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segunda-feira, 21 de maio de 2012

Os Nicodemitas

Os dois momentos decisivos de Nicodemos e o Vento, de Philip Leroyer – extensa novela publicada postumamente em 2006 e, ao que se saiba, sua única obra completa – se passam num hoje célebre convento numa região remota e montanhosa de Portugal, cujo edifício abriga tanto um asilo quanto um orfanato. Esse palco peculiar é epítome e explicação da parábola; sua epígrafe, quase desnecessária, é o terceiro verso do décimo oitavo capítulo do evangelho de Mateus: “Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos tornardes como crianças, de modo algum entrareis no reino dos céus”.

A primeira página apresenta-nos austeramente ao Abrigo de Santa Luzia do Meira, que já conheceu dias melhores e em que restam dezenas de celas vagas e cinco freiras encarquilhadas. Há numa área reservada uma parede coberta de fotografias, há banheiros com piso de losango, há num pátio um poço que durante certo Pentecoste a Saúde mandou impossivelmente selar. É uma inclemente noite de inverno e um carro deixa, à porta do asilo, uma maca com o corpo inconsciente e nu de um velho anônimo.

Movidas de compaixão, as freiras arrastam a maca para um dos muitos quartos disponíveis, banham o estranho, vestem-no com um puído pijama azul e aquecem-no com cobertores e fogareiros. Com um tossido ou soluço o homem volta a si; seis semanas depois é capaz de sentar-se; seis meses depois, de andar e entreter os órfãos com histórias de um tempo em que a terra era informe e vazia. Quando crê-se inteiramente recuperado, deixa dobrado um pijama impecável sobre a cama e parte de ônibus pela estrada sinuosa.

Vai morar em Braga, depois Lisboa, depois Paris. Com o passar gentil dos anos cresce-lhe uma selvagem cabeleira de finíssimos cabelos grisalhos; seu rosto ganha um renovado rubor e ele deixa crescer um bigode viril. Numa visita de rotina ao hospital, encontra uma companheira e toma-a pela mão. Vão para casa juntos e compartilham castamente da cama naquela noite.

Sessenta anos e oitocentas páginas depois o estranho retorna com a esposa ao convento de Meira, que está (mesmo o meu leitor já o terá adivinhado) inteiramente outro: um órfão despeja água fresca no poço aberto do pátio; a superiora remove uma única moldura da parede reluzente e cheirando a tinta; o sino da capela dispersa mais de meia centena irriquieta de jovens freiras. O estranho e sua esposa sorriem assombrados para o espelho no fundo do corredor e sentam-se de mãos dadas numa das camas do orfanato. Não é o fim de suas aventuras e o livro não chegou ainda a seu clímax, mas o círculo está perto de fechar.

Philip Leroyer escreveu no leito de morte. Nicodemos e o Vento é obra lenta, laboriosa e extensa, vertiginoso esforço de um escritor que não se esquivou à agonia de 1200 páginas para deixar uma primeira, última e unificada impressão. Lidas as primeiras cem páginas não haverá leitor que não tenha intuído a reviravolta central; sagazmente, Leroyer, não faz com que o livro dependa dela. As incessantes revelações são apresentadas ternamente, surrealmente; há, por exemplo, o dente que o viajante encontra em certo parque de Paris e encaixa com sucesso no espaço entre um incisivo e um molar; há a belamente executada cena da revoada de corvos numa estação de trem; há o sutil rejuvenescimento dos protagonistas, cuja improbabilidade é aplacada ou exacerbada pelo rejuvenescimento do mundo a seu redor.

Nicodemos e o Vento não é, como comprova o artigo crítico de Harold Bloom, a primeira obra de ficção a pressupor um sentido reverso para o passar dos anos. É, no entanto – tanto quanto eu saiba, – o primeiro a produzir uma lógica inerente para este universo invertido. Um mundo em que a flecha do tempo se desloque do futuro ao passado, embora impermeável à nossa intuição vulgar da realidade, não é inconcebível para a física contemporânea. Leroyer supre essa nossa lacuna intuitiva com uma bem construída lógica interna, deixando no caminho da narrativa um número mais do que satisfatório de – para usar a expressão de Bloom – “razões ao contrário”. Nada no mundo reverso imaginado por Leroyer é arbitrário; o que poderiam parecer coincidências fortuitas são representação e explicação de um anelo sincero dos personagens; não estão em momento algum separados de sua busca. O universo deNicodemos e o Vento não é mais improvável do que o nosso.

Porém a ambição do autor é maior; ele não apenas deseja que sua criação apresente coerência interna satisfatória. Leroyer quer que seu mundo de tempo reverso faça mais sentido do que o convencional; quer que a lógica do seu universo seja capaz de explicar todas as idiossincrasias do nosso. Quando, depois de quatro anos juntos no orfanato, o jovem protagonista e sua jovem esposa finalmente se despedem (são agora crianças e estão, no fluir implacável do que chamamos de futuro para o que chamamos de passado, vendo-se pela última vez), o momento é ao mesmo tempo emocional e celebratório; o peso da experiência comum e transformadora dos anos é aplacado pela perspectiva de um destino premente, uno e glorioso. A misteriosa intensidade do que no nosso mundo chamaríamos de paixão à primeira vista é explicada no universo reverso de Leroyer como a emoção mista da separação feliz depois de uma longa convivência.

Philip Leroyer, que era pastor da seita evangélica dos nicodemitas e escrevia em seu pijama puído numa cama de ferro no asilo de Santa Luzia do Meira, não esconde no pósfacio que seu livro é rigorosamente uma apologia à sua crença e uma autobiografia reversa.

Os nicodemitas, como hoje não há quem não saiba, crêem que é apenas uma diabólica ilusão que nos faz acreditar que o tempo prossegue do passado em direção ao futuro – e portanto da integridade à decadência, da vida à morte, da inteireza à dissolução. A realidade (e se tivéssemos fé suficiente seríamos capaz de enxergá-lo) é simetricamente inversa: o tempo caminha do futuro ao passado, da dissolução para a inteireza, da separação para a impensável união, de Apocalipse para Gênesis.

Os partidários da seita, da qual o pai de Leroyer foi fundador formal, encontram abundante (porém nunca incontroversa) evidência na Escritura para sua posição. Os evangelhos não escondem que Jesus falava em parábolas; os nicodemitas crêem que apenas eles sabem o quanto. Quando afirma que os mortos ressuscitarão de seus túmulos e que o mar dará de si os seus mortos, Jesus não está falando de um momento imponderável no futuro, mas apenas asseverando o rumo natural das coisas. No mundo reverso dos nicodemitas, em que a vida começa na morte e glorifica-se no nascimento, os homens nascem adultos, erguidos solenemente do chão em seus caixões, depois de terem sido formados do pó da terra – o que é, naturalmente, prefigurado na narrativa da criação em Gênesis.

