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quarta-feira, 30 de junho de 2010

Nós, primeira pessoa, plural: a igreja

Entender a igreja é ser capaz de identificá-la nessa rede – emaranhado - de relacionamentos, a partir do Eu, do Eu sou. A igreja é a proposta e, deveria ser, o “contrato” que une o “Eu” com o “Tu”, formando a comunidade, o grupo, o “nós”.

“Achavam-se presentes Pedro, João, Tiago e André; Filipe, Tomé, Bartolomeu e Mateus; Tiago, filho de Alfeu, Simão, o zelote, e Judas, filho de Tiago” (At 1:13).

Logo nas primeiras linhas do relato da (pré)história eclesiástica, Lucas deixa claro que havia um pacto coletivo e que a intenção original sempre fora comunitária. Se o resgate da pessoa, com sua identidade, personalidade e caráter próprios estava na ordem do dia do Nazareno, essa salvação era invariavelmente oferecida em confronto com a imagem do próprio “Eu”, espelhada nos olhos do “Tu”, do próximo, do “outro Eu”. Essa oferta terminaria em um pacto de unidade, o “Nós”.

Mas como ser uno em meio à diversidade sem criar regras, estruturas e normas? (cutucou Rubinho, certa vez).

Não como o povo de Israel, que baseava sua identidade nos laços familiares de sangue, numa constituição legal firmada pelo próprio divino, ou num pedaço de terra a ser conquistado e habitado, a igreja que emergia em terras palestinas, possuía somente um singular ponto de apoio, uma pedra angular, um elemento agregador: o rapaz ressurreto.

Por isso ao passar o cajado (ao primeiro papa) Jesus usou um só critério para a eleição do apóstolo, o amor: “Você me ama (mais do que estes)?”

O interessante é que somente Jesus, conhecedor de todas as coisas, poderia saber se Pedro realmente o amava. O critério amor, por definição, ainda que deva ser materializado em atos e não possa, de maneira alguma, ser aprisionado pelos lábios em palavras ocas, ficará sempre devendo indicadores confiáveis para qualquer avaliação ou mensuração que esteja aquém ou vá além do coração, do espírito.

Não há então como fugir da óbvia resposta, quando se pergunta, quem afinal era a igreja?

Eram pessoas que amavam o Emanuel e por conseqüência amavam-se umas às outras.

Gigantescamente inverso ao que normalmente se pensa e é freneticamente ensinado por aí, Jesus gastara seus últimos anos com aqueles onze galileus, não para discipulá-los – no sentido de catequisá-los – não, Jesus não ensinou regras, nem leis, nem uma cartilha espiritual cheia de segredos espirituais. Jesus simplesmente mostrou, na teoria e principalmente na prática, que o amor era não somente viável e possível, mas a única via e a única possibilidade. E mais do que ensinar “a amar” (e ninguém mais do que ele bateu tanto na obrigatoriedade dessa tecla, amar o próximo é o mandamento), ele forjou através da sua vida e espírito na alma daqueles rústicos palestinos, a começar por Pedro, o que significava "ser amável”.

Estava, enfim, selado o pacto do amor.

(Continua...)

Um comentário:

Rubinho Osório disse...

Gosto da palavra "nós". Gosto da palavra "amar". Juntar e "eu" com "tu" em amor generoso e fazer um "nós" realmente palpável é um desafio tremendo. Se 3 anos foram suficientes para os discípulos, 58 anos ainda não foram para mim.