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quarta-feira, 21 de outubro de 2015

O erro de Bráulia Ribeiro

‏@brauliaribeiro e @edrenekivitz são dois colunistas da Revista Ultimato. O segundo escreveu uma linda reflexão chamada “A voz de Cristo” que foi contestada pela primeira em seu post, “O erro de Ed René”.

Mas antes de adentrarmos essa polêmica temos que, irremediavelmente, passar por Francis Schaeffer para melhor entendermos esses dois hemisférios da fé evangélica

Fui apresentado a Schaeffer em 2007 por Lucas Mendes. Ele me explicou que Schaeffer era o pai da direita americana. Coisa que, por sua vez, aprendera com Frank Schaeffer, o filho, no seu livro Crazy for God : How I Grew Up as One of the Elect, Helped Found the Religious Right and Lived to Take All (or Almost All ) of It Back (Louco por Deus: Como eu cresci como um dos eleitos, ajudei a fundar a direita religiosa e vivi para retirar tudo (ou quase tudo) que disse).

Na visão de mundo de Schaeffer o cosmo se compõe de Graça e Natureza, que são indivisíveis… Uma vez porém dividido, erro que São Tomaz de Aquino tratou de cometer, ele deveria ser entendido sob a perspectiva bíblica que o uniria novmente, por meio de sua epistemologia. Mas se alguém esquecer a Bíblia e procurar outras razões para as coisas da Natureza, ou da Graça, correrá o sério risco de tornar-se livre, ou autônomo no que diz respeito a Deus, e por fim, terá uma fé irracional.

Para Schaeffer e os fundamentalistas evangélicos, a Bíblia é inerrante, é ela quem dá as cartas, ela define o jogo, ela estabelece as regras. Ela dá sentido aos termos. É como se para F.S. a Bíblia fosse um ser autônomo com vida própria, que falasse por si mesmo. Quem tem a Bíblia está apto a vencer qualquer debate no plano racional. (Ele se esquece que a Bíblia precisa de alguém que a interprete!)

Voltemos agora primeiramente a Ed. René. De cara, ele faz uma citação do vigário católico Michel Quoist:

Então nunca se esqueça que o cristianismo não se demonstra por meio de raciocínios ou de idéias, pois antes de ser uma doutrina, o cristianismo é uma pessoa. A verdade é Cristo. E não se discute Cristo, acolhe-se Cristo. ‘Discutir religião’ é, antes de tudo, dar testemunho e ajudar o outro a encontrar Cristo.

No decorrer de sua reflexão, Ed irá fazer uma desconstrução da estratégia de apologistas cristãos, e qualquer outros extremistas fanáticos, que, a exemplo de Schaeffer, acreditam que se pode ganhar no grito em se tratando de discussões relacionadas à fé. Note que ele intitula seu texto como a voz de Cristo, contrapondo-o ao a palavra de Deus – que é sinônimo de Bíblia para os fundamentalistas.

Estou convicto que Ed e Cia estamos indo na linha oposta à de Francis Schaeffer pois, mesmo não sendo fundamentalistas cremos que Bíblia está certa quando diz: “o saber ensoberbece, mas o amor edifica” e “não se estribe em seu próprio entendimento”. Ou de forma prática como Ed apontou, “o diálogo e a tolerância são possíveis apenas àqueles que aceitam o fato de que vivem num mundo em que os valores e crenças religiosos não podem ser mais impostos ou tomados como verdades absolutas universais”.

Já Bráulia, recém filiada à direita evangélica brasileira, e Cia rezam conforme a cartilha de Francis Schaeffer, ou seja: razão, razão, razão (presumidamente bíblica).

Em sua introdução ela tenta separar o inseparável: a ideia da pessoa. Mas ela só consegue expor sua pessoa e a pessoa do Ed, de forma até leal e bacana, mesmo tendo o cuidado de explicar que não é pelo simples prazer de liquidá-lo, que irá comprar aquela briga.

Mas como sempre digo, é impossível dar um soco em uma crença sem fazer sangrar os lábios de quem a profere ou os olhos de quem a admira.

Então Bráulia se movimenta no paradigma centrado na racionalidade do “ataque e defesa do Cristianismo” da ameaça do “secularismo esquerdista que bebe das fontes amargas que pintam o Cristianismo com cores diabólicas e ignora os fatos mais óbvios”, e do “iluminismo”.

Ela transita no mundo da modernidade apoiado em sua racionalidade, nas instituições inquestionáveis absolutas, no mundo do preto e do branco.

Ele transita na pós-modernidade, no mundo repleto de áreas acinzentadas, de verdades relativas que não se deixam perceber plenamente, somente pela razão, onde as instituições são questionáveis e os indivíduos em sua existencialidade podem ousar dar saltos de fé.

Finalizando, devo dar razão ao Ed. em querer fazer contraponto a uma apologética chata e bitolada, que se vê na obrigação de defender a “sã doutrina” e mais subtrai do que adiciona no Reino de Deus.

Temo que o erro de Bráulia tenha sido querer fazer parte desse grupo.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

As duas opções

Quando não se entende algo, só restam duas opções:

1. Consideramos o assunto uma tremenda idiotice, ou

2. Consideramos o assunto de uma extrema sabedoria.

(Ou… admiti-se que não houve entendimento – mas isso raramente acontecerá).

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

A condenação do mundo

Pois é, como eu ia dizendo, estranho muito que sejam as mesmas pessoas, as que insistem no poder absoluto de Deus (defendem com unhas e dentes a soberania, que ninguém pode escapar aos desígnios divinos – coisas que, aliás, eu nunca poderia discordar); mas são exatamente essas pessoas, as mesmas que afirmam, que “sola Graça” (e destrincham a graça do Criador em diferentes camadas e cores – afinal a graça de Deus é mesmo multiforme); e tais pessoas estão, até mesmo, conscientes do imensurável amor de Deus; elas reconhecem o sacrifício de Jesus como um ato inegável e gigantesco de amor incondicional e absoluto divino.

Pois bem, minhas senhoras e meu senhores,  são exatamente eles (para não dizer, nós) que não hesitam, apesar disso TUDO, em condenar mundo e meio de almas ao inferno.

Estava eu, aqui, nessa Alemanha pós-cristã, secular - ou seja lá como costumamos rotular as almas que aqui perambulam pelas ruas geladas – conversando com um pastor evangelical, justamente sobre esse tema.