O momento emblemático da revelação dessa boa nova encontra-se, conta-nos o posfácio de Leroyer, na conversa de Jesus com Nicodemos registrada no terceiro capítulo do evangelho de João.

“Em verdade, em verdade te digo que, se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus”, começa Jesus, expondo já a essência da revelação. Porém é Nicodemos que coloca a coisa com todas as letras:

“Como pode um homem nascer, sendo velho? Pode, porventura, voltar ao ventre materno e nascer?”

“Não te admires de eu te dizer: importa-vos nascer de novo,” replica Jesus. E acrescenta, esclarecedoramente: “o vento sopra onde quer, ouves a sua voz, mas não sabes donde vem, nem para onde vai”.

O vento, asseveram tranqüilamente os nicodemitas, é aqui (como em toda Escritura) símbolo inequívoco do tempo. Nicodemos, segundo Jesus, pode ouvir o sopro do tempo, mas é incapaz de reconhecer a sua direção – de onde vem ou para onde vai. A denotação é clara: o tempo sopra, ao contrário do que parece sugerir nossa pobre intuição, do futuro para o passado, da morte para a vida, da velhice para o nascimento – que é o mergulho estarrecedor e unificador e batismal no ventre materno. “Importa-vos nascer de novo” e “se não vos tornardes como crianças de modo algum entrareis no reino dos céus” não são meras injunções de Jesus; são sua desapaixonada constatação.

No universo de tempo reverso, que os nicodemitas querem crer ser o verdadeiro e único, todas as coisas tendem à restauração e à unidade, em necessário contraste com o nosso, em que tendem à decadência e à divisão. O apocalipse é experiência diária, e as pessoas nascem diariamente de seus túmulos; a existência humana na terra é um eterno rejuvenescimento que sara todas as feridas e apazigua todos os rancores. O que chamamos de último suspiro é o primeiro, e o nascimento é o “voltar ao ventre materno” profetizado por Nicodemos. A humanidade experimenta um irreversível processo de unificação, prefigurado na genealogia inversa do terceiro capítulo da primeira carta aos Coríntios, que começa em Jesus e termina em Adão, e por fim, no próprio Deus: ”…Lameque, filho de Metusalém, filho de Enoque, filho de Jarede, filho de Maalalel, filho de Cainã, filho de Enos, filho de Sete, filho de Adão, filho de Deus”.

O destino da humanidade, sua redenção, é recuperar a unidade com Deus; quando tivermos todos mergulhado no ventre de nossos pais, quando todos os livros e todas as artes e toda obra humana reverterem ao silêncio e formos todos Adão, mergulharemos – seremos batizados – no ventre de Deus e o vento do Espírito será desnecessário e deixará de soprar.

Quem tem ouvidos para ouvir, ouça. No pátio de Santa Luzia do Meira, na parábola biográfica de Leroyer, convivem órfãos e anciões: os últimos são os recém-chegados, os primeiros os experientes; os últimos estão aprendendo austeramente viver, os primeiros brincam de roda para celebrar incessantemente seu destino iminente no ventre da inteireza.

Philip Leroyer foi casado com Edda de Oliveira, que morreu de câncer num hospital de Paris. Não tiveram filhos.

Leroyer era adotado. Na cena final de Nicodemos e o Vento as freiras devolvem sobriamente o bebê (que é Philip e já foi um velhinho e um homem de bigode e um marido adolescente e uma criança orfã, nessa ordem) a sua mãe, que o recebe em lágrimas e leva-o, vicariamente, para casa.

Paulo Brabo

sábado, 21 de janeiro de 2012

Clube da Capa Encardida

  

Anno MMLII

O Clube da Capa Encardida, conhecido também como Movimento da Capa Envelhecida, foi um movimento originado principalmente, mas não exclusivamente, na igreja evangélica brasileira, do final do milênio passado e início do atual.

O movimento foi obtendo dinâmica especial, e descentralizada, com a interação oferecida pela então recém chegada internet e suas redes de relacionamentos, com Blogs e mini-blogs.  Hoje, há mais de quinhentos anos de distância e, principalmente, devido ao seu caráter predominantemente anárquico, é difícil rastrear quais seriam os principais expoentes daquele movimento cristão brasileiro.

Uma lista fatalmente injusta e totalmente incompleta é aqui proposta: Tuco Egg, Rondinelly, Alysson Amorim, Volney Falstini, Ricardo Q. Gouvêa, Elienai Cabral Jr., Paulo Brabo, Rubinho Osório, Lou Mello, Ricardo Gondim, Nelson Costa e Roger Brand dentre tantos outros.

Servindo de orientação para uma linha de ideias relativamente novas e revolucionárias para a sua época, seus autores advogavam justamente a tese de que não havia nenhuma linha nova de ideias e que, eles mesmos, não eram orientadores de nada.

Os representantes daquela corrente de opinião insistiam em bater na tecla de que havia algo de errado com o cristianismo vivido no final do milênio passado (uma era de transição entre a modernidade e a pós-modernidade). As lógicas internas do paradigma evangelical brasileiro, da primeira década deste milênio, sopravam ventos institucionais muito rígidos, pois estavam amarradas aos ditames do sistema capitalista norte americano com seu consumismo maluco e a teologia (ideologia) que brotava deste solo competitivo, coorporativo e triunfalista.

O movimento em si não foi um movimento cismático mas de abandono. Abandono de lógicas e dogmas aprisionadores, em prol de uma liberdade mais individual (ou monástica), mas nem por isso, menos coletiva.

A teologia adotada de contornos mais literário e narrativo veio primeiramente complementando, depois embarcando e por fim suplantando a racionalidade do modernismo.

O abandono até mesmo, por muitos, da instituição “igreja” (como era então compreendida) não significou contudo o desleixo com tradições (a por G.K. Cherteston dita: voz democrática das gerações passadas), mas sim, a troca dos confortos da igreja formal e suas tradições (meramente de homens) pelo terreno não-mapeado do cristianismo secular.

O nome “Capa Encardida”, comumente interpretado de forma pejorativa e depreciativa pelos opositores do Movimento,  derivou da (arte gráfica e) cor da capa dos livros de alguns dos principais de seus autores.

“Heresias novas são na verdade tradições muito antigas” - Pablo Brabo

encardido - [Part. de encardir.] - Adjetivo.
1. Que se encardiu; que adquiriu cor acinzentada ou amarelada pela velhice:
papel encardido.
2. Bras. Carregado, ameaçador:
3. Bras. Diz-se de coisa sobre a qual é difícil opinar.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Creio em Deus PAI (todo poderoso)

Posso afirmar que creio num Deus todo-poderoso, somente se tenho a certeza de que se trata de um poder que não ameaça a minha liberdade.

