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quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

A sacanagem messiânica

Consiste em que, se um dia alguém, para ajudar um faminto, sedento, doente, preso, estrangeiro ou nu, se aproximou dele de cima para baixo, achando-se ele mesmo o messias, esse não O achará.

Por outro lado, aqueles que, para ajudar, se aproximaram de um faminto, sedento, doente, preso, estrangeiro ou nu, despretensiosamente, de baixo para cima, O acharão, sem nem saber ou procurar.

Curiosamente o Messias estará na pele do necessitado e não na do caridoso, na do fraco e não na do forte, na do salvado e não na do salvador (Mt 25:35).

sábado, 27 de agosto de 2011

Sobre a soberania e missões

Há 13 anos deixei o Brasil para ser missionário em uma Europa, dita, pós-cristã. Hoje meus conceitos mudaram: Missão? Pós-cristã? Islã? Igreja?

Sim, estou convicto, são crises pertinentes ao modelo messiânico, empreendedor e proselitista que abraçamos no passado. Não estou só nesta minha angústia.

Para o velho modelo só encontro saída (ou demanda) lógica, frente ao imigrante islâmico. Mas não seria só uma perpetuação do modelo, além de ser uma dura pedreira?

A alternativa apontada pelo sábio é a promoção da vida para além do modelo catequético, que viu num Centurião homem de enorme fé. Seria então esse nosso desafio no diálogo interreligioso?

Os ares brasileiros se diferem radicalmente dos ares europeus: No Brasil o turnover religioso é enorme, por isso a dinâmica da fé tende a ser mais aquecida, contudo mais efêmera. Na Alemanha a euforia é menor, a fé torna-se inerte, estática, porém mais sólida e substancial. Em uma outra ocasião gostaria de exemplificar isso.

Basta agora lembrar que a fé baseada no determinismo nos faz crer que Deus para tudo tem um plano hermético e detalhado. Toda boa surpresa deste divino destino parece corresponder a uma providência divina, afinal Deus é o o Jeová Jiré, o Deus da provisão.

Todo esse edifício teológico se desmorona entretanto quando as surpresas são desagradáveis. Jó, que viu seus filhos sucumbindo em uma catástrofe, não anda de mãos dadas com Abraão, que teve seu filho restituído das cinzas.

Europeus, acostumados a guerras e catástrofes, onde a fé e a cruz, desde os primórdios andaram abraçadas com a espada, não se iludem mais com um Deus soberano aos moldes gregos. Eles se sabem donos de seu próprio destino. Essa é certamente uma das razões porque o modelo ufanista Americano nunca achou solo fértil no velho continente. E nem achará.

Mais uma vez o sábio destaca que é preciso notar que a inércia religiosa europeia não é fruto da teologia que adotou mas dos movimentos sociais que a promove – materialismo. Portanto, no projeto protestante que autonomiza os indivíduos também existem perigos. E um dos perigos vem do consumismo materialista.

Sei que os desafios missionários na Europa são muitos. Não estão nem longe de serem transpostos. Agora faz-se necessário, porém, detectar quais variáveis que podem contribuir ou obstruir a expansão do Reino aqui.

Sei que Deus está no controle, mas sei mais ainda que Ele não nos trará de bandeja um modelo pronto, uma receita de bolo. A Bíblia não revelará nada de novo sobre o assunto. Em sua santa soberania Ele, Jesus, nos convida a desenvolvermos o novo juntos: o modelo do momento. Um modelo que é eficaz, mas frágil. Que é efetivo, mas passageiro. Que não é uma fórmula mágica, infalível e eterna, mas que seja Vida e a vida em si mesma.

Evidentemente a peteca está em suas mãos; ou, terrivelmente, nas minhas…

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Ou Deus é onipotente ou onisciente

Salvo engano, foi em aula de religião na escola primária que estes atributos divinos foram-me pela primeira vez transmitidos. Deus é onipotente, onipresente e onisciente.

Ajudou-me por algum tempo, mas hoje os deixo repousar em algum lugar na estante de minha história pedagógica; assim como fiz com certos conceitos matemáticos, linguísticos, e etc.

No fundo o conceito de onipotência, embarca os outros dois. Quem pode tudo, pode estar em todos os lugares ao mesmo tempo, e pode saber tudo também. Resumindo a história, os atributos de Deus deveriam ser somente um: onipotente. Mas há controvérsias.

Todos nós, com um mínimo de conhecimento bíblico, iremos lembrar que “é impossível que Deus minta” ou que “Ele não pode negar-se a si mesmo”. Sim há coisas, e por sinal um punhado delas, que Deus não pode. Mentir, por exemplo, algo que nós, pobres mortais, fazemos às vezes instantaneamente, corriqueiramente e sem muito esforço; ou mesmo qualquer e toda classe daquilo que chamamos pecado. Deus não pode nada disso. Não pode assassinar, nem roubar, Deus não pode cobiçar.

Claro que você pode apelar para os verbos modais, e dizer que Deus pode, mas não quer. Ele pode mentir, mas não deve. Assim não o fará.

Isso só nos desvia um pouco da rota, mas no final nos levará ao mesmo destino. Deus não pode TUDO. Ele tem seus limites, ainda que impostos e guardados por Ele mesmo.

Alguém já explicou que Deus não poderia também fazer coisas absurdas como um círculo quadrado. O argumento é bom e digno de credibilidade, ainda que eu mesmo suspeite que não com muita criatividade e não com muita malandragem Deus seria capaz disso. Assim como Colombo foi capaz de colocar o ovo em pé.