Ele me afirma - pelo que entende e lê - que a única coisa que pode extrair da Bíblia é que uma parcela de 2% ou 5% da população é que pode ser considerada de salvos - em seu entender salvos significa pessoas que tem um relacionamento pessoal com Jesus Cristo.

O que acontece com essa Teologia que rola nos púlpitos e nos corredores dos seminários evangelicais?

E confesso, que ao ouvir isso, fiquei bem tímido em meus argumentos. A Bíblia pode mesmo nos levar a enxergar a coisa por esse lado tão assustador.

Mas afinal quem é o nosso Deus? Ele é Ele, ou Ele é a Bíblia, e o que se entende dela?

Entre Deus e a Bíblia, temos que ficar com Deus.

Erasmo poderia sim ter respondido a Lutero: “Deixe, você, Deus ser Deus”. Pois Deus é Amor.

- Deixemos Deus ser misericórdia, ser perdão, ser ombro amigo, deixemos Ele ser Graça e Poder. Deixemos Deus ser amor. Deixemos Deus ser Deus!

Interessante é que essa temática já foi apresentada a Jesus; e foi por Ele tratada com toda sua típica clareza: “Senhor, serão poucos os salvos?”

Vivemos hoje num mundo de 7 Bilhões. Quantos estão “caminhando para eternidade sem Jesus”? Quantas almas se perderão?

Se tomarmos as estatísticas alemã, do meu amigo pastor (que já é superestimada, por ser um pais cristão), teremos algo em torno de quase 7 Bilhões de perdidos. Imaginem só isso! Onde ficariam países como China, Arábia Saudita, Índia… Meu Deus!

Daria para entender, então, que o poder da malignidade humana (para não dizer demoníaca) é extremamente superior ao da benignidade divina que, coitadinha, sai perdendo de lavada. Deus revela sua severidade com lentes telescópicas (ou microscópicas – como queiram) e sua misericórdia com lentes de diminuição.

A maldade está aí, não quero negar isso. Mas atentemos também para a bondade!

Vejamos as crianças subnutridas pelos cantos do mundo a morrer. Mas não esqueçamos de também olhar para aquelas que, a cada dia nascem, e se equilibram na corda bamba deste mundo, para tocarem teimosa e marotamente sua vida e trazer-nos o Reino um pouquinho mais perto.

Talvez Alex Carrari esteja certo e Deus tenha mudado ao longo da Bíblia e haja sim novas intenções de Deus.

Talvez esse tal de Jesus seja mesmo quem ele disse ser: O Salvador do Mundo - e especialmente daqueles que creem…

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Experiências libertadoras

“Tenho crido que a teologia é mesmo libertadora por definição. Ela deve ser o produto de experiências libertadoras.”

Alysson Amorim

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

A Bíblia (não) fala por si mesma

Quadro de avisos:

1) Tema da escola bíblica desse domingo: "A mulher pode ou não ensinar na igreja?" com a professora Maria da Luz, salão superior às 9:00hs.

2) Pregação desse domingo: "O jovem evangélico pode ter cabelo comprido?" Culto jovem com o pastor Daniel maluco, o Sanção.

3) Seminário para pais: "É certo meu filho usar brinco?" Com Carlinhos do Piercing Sábado 18:00hs.

4) Pregação desse domingo está a cargo do tesoureiro da igreja, o irmão Fernando Luiz. O tema será "Está o dízimo também no Novo Testamento"?

5) "Devemos ou não rezar para Maria?" Palestra com Pe. José Urbano e Madre Carmelita da Glória, 17:00 no salão da renovação carismática. Tragam a suas Bíblias!

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Morrer sem salvação?

Era uma dessas tardes quentes de domingo e, após a igreja, dois irmãos discutiam sobre os perdidos e sua missão evangelizadora:

- Se Deus já tem uma lista de salvos e perdidos, na verdade, só nos resta viver a vida sem maiores preocupações – argumentava Mário. O importante é que nosso nome esteja na lista certa!

- Mas isso é uma teoria, olha o que ouvimos hoje: Moisés quase riscou o próprio nome da lista. A coisa não tá assim toda amarradinha, não. Vamos pedir a conta? E Fernando fez sinal pro garçom.

Mario ficou um instante pensativo, coçou o cavanhaque e largou:

- Verdade… Jesus mesmo, lá em Apocalipse, queria também riscar alguns nomes. Mas isso só reforça o fato de que a salvação da alma de alguém é algo muito sério, para que possamos tomar o peso desta responsabilidade toda só sobre nossos ombros. Ou não?

- Mário, acho que o sermão te deixou um pouco perturbado? Deus não quer que você faça nada por medo ou culpa! Ele não vai cobrar o sangue de ninguém das suas mãos. É o que penso.

- Claro, meu brother! Mas há uma parte que nos cabe nesse latifúndio. Ou ficaremos de braços cruzados? Você acha que não devemos fazer nada como igreja, como cristãos? Você virou franciscano agora: acha que só devemos usar as palavras na evangelização quando for preciso?

- No fundo é por aí mesmo…

- É Fernando, mas se nós alcançamos a salvação foi porque alguém pregou o Evangelho pra gente.

- Salvação é um termo amplo. Há vários entendimentos… - Provocou Fernando.

Enquanto isso o garçom trazia a conta, que Mário pegou de sua mão e discutiu um pouco com Fernando sobre quem faria a gentileza.

- Não, não, deixa que hoje sou eu quem pago. Brother, não adianta relativizar, quem morre sem Cristo, morre sem salvação. É isso aí! Ponto final.

Foi quando Fernando, agradecendo o amigo, deu o último trago no copo de cerveja, limpou o beiço superior e despretensiosamente balbuciou:

- Ninguém morre sem salvação – sim, porque se não era salvo e morreu, a própria morte foi a sua salvação.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Fé não se debate

Abraão foi chamado pai da fé, não porque deu-nos um credo sistematizado; mas porque não enquadrou o seu em sistema algum, em lógica alguma.

Ele não deixou-nos uma definição de fé, mas largou o conforto de sua terra e partiu para o desconhecido.

Ele não deixou-nos um tratado sobre esperança, mas idosos, ele e sua esposa, pariram um filho, o filho da promessa.