Em outros termos (e aqui peso as palavras, pois se trata do essencial de minha fé), se eu não acreditasse que Deus só é poderoso para amar e ir até o cúmulo do amor, até a morte (morrer pelos que se ama) e o perdão (perdoar os que nos matam), se eu não acreditasse que o poder de Deus é um Sobrepoder cuja natureza é renunciar por amor à utilização dos meios do poder para manipular as criaturas, eu imediatamente aceitaria que os homens descessem a encosta do sonho niilista e teria o cuidado de não acusar meus contemporâneos que se deixam fascinar por esse sonho.

Tudo muda, porém, se a onipotência de Deus é a onipotência de amor. Entre onipotência e amor todo-poderoso, há uma grande diferença; há, literalmente, um abismo. O cristão não diz acreditar que Deus é todo-poderoso, diz acreditar em um Deus Pai todo-poderoso.

Joy of faith, joy of life, François Varillon

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Beijando a ferida aberta pela própria pena

Blog 1 010

Enquanto o inverno europeu me impedia de costumeiramente pedalar até o serviço, aproveitei para, nas viagens de trem, ir degustando a obra do paranaense: A Bacia das Armas.

Ali fui matutando uma postagem - Being Paulo Brabo – que me rendeu o tão cobiçado e definitivo lugar na calçada da fama, uma vez que nos 15 minutos de infâmia a coisa tinha ficado meio que obscura.

Tendo assim um texto meu na Bacia, pensei e repensei a possibilidade de pendurar as chuteiras, visto que a missão parecia ter-se cumprido. Vejam só, até mesmo São Volney reapareceu milagrosamente para comentar!

Falstini veio e confirmou a tese que eu sustentava com outro amigo conterrâneo - entre todos os sinônimos para “o impertinente” de que fomos taxados (descabido, inoportuno, inconveniente, importuno, insolente, rabugento), esse, irreverente, era a qualidade que mais combinava com os mineiros, portanto, a suspostamente intencionada pelo homem.

Aliás, aproveito para novamente deixar registrado que inúmeras vezes adjetivaram a mim e minha santa mãe, eu e toda minha família gerações acima e gerações abaixo, ou até mesmo eu e toda a torcida do meu querido time de futebol, cruzeiro. Ineditamente fui alvejado para atingir meus conterrâneos das Minas Gerais. Agora só o tempo dirá se por honra ou por infâmia.

Mas o que eu queria mesmo ressaltar foi os inúmeros emails em minha caixa postal. Uns usaram-na como confessionário para penitenciar seus plágios e outros apenas lembraram outras características braborianas. Vai aqui uma atualização, a lista é encabeçada pelo próprio autor:

  1. Apresente duas coisas diferentes e depois finja acreditar que são uma mesma.
  2. Apresente uma conclusão arbitrária e emoldure-a com um “naturalmente”, de modo a gerar perplexidade universal.
  3. Não esqueça das expressões irônica e sinônimas “se tudo der certo” e “salvo engano”.
  4. De um arremate final com uma curta frase de efeito que quase contradiz tudo o que foi anteriormente escrito, conduzindo o público a reler todo o texto pelo menos umas três vezes para tentar achar o elo da ideia perdida.
  5. Fechar os textos com uma imagem intrigante de um inseto.

Borges se refere a uma velha lenda, segundo a qual, cada leitor mais não é que um capítulo na vida de um livro. A profecia então se cumpriu.

Agora minhas poucas e humildes ideias foram condenadas a não descansarem ali [Como escrever como o Paulo Brabo] eternamente.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Mundo perfeito

Nesta casa diante da qual passo pela primeira vez
Caminhando nesta rua que é qualquer uma
Mora um homem pequeno de tremenda gentileza
E formidável força
Que desconhece por completo seu verdadeiro rosto
E seu papel nestas possibilidades.
Esse homem seria um indomável companheiro
Que me faria conhecer as graças da lealdade
Que me repartiria a alma e me estenderia o seu prato
Ele que voltaria na batalha para resgatar minha carcaça
E derramaria por mim o seu sangue.

Nesta, que tem um arco na varanda e samambaias
E um gato
Mora a mulher que me escolheria entre a morte
E me amaria até morrer, e amando-me morreria.
Ela cujo sorriso me compreenderia e me faria compreender
Cujo seio anseia por minha mão
E por cujo seio anseio sem saber;
Ela que de bom grado ao meu lado restaria
E faria com as mãos ponte precária entre a vida e a morte
E para não me ver morrer
Derramaria de si o meu sangue.

Nesta, nessa e naquela
Moram os filhos que seriam meus
Que eu faria crescer entre os dedos
Que me fariam desesperar e me dariam louvor
Até que me dessem as costas
Até que se arrependessem
E voltassem como estranhos com pratos de sopa
Soltando sorrisos antigos
E retornando comigo a praças que não existem mais.

Nesta casa, ou naquela dos fundos
Mora o cachorro que me é de direito
E que se chama Feliz;
Por esta janela quase entrevejo o berço que nunca construí
E naquela estante o livro que não comecei.
Nesta casa mora meu mestre, nesta meu algoz,
E seriam talvez pessoas diferentes.

Eis outra rua!
Dobrei a esquina sozinho.

Tirado daqui do Paulo Brabo

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Being Paulo Brabo

ERK_PBSendo verdadeiro que “originalidade é a arte de esconder as fontes", nesta bacia das almas você acaba de descobrir uma das minhas mais privilegiadas. Considero Paulo Brabo leitura obrigatória para quem compreende que a teologia não está pronta e tem coragem para enfrentar o desafio constante da ressignificação da fé. – Ed René Kivitz

Dentre os três mosqueteiros da teologia brasileira, Paulo Brabo foi o herói que mais esculachou os cardeais protestantes e suas vacas sagradas.

Até mesmo pelo fato de, ao contrário de Gondim e Kivitz, não fazer parte do clero, Brabo mostrou larga vantagem em suas argumentações. Afinal, sem ter que, dominicalmente, se ajoelhar arrependido diante de qualquer ídolo evangélico-eclesiástico institucional, ele poderia chutá-los inclementemente; e isso fez com classe e sagacidade, ferindo os demônios por trás deles mas nunca os fiéis à sua frente.

Como ícone da blogsfera protestante (no bom sentido do termo), Brabo passou a servir de fonte para, como confessa Kivitz, ressignificação da fé, ou como diz a Bíblia, para renovação do entendimento.