Também o que agora me ocorre, é que se pensarmos num Deus onipresente, não podemos falar de um Deus que possa ocupar um só lugar no tempo e no espaço. Deus então não poderia deixar de ser onipresente1.

(Ness altura, ou antes dela, o paciente leitor dirá que Deus não pode ser explicado e ponto. Essa discussão seria vã… Mas espere um pouco, estou tentando aqui nem tanto explicar Deus ou dizer o que Ele seja, mas antes pelo contrário, a desconstruir o que dizemos tão frequentemente que Ele é, e tido como óbvio: onipotente).

Ou Deus é onipotente ou onisciente. E você há de concordar comigo, a não ser que você seja adepto do panteísmo.

Se ele já sabe tudo o que vai acontecer, e tem tudo planejado, e fechado, Ele não pode nada! Está preso a um plano, atado, refém de seu próprio plano. Um plano feito num passado remoto, onde só existiria Deus e o seu plano. Deus não é Deus, o plano é Deus!

Mas se Deus é capaz de fazer tudo e para Ele não existe impossíveis, é então capaz de fazer coisas novas, de criar! De fazer coisas inimagináveis, jamais planejadas ou sequer pensadas. Deus é o onipotente! Não está preso a um plano, Deus é criativo, Deus está livre. Mas obviamente perde em conhecimento, não poderá conhecer tão bem o futuro, Deus não seria onisciente.

Como, evidentemente, nem um extremo nem o outro é correto, parece então ser logicamente também verdade que: Deus soberanamente decidiu abrir mão de parte de sua onipotência e onisciência ao criar seres livres como Ele.

1Se começarmos aqui a pensar em Deus como três pessoas distintas em uma só, e dizer que Jesus não era onipresente, embora sendo Deus, resolveremos parte do paradoxo, mas criaremos outros, relativo à trindade, talvez assunto para um outro Post.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

O pecado que não tem perdão (2)

Um amigo questionou-me sobre a legitimidade da hermenêutica do meu último Post (O pecado que não tem perdão). Entendo seu zelo, embora não seja mais partidário de tão rígida escola. Aliás este é o ponto central do texto: a necessidade de deixarmos a rigidez de nossas próprias regras.

“Muitos preferem um inferno conhecido do que um paraíso duvidoso”. Twitou providencialmente há poucos minutos Carpinejar, e ele tem toda razão. O paraíso será inevitavelmente algo duvidoso e desconhecido, em contrapartida o inferno é um velho conhecido desse nosso mundo. O que nos impede então de darmos o tal passo, o salto, rumo ao desconhecido, ao paraíso?

Pois bem, embora prefira, a todo custo, evitar o apego demasiado a versículos bíblicos, e mais ainda a penalizar algum leitor (e também você meu amigo) com textos longos, tentarei me aventurar a um exame um pouco mais detalhado dos textos citados no Post anterior.

Vamos primeiro a parábola:

“Qual de vocês que, tendo um servo que esteja arando ou cuidando das ovelhas, lhe dirá, quando ele chegar do campo: ‘Venha agora e sente-se para comer’? Ao contrário, não dirá: ‘Prepare o meu jantar, apronte-se e sirva-me enquanto como e bebo; depois disso você pode comer e beber’? Será que ele agradecerá ao servo por ter feito o que lhe foi ordenado? Assim também vocês, quando tiverem feito tudo o que lhes for ordenado, devem dizer: ‘Somos servos inúteis; apenas cumprimos o nosso dever’ ”. – Lc 17:7-10

Um exame superficial nos levará a exaltar a obediência e a humildade: o modo imperativo dos verbos, a voz de comando do senhor exige obediência por parte do servo; além de obedecer o servo deverá se rebaixar, reconhecendo seu lugar, enxergando-se inútil.

Se porém adentrarmos em pontos abertos que o texto nos deixa poderemos enxergar outra realidade. Aqui são eles:

  1. Por que afinal de contas seria o servo inútil se cumpriu todo seu útil dever?
  2. Se Jesus chama seus discípulos de amigo por que estaria agora colocando-os como servos, e servos inúteis?
  3. Qual afinal o contexto imediato dessa parábola e quais temas a ela se relaciona?

Veremos que no início do capítulo 17 Jesus está falando de alguns temas desconfortáveis: os escândalos, a necessidade de perdão e o exercício miraculoso da fé. Teria esses temas algo a ver com a parábola que ele em seguida conta?

No meu entender sim. Vejo esses temas em uma perfeita cadeia lógica.

Partindo do perigo ou gravidade do dano causado pelos escândalos que, segundo Jesus, serão inevitáveis, Ele deixa um alerta e um mecanismo imunológico para que esse mal não ataque os discípulos. O alerta é bem claro, seria melhor que tal pessoa, que traz escândalos, fosse antes morta. O mecanismo imunológico está na necessidade de relacionamentos autênticos com confrontação do pecado, arrependimento, e perdão. Não importando quantas vezes esse ciclo se repita, quantas vezes tenha que se perdoar em um só dia.

Diante de tamanha generosidade, a reação imediata dos discípulos é: haja fé!

Sem fé, sem a crença (até mesmo ilógica) na graça, redenção e etc., seria impossível tal liberalidade. Tal fé porém não precisa ser grande, ou explicável, mas precisa somente ser praticada. Ainda que pequena, surtirá efeito como uma semente.

Daí partimos para o encadeamento lógico da parábola: se cumprirmos apenas nosso dever seremos servos inúteis.

