmo em aramaico chamava de papai.

Nisso não há novidade alguma, afinal esse foi o propósito de Deus enviar Jesus, não para julgar (condenar) o homem (humanidade) mas para salvá-lo.

Desta maneira torna-se também impossível (uma vez que já era desnecessário) conciliar a afirmação bíblica com a supra citada de Calvino, que diz ser o querer divino criar homens para a perdição.

A meu entender, Deus, de forma alguma, se veria frente a duas vontades conflitantes, como se afirma, e teria assim que optar por seu desejo de glória – a qual se revelaria no juízo de pecadores, algo como que uma demonstração de poder e autoridade. Não, Deus não é de forma nenhuma esse monstro! A glória de Deus está justamente em sua fraqueza para salvar pecadores, e quantos mais se convertem a Ele, mais glória.

Calvino argumenta que a predestinação seria necessária para que a salvação se faça mediante a graça e não segundo as obras. Aliás, Calvino cerca essa doutrina com um tão sensível campo minado, que caso alguém ousar escapar dela corre o sério risco de, por essa mesma razão, não fazer parte do seleto grupo de eleitos.

O versículo bíblico que alicerça essa ruína teológica está em Romanos 9:16:

"Portanto, isso não depende do desejo ou do esforço humano, mas da misericórdia de Deus."

Me parece que essa passagem é muitas vezes mal interpretada.

De que dependeria então a salvação? Qual a sua causa? Se a causa está no homem, seria uma questão de merecimento, mas se está em Deus, seria mera graça. E nessa passagem fica claro que a causa primeira da salvação está em Deus, em sua misericórdia. Mas será que Deus não tem misericórdia de todos?

Dois capítulos adiante Paulo mesmo irá afirmar no versículo 32:

Pois Deus colocou todos sob a desobediência, para exercer misericórdia para com todos.

Deus é Deus de misericórdia e ele quer exercer misericórdia para com todos os homens assim como que ele quer que todos sejam salvos, independente do que signifique o "todos" no versículo acima.

Mas será que a misericórdia de Deus dependeria só de um desejo soberano e arbitrário divino?

A própria Bíblia mais uma vez nos aponta o caminho para resposta, em certa passagem ela diz que "aquele que encobre suas transgressões nunca prosperará, mas aquele que as confessa e deixa alcançará misericórdia". Isso está também de acordo com passagens que afirmam que Deus dá graça aos humildes. Ou seja, existe evidentemente o lado humano, não que cause a misericórdia divina, mas que a alcança. Nesse caso, a vontade humana se afina com a vontade divina:

"a um coração humilhado e contrito Tu não desprezarás"; e

"todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo".

É evidente porém que essa humildade, essa confissão e abandono do pecado, não dependem inteiramente do desejo e do esforço humanos. Por outro lado também, Deus não poderia provocá-las nos homens. O Espírito Santo convence, e até mesmo contende com o homem (mas não para sempre), e nunca jamais o forçará, nem determinará (provocará) sua decisão.

"não por força nem por violência, mas pelo meu Espírito, diz o Senhor dos exércitos".

Sobre esse aspecto a Bíblia é por demais clara, não são as ameaças ou os açoites nem mesmo a dor que nos levam ao arrependimento: "A bondade de Deus que nos conduz ao arrependimento". Deus não nos predestina ao arrependimento, ele não nos induz, não nos força, ele nos conduz. O dicionário Aurélio fornece uma definição precisa e rica para o verbo conduzir, que traz clareza ao sentido dos papéis divinos e humanos na conversão:

Ir na companhia de, guiando, orientando, e/ou em sinal de respeito, ou de cortesia; levar: A criança conduzia o cego.

Como uma criança que conduz um cego. Como cegos, vamos com nossas próprias pernas e forças, mas temos Deus nos segurando a mão. A cada passo sente-se a misericórdia que se condiciona somente à sinceridade de um coração contrito.

Por isso Romanos 11:32 está corretíssimo, não depende nem do querer nem do esforço do pecador. Muito pelo contrário, depende sim de sua total rendição. O esforço é convertido em fraqueza e quebrantamento, o próprio querer é convertido em abnegação e pelo deixar-se levar.

Por isso Romanos 11:32 não exclui absolutamente o querer nem o esforço humanos, só afirma que a salvação não dependerá primordialmente deles. Apenas reforça a idéia de que se não fosse a misericórdia divina o querer e esforços humanos seriam em vão; ou em outras palavras, o homem pode querer e até mesmo se esforçar para ser salvo, mas se não alcançar a misericórdia divina, não adianta de nada. Se seu esforço e querer não redundarem num arrependimento sincero, que precisamente significa a rendição de seu querer e esforço próprio, tudo será em vão.