Mais Menos do que isso, ele passou a ser copiado (mais por uns, menos por outros), mas descaradamente por todos nós patifes virtuais e reais [e esse tipo escancarado de contrição, de auto denúncia, já é uma imitação].

O fato é que seu estilo franco e gentil é contagiante. Suas fontes (excetuando-se Borges – que para muitos de nós ainda é um ilustre desconhecido) permanecem bem ocultas, afinal se auto encobertam num panteão infinito de escritos. Portanto o cara consegue, ser acima de tudo, original.

Vai aí alguns dos 7 pecados capitais na escorregadia armadilha que é blogar e seguir diariamente a Bacia das Almas, e agora (eu atrasado – algumas coisas boas ainda chegam primeiro no Brasil do que na Europa), o perigo maior, manusear seus livros (que se multiplicam mais rápido que cogumelos).

Jamais:

  1. Apresente-se como “principal dos pecadores” usando termos marcantes. Ex: patife, canalha, farsa, maltrapilho, etc.
  2. Vincule o Evangelho e escritos sacros com expressões fortes que são normalmente usadas para coisas “profanas”. Ex: rebeldia do Reino, subversão de Jesus, sensualidade da mensagem, transgredir para o bem.
  3. Use, de igual modo, termos chocantes e metafóricos para destacar ideias principais. Ex: prenhe de esperanças, parir escritos, beijar a ferida aberta pela própria pena.
  4. Procure roubar termos da literatura e das ciências literárias. O pior deles ainda é: O protagonista.
  5. Esbanje advérbios ou adjetivos (ou a união dos dois) para deixar claro o modo, a forma e a intensidade do que você quer dizer. Lembre-se sempre de uma contradição de sentidos. Ex. desesperadamente correto, constrangedoramente lúcido, lucidamente constrangedor, vivendo absurdamente na linha do possível.
  6. e 7. (Espaço reservado para você sozinho com sua consciência)

wolfman2Enfim, desde que Paulo Brabo alçou a fama e está em vias de se tornar pop, tanto Kvitz, como o Lou (que por coincidência, ou não, dividiram o sanduiche de mortadela no pátio do recreio do mesmo seminário), ou qualquer um de nós, seremos desmascarados pela nossa falta de originalidade.

Brabo se tornou uma fonte inescondível. E olha que a fama não é tão incompreensível assim quanto a popularidade.

*Imagens e citações tiradas sem todas as devidas autorizações, como de praxis, de acordo com o oitavo mandamento deste Blog que reza, não roubarás mas copiarás.

sábado, 18 de dezembro de 2010

A estante

estante

Não me considero (mais) uma pessoa que devora livros. Já houve uma época, no primário, em que competia com minha irmã quem tinha a ficha da biblioteca mais cheia. Lá eu desenvolvi o hábito e o gosto pela leitura.

Já li muitos livros de Fernando Sabino, já li livros de budismo. Nunca li Paulo Coelho. Que me lembre nunca li um livro de poesia. Teve um tempo que não conseguia ler livro algum. Após minha formatura e vinda para o exterior desfiz de todos os meu livros técnicos (Marketing, RH, finanças, Sustentabilidade e essas coisas). Me desfiz também dos livros religiosos.

Dos religiosos destaco Yancey e Swindow, “Maravilhosa Graça” e o “Despertar da Graça” respectivamente. Foram os dois livros que mais positivamente marcaram minha caminhada cristã.

Ultimamente refiz minha biblioteca com livros tipo arquivo pdf que baixamos na net. Leio-os eventualmente através do Adobe Digital Editions. Uma outra interessante ferramenta é o GooReader que te proporciona os livros da Google Livros em uma estante virtual em seu PC. Para intercâmbio estou na rede social Skoob.

Mas como o bom mesmo é o livrinho na mão para se ler onde quiser. Tratei de fazer minha primeira aquisição via Amazon: Brian Mclaren, “Uma ortodoxia generosa”, dica de nosso amigo Rondinelly.

Trouxe também do Brasil, três preciosidades que já vinha cobiçando há algum tempo. O “Creio, mas tenho dúvidas”, que já devorei; e dois livros de Paulo Brabo, “Em 6 passo, o que faria Jesus” e o famoso e premiado “A Bacia das Armas”, dos quais já vinha tirando algumas munições para enfrentar nossas hipocrisias do dia a dia.

O que quase me entristece é saber que por mais que devore livros, jamais conseguirei ler todos que gostaria. O pior ainda é verificar que em cada momento da vida, em uma releitura, um livro, o mesmo, se mostra cada vez diferente, cada vez outro.

Veja também: Livros

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Cristãos na arena do poder e um assunto importante

Cada gay que eu entrevistava contava histórias arrepiantes de rejeição, ódio e perseguição. Muitos haviam sido ofendidos e espancados vezes sem conta. Metade dos que entrevistei fora deserdada por suas famílias. Alguns dos pacientes de AIDS tentaram entrar em contato com a família afastada para informar da enfermidade, mas não receberam resposta. Um homem, depois de dez anos de separação, foi convidado a ir para casa no jantar do Dia de Ação de Graças em Wisconsin. Sua mãe o sentou à parte da família, em uma mesa separada com pratos de papel e utensílios plásticos.

Alguns cristãos dizem: "Sim, temos de tratar os gays com compaixão, mas, ao mesmo tempo, temos também de lhes transmitir uma mensagem de juízo". Depois de todas essas entrevistas, comecei a entender que cada gay já ouviu a mensagem de juízo da igreja — repetidas vezes, nada além de juízo. As pessoas mais interessadas em teologia que entrevistei interpretam as passagens bíblicas a respeito do homossexualismo de maneira diferente. Algumas delas me disseram que se ofereceram para sentar e discutir essas diferenças com mestres conservadores, mas nenhum concordou.

[…]

Um assunto como o homossexualismo representa uma questão importante porque a diferença centraliza-se sobre uma questão moral, e não transcultural. Através da história, a igreja tem considerado unanimemente o comportamento homossexual como um pecado sério. Então, a questão vem a ser: "Como devemos tratar os pecadores?".

[…]

A política traça linhas entre pessoas; em contraste, o amor de Jesus passa por cima dessas linhas e dispensa graça. Isso não significa, naturalmente, que os cristãos não deveriam se envolver em política. Significa simplesmente que, ao fazê-lo, não devemos permitir que as regras do poder desalojem o mandamento do amor.