Desde Abraão Deus revela-nos que quer amigos, e não servos. Ele quer alguém com quem se relacionar de igual para igual e não alguém em quem mandar e controlar. Essa é a ênfase também dada por Jesus, “os amigos sabem o que fazem o seu senhor”, eles participam da vida, do coração, dos sentimentos do senhor, eles se tornam amigos.

Mas se o senhor não nos chama a mesa, e nos manda cumprir nossos deveres, como adentrar à sua intimidade?

Eis o desafio da fé, a necessidade do salto!

Ante a esse desafio também se viram judeus acostumados com a Torá, se viram gregos presos à lógica. Nosso problema hoje é que amarramos a lógica à Torá e não conseguimos abraçar a escandalosa loucura da cruz. Estamos presos aos deveres e ficamos só neles.

A Palavra de Deus, todavia, que produz fé (ainda que do tamanho de um grão de mostarda) não nos dá uma lista de deveres, não nos chama à obediência, mas nos convida cavalheirescamente ao “algo mais”, ao inédito.

Foi sua fé, que levou Raabe a abrigar os espias. Não um ato de obediência, mas uma possibilidade inédita de preservar sua vida. Uma chance de trocar um inferno conhecido por um paraíso duvidoso.

O mesmo fez Abraão ao trazer Isaac a Moriá. Ele não estava ali obedecendo uma ordem divina. Em última instância, ele estava adorando seu Deus, de uma forma até comum naquela época, com o sacrifício de seu filho – o qual ele sabia, por fé, uma certa certeza em “algo mais”, que até mesmo das cinzas Isaac poderia ressurgir.

Tanto Raabe, Abraão, Moisés, Paulo e todos os outros que temos como exemplo cumpririam seu dever em ficar quietos em seu mundo, em fazer tudo que lhes era ordenado. E todos seriam sem nenhuma utilidade para Deus ou para nós hoje. Mas eles foram além. Eles sentaram-se à mesa do seu senhor.

(Continua…)

Leia também: O pecado que não tem perdão (1)

domingo, 28 de novembro de 2010

Quebrando as algemas deterministas

Será que a controvérsia é necessária? Será que a verdade do Evangelho estaria em jogo?

Determinismo - Relação entre os fenômenos pela qual estes se acham ligados de modo tão rigoroso que, a um dado momento, todo fenômeno está completamente condicionado pelos que o precedem e acompanham, e condiciona com o mesmo rigor os que lhe sucedem.

Se o fenômeno que condiciona a salvação ou perdição é a vontade, conselho, ou como queiram, ação de Deus. Nesse sentido é o determinismo que está por trás da salvação ou perdição de alguém.

Eu estou entre os que não acredita em pleno determinismo. Deus não pode conhecer o que não existe, e ainda que pudesse, Ele não se ocuparia por isso.

Obviamente existe uma cadeia de fenômenos que determina toda a nossa vida, e a vontade de Deus permeia cada elo dessa cadeia como uma das mais poderosas e singulares forças. Em certo momento de nossa existência, porém, nossa própria vontade passa a desempenhar papel central.

E é da própria vontade de Deus que seja assim.

Eu diria que quanto mais de Deus o homem experimenta, mais autonomia ele terá.

Como provar isso nas escrituras?

Não sei. Se você lê as escrituras com os olhos deterministas não haverá versículo que lhe convença do contrário. É como se você estivesse usando óculos vermelhos e me pedisse para te mostrar algo que não tivesse o tom rubro. Impossível!

Volto então as questões de Stott:

Não nos recusaríamos a nos engajar em uma controvérsia necessária, quando a verdade do evangelho estivesse em jogo.

A bem da verdade, o Evangelho não dependerá desse ponto. O qual porém poderá ajudar muito alguém a mover-se voluntariamente em direção ao amor de Deus. A sair de uma atitude passiva e ser mais proativo. Ou para aqueles que já perderam as esperanças, de salvação, e se veem como predestinados ao inferno, se quer pensar em um destino diferente.

É importante tanto para o salvo, como para o não salvo, entender que (em uma certa medida) o homem é “dono” de seu próprio destino. E que nem todas coisas estão fechadas (determinadas); nem mesmo por Deus. Ele mesmo é a principal força capaz de quebrar as algemas do determinismo.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Bem aventurados ou bem sucedidos?

-Roger, pena que as coisas não saíram como você quis… Alguém me falou em uma das minhas últimas idas ao Brasil. Fiquei indignado! Não expliquei meu fracasso. Não argumentei. De certa forma aquela amiga tinha razão e por isso meu embaraço. Mas eu não me sentia um fracassado. Na pior das hipóteses considerava a minha derrota a minha maior vitória, e de certa forma esse havia sido o plano. Mas será mesmo que havia sido tudo planejado assim?

Eu deixara o Brasil em 1998. Já estava quase uma década na Europa. Nesse tempo tinha acrescido a meu currículo os cargos de distribuidor de panfletos nas ruas de Londres, faxineiro em Viena, carregador de caminhão e ajudante de pintor na Holanda, lavador de panelas, empacotador de arroz, faxineiro em cinemas e manicômio e finalmente porteiro noturno em um Hotel próximo da estação Vitória. E assim me casei, e com o salário da Tanja, minha esposa, pagávamos as nossas contas. Nos mudamos para a Alemanha.

Aqui a coisa continuou profissionalmente desse jeito: fazedor de sanduíches, garçom no café da manhã de um hotel e finalmente um bico de digitador em uma associação de criadores de cachorro Boxer – foi quando pela primeira vez, após 10 anos de formado em administração de empresas, pude ver novamente um PC na minha frente como objeto de trabalho. As últimas vezes que trabalhei em um computador no Brasil tinham sido quando lecionava em um curso técnico de contabilidade e trabalhava como pesquisador júnior.