Foi Cristo mesmo quem afirmou de forma paradoxal:

Porque o que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á, mas o que perder a sua vida por amor de mim e do Evangelho, salvá-la-á.

Notemos que Jesus não afirma ser necessário querer perder, mas sim a ação de perdê-la (querendo ou não) é que produz o resultado. Ao contrário, na perdição da primeira afirmativa, o querer desempenha o papel determinante. Quem está preocupado em salvar sua vida irá perdê-la. Simplesmente querer salvar a própria vida pode ter raízes por demais egoístas. Por isso não depende de quem quer.

Na salvação a escolha ou arbítrio humano não deriva de uma ação, necessariamente lógica, nem de sua vontade (querer), mas vem necessariamente da fé. Ele está perdido, logicamente a salvação seria melhor que a perdição, ele poderia porém ver-se ou não perdido e necessitado de ajuda. Se quiser ser salvo e se esforçar para isso, perder-se-ia, mas se, escolher clamar (a Deus) por socorro, em um simples ato de fé, (e isso se dá de várias e diferentes formas, em várias e diferentes situações e períodos de vida) será salvo.

O quer viria antes então, a fé ou a escolha humana? Não poderia ambas virem juntas? Não seria o ato de fé, já uma escolha moral, como alguém que escolhe dar ou não crédito a determinado indivíduo?

Essa atitude deixa transparecer tanto a fé como as obras da pessoa. Como ensinou são Tiago:

"uma pessoa é justificada por obras, e não apenas pela fé."

E nisso a escolha humana, visto que somos agentes e temos uma escolha, desempenha um papel fundamental e não a (pré) escolha divina. Uma vez que Esse já escolheu, por si, que todos sejam salvos, será agora a escolha do indivíduo que determinará seu próprio futuro.

Essa liberdade de escolha nunca foi tirada ou perdida pelo homem. Tanto antes da queda, lhe era possível escolher comer ou não do fruto da árvore da vida, como após a queda lhe foi ainda possível. Tanto antes da conversão, como após a conversão o homem continua livre para escolher se alimentar ou não da Vida. Por que a Vida é o próprio Deus, é Cristo, é o Logos, presente, entre nós.

Leia também:

O que penso da predestinação (ou respondendo Clóvis – 2)
Conheceria Deus o futuro? (parte 3)

5 comentários:

Rubinho Osório disse...

Roger, vc cutuca aí, eu retruco daqui:
Uma das maiores injustiças que se fazem com Calvino é pretender que ser calvinista seja aceitar como correto tudo que ele escreveu - e olha que ele escreveu muuuito!
Calvino errou! Pronto! Disse o impensável! Lógico que errou! E muito! Ser calvinista não é crer na inerrância de Calvino - já imaginou ele ouvindo isso? - mas crer que muito do que ele escreveu e pregou tem fundamento e corresponde a uma interpretação adequada da Bíblia.
De qualquer forma, acho correto examinar suas ideias e critica-las: afinal, tem 400 anos! Discordar de Calvino agora em nada diminui a estatura do grande homem que ele - sem dúvida - foi.
Quanto ao "futuro", continuo sem saber porque Deus não o conheceria... a possível correção ou incorreção da "teoria da predestinação" em nada altera a ideia, simples, na verdade, que Deus conhece o futuro.
Falei demais.

Roger disse...

Rubinho,
custou...
demorou 16 postagens para conseguir arrancar sua confissão de fé!

Rubinho Osório disse...

Que "confissão"???
Isto não é confessionário e confesso que não confessei nada!!!

Alice disse...

Mandou bem...muito bem !!!!


super beijo pra vcs

Eduardo Medeiros disse...

Os Calvinistas radicais interpretam a palavra "todos" como todos os escolhidos por deus.

Um deus que determina uns para a morte e outros para a vida é um deus déspota, ditador, cruel, ou mesmo "soberano" como gostam de dizer. Aliás, não sei como deus seria soberano, visto que soberano é uma designação humana para rei ou para qualquer autoridade com plenos poderes.

Creio que essas imagens humanas que pomos em deus são atualmente anacrônicas e ineficazes.

Mas o deus que fica mendigando que o homem o aceite, creia nele, louve a ele, também é, ao meu ver, um deus menor, carente, que sofre de solidão.

Logo, precisamos repensar por completo as nossas teologias e o conceito de deus.

abraços