Ele não dissertou sobre confiança, mas sacrificou o próprio filho no altar da provação.

Abraão não escreveu nenhum catecismo, mas beijou seu filho ressuscitado das cinzas do altar.

Fé não se debate, se vive. Ideias não se debatem, se trocam. Religião não se debate, se segue. Pessoas não se debatem, se beijam.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Por que nem sempre é melhor ser feliz do que ter razão

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Já tive diferenças com pessoas pela internet, normalmente em comentários de Blog, geralmente discutindo algo ligado à teologia.

Não me conformo com as explicações simplistas para a causa de tais conflitos. Não creio que seja simplesmente "má fé" de um ou outro lado - como sempre deixa-se transparecer. Também discordo da afirmação de que seja só orgulho nosso... ainda que eu saiba que o orgulho nos acompanha, a nós todos, nesse exercício de blogar e discutir a fé.

As divisões não são por diferenças teológicas, mas por orgulho – Vaughan Roberts

Sei que religião é uma das três paixões que, juntamente com futebol e política, não se deve discutir. E isso já se explica bastante o porque dessas diferenças. Mas havia um outro elemento que me incomodava nessas discussões. Já discuti futebol e política com várias pessoas e sempre consegui me divertir apesar das irritações.

A predisposição negativa com a qual embarcamos nessas discussões é um elemento que me veio a tona essa semana. Tornou-se claro para mim, de fato, quando entramos com nossos preconceitos é muito difícil levar a coisa para o lado bom. Estamos predispostos a ler o que bem quisermos e denegrir a opinião alheia. Admito, também sou assim.

De grosso modo, a arena teológica brasileira atual está bem dividida entre liberalismo e fundamentalismo. Procuramos de antemão enquadrar o interlocutor em uma ou outra banda e, pronto, tempera-se tudo o que for dito. Basta uma simples provocaçãozinha para o caldo entornar.

Em minha última investida. Percebi que o pessoal fundamentalista está jogando a toalha quanto ao racionalismo e chegando à conclusão que “não sabem” tudo, que há limites para a lógica e assumindo a possibilidade do mistério. Pois bem, entrei num site que discutia o assunto e joguei minha isca e esperei a turma morder.

O que fiz foi dizer que Francis Schaeffer não era chegado no mistério [o que poderia fazer dele um racionalista sem fé, ou não]. Todos sabemos que Schaeffer é um dos progenitores do fundamentalismo, e que a todo custo queria provar que o cristianismo não era incompatível com o estudo e a reflexão.

Minha intenção foi somente levantar a poeira… recebi pauladas de todo tipo:

só posso lamentar [sobre isso]…, [você se] contradisse…, erro grosseiro de lógica…, você leu Schaeffer muito mal…, [venha com] menos mepareces…, [pare de] emitir opiniões sem a fundamentação adequada, ou mesmo flagrantemente contraditórias…

Recomendo fortemente que você comece a argumentar de modo decente…”

E depois de tanto baterem, ainda me acusam de me auto-colocar como vítima:

“Você não sabe conversar sem se colocar em posição de vítima da intolerância fundamentalista o tempo todo? Isso é muito desagradável. Cresça, meu caro!”

E os adjetivos prosseguiram até o ápice:

“confusão mental…”

Sim, uma vez que rotulamos nosso interlocutor, ou somos rotulados, tudo que se diz deporá contra si mesmo.

Tenho, porém, que frisar que essa rotulação será evidentemente mais dura, ou agressiva, pelo lado fundamentalista (ou conservador – como queiram). E isso pela simples razão de que o fundamentalismo odeia meio termos. Eles anseiam por um rótulo, por uma definição, por uma norma ou regra. Eles se sentem mal diante de algo nebuloso. Eles se contorcem e chiam diante de algo indefinido. E não os culpo ou acuso por isso, é uma mentalidade que pode até ter sua validade.

Creio que esse fator, justamente a dicotomia, o conflito, entre definição e indefinição, absoluto e relativo, é o elemento que causa o principal ruído das discussões que protagonizei e assisti na Blogsfera. Conservadores não trabalham com sínteses. Tudo será requerido na base da, ou é tese ou antítese.

Por isso, esses pseudo-diálogos serão como conversa entre duas  pessoas de línguas diferentes, um conversa em russo o outro em chinês; ou o diálogo entre dois sistemas operacionais distintos, um programa Linux tentando rodar no Windows.

  • Falamos cinza, eles querem preto ou branco (principalmente em se tratando de fé, moral, Deus, eles não aceitam tal incerteza)

  • Falamos “me parece”, eles querem fundamento

  • Falamos diversidade, eles perguntam por argumentos universais

  • Falamos flexibilidade, eles respondem rigidez

Tenho que denunciar também que, ao contrário daqueles com tendências liberais, os conservadores estão mais predispostos à caça às bruxas, pois há uma ortodoxia a ser defendida. O liberal quer obviamente defender seu liberalismo e pode também chegar ao belicismo, mas é, por razões óbvias, mais tolerante. Diria que o fundamentalista briga pelo conteúdo da discussão, o liberal pela forma da discussão. Um quer defender o ponto “soberania de Deus”, o outro quer defender as diversas formas de se entender “soberania de Deus”.

Apesar desse agravante “caça a Bruxas”, o que impede mesmo o diálogo – assim entendo – é a incompatibilidade de sistemas argumentativos. São duas frequências diferentes e não há sintonia e não há como ter. Aliás, o conservador tem na argumentação belicosa algo desejável, uma luta intelectual que, a seu ver, irá fortalecer os músculos de seu cérebro e enriquecer seu próprio arsenal lógico. Quanto mais se argumenta mais se refina e mais se separa o branco do preto. Apologética é tipicamente fundamentalista!

Eu particularmente não gosto disso. Me esforço por ver as diferenças de nuanças. Me alegro ao ver que a mistura de cores produz algo novo. Por isso o liberalismo (ainda que eu não me veja como um liberal) está à procura do diferente, para oferecer-lhe espaço.

Eu sei que minha interpretação é limitada e falha em alguns pontos. Mas é a “minha”.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Uma paixão louca e voluntária

A filosofia e a arte da reflexão nos ensinam que, muitas vezes, o problema não se assenta nas respostas, mas, sim, nas perguntas. Portanto, parto do pressuposto que é enganosa uma pergunta do tipo: Podem os homens escolherem naturalmente a Cristo? Um sofisma que leva a falsas conclusões. E assim desvia-se dos reais problemas que Cristo intencionou solucionar.