Comecei esse assunto, pois queria tocar mais uma vez no tema que tanto tenho dado voltas nesse Blog: Planos divinos, o futuro, a soberania divina, o sinergismo de Deus e seus humanos.

Na verdade a idéia era refazer as perguntas que fiz e não foram publicadas no Blog Púlpito Cristão. O meu amigo Beto, que postou um texto sobre Teísmo Aberto (do Caio Fábio), foi quem pediu para eu conferir a babaquice (desculpem não achei outra palavra) do autor do Púlpito Cristão.

A Teologia Relacional e o Teísmo Aberto (dos quais conheço muito pouco ou nada) foram quem me abriram a perspectiva, até então fechada, de que Deus não conheceria o futuro. NÃO HAVIA UM PLANO!

E se ele todavia tivesse um, o que supostamente escapuliu aos planos de Deus? (Aliás esse era um outro objetivo deste texto agora, tentar articular algo sobre administração, resultados e sucesso em resposta ao Neto).

No fundo, todos esses são temas muito difíceis; e dificilmente conseguiríamos generalizar para encontrarmos princípios universais. A verdade se encontrará na particularidade de cada caso, de cada pessoa.

Ainda que abominemos a Teologia da Prosperidade e lei do toma-lá-da-cá - e a abominamos - é difícil negar que Deus, de alguma forma é galardoador daqueles que o buscam, e que esse galardão pode vir (e vem) muitas vezes de forma material e palpável, assim como de forma abstrata e espiritual. E esse é justamente o ponto, quem pode discernir se determinada conquista ou derrota, perda ou ganho, seja no plano material ou espiritual foi um benefício ou um malefício, uma bênção ou uma maldição?

Existem casos, porém, e não são raros, nos quais o mal é óbvio e evidente. Exemplo bíblico? Jó!

Quando encaramos o mal de frente torna-se muito difícil enxergarmos a Deus em qualquer lugar desse universo. Por isso há uma difícil questão teológica e filosófica: como pode haver um Deus bom e soberano se existe o mal? Para essa pergunta surgem duas respostas:

  1. A primeira, da qual me libertei, dirá tudo é plano de Deus. Ele é soberano. Nós só enxergamos o lado avesso do tapete, de um sábio tapeceiro. Não podemos entender quando um mal nos aflige, e devemos confiar que Deus tem um plano maior. Se José foi quase morto pelos próprios irmãos e vendido como escravo para o Egito é porque Deus queria proteger a família de Jacó da fome que haveria de abater a terra. O problema dessa idéia é que se ela confessa que Deus está sob o controle de tudo, e pode transformar o mal em bem, ela nega que Deus seja onipotente ou que seja benigno, pois Ele não pode (ou não quer) simplesmente valer-se sempre do bem para atingir o bem. De vez em quando, por alguma razão oculta, Deus é tentado a fazer o mal, e o faz, para atingir seus objetivos benignos.
  2. A segunda que me parece mais plausível, é que Deus permanece benigno, Ele jamais se valeu ou valerá do mal. O mal existe por uma questão lógica de liberdade. O mal acontece não porque Deus planejou. Deus é amor, e ainda que haja o mal Ele permanecerá lado a lado do ser humano, o amando. Isso também não significará que Deus deixou de ser soberano, ou onipotente. Não, mas Deus mesmo, se contém, se refreia, para que o homem tenha espaço de ele mesmo, agir, seja para o bem ou para o mal, ou seja ele dá ao homem o que eu chamo simplesmente de “possibilidade de escolha” (afinal só é escolha se for livre) e que comumente é entendido por livre arbítrio. Então alguém poderia dizer: Ah!… então Deus criou o mal para que haja liberdade, um mal para que surja um bem?! – Não! – já respondo – O contrário, ele criou um bem, a liberdade, que implica, necessariamente na possibilidade dos homens (ou anjos) optarem pelo mal.

Na verdade, qualquer pessoa com um pingo de razão chegará a conclusão óbvia de que esta temática esbarra em nossa capacidade de entendimento, e que há um mistério insolúvel por trás disso tudo. O qual poderá, em parte, ser desfeito somente no plano pessoal, ou não.

  • Será que estes defensores da interpretação Bíblica correta não percebem esse limite da razão?
  • Será que eles não percebem que autores chamados de liberais, como Schleiermacher, vieram acrescentar ao pensamento teológico essa virtude de declarar, não “A morte da razão”, mas o seus limites míopes?
  • Será que ao defenderem a interpretação mais fiel das Escrituras, eles estão cientes que Deus não credenciou ninguém, além do Espírito Santo, como o interpretador irrepreensível? E que toda leitura da Bíblia é uma interpretação, e não passará de uma mera interpretação?

Assim dificilmente extrairemos da Bíblia os reais indicadores do sucesso, além daqueles que Jesus mesmo apontou nas “bem aventuranças”. E ali você, dificilmente conseguirá separar o material do espiritual, o terreno do celestial. E pior ainda, não conseguiremos distinguir onde, exatamente, uma bem aventurança aponta um resultado positivo a ser acrescentado ou um um negativo a ser diminuído. Como Paul Tournier certa vez expôs, tudo será um ciclo de receber e dar, dar e receber. E as duas coisas são necessárias e boas quando feitas no momento certo debaixo das motivações certas. Só para dar um exemplo: o misericordioso, só é bem aventurado, quando exerce sua misericórdia de forma íntegra. Não é virtude nenhuma passar a mão na cabeça de todo e qualquer bandido, em nome da misericórdia. Da mesma forma, alcançar misericórdia só será bênção, quando acompanhada do devido arrependimento, caso contrário será mero pretexto para a causa de maiores males pessoais e alheios.