Ron Sider" disse:

Imagine o impacto se a primeira coisa que as feministas radicais pensassem quando a conversa se voltasse para os homens evangélicos fosse que eles tinham a melhor reputação em manter os votos matrimoniais e em servir a suas esposas à maneira difícil de Jesus na cruz. Pense no impacto se a primeira coisa que a comunidade homossexual pensasse quando alguém mencionasse os evangélicos fosse que eram pessoas que dirigiam com amor abrigos para aidéticos e cuidavam deles carinhosamente até o último suspiro. Um exemplo um pouco mais sólido e uma mordomia mais difícil valem mais que milhares de palavras verdadeiras enunciadas com aspereza.

Uma amiga minha trabalhava em um centro de aconselhamento para grávidas. Católica sincera, aconselhava as clientes a fazer sua escolha contra o aborto e a deixar que ela encontrasse pais adotivos para os bebês. Uma vez que se localizava perto de uma universidade importante, as ativistas da pró-escolha, com freqüência, faziam passeatas na frente do centro de aconselhamento. Em um dia frio e nebuloso de Michigan, minha amiga mandou buscar umas rosquinhas com café, encomendando o suficiente para todas as ativistas que se opunham ao seu trabalho. Quando chegou o alimento, ela saiu pessoalmente e o ofereceu às suas "inimigas".

"Sei que discordamos neste assunto", ela lhes informou. "Mas ainda as respeito como pessoas, e sei que devem sentir frio ficando aí fora o dia inteiro. Pensei que poderiam precisar comer alguma coisa."

As ativistas ficaram sem fala. Gaguejaram palavras de gratidão e ficaram olhando para o café, embora muitas se recusassem a bebê-lo (será que ela não o tinha batizado com veneno?).

Nós, cristãos, podemos resolver entrar na arena do poder, mas, quando o fizermos, não devemos atrever-nos a deixar o amor para trás.

"O poder sem amor é imprudente e abusivo, o poder é principalmente o amor implementando as exigências da justiça." Martin Luther King Jr.

Philip Yancey em Maravilhosa Graça

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Confronto entre gays e religiosos

Cerca de 300.000 participantes gays marcharam, e apenas uma minoria pretendeu chocar o público usando roupas que nenhum telejornal mostraria. O dia de outubro era frio, e nuvens cinzentas derramaram gotas de chuva sobre as colunas desfilando pela capital.

Em uma das laterais, bem na frente da Casa Branca, observei uma confrontação raivosa. Policiais montados formaram um círculo protetor ao redor de pequenos grupos que, graças a seus cartazes cor-de-laranja com ilustrações vivas do fogo do inferno, haviam conseguido atrair a atenção da maioria dos fotógrafos da imprensa. Embora estivessem superados em número numa proporção de mil e quinhentos para um, esses manifestantes cristãos estavam gritando palavras de ordem inflamadas contra os ativistas gays.

"Combustível do inferno! Fora!", o líder deles gritava em um microfone. E os outros pegavam a deixa: "Fora, fora...". Quando isso perdeu a força, passaram para as frases: "Que vergonha! Que vergonha!". Entre as cantorias, os líderes transmitiam mensagens cheirando a enxofre a respeito de Deus reservando o fogo do inferno mais quente para os sodomitas e outros pervertidos.

"AIDS, AIDS, ela vai pegar vocês", era o último motejo no repertório dos que protestavam, a frase gritada com mais ardor. Tínhamos acabado de assistir a uma triste procissão de várias centenas de pessoas com AIDS: muitos em cadeiras de rodas, com corpos esquálidos de sobreviventes de campos de concentração. Ouvindo a cantilena, eu não conseguia imaginar como alguém poderia desejar esse destino para outro ser humano.

Da parte deles, os gays tinham uma reação mista contra os cristãos. Os desordeiros sopravam beijinhos ou comentavam: "Fanáticos! Fanáticos! Que vergonha para vocês!". Um grupo de lésbicas extraiu risadas da imprensa gritando em uníssono contra os manifestantes: "Queremos suas esposas!".

Entre os participantes da marcha havia pelo menos três mil que se identificavam com diversos grupos religiosos: o movimento católico da "Dignidade", o grupo episcopal da "Integridade" e até mesmo um grupinho de Mórmons e Adventistas do Sétimo Dia. Mais de mil participantes marcharam sob a bandeira da Igreja da Comunidade Metropolitana (ICM), uma denominação que professa uma teologia principalmente evangélica, exceto por sua postura a favor do homossexualismo. Este último grupo deu uma resposta comovente aos cristãos que protestavam: aproximaram-se, voltaram-se para eles e cantaram: "Jesus me ama, sim eu sei, pois a Bíblia assim o diz".

A ironia inopinada nessa cena de confronto me atingiu. De um lado, estavam os cristãos defendendo a doutrina pura (nem mesmo o Concilio Nacional das Igrejas aceitou a denominação ICM em sua membresia). Do outro, estavam os "pecadores", muitos dos quais abertamente admitindo a prática homossexual. Mas o grupo mais ortodoxo vomitava ódio e o outro grupo cantava o amor de Jesus.

Philip Yancey em Maravilhosa Graça

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Madre Teresa e o aborto nos USA

Madre Teresa disse que a América tinha-se tornado uma nação egoísta, em perigo de perder o devido significado do amor: "dar até doer". A maior prova, ela dizia, é o aborto, cujos efeitos podem ser vistos na na escalada da violência. "Se aceitarmos que uma mãe pode matar até mesmo o seu próprio filho, como podemos dizer às outras pessoas para não se matarem umas às outras?... Qualquer país que aceita o aborto não está ensinando o seu povo a amar, mas a usar a violência para obter o que deseja."

Ela disse que somos incoerentes quando nos preocupamos com a violência, com as crianças famintas em lugares como a índia e a África, e não nos importamos com os milhões que são mortos por escolha deliberada de suas próprias mães. Ela propôs uma solução para as mulheres grávidas que não querem os filhos: "Dêem esses filhos para mim. Eu os quero. Eu cuidarei deles. Estou disposta a aceitar qualquer criança que seria abortada e darei essa criança a um casal unido pelo matrimônio que vai amá-la e ser amado por essa criança". Naquela época ela ja havia colocado três mil crianças em lares adotivos em Calcultá.

A religiosa encheu seu discurso com histórias comoventes de pessoas às quais ela havia servido, e ninguém que as ouvisse podia ir embora impassível. Depois do café, madre Teresa reuniu-se com o presidente Clinton e, mais tarde, naquele dia, eu vi que a conversa o havia comovido também. O próprio Clinton trouxe à tona diversas das histórias dela durante a nossa entrevista.

Corajosa e firmemente, mas com cortesia e amor, madre Teresa havia conseguido reduzir a controvérsia do aborto aos seus termos morais mais simples: vida ou morte, amor ou rejeição. Um cético poderia dizer a respeito de sua oferta: Madre Teresa, a senhora não compreende as complexidades envolvidas. Ha mais de um milhão de abortos só nos Estados Unidos anualmente. Com certeza a senhora não vai conseguir cuidar de todos esses bebês!