Verdade é que o contexto e ênfase de João 15 está em outro assunto. Não retiro contudo o direito de qualquer um querer extrair de um versículo isolado uma verdade relevante. Mas parece, no caso, não ser relevante. Senão vejamos:

Quais perguntas poderiam nos guiar a algo mais produtivo?

Enumero pelo menos três:

  1. Quais frutos Jesus espera de seus discípulos?
  2. Quais as condições para um discípulo dar frutos?
  3. Qual o objetivo de Jesus ao dirigir estas palavras a seus discípulos?

Você notará que tudo então girará em torno do amor, amizade, alegria, paz, que são o fruto do Espírito. Esse fruto, que se resume em amor, só tem razão de ser frente a relacionamentos interpessoais. O foco, então, será completamente outro. As bases da teologia serão outras.

Assim, só então, vale a pena meditar no sentido da afirmação do Nazareno, “Vocês não me escolheram, mas eu os escolhi…”, que será repetida logo adiante, “…vocês não são do mundo, mas eu os escolhi, tirando-os do mundo…”

Gosto de pensar que escolhemos as pessoas que amamos. Amor é um sentimento, sim. Infelizmente, não podemos amar uma pessoa, se ao mesmo tempo, sentirmos repulsa por ela. A decisão por amar, deve ser acompanhada de uma correspondência com a alma.

O amor é um ato voluntário e racional, mas também sentimental. Infelizmente nossa teologia, por tentar diminuir a ênfase (tão popular) do amor emocional, acaba por subestimar essa tão importante variante. E isso é perigoso. As pessoas notarão rapidamente se não a amarmos de coração (apaixonadamente). E o inverso será também notório.

Aqui chegamos então ao ponto:

Jesus amou voluntariamente seus discípulos. Foi escolha dele.

Deus amou o mundo, de tal maneira… Deus escolheu amar o mundo.

Deus Pai e Filho se apaixonaram voluntariamente por nós, homens criados à sua imagem e semelhança, mas também por nós, “homens totalmente depravados”. O primeiro movimento nessa direção e nessa questão será sempre de Deus.

Essa é uma clara mensagem de João 15, amor, amizade, alegria, paz, enfim todo relacionamento interpessoal se assenta sobre escolhas pessoais – seria isso o livre arbítrio? Devemos seguir Jesus, e também fazer nossas escolhas: escolhê-Lo, escolher pessoas a serem amadas por nós.

Passando por esse caminho veremos que o homem natural não só pode, como deve, naturalmente, escolher a Cristo. Uma escolha extremamente difícil, que se tornará fácil, quando percebermos que Ele, apaixonada e loucamente, já antes, nos escolhera.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Luz e escuridão a sua escolha

Parece-me que foi Martinho Lutero quem afirmou que devemos, em nossa leitura e entendimento bíblicos, deixar que os versículos mais obscuros sejam iluminados pelo mais luminosos.

Cabe então a você, e somente a você, escolher e decidir quais versículos, em seus estudos bíblicos, lhes serão mais claros, ou, mais escuros.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Como a inerrância aniquilou com o fundamentalismo (meu)

Sim, já fui um fundamentalista.

De certa forma continuo sendo. Me envergonho.

Me envergonho de já ter sido fundamentalista de outra forma, a pior delas.

Sofro por não conseguir me livrar tão rapidamente de certos conceitos que me impregnaram a alma, e hoje já não fazem mais sentido nenhum.

Lembro-me que, não há muito tempo atrás, advogava que para os evangélicos se fazerem relevantes na Europa, teriam que assumir uma posição mais radical contra a secularização… hoje penso o contrário.

Vejamos alguns pontos concretos do que gostaria de exorcizar: Vamos esclarecer as coisas!

(Sim pequei novamente. Já havia prometido pra mim mesmo para Deus e o mundo não mais voltar no Blog Tempora e Mores… mas recaí, voltei.) E por coincidência ou não, lá tinha a coisa prontinha por onde eu queria meditar hoje. Então vejamos:

Os tempos ficarão difíceis, não para a Igreja Evangélica, mas para aqueles evangélicos que:

  1. insistirem que a Bíblia é inerrante; 
  2. acreditarem que foi Deus que criou o mundo e não a evolução; 
  3. afirmarem que o casamento é entre um homem e uma mulher; 
  4. declararem que só Jesus Cristo salva e que o Cristianismo é a única religião verdadeira; 
  5. acreditarem na necessidade da Igreja; 
  6. se recusarem a negar qualquer das posições acima.

O que Augustus Nicodemus Lopes está falando acima são os pontos do novo fundamentalismo que está valendo, hoje, no Brasil. Se estes pontos são úteis, válidos ou não é outra história. Mas a verdade é que, na posição dele, numa postagem despretensiosa assim, enumerar 5 pontos – visto que o sexto é um reforço aos anteriores – revela muito do que está em jogo hoje na cristandade ortodoxa evangelical.

Antigamente, ou originalmente, haveria um ponto relacionado à ressurreição de Cristo, outro sobre a concepção virginal de Maria. Mas isso perdeu sua relevância no debate público, acadêmico ou seja lá o palco onde a fé é discutida.

Mas como eu ia dizendo, não pouco tempo atrás assinaria em baixo e lutaria em prol. Mas mudei radical e miseravelmente para o lado oposto.

Graças ao primeiro ponto, à inerrância Bíblica, todos os demais pontos pararam de fazer sentido algum para mim, para minha experiência religiosa, espiritual, cristã ou seja lá como você queira entender-me.

Não que eu não acredite na inerrância bíblica, muito antes pelo contrário.

É por crer que a bíblia não erra, que eu nego a necessidade da igreja. Hoje não sou membro, graças a Deus de igreja nenhuma. E nem se precisa ser um grande estudioso bíblico para perceber que do velho ao novo testamento, em lugar algum, a igreja – principalmente nos moldes que a experimentamos hoje – seja necessária.

(Se acredito em alguma necessidade da igreja, é na necessidade de mudança, de arrependimento, de humildade, etc, etc, etc. Sim, pensando bem a necessidade da igreja é enorme!)