Voltando a minha história, sei que não foi plano de Deus, nem o meu próprio que eu fizesse dívidas em um país estrangeiro, que vivesse tanto tempo longe de minha família e amigos que ficaram no Brasil, que quase jogasse no lixo um diploma universitário que conquistei duramente, que vivesse privações. Minha sorte poderia ter sido outra, mas não foi (pelo menos não naquela época). Por outro lado, tive outros ganhos, e sou grato a Deus por eles. De certa forma, muitos dos ganhos que tive, foram planejados e até mesmo frutos conscientes da trilha amarga que tive que passar. Mas tive também perdas, jamais planejadas, que jamais se compensarão. Os ganhos porém me consolaram e consolam muito por elas.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Eleição: antes de comer consulte o rótulo

bn267044[1] Na verdade eleição sugere-me muito mais o que acontecerá em outubro no Brasil. Ou a batalha pelos votos entre PV, PT, PSDB e etc.

O mesmo vale para comida, que infelizmente ainda é tema de campanha eleitoral e deveria estar na pauta de qualquer governo brasileiro, até que seja banido de uma vez por todas esse crime que é, num país como nosso, campeão em exportações do agronegócio, termos ainda massas de desnutridos.

Mas o tema é outro, teologia. No 5 Solas achei essa citação:

Os que buscam tornar-se crentes poderão argüir: "Se eu não estiver entre os eleitos de Deus, então não importa o quanto eu deseje ser salvo, pois jamais o serei".

Esse pode parecer um argumento plausível, mas na verdade é um grande erro. Deixe-me ilustrar o que quero dizer. Suponhamos que um alimento é repentinamente apresentado a um homem faminto. Teria sentido ele dizer: "Não sei se Deus pretende que eu seja alimentado por este determinado alimento. Por isso, não importa o quanto eu o deseje, não posso comê-lo". Não seria muito mais sensato dizer: "Tenho um forte apetite. O alimento é o meio de satisfazer o meu apetite. Portanto, eu comerei este alimento" - A. Booth.

É engraçado como certas lógicas são tão simplistas. Fiquei pensando se usássemos a mesma linha de raciocínio poderíamos dizer:

  1. O cara não está faminto, tem apenas fome;
  2. Não só um alimento é apresentado a ele, mas vários;
  3. Os alimentos não chegam de forma repentina, mas estão sempre lá.

Então ele não pegará a primeira coisa que aparecer! Assim se o sujeito pensa na hipótese de não estiver entre os eleitos ele poderia simplesmente rejeitar o evangelho e partir para a próxima oferta, seja ela espírita, hinduísta, budista ou qualquer outra coisa que lhe dê mais certezas.

Obviamente se ele se vê entre os eleitos ele "morderá a isca."

Ou…

  1. O cara está mesmo faminto;
  2. Não só um alimento é apresentado a ele, mas vários;
  3. Os alimentos não chegam de forma repentina, mas estão sempre lá.

Então ele pegará a primeira coisa que aparecer! Assim se o sujeito pensa na hipótese de não estiver entre os "eleitos" (seja eleitos aqui entendido como os iluminados de qualquer religião ou seita) ele poderia simplesmente abraçar aquela religião ou seita para deixar-se convencer que está entre os caras, sejam eles testemunhas de Jeová, scientology, Mórmons, cristãos, espíritas, hindus, budista ou qualquer outra coisa que lhe chegue primeiro à mão.

Obviamente se ele se vê entre os "eleitos" ele não "morderá a isca", mas comerá ela com anzol e tudo.

A conclusão para mim é que os que buscam ou não tornar-se crentes poderão argüir: "Se alguém não estiver entre os eleitos de Deus, então não importa o quanto ele deseje ser salvo, pois jamais o será". E correrão o sério risco de estarem certos, dentro dessa lógica da eleição.

Isso sim eu penso ser um grande erro.

Meu ponto é: não se pode jogar toda a responsabilidade da salvação nos braços de Deus. Assim o questionamento é legítimo e até necessário para que se faça uma escolha lógica e movida, se não pela lógica, pelo menos pelos próprios anseios e reflexão.

Booth parte da premissa que a pessoa está faminta. É verdade, conheço muitos casos de pessoas que estavam em crise e abraçaram, então, uma crença religiosa. Eles buscavam algo que transcendesse, fosse além da verdade nua e crua dos seus problemas e assim desse-lhe um sentido para aquele sofrimento. Nem sempre as pessoas escolhem o evangelho, mas elas pegam a primeira coisa que lhe chega às mãos, justamente porque estão famintas.

Mas na maioria dos casos as pessoas abraçam uma crença mesmo sem estarem em crise, ou famintas. Elas também querem algo transcendente, mas não abraçarão a primeira oferta. Elas irão analisar as propostas.

Em ambos os casos a doutrina da eleição poderá jogar a pessoa naquele beco sem saída do fatalismo, "e se eu não estiver entre os eleitos".

Da maneira que entendo e creio faz-se necessário deixar de alguma forma claro para a pessoa que as coisas não estão pré-definidas. Ela mesma decidirá o próprio futuro e ela também tem uma parcela de responsabilidade.

