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segunda-feira, 24 de outubro de 2011

O messianismo ou o problema da liderança (eclesiástica) - 2

Um dos maiores e mais centrais problemas enfrentados pelo Brasil, durante a ditadura militar, foi com certeza a carência de liderança, em vários setores da sociedade.

Para garantir que estamos todos falando da mesma coisa, coloquemos de lado toda clareza semântica que envolve esse vocábulo tão curioso, líder.

Já de início, sua origem inglesa, leader, depõe contra todo bom sentido que poderíamos emprestar-lhe.

Busquemos, entretanto, no Aurélio significado que se aproxime o máximo do Líder que estamos falando:

1.Indivíduo que chefia, comanda e/ou orienta, em qualquer tipo de ação, empresa ou linha de idéias.
2.
Guia, chefe ou condutor que representa um grupo, uma corrente de opinião, etc.

Cabeças pensantes foram caladas, torturadas, exiladas e mortas nos porões da ditadura militar.

Quando na palestina de sua época, que vivia também uma ditadura militar, Jesus olhou para a multidão e constatou comovido, “são como ovelhas que não tem pastor”, ele não afirmava que eram pessoas sem liderança. Eles tinham sim líderes, e de sobra.

Jesus mesmo veio a comentar sobre pessoas que atavam pesados fardos sobre aquela gente, mas não estavam dispostos a levantá-los nem com um dedo. Ou que havia quem se sentasse na cadeira de Moisés, que deveriam ser ouvidos, mas não imitados. Havia ali líderes, que representassem o grupo ou que propagassem uma linha de idéias.

Assim também no Brasil, de forma geral, e mais especificamente na nascente e crescente igreja evangélica, durante e após a ditadura militar, possuía também seus líderes.

O problema é que tal liderança (com louváveis exceções) estava representando frente a todo um povo um corrente de opinião fadada ao fracasso.

A linha de idéias defendida por tal tipo de liderança, que não deixa de ser uma interpretação da realidade, não condizia em tudo com a própria realidade factual experimentada pelo grupo liderado.

E esse é o âmago do problema vivenciado pela igreja hoje: aqueles que tem o cajado na mão (em sua grande maioria) difundem uma versão oficial e supostamente correta sobre a experiência do grupo - ou até mesmo de indivíduos em particular – sobre sua realidade espiritual, sobre a própria divindade e seu relacionar com os homens  que não condiz, em sua essência, com a verdade, com a própria vida.

Diga-se de passagem que, 90% da vivência eclesiástica formal de hoje, lamentavelmente, gira em torno da divulgação dessa versão, da repetição, em alto e bom som, desse discurso, dessa “pregação” fajuta, falida.

(Continua…)

Leia também:

O messianismo ou o problema da liderança (eclesiástica) – 1

A postura evangélica frente à ditadura militar

Um comentário:

Rubinho Osório disse...

Sua postagem, apesar de ser sobre "liderança", é também sobre interpretação da realidade. E este tema foi abordado de forma muito interessante pelo Nelson Costa Jr. no seu blogue, sob o título "sola escripturae". Veja lá.
É uma sinuca de bico: a realidade que eu vejo é a que eu vejo e não exatamente a realidade tal como ela é. Nesse caso, liderar é uma violência, pois implica em impor a outrem algo que nem o lider sabe se está correto...
Salvo engano.