É por crer que a bíblia não erra, que eu nego que só Jesus Cristo salva e que o Cristianismo é a única religião verdadeira; (escrevo isso com temor e dor no coração, pois já advoguei isso com todas as minhas forças a ponto de ser chato com meus parentes e amigos). Mas não creio mais categoricamente nisso.

Sei que a obra salvadora se resume na pessoa de Cristo. Sei que Ele é o único salvador. Mas abomino a idéia, e tenho razões bíblicas de sobra para isso, em pensar que Deus mandaria para o inferno bilhões (veja bem BILHÕES) de almas, digamos de indianos e chineses, que professaram outra fé. (Até agora só pude ler Brian Mc Laren, que teve paciência para traduzir detalhadamente, o que acreditamos mais ou menos, sobre esse assunto).

Reafirmo: é por acreditar que Cristo Salva, que sou forçado a ver, e isto está explícito, por exemplo em sua maravilhosa parábola do bom samaritano, que não há uma única religião verdadeira! Também ao contemplar toda a sua obra redentora, descrita na Bíblia, e a Bíblia não erra, sou levado a crer que a salvação dispensa um encontro clássico com Jesus, nos moldes teatral e hipócrita que, nós, cristãos modernos, divulgamos pelos quatro cantos da terra.

A questão homossexual e da evolução, é de dar nojo, não em si mesma, mas como elas são tratadas pelo evangelicalismo – com certeza são pontos lá da lista do Brabo que lhe embrulham o estômago. Não tenho tempo nem paciência para tecer detalhes sobre o assunto, de tão óbvio que ele nos parece…

Finalmente, é por crer pia e firmemente que a Bíblia não erra é que eu, sou constrangedora e heroicamente forçado a admitir que, ela mesmo, também erra.

Contradição minha? Não. Paradoxo. Então a Bíblia tem, diria você, também lá seus paradoxos, e nenhuma contradição. Não! Todos nós estamos cansados de saber que a Bíblia contém seus errinhos. Foi Karl Barth quem disse: “A Bíblia contém erros, mas a nós nos cumpre crer nela assim mesmo”.

O problema fundamental – não necessariamente o maior ou pior deles - do fundamentalismo é não acreditarem existir uma faixa cinza entre as áreas pretas e brancas da vida ou da fé. Se eles tivessem essa sensibilidade, o mundo seria mais colorido.

Tenho me esforçado para, pelo menos, mudar a minha visão.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Até os dados tem liberdade

Um crítico deste Blog – ou seja, crítico meu – resolveu compartilhar as suas mais íntimas dúvidas espirituais. As quais acolheremos e trataremos de apontar algumas possíveis respostas, ou melhor dizendo, reflexões:

1. Como explicas então as profecias do antigo testamento que apontavam para o futuro, para Cristo?

Será que nós homens conhecemos algo do futuro? Poderíamos dizer, com base nas leis naturais de causa e efeito, o que acontecerá amanhã, digamos, se vai chover ou não? Logo, há muito do futuro que é puramente determinismo. É verdade, Deus conhece quase todas as causas.

Por que quase todas e não todas?

Creio que Deus mesmo criou a lei das contingências, do acaso, de forma que até mesmo aquilo que seria previsível pela mecânica, torna-se enigmático. Até os dados tem vontade própria. No mundo físico há certa aleatoriedade, e diria que Deus mesmo respeita esse fator surpresa. Não preciso nem dizer que isso ocorre, claro, dentro de certos limites que Deus fixou. Nesse ponto muita coisa é previsível, mas nem tudo. Nem mesmo para Deus, pois esse é um mecanismo criado por Ele mesmo que nos proporciona liberdade e muito mais do que isso é o que nos garante nossa pessoalidade, nossa individualidade. Em poucas palavras é o que possibilita o amor. Deus não se engavetou, Ele deixou-lhe um espaço para que possa respirar.

Essa nossa liberdade, e os seres vivos - em comparação com os dados - possuem uma gama ainda maior dela, faz com que o futuro torne-se ainda mais obscuro. Se podemos prever se amanhã fará calor ou frio, nada pode-se dizer com tanta certeza sobre o comportamento de uma sociedade. Obama vencerá as próximas eleições? O PT continuará no poder? Mas você poderá hoje me dizer o que fará amanhã com um alto grau de certeza. Pois são suas escolhas.

E agora chegamos à sua pergunta. O ser humano tem liberdade para determinar o seu próprio futuro. Deus também não teria? As profecias não se limitariam aos fatos que Deus, Ele mesmo escolheu e determinou? Então, nenhuma surpresa.

2. Como explicas a revelação de Deus no livro do apocalipse?

Para contrabalançar a longa resposta anterior vai agora uma curta: não explico. Alguém em sã consciência já se atreveu a explicar aquilo?

3. Como explicas o fato que nem falei e ele já conhece as palavras que eu falarei?

O salmista, poeticamente diz, “antes que haja em mim palavras eis Senhor que tudo conheces”. Deus pode não conhecer o futuro, mas estou convicto – e você também -  que Ele conhece plenamente o presente. Então, Ele conhece seus pensamentos. Aliás, assim começa o salmo, “Senhor tu me sondastes e me conheces”. E o salmista assim o arremata. “Sonda-me e conhece…, prova-me e conhece…”. Pois bem…

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Perspectiva da realidade

- Meu jovem, quem ainda não entendeu que o mundo mudou radicalmente nos últimos 10 anos, não entendeu nada da realidade que hoje vivemos.

- Ah é? E quem não percebeu que, na verdade, o mundo não mudou nos últimos 10 anos, mas que ele ainda está num radical processo de mudança, o qual, por sua vez, está longe de ser finalizado; não entende nada da realidade que vivíamos, que vivemos e que viveremos.

domingo, 12 de junho de 2011

O ULTIMATO DA ULTIMATO

Marcos Monteiro*

Faz parte do meu trabalho analisar e compreender e isso compreendo, mas é doloroso. A saída de Ricardo Gondim da revista Ultimato parece ser essa coisa corriqueira: um periódico afastando um colaborador por não atender mais a linha editorial. Não importa se atendeu durante vinte anos, mas agora os seus posicionamentos não interessam mais e parece ser legítimo que a Ultimato lhe dê um ultimato que, em certo sentido serve também de aviso para todos nós.