O que nos aborrece é que nem todos, na verdade a minoria, decide-se pelo evangelho, tal qual nós o entendemos. Então é muito fácil e simplista acharmos explicação na eleição, e dizermos que os que crêem de forma diferente da nossa são urubus em busca de carniça. Mas existe muita pomba se alimentando de carniça. Pois a mancha do pecado está em todos os homens. E da mesma forma existe muito "urubu" que rejeita a carniça. Pois o imago dei está também em todos. Enfim, realidade da salvação é mais complexa. Deus pode transformar, a todo e qualquer momento urubus em pombas, ou para ser bíblico até mesmo pedras em filhos de Abraão.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Conheceria Deus o futuro? (16)

180px-Jean_Calvin[1] Chamamos predestinação o eterno decreto de Deus pelo qual houve por bem determinar o que acerca de cada homem quis que acontecesse. Pois ele não quis criar a todos em igual condição; ao contrário, preordenou a uns a vida eterna; a outros, a condenação eterna. Portanto, como cada um foi criado para um ou outro desses dois destinos, assim dizemos que um foi predestinado ou para a vida, ou para a morte. (Calvino)

Ainda que minha ou sua Bíblia omitisse um versículo onde fosse, de forma tão clara e tão contundente, declarado que a vontade de Deus é que todos homens sejam salvos, assim mesmo, eu e você saberíamos e creríamos cega e obstinadamente nisso. Foi justamente essa a expressão maior de toda a vida do carpinteiro que viveu na Galiléia dos gentios, concordando assim absolutamente com o caráter do Deus bom, agradável e perfeito, que ele mesmo em aramaico chamava de papai.

Nisso não há novidade alguma, afinal esse foi o propósito de Deus enviar Jesus, não para julgar (condenar) o homem (humanidade) mas para salvá-lo.

Desta maneira torna-se também impossível (uma vez que já era desnecessário) conciliar a afirmação bíblica com a supra citada de Calvino, que diz ser o querer divino criar homens para a perdição.

A meu entender, Deus, de forma alguma, se veria frente a duas vontades conflitantes, como se afirma, e teria assim que optar por seu desejo de glória – a qual se revelaria no juízo de pecadores, algo como que uma demonstração de poder e autoridade. Não, Deus não é de forma nenhuma esse monstro! A glória de Deus está justamente em sua fraqueza para salvar pecadores, e quantos mais se convertem a Ele, mais glória.

Calvino argumenta que a predestinação seria necessária para que a salvação se faça mediante a graça e não segundo as obras. Aliás, Calvino cerca essa doutrina com um tão sensível campo minado, que caso alguém ousar escapar dela corre o sério risco de, por essa mesma razão, não fazer parte do seleto grupo de eleitos.

O versículo bíblico que alicerça essa ruína teológica está em Romanos 9:16:

"Portanto, isso não depende do desejo ou do esforço humano, mas da misericórdia de Deus."

Me parece que essa passagem é muitas vezes mal interpretada.

De que dependeria então a salvação? Qual a sua causa? Se a causa está no homem, seria uma questão de merecimento, mas se está em Deus, seria mera graça. E nessa passagem fica claro que a causa primeira da salvação está em Deus, em sua misericórdia. Mas será que Deus não tem misericórdia de todos?

Dois capítulos adiante Paulo mesmo irá afirmar no versículo 32:

Pois Deus colocou todos sob a desobediência, para exercer misericórdia para com todos.

Deus é Deus de misericórdia e ele quer exercer misericórdia para com todos os homens assim como que ele quer que todos sejam salvos, independente do que signifique o "todos" no versículo acima.

Mas será que a misericórdia de Deus dependeria só de um desejo soberano e arbitrário divino?

A própria Bíblia mais uma vez nos aponta o caminho para resposta, em certa passagem ela diz que "aquele que encobre suas transgressões nunca prosperará, mas aquele que as confessa e deixa alcançará misericórdia". Isso está também de acordo com passagens que afirmam que Deus dá graça aos humildes. Ou seja, existe evidentemente o lado humano, não que cause a misericórdia divina, mas que a alcança. Nesse caso, a vontade humana se afina com a vontade divina:

"a um coração humilhado e contrito Tu não desprezarás"; e

"todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo".

É evidente porém que essa humildade, essa confissão e abandono do pecado, não dependem inteiramente do desejo e do esforço humanos. Por outro lado também, Deus não poderia provocá-las nos homens. O Espírito Santo convence, e até mesmo contende com o homem (mas não para sempre), e nunca jamais o forçará, nem determinará (provocará) sua decisão.

"não por força nem por violência, mas pelo meu Espírito, diz o Senhor dos exércitos".

Sobre esse aspecto a Bíblia é por demais clara, não são as ameaças ou os açoites nem mesmo a dor que nos levam ao arrependimento: "A bondade de Deus que nos conduz ao arrependimento". Deus não nos predestina ao arrependimento, ele não nos induz, não nos força, ele nos conduz. O dicionário Aurélio fornece uma definição precisa e rica para o verbo conduzir, que traz clareza ao sentido dos papéis divinos e humanos na conversão:

Ir na companhia de, guiando, orientando, e/ou em sinal de respeito, ou de cortesia; levar: A criança conduzia o cego.

Como uma criança que conduz um cego. Como cegos, vamos com nossas próprias pernas e forças, mas temos Deus nos segurando a mão. A cada passo sente-se a misericórdia que se condiciona somente à sinceridade de um coração contrito.