Mas, afinal, ela era a madre Teresa. Ela tinha vivido a sua vocação especial de Deus e, se Deus lhe enviasse um milhão de bebês, ela provavelmente encontraria um meio de cuidar deles. Ela compreendeu que amor sacrificial é uma das mais poderosas armas no arsenal cristão da graça.

Os profetas apresentam-se em todos os tipos e estilos; imagino que o profeta Elias, por exemplo, teria usado palavras mais fortes do que madre Teresa ao denunciar injustiças morais. Mas não posso deixar de pensar que, de todas as palavras sobre aborto que o presidente Clinton ouviu enquanto esteve no seu cargo, as palavras de madre Teresa penetraram mais profundamente.

Philip Yancey em Maravilhosa Graça

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Aborto, direitos dos homossexuais e a igreja

Sua reputação entre os cristãos conservadores dependia de duas questões: o aborto e os direitos dos homossexuais. Concordo plenamente que as questões morais são importantes e que os cristãos devem discuti-las. Mas, quando examino o Novo Testamento, encontro muito pouca coisa relacionada com cada uma delas. As duas práticas existiam naquela época, de formas diferentes e mais notórias. Os cidadãos romanos não dependiam principalmente de aborto para o controle da natalidade. As mulheres davam à luz aos seus bebês e, então, os abandonavam à beira da estrada para os animais selvagens e abutres. De maneira igual, os romanos e os gregos também praticavam o homossexualismo: homens mais velhos utilizavam-se de garotos jovens como seus escravos sexuais, em pederastia.

Assim, no tempo de Jesus e de Paulo, essas duas questões morais faziam valer seus direitos de maneira que hoje seria considerada crime em qualquer país civilizado da terra. Nenhum país permite que uma pessoa mate um bebê que nasceu a termo. Nenhum país permite legalmente que se pratique sexo com crianças. Jesus e Paulo, sem dúvida, sabiam dessas práticas deploráveis. E, mesmo assim, Jesus não disse nada a respeito delas. E Paulo fez apenas referências ao transexualismo. Nenhum deles se concentrou no reino pagão que os rodeava, mas na alternativa do reino de Deus.

Por este motivo, fico pensando na enorme energia que está sendo gasta nos dias de hoje para a restauração da moralidade dos Estados Unidos. Será que estamos concentrando-nos mais no reino deste mundo do que no reino que não é deste mundo? A imagem pública da igreja evangélica atual está praticamente definida por uma ênfase em duas questões que Jesus nem mesmo mencionou. Como nos sentiremos se os historiadores do futuro olharem para trás para a igreja evangélica da década de 90 e declararem: "Eles lutaram bravamente nas fronteiras morais do aborto e dos direitos dos homossexuais", enquanto, ao mesmo tempo, contassem que pouco fizemos para obedecer à Grande Comissão e espargir o aroma da graça no mundo?

Philip Yancey em Maravilhosa Graça

domingo, 24 de outubro de 2010

Medo e política: um moralismo sem graça

Os cristãos estão sendo cada vez mais considerados como moralistas rígidos que querem controlar a vida dos outros.

Sei por que alguns cristãos estão agindo dessa forma: por medo. Sentimos o ataque nas escolas, nos tribunais e, às vezes, no Congresso. Enquanto isso, vemos ao nosso redor o tipo de mudança moral que destaca o declínio da sociedade. Em categorias como crime, divórcio, suicídio de jovens, aborto, uso de drogas, bem-estar das crianças e nascimentos ilegítimos os Estados Unidos superam todos os outros países industrializados. Os socialmente conservadores sentem-se cada vez mais como uma minoria ameaçada, com seus valores sob ataque constante.

Como podem os cristãos defender valores morais em uma sociedade secular enquanto, ao mesmo tempo, transmitem um espírito de graça e amor? Como o salmista expressou: "Na verdade que já os fundamentos se transtornam, o que pode fazer o justo?". Tenho certeza de que por trás da rispidez das pessoas que me escreveram existe uma preocupação profunda e apropriada por um mundo que dá pouco lugar a Deus. Mas também sei que, como Jesus destacou para os fariseus, uma preocupação apenas com valores morais não é de maneira nenhuma suficiente. O moralismo à parte da graça resolve pouco.

Andy Rooney, comentarista de um programa de televisão, disse uma vez; "Decidi que sou contra o aborto. Acho que é homicídio. Mas tenho um dilema: por que prefiro as pessoas pró-escolha, em vez das que são pró-vida? Prefiro muito mais jantar com um grupo das primeiras pessoas". Pouco importa com quem ele janta, mas é muito importante se Andy Rooney deixa de encontrar a graça de Deus dos cristãos em todo o seu zelo pró-vida.

Quando pergunto aos meus companheiros de vôo: "O que lhes vem à mentquando digo as palavras 'cristão evangélico?", geralmente eles respondem em termos políticos. Mas o evangelho de Jesus não foi principalmente uma plataforma política. Em toda a conversa dos partidos eleitorais e guerras políticas, a mensagem da graça, o principal distintivo que os cristãos têm para oferecer, tende a sumir. É difícil, se não impossível, transmitir a mensagem da graça nos corredores do poder.

A igreja está se tornando cada vez mais politizada. Conforme a sociedade se desenvolve, ouço gritos de que estamos enfatizando menos a misericórdia e mais a moralidade. Estigmatizar os homosse­xuais envergonhar as mães solteiras, perseguir os imigrantes, molestar os mendigos, punir os infratores — sinto que alguns cristãos crêem que, se simplesmente aprovarmos leis suficientemente duras em Washington poderemos virar nosso país ao contrário. Um notável líder espiritual insiste: "A única maneira de termos um reavivamento genuinamente espiritual é fazer uma reforma legislativa". Será que o inverso não seria melhor?

Philip Yancey em Maravilhosa Graça

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

A máscara da boa impressão

Grande parte do comportamento considerado pecaminoso na minha criação é agora prática comum em muitas igrejas evangélicas. Embora as manifestações tenha se modificado, o espírito do legalismo não. Agora estou mais predisposto a encontrar um legalismo de pensamento. Escritores meus amigos que se atrevem a questionar a doutrina que herdamos sobre aborto ou homossexualismo, por exemplo, enfrentam o mesmo julgamento hoje que os cristãos enfrentaram por causa do "beber socialmente" na subcultura fundamentalista.