Não há dúvida que estamos nesses momentos históricos cuja densidade somente será percebida no futuro. Tanto o ultimato da Ultimato quanto a postura de Ricardo Gondim deverão passar para a história. O autor da coluna, como alguém que teve a coragem de se pronunciar dizendo o que pensa e não o que espera a linha editorial. E a Ultimato como uma revista que perdeu uma oportunidade única: ser o lugar de acolhimento de duas importantes controvérsias que estão alimentando as imagens e os discursos de nossa sociedade atual.

Gosto de lembrar que a Ultimato já comprou polêmicas importantes, ao ceder espaço, por exemplo, para as concepções políticas e sexuais de Robinson Cavalcanti, avançadas para o tempo. No meio evangélico assume um moderado ecumenismo e uma inteligente apologética, com produções de raríssima beleza e grande qualidade, posições que podem ser consideradas pertinentes e relevantes. Parceira da Visão Mundial em produções contra a violência, a favor das crianças, e em estudos de espiritualidade, sempre desafia a Igreja Brasileira a uma atitude missionária comprometida com transformações sociais. A editora traz entre seus autores alguém da seriedade de Carlos Queiroz, para quem, provavelmente todo mundo já sabe, “ser é o bastante”.

Todas as sextas-feira devo ter um texto pronto em nome do CEPESC (Centro de Pesquisa, estudos e serviço cristão), tarefa que tento cumprir há mais de três anos. Esses textos devem ocupar um certo espaço político e posso escolher o tema (benevolência do CEPESC que não vigia meus posicionamentos pessoais, mesmo quando não são lá tão ortodoxos). mas este tema me escolheu e isso se tornou um processo doloroso de purgação. Somente agora consigo escrever,. duas semanas sem honrar meu compromisso, mas precisava que as dores, as saudades, os respeitos fossem curados no absinto da tristeza.

Saudades de publicações inexistentes, de revistas em que a polêmica pudesse ser produzida e incentivada, e respeito por pessoas que enfrentaram os desafios da vida com toda força de suas convicções pessoais. As dores decorrem da percepção do crucial momento em que estamos vivendo, hora de rever conceitos e repensar modelos. Entre tudo, precisamos rever os paradigmas do século XVI, talvez até reexaminar e reconstruir todos os paradigmas.

Entretanto, não é fácil para uma editora, especialmente se gozar de certo prestígio, evitar os feudos semânticos, campos de significação onde nos movemos apenas como vassalos. As duas questões que desencadearam a crise estão na pauta da atualidade: a questão da homossexualidade, no campo do comportamento, e a idéia de Deus no campo teológico.

Falar sobre Deus é falar sobre o mistério, sobre aquilo que ultrapassa qualquer significação. Portanto, falamos por aproximação, usando modelos e imagens que expressem minimamente aquilo que experimentamos. Questionar a imagem de um Deus soberano é tão legítimo quanto afirmá-la, o debate nos ajudando a pensar sobre o impensável. Por definição, Deus não pode ser definido, a palavra Deus explode qualquer conceito de Deus, não pode haver uma teologia absoluta sobre o Absoluto.

Volta então a questão das questões, o comportamento homossexual e os direitos adquiridos através da PL122. A Ultimato, mais de uma vez, já se posicionou contra a homossexualidade e posicionar-se é direito legítimo de qualquer linha editorial. A questão é fechar uma questão que se encontra aberta, como abertas se encontram as feridas sofridas por uma grande parte da população brasileira.

As discussões sobre Deus e sobre a homossexualidade continuarão, e muitas vezes andarão juntas, desde que teólogos homossexuais e heterossexuais continuarão produzindo suas razões e argumentos, com diferenças cruciais. Para alguns, seus dizeres são pronunciados no lugar confortável da alteridade. Para outros, não. Sua teologia é vivida na própria pele, e seus argumentos vêm como grito de dor ou de clamor por compreensão e acolhimento. Pena que a revista Ultimato seja mais um espaço onde seja negado o seu direito de defender seus direitos.

Feria de Santana, 10 de junho de 2011.

*Marcos Monteiro é assessor de pesquisa do CEPESC. Mestre em Filosofia, faz parte do colégio pastoral da Comunidade de Jesus em Feira de Santana, BA. Também faz parte das diretorias do Centro de Ética Social Martin Luther King Jr. e da Fraternidade Teológica Latino-Americana do Brasil

CEPESC – Centro de Pesquisa, Estudos e Serviço Cristão. E-mail cepesc@bol.com.br, site www.cepesc.com. Fone: (71) 3266-0055.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Vossa santidade o santo Papa

- Então o falecido Papa virou santo?…

- Sim! Claro. Ele já era um santo.

- E o que precisa para ser santo? Eu também quero ser um.

- Primeiro você precisa estar morto.

- Ops! Então deixa pra lá… mas o que mais é necessário?

- Um milagre comprovado.

- Viver com meu salário é um milagre… Então o papa realizou milagres?

- Sim. Um freira foi curada de Mal de Parkinson.

- Mas quem disse isso?

- A freira. Ninguém vai duvidar de um freira, não é!!?

- Mas pera lá! O Papa mesmo não tinha doença de Parkinson? Se ele sabia como curar o troço, por que não curou a si mesmo?

- Vocês ateus… meu coração é cheio de misericórdia por vocês! Não vejo o dia quando vocês terão os olhos da fé abertos e nós nos abraçaremos como irmãos!

- Ateu? Que isso? Eu sou evangélico!

- Evangélico!!? Ih! Cruz credo, Minha nossa Senhora, vocês seus hereges vão queimar todos no fogo dos Inferno.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Um prazer tão grande no ódio

Será que amar o inimigo quer dizer que não devemos puni-lo? Não, de maneira alguma. […] Na minha opinião, portanto, é perfeitamente correto que um juiz cristão sentencie um homem à morte ou que um soldado cristão mate o inimigo em combate. Sempre pensei assim, desde que me tornei cristão e desde muito antes da guerra, e meu pensamento não mudou em nada agora que estamos em paz. Não vai adiantar citar "Não matarás". Existem no grego duas palavras: uma geral para matar, e outra específica para assassinar. Quando Cristo pronunciou esse mandamento, ele usou a palavra equivalente a assassinar nos três relatos: em Mateus, Marcos e Lucas. Disseram-me que a mesma distinção existe no hebraico. Nem todo ato de matar é assassinato, da mesma forma que nem todo ato sexual é adultério. Quando os soldados se dirigiram a João Batista perguntando-lhe o que fazer, ele nem de longe sugeriu que abandonassem o exército; tampouco o fez Cristo quando conheceu um sargento-mor romano — que eles chamavam de centurião.