Por isso Romanos 11:32 está corretíssimo, não depende nem do querer nem do esforço do pecador. Muito pelo contrário, depende sim de sua total rendição. O esforço é convertido em fraqueza e quebrantamento, o próprio querer é convertido em abnegação e pelo deixar-se levar.

Por isso Romanos 11:32 não exclui absolutamente o querer nem o esforço humanos, só afirma que a salvação não dependerá primordialmente deles. Apenas reforça a idéia de que se não fosse a misericórdia divina o querer e esforços humanos seriam em vão; ou em outras palavras, o homem pode querer e até mesmo se esforçar para ser salvo, mas se não alcançar a misericórdia divina, não adianta de nada. Se seu esforço e querer não redundarem num arrependimento sincero, que precisamente significa a rendição de seu querer e esforço próprio, tudo será em vão.

Foi Cristo mesmo quem afirmou de forma paradoxal:

Porque o que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á, mas o que perder a sua vida por amor de mim e do Evangelho, salvá-la-á.

Notemos que Jesus não afirma ser necessário querer perder, mas sim a ação de perdê-la (querendo ou não) é que produz o resultado. Ao contrário, na perdição da primeira afirmativa, o querer desempenha o papel determinante. Quem está preocupado em salvar sua vida irá perdê-la. Simplesmente querer salvar a própria vida pode ter raízes por demais egoístas. Por isso não depende de quem quer.

Na salvação a escolha ou arbítrio humano não deriva de uma ação, necessariamente lógica, nem de sua vontade (querer), mas vem necessariamente da fé. Ele está perdido, logicamente a salvação seria melhor que a perdição, ele poderia porém ver-se ou não perdido e necessitado de ajuda. Se quiser ser salvo e se esforçar para isso, perder-se-ia, mas se, escolher clamar (a Deus) por socorro, em um simples ato de fé, (e isso se dá de várias e diferentes formas, em várias e diferentes situações e períodos de vida) será salvo.

O quer viria antes então, a fé ou a escolha humana? Não poderia ambas virem juntas? Não seria o ato de fé, já uma escolha moral, como alguém que escolhe dar ou não crédito a determinado indivíduo?

Essa atitude deixa transparecer tanto a fé como as obras da pessoa. Como ensinou são Tiago:

"uma pessoa é justificada por obras, e não apenas pela fé."

E nisso a escolha humana, visto que somos agentes e temos uma escolha, desempenha um papel fundamental e não a (pré) escolha divina. Uma vez que Esse já escolheu, por si, que todos sejam salvos, será agora a escolha do indivíduo que determinará seu próprio futuro.

Essa liberdade de escolha nunca foi tirada ou perdida pelo homem. Tanto antes da queda, lhe era possível escolher comer ou não do fruto da árvore da vida, como após a queda lhe foi ainda possível. Tanto antes da conversão, como após a conversão o homem continua livre para escolher se alimentar ou não da Vida. Por que a Vida é o próprio Deus, é Cristo, é o Logos, presente, entre nós.

Leia também:

O que penso da predestinação (ou respondendo Clóvis – 2)
Conheceria Deus o futuro? (parte 3)

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Monergismo ou Sinergismo? (6)

k0078181[1] "foi, vendeu tudo o que tinha" (Mt 13:44 e 46)

Se por um lado a parábola do tesouro escondido parte do pressuposto que o acaso ou providência divina leva o homem a praticamente tropeçar em um tesouro de grande valor; já a parábola da pérola, por outro lado, faz do achado o resultado de uma busca diligente. Ambas situações porém convergem para um ponto comum, que é a primeira conseqüência do então precioso achado, o despojar-se.

Ao contrário do que comumente pode-se pensar, frente ao precioso achado, as demais coisas não perdem seu valor, muito antes pelo contrário, elas assumem valor (através da venda) para a aquisição do achado. Em outras palavras tudo aquilo que é de valor para aquele indivíduo será destinado para aquisição de algo mais precioso. Ou ainda, aquilo que possuia valor como fim em si mesmo, agora passa ser meio para se alcançar outro fim mais nobre: a conquista do Reino dos Céus.

Na media que o Reino achega-se a mim sou forçado a abrir mão do que antes me era valoroso para tomar posse de mais parcela do Reino; na medida que eu me achego ao Reino, o mesmo acontece. Não importa se é Deus que se move em minha direção ou se sou eu quem me aproximo, não importa quem mexe a primeira peça no jogo, o resultado é o mesmo: despojamento para adquirir mais desse Deus e seu Reino.

domingo, 24 de janeiro de 2010

Um Deus que entrou no tempo

k0479932[1] "Sou culpado, por que Deus não perdoa? Sou inocente, por que ele não põe fim à angústia e prova minha inocência diante dos meus inimigos? (Sal 38; Sal 44; Sal 79). Uma resposta teórica para todas essas perguntas não existe, nem mesmo no novo testamento. A única resposta verdadeira é: Jesus Cristo.

Essa resposta já era oferecida nos salmos. […] Nós não podemos mais carregá-las, tome você elas [misérias e agressões] e carregue-as você mesmo, só você pode acabar com o sofrimento. […] Jesus Cristo é a única ajuda no sofrimento; pois nele está Deus entre nós.

Por nossa causa ele gritou na cruz: 'Meu Deus, meu Deus, por que você me abandonou?'

Então nós sabemos que não existe mais nenhuma dor sobre a terra, na qual Cristo não esteja ao nosso lado, conosco sofrendo, orando, o único Ajudador."