Já mencionei os insultos que Tony Campolo recebeu por seus pedidos para que demonstrássemos mais compaixão aos homossexuais. […]

“Acautelai-vos primeiramente do fermento dos fariseus, que é a hipocrisia... não procedais de conformidade com as suas obras, pois dizem e não fazem." A palavra hipocrisia significa, simplesmente, "colocar uma máscara". Evidentemente, Jesus cunhou a palavra, tomando-a emprestada dos atores gregos, ou hypocrites, que entretinham multidões em um teatro ao ar livre. Ela descrevia uma pessoa que coloca uma máscara para causar boa impressão.

Philip Yancey em Maravilhosa Graça

Leia também:

  1. O bom perfume
  2. Quem é meu inimigo?

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Um presidente pecador e o aborto

… o presidente despertava tanta animosidade entre os cristãos. Sua política a respeito do aborto e dos direitos homossexuais, particularmente, junto com os relatórios de seus próprios fracassos morais, tornava difícil para muitos cristãos levar a sério a profissão de fé dele. Um respeitado líder cristão havia me declarado categoricamente: "Bill Clinton não pode naturalmente ser sincero a respeito de sua fé e defender os pontos de vista que defende".

[…] Naquela manha, todos nós tínhamos estado no "Café da manhã com oração nacional" e ouvimos madre Teresa criticando ousadamente o presidente pela praga do aborto neste país. Clinton havia-se encontrado com ela particularmente depois do café e parecia ansioso por continuar a discussão conosco.

Meu artigo resultante dessa conversa, "A charada da fé de Bill Clinton", apresentava seus pontos de vista e também explorava a pergunta levantada pelo meu amigo. Poderia Bill Clinton ser sincero a respeito de sua fé, defendendo os pontos de vista que defende? Eu havia feito muita pesquisa, inclusive conversei com seus amigos e colegas de infância e a evidência parecia clara: a fé de Clinton não era uma postura assumida como expediente político, mas parte integrante do que ele era. Com exceção do período da faculdade, ele freqüentava a igreja fielmente, apoiou Billy Graham a vida toda e era ávido estudante da Bíblia. Quando perguntei que livros cristãos havia lido mais recentemente, ele mencionou títulos de Richard Mouw (presidente do Seminário Teológico Fuller) e Tony Campolo.

Na verdade, achei quase impossível entender os Clinton à parte de sua fé religiosa. Hillary Clinton, metodista desde criança, crê que fomos colocados no mundo para fazer o bem e servir aos outros. Bill Clinton, um batista do Sul, foi criado na tradição do reavivamento e de "ir à frente" para confessar os pecados. É claro que ele faz muita bagunça durante a semana — todo mundo não faz? — mas, aos domingos, vai à igreja, confessa seus pecados e começa tudo de novo.

Depois da entrevista escrevi o que pensava ser uma avaliação equilibrada do presidente Clinton e sua fé, dando espaço considerável à questão do aborto, na qual fiz um contraste entre sua posição indefinida e os absolutos morais de madre Teresa. Eu estava totalmente despreparado para a reação tempestuosa. Fico imaginando se meu carteiro vai recuperar-se do esforço violento de arrastar malas de cartas zangadas para a minha caixa do correio.

"Você diz que Clinton tem conhecimento bíblico", dizia um, "bem, o diabo também tem! Você foi enganado". Muitos signatários defendiam que os evangélicos não deveriam nunca se encontrar com o presidente. Seis traçavam paralelos com Adolf Hitler, que cinicamente usou pastores para os seus próprios propósitos. Outros nos compararam com a igreja amedrontada por Stalin. Outros lembraram-se de cenas bíblicas de confrontação: João Batista e Herodes, Elias e Acabe, Nata e Davi. Por que eu não tinha agido mais como um profeta, sacudindo o meu dedo diante do rosto do presidente?

Uma pessoa escreveu: "Se Philip Yancey visse uma criança que estivesse prestes a ser atropelada por um trem de carga, creio que ficaria confortavelmente fora do caminho e amorosamente pediria à criança que se mexesse, em vez de se esforçar gritando e empurrando a criança para fora do perigo".

Philip Yancey em Maravilhosa Graça

Leia também:

  1. O bom perfume
  2. Quem é meu inimigo?

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Igreja e Estado: casamento ilegal

A religião exercia papel importante no governo da África do Sul. O partido político dominante apoiava-se com força na Igreja Reformada que, em troca, fornecia base teológica para o apartheid. O aborto era ilegal, como também o casamento inter-racial…

Philip Yancey em Maravilhosa Graça

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  1. O bom perfume
  2. Quem é meu inimigo?
  3. Pecado, pecadinho e pecadão

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Pecado, pecadinho e pecadão

Durante a era vitoriana, os pecados sexuais ficavam no alto da lista — ou embaixo, dependendo de como você olhasse — de modo que a palavra "imoralidade" veio a indicar pecados sexuais. Quando eu era criança, o divórcio e o alcoolismo encabeçavam a lista. Agora, nas igrejas evangélicas modernas, o aborto e o homossexualismo provavelmente estão mais em cima.

Jesus tinha uma visão totalmente diference do pecado. Em vez de classificar os pecados como significativos ou menos significativos, Ele elevava os olhos dos seus ouvintes para um Deus perfeito, diante do qual todos nós somos pecadores. Todos nós carecemos da graça de Deus. Isaías traduziu isso em linguagem terrena: "Todos os nossos atos de justiça", disse o profeta, "são como trapo da imundícia". literalmente, "roupas de baixo sujas".

Philip Yancey em Maravilhosa Graça

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  1. O bom perfume
  2. Quem é meu inimigo?

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Leituras sobre “O Deus que se Revela”

revelaEsse é o desafio que se coloca frente à igreja cristã conteporânea:

Como se reinventar em uma lógica onde a Bíblia e as pregações não sejam mais o centro da vida comunitária (ou da fé comunitária)?

Minha sugestão fica (contra)baseado em outro título de Francis Schaffer: "O Deus que se revela" (no original, He is there and he is not silent)".

Ao pé da letra a tradução seria: Ele existe e não está em silêncio. De um Deus que não está em silêncio passamos muito rápido para um Deus tagarela que está o tempo todo a falar, falar, falar…

Quero então aproveitar a perspicácia desse autor, tido como o pai do fundamentalismo americano, para investigar melhor alguns fundamentos de minha própria crença a qual foi moldada por várias dessas premissas evangelicais.

As perguntas então que norteariam essa leitura e a nossa busca aqui seriam:

  • E se Ele estiver em silêncio?
  • E quando Ele se silencia?

Parece-me que o tempo amadureceu para prosseguir nessa leitura. Assim ressuscito esse Blog com a esperança de, quem sabe num futuro não muito distante, poder também avançar para o último título da trilogia de Francis Schaeffer.