[…]

"Bem, se podemos condenar os atos do inimigo, puni-lo e mesmo matá-lo, qual é então a diferença entre a moral cristã e a moral comum?" - Imagino que alguém dirá.Toda a diferença do mundo. […] Talvez sejamos obrigados a matar, mas não devemos alimentar o ódio nem gostar de odiar. Podemos punir, se isso for necessário, mas não devemos gostar de punir. Em outras palavras, os sentimentos de ressentimento e de vingança devem ser simplesmente exterminados de dentro de nós.

[…]

Talvez isso se torne mais fácil se lembrarmos que é dessa forma que ele [Deus] nos ama. Não pelas belas qualidades que julgamos possuir, mas simplesmente porque cada um de nós é um "eu". Pois, na realidade, não existe mais nada em nós que seja digno de amor: nós, que encontramos um prazer tão grande no ódio que abdicar dele é mais difícil que largar a bebida ou o cigarro...

C. S. Lewis em Cristianismo Puro E Simples

terça-feira, 26 de abril de 2011

O mundo (des)conhecido de então

Não é o nosso mundo, não é aliás mundo nenhum o “mundo conhecido de então”. Pois esbarraremos, como cegos guiados por cegos, no vazio a ser preenchido pela resposta à pergunta:

Conhecido por quem?

O “mundo conhecido de então” - expressão adorada para ratificar o avanço e alcance do Evangelho no primeiro século – não passa de uma abstração criada não sei quando e não sei por quem para expressar talvez sim, talvez não, os limites incertos do Império Romano.

O fato é que o Evangelho tinha ido além e ao mesmo tempo não tinha chegado nem tão longe.

Não precisaremos pensar tão longe no mundo conhecido de então pelos nativos de nosso Continente Americano, nem no conhecido pelos espanhóis onde Paulo pensava em ir, que não é a Espanha Geográfica que conhecemos hoje, nem na Índia onde diz a lenda Tomé ter chegado. Não precisaremos imaginar toda a África ou sequer a Etiópia onde o Eunuco batizado por Felipe foi morar, nem precisaremos trazer à memória o mundo conhecido pelos povos Bárbaros Europeus, como os Vikings; ou os impérios asiáticos, conhecido pelo povo Yamato do Japão, ou a imensa civilização chinesa.

A verdade é que no primeiro século o Evangelho não havia alcançado nenhum mundo, nem o conhecido da época, nem o desconhecido.

E hoje também não.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

O pecado que não tem perdão (3)

Como eu ia dizendo, a parábola do servo inútil nos mostra, como já poderíamos imaginar, que existe algo além da letra, algo além do que nos foi mandado. Ela está ali para nos desafiar a irmos além.

Ir além, significa não necessariamente ter uma grande fé, mas uma fé viva, ainda que pequena.

O ir além pedido por Jesus, naquele contexto, implica em perdoarmos até mesmo sete vezes num mesmo dia. Sem a perspectiva da fé isso seria impossível.

Esse é o mecanismo que nos mantém longe dos escândalos. Que nos preserva de fazer algo que, segundo Jesus (figurativo ou não), seria pior que a morte.

Eis o porque viver na inutilidade é um pecado imperdoável. Porque com todo zelo estaríamos vivendo presos à lei e não à graça. Viveríamos debaixo da condenação e não da misericórdia.

Fazer apenas o que nos é mandado é viver uma vida longe do perdão: “Mas se não perdoarem uns aos outros, o Pai celestial não lhes perdoará as ofensas”. Não perdoar é um pecado imperdoável.

Não ir além é imperdoável, é uma ofensa, uma blasfêmia ao Espírito da Graça.

Quer mais um exemplo? O jovem rico. Disse-lhe o jovem: “A tudo isso tenho obedecido. O que me falta ainda?”

Se você quer ser perfeito, se quer ser como Deus, um amigo à altura de Deus, vá além da obediência: Per_doe. Naturalmente que o problema daquele rapaz relaciona-se diretamente ao perdão. Toda doação é uma “perdoação”. Os verbos dar (doar) e perdoar possuem a mesma raiz.

O pecado daquele rico (como acontece com a maioria deles) é imperdoável, pois eles não vão além das regras que lhe beneficiaram tanto. Eles se contentam em sentar-se à mesa sozinhos, longe da companhia de seu Senhor. Servos inúteis…

Nosso querido amigo Lou está corretíssimo em dizer que o pecado imperdoável é o cometido por Satanás. Afinal Satanás é tudo aquilo contra o perdão. Ele é como já se sabe o acusador. Ele é tudo contra a doação, ele veio se não para roubar, matar e destruir.

Quando Jesus em sua liberalidade, distribuía toda suas riquezas, e expulsava demônios aqui e ali, e perdoava incondicionalmente, uma multidão, carente, foi atrás dele. E também os guardiães das regras, enfurecidos, foram lá: “É por Belzebu, que ele faz isso”.

O problema daqueles caras, e isso pode não estar muito longe de nossos próprios problemas, é que eles (como nós também) não queriam se despojar como Jesus. Eles não queriam ir além dos mandamentos. A blasfêmia não estava, nem tanto, em achar ou falar que Jesus fazia aquilo por meio do diabo, mas em contentar-se apenas com a lei, com os mandamentos, com “aquilo que nos foi mandado”, com nossa zona de conforto. Eles tinham toda a riqueza da lei em suas mãos e não distribuíam àquela gente faminta. Eles não os perdoavam.

Será que sou diferente?

Será que quero o despertar de uma má consciência sem limites proporcionado pela literatura moderna como Camus, Sartre ou Simone Weil?

O que mais me poderia melhor forçar a ir além e ser um servo útil, um amigo, à mesa com meu senhor?