Dietrich Bonhöffer – em 'Os Salmos'

domingo, 18 de outubro de 2009

Sinergismo ou Monergismo (5)

“O Reino dos Céus é também como um negociante” (Mt 13:45)

Não há como eliminar o sujeito do centro ideológico conceitual do reino proclamado por Jesus, o Ungido.

Por isso ele mesmo ensinou que o Reino de Deus está no meio de vós. E o ensino bíblico é de que Deus faz morada em homens.

Assim Deus e homens estão agindo simultaneamente em uma constante busca.

O negociante está procurando. Deus está procurando. O pai está procurando. A mulher está procurando. A ovelha está procurando. O filho está procurando.

Deus e homem, ambos buscando algo de valor, algo perdido, algo escondido, e raro.

Por isso mesmo, ele é como toda descoberta importante (seja científica, geográfica ou arqueológica) marcada pelo elemento surpresa, pelo acaso, por um golpe da sorte ou do destino. Nele o valor subjetivo do descobridor de desintegra no valor objetivo do achado. Sujeito e objeto se mesclam num novo conceito relacional.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Sinergismo ou Monergismo (4)

Assim é covardia, vocês estão querendo comparar a beleza natural de um parque nacional com a de um jardim doméstico. Não dá! (Me refiro aos comentários de Rubinho e Feitosa no Post anterior).

Esta temática aliás, é um debate que rola em nível mundial na questão de defesa ambiental. Para Europeus uma paisagem ecologicamente correta é aquela onde o campo está bem cuidado e cultivado (não se trata obviamente de monocultura) com algumas áreas de reservas aqui e ali bem monitoradas.

Já para Australianos e Brasileiros o ecologicamente correto e bonito seria a paisagem selvagem, sem a interferência humana.

Mas na postagem anterior não cabe espaço para esse debate!

Façamos então juntos uma análise hermenêutica da parábola (já que vocês estão armando uma arapuca pra mode cair):

  1. O componente estético está bem definido na parábola: o jardim está maravilhoso (seja lá qual seja o gosto do freguês. Um exemplo seria a foto da esquerda).
  2. Antes ele não passava de um lote abandonado, seco, cheio de mato, sem flores, enfim, horrível (algo bem pior que a foto da direita).
  3. A fiel não queria só elogiar o jardim, se não muito mais pregar (como acontece muitas vezes).
  4. A ênfase não está no colocar em cheque a competência divina, nem objetiva provar o “nEle, por Ele, e por meio dEle”.

A moral da história então é:

  1. Deus faz questão de entrar em parceria com o homem para que algo melhor seja produzido.
  2. A ateísta no fundo acreditava em Deus, só não admitia (como de costume)!

*Salvo engano, é claro




Sinergismo ou Monergismo (3)

[fiel convicta] – Seu jardim está muito bonito! Magnífico!
[ateista] – Obrigada. Custou muito trabalho e dedicação.
[fiel convicta] –Não se esqueça que tudo isso é o cuidado de Deus!
[ateista] – Você que não viu como estava, quando só ele cuidava...

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Monergismo ou Sinergismo? (2)

O Reino dos céus é como um tesouro” (Mt 13:44)

A idéia de "valor" tem um papel central nos conceitos transmitidos pelo Cristo. Tanto o tesouro como a pérola vem nos despertar o senso de algo precioso. Quanto vale? É a pergunta que ambas parábolas vem preencher.

Esse Reino está oculto, é algo raro e possuí-lo não é tarefa fácil, por isso algo de muito valor. Não devemos contudo confundir o valor intrínseco do Reino, com aquele representado pelo esforço de trabalho para achá-lo, ou alcançá-lo.

Daí o primeiro paradoxo que o envolve: Tanto graça divina, como o empenho humano operam para que sujeito e objeto se encontrem e seja encontrado. Pois por um lado a descoberta do tesouro é aparentemente fruto de mero acaso ou pura providência divina, mas por outro lado, a descoberta da pérola envolve o esforço humano, em uma busca direcionada e obsessiva.

Isso está de acordo com o ensino vetero-testamentário que afirma, “buscar-me-eis e me achareis, quando me buscardes de todo vosso coração” e contraditoriamente também diz, “fui achado por quem não me procurava”.

Continua…

Leia também: Monergismo ou Sinergismo? (1)

terça-feira, 7 de julho de 2009

Monergismo ou Sinergismo? (1)

Um dos principais movimentos no tabuleiro teológico do jogo da salvação é justamente aquele que define quem dá início à partida.
O dilema apresentado está em que, dando Deus início ao jogo e assim salvando alguns, deixaria transparecer certa maldade ao mostrar-se indiferente em relação aos outros, não salvos.
Por outro lado, caso caiba ao homem o primeiro lance, não poderíamos mais falar em graça, mas sim em mérito.
Ambos extremos são, obviamente, incompatíveis com o Evangelho da cruz de Cristo.
Outra possibilidade que paira no ar é a de que a salvação seria universal. Particularmente não vejo razões nem na Bíblia nem no mundo para crer assim.
O dilema então permaneceria, não fosse nossa disposição em mudar de paradigma. Quando ousamos olhar por outra perspectiva, adotando outros modelos, ele, o dilema, se desfaz facilmente como fumaça no ar.
Jesus, o rabi do primeiro século, é quem nos expõe sua doutrina sobre o assunto. Todo seu ensino é englobado por um grande pacote denominado, por Ele mesmo, "Reino de Deus".
Sob a visão d'O Reino de Deus' pode-se compreender de forma clara os papéis humanos e divinos no processo de salvação e evitar erros doutrinários que causam eventualmente, desvios e transtornos ao desenvolvimento espiritual normal.