Fonte: http://morte-da-razao.blogspot.com/

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

O silêncio de um Deus maltrapilho fala mais alto que sua Palavra

Odeio quando fundamentalistas conservadores me recomendam leituras sem eu ter solicitado (passa um certo ar de superioridade). Minha vingança seria em troca recomendar-lhes a petista Marilena Chauí, “Um convite à Filosofia”.

O GRANDE problema da inerrância é que damos à Bíblia o lugar de Deus, ela vira uma QUARTA PESSOA na trindade. Se não a única!

Prefiro crer, então, que Deus se revela, ou que esta quarta pessoa, estaria no silêncio dos sedentos, dos famintos, dos expatriados, dos desnudados, dos doentes e dos presos. Temos que buscar a revelação de Deus nas esquinas da vida e não necessária e avidamente em textos sagrados. De fato a Teologia da Libertação marcha nessa direção.

A tendência pós-moderna é justamente rever pressupostos. Se há algum pressuposto, então, é o esforço para não se ter um. De maneira nenhuma a Bíblia poderia cobrir toda a realidade, isso é um absurdo. Concordo que ela trate de temas espirituais ou essenciais ao ser humano, mas que ela cubra até mesmo nessas áreas toda a realidade não seria querer de mais?

Não estou certo se saber o que é essencial ou não na vida (ou na fé) dependerá de alguns pressupostos. Se a descoberta do essencial (ou não essencial) dependerá do “ponto de partida”, posso questionar: Não seria esse “ponto de partida” obviamente algo essencial? Quem o estabeleceu? Veja a coisa se torna cíclica. Não seria mais seguro, nesse aspecto, ficar preso ao Espírito, ou até mesmo à pessoalidade do Messias, que são elementos dinâmicos, flexíveis, soltos e declaradamente subjetivos; ao invés de querer se prender a textos, suas rígidas interpretações e “ilusória” objetividade?

Novamente cito Marx e Freund que vem denunciar respectivamente os “pressupostos” inconscientes do indivíduo e os “pressupostos” da coletividade ou classe dominante. Então não é a TL que seria sociologia, mas sim Marx e Freund que fizeram Teologia! Assim como a Bíblia irá esbarrar em questões psicológicas e sociológicas, ainda que esse não seja o seu foco, a sociologia e psicologia irão também fatalmente abordar teologia.

Por isso é preciso muito “bom senso” (e sabe lá Deus quem é que o tem)…

sábado, 21 de agosto de 2010

A agulha perdida no fundo do mar

Pensou em dizer ao menino a mesma coisa que ouvira então: eu sou um caso perdido, espero que você não cometa o erro que eu cometi. Mas qual fora mesmo o erro que o Toledo cometera? Qual o seu próprio erro? Não sabia: em alguma parte de sua vida ele se deixara ficar, esquecido, abandonado, largado para trás — e agora teria de se buscar como aquela agulha do sonho, perdida no fundo do mar.

Fernando Sabino
em O encontro marcado

domingo, 18 de julho de 2010

Representante de Deus

- Padre Limeira, em que é que o padre é diferente dos outros homens, além da batina?

Esta pergunta, feita assim sem mais nem menos, desconcertou o padre. Voltando-se vivamente, ele se dispunha mesmo a censurar aquele desrespeito, mas deu com uns olhos sérios que o fitavam, esperando a resposta, e não parecia haver neles a intenção de desrespeitar ninguém.

- Que pergunta, menino - falou então. - O padre é o representante de Deus na terra.

- Eu sei - Geraldo Viramundo insistiu: - Mas eu quero saber a diferença entre o padre e os outros homens. Por que os outros não podem ser representantes de Deus na terra?

Padre Limeira não sabia o que dizer, nem onde o rapazinho queria chegar:

- O padre se prepara para isso - respondeu evasivamente. - Ele é tocado pela Graça.

- Tocado por quem?

- Pela Graça: pelo divino Espírito Santo. Você não estudou catecismo?

- E por que os outros homens não são tocados pelo divino Espírito Santo?

Agora o padre já se pusera mais à vontade para explicar:

- Não são porque levam uma vida de pecados e dissolução. O padre tem o poder de Deus para perdoar estes pecados. Quando você se confessa, Deus perdoa seus pecados através do padre.

- O padre nunca peca?

- Peca também, ora essa. Mas é diferente.

- Isso é que eu perguntei: diferente em quê?

Nesse ponto o padre percebeu que tudo ia começar de novo e perdeu a paciência:

- Por que é que você quer saber?

- Porque eu talvez resolva ser padre.

Padre Limeira esperava por tudo, menos por esta.

- Muito bem, meu rapaz. Fico satisfeito em saber. Vou lhe explicar: a diferença está em que o padre dedica-se inteiramente a Deus. Foge dos prazeres do mundo e põe-se a serviço da religião, pela prática da oração, da obediência, da vida ascética, da meditação.

Geraldo Viramundo quis saber o que era "vida ascética". O padre explicou-lhe como pôde, e a conversa ficou nisso. Mas influenciada pela presença do padre, a vida de Geraldo ia-se transformando inteiramente. O misticismo crescia nele com poderosas forças: começou a policiar com dureza os seus pecados, duplicou o número de orações durante a noite. E tendo entendido à sua maneira o que o padre lhe ensinara, começou também a praticar o seu ascetismo: passou a recusar a sobremesa depois do jantar, e para que ninguém desconfiasse, metia as mãos nos bolsos e saía assobiando; todas as noites, antes de se deitar, ficava parado com os braços abertos, sem se mexer, enquanto contava baixinho, como no tempo em que mergulhava no rio, até que a dor no corpo o prostrava sobre a cama; ficava se excitando mentalmente, a pensar as maiores imoralidades, já deitado, até que o sexo lhe doía de tanto desejo, e depois, mãos atrás das costas, se recusava. Quando fracassava neste último sacrifício (o que aconteceu quase todas as vezes), martirizava o corpo no dia seguinte, intensificando ainda mais os outros. Eram de uma variedade infinita, desde o mosquito que lhe pousava na testa e que ele, embora morrendo de cócegas, se recusava a espantar, até a vitória sobre o desejo de olhar para trás quando passava a filha dos italianos. Também passou a cultivar a obediência de uma maneira exagerada, a ponto de os irmãos abusarem dele. Um dia Breno, o mais velho, achou graça quando o pôs a descarregar sozinho umas
sacas de arroz de um caminhão, e ao fim deu com ele estendido no chão, prostrado de cansaço:

- Arriou a trouxa, seu frouxo?

Só a meditação é que não conseguia atingir, pois, embora fosse hábito seu já de longo tempo andar sozinho, absorvido em pensamentos, não sabia propriamente em que meditar.

Fernando Sabino – O Grande Mentecapto