Que as regras sejam dadas aos chatos, e a liberdade aos amigos.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Três pastores e um mico, ou: Reparando um erro comigo mesmo

“O destaque de Martin Luther King foi evidente na esfera político-social, mas no campo eclesiástico ele não se sobressaiu: nunca teve um pastorado produtivo de uma igreja; nunca trafegou na esfera teológica com pertinência; não deixou legado expositivo da Palavra de Deus.” (em King o homem e o Mito)

Imagem5Como todos devem saber, leio (ou agora posso dizer, lia) com certa frequência masoquista, o Blog supra linkado. Como já expliquei outras vezes, me justifico pela última vez agora:

  1. Meu ecletismo mineiro
  2. Minha herança católica que divido com o ex-presidente Lula, em achar que, mesmo entre visões opostas pode-se chegar a um denominador comum.
  3. Minha ingenuidade em pensar que no meio cristão, seja lá como se entenda esse termo, deveria haver tolerância, generosidade e cooperação.
  4. Achar que o total desprezo é pior do que uma singela crítica ácida.
  5. etc, etc, etc.

E assim passava naquele sítio vez por outra para conferir o que pensam os conservadores internautas desse Brasil de Deus.

Mas hoje cheguei no ponto final desse descaminho. E a citação acima selou a coisa toda. Foi a gota d'água.

Não li a postagem toda e sei que isso poderia (em condições normais de temperatura e pressão) ocorrer numa injustiça. Mas desse mal não morro.

Talvez por outras vozes, alguém outro, me faça entender como um cristão – filho de Deus - pode se destacar no campo político-social e ao mesmo tempo não no eclesiástico? (E estamos falando, minhas senhoras e meus senhores, de alguém da envergadura de um Luther King). Quais indicadores medem a eficiência de um viver cristão, dentro de uma igreja, senão os políticos sociais vistos fora dela?

  • Pastorado produtivo: um pastorado produtivo significa que no mínimo o indivíduo deve ser um multiplicador (daí, produtivo). Plantador de igrejas, igrejas que crescem, e vai por aí a fora. Nesse quesito, nosso Jesus [dos olhos azuis] receberia nota zero. Nunca plantou uma igreja e por consequência óbvia desse erro primário, nunca as pode ver crescer.
  • Trafegar na esfera teológica com pertinência: (ih! pobre de nós mineiros…) Acho que o Rabi de Nazaré também seria reprovado, ou no máximo receberia uma boa recuperação, por todas as heresias (ou impertinências, como queira) que ensinou e praticou, sendo a maior delas ter se metido, contraditoriamente, no campo politico-social. Se fosse mais esperto teria gastado seus dias escrevendo sobre a Torá.
  • Deixar legado expositivo sobre a Palavra de Deus: que provavelmente é a mesma coisa do item acima dita, porém, com outras palavras. O coitado de Jesus, que ficou contando parábolas, curando, fazendo milagres e passando as noites com um grupo de 12 homens suspeitos e outras dezenas de pecadores, poderia ter frequentado mais as sinagogas e quem sabe ter-se concentrado em um livro só. Talvez deveria ter-se detido sobre Miqueias, Oseias, Provérbios ou quiçá Cantares e ali exposto todo o sentido teórico filosófico dos mistérios divinos. Uau! Que legado não teria nos deixado!

E eu, tolo, que deveria ter escrito o que planejava (a groriosa menção de nosso nome na Bacia das Almas, ou sobre a incrível história das ideias circulares, ou um poema para meu falecido papai), fiquei aqui puto com o mico pagado por aqueles caras, que nem pastores são (a propósito nunca acredite 100% em tudo que eu escrevo aqui).

A partir de hoje não passo mais por lá. Não mais os molestarei (os autores daquele Blog) com meus comentários picantes.

Bom para eles, melhor para mim.

Erro de percurso reparado. Nova rota sendo calculada…

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Being Paulo Brabo

ERK_PBSendo verdadeiro que “originalidade é a arte de esconder as fontes", nesta bacia das almas você acaba de descobrir uma das minhas mais privilegiadas. Considero Paulo Brabo leitura obrigatória para quem compreende que a teologia não está pronta e tem coragem para enfrentar o desafio constante da ressignificação da fé. – Ed René Kivitz

Dentre os três mosqueteiros da teologia brasileira, Paulo Brabo foi o herói que mais esculachou os cardeais protestantes e suas vacas sagradas.

Até mesmo pelo fato de, ao contrário de Gondim e Kivitz, não fazer parte do clero, Brabo mostrou larga vantagem em suas argumentações. Afinal, sem ter que, dominicalmente, se ajoelhar arrependido diante de qualquer ídolo evangélico-eclesiástico institucional, ele poderia chutá-los inclementemente; e isso fez com classe e sagacidade, ferindo os demônios por trás deles mas nunca os fiéis à sua frente.

Como ícone da blogsfera protestante (no bom sentido do termo), Brabo passou a servir de fonte para, como confessa Kivitz, ressignificação da fé, ou como diz a Bíblia, para renovação do entendimento.

Mais Menos do que isso, ele passou a ser copiado (mais por uns, menos por outros), mas descaradamente por todos nós patifes virtuais e reais [e esse tipo escancarado de contrição, de auto denúncia, já é uma imitação].

O fato é que seu estilo franco e gentil é contagiante. Suas fontes (excetuando-se Borges – que para muitos de nós ainda é um ilustre desconhecido) permanecem bem ocultas, afinal se auto encobertam num panteão infinito de escritos. Portanto o cara consegue, ser acima de tudo, original.

Vai aí alguns dos 7 pecados capitais na escorregadia armadilha que é blogar e seguir diariamente a Bacia das Almas, e agora (eu atrasado – algumas coisas boas ainda chegam primeiro no Brasil do que na Europa), o perigo maior, manusear seus livros (que se multiplicam mais rápido que cogumelos).

Jamais:

  1. Apresente-se como “principal dos pecadores” usando termos marcantes. Ex: patife, canalha, farsa, maltrapilho, etc.
  2. Vincule o Evangelho e escritos sacros com expressões fortes que são normalmente usadas para coisas “profanas”. Ex: rebeldia do Reino, subversão de Jesus, sensualidade da mensagem, transgredir para o bem.
  3. Use, de igual modo, termos chocantes e metafóricos para destacar ideias principais. Ex: prenhe de esperanças, parir escritos, beijar a ferida aberta pela própria pena.
  4. Procure roubar termos da literatura e das ciências literárias. O pior deles ainda é: O protagonista.
  5. Esbanje advérbios ou adjetivos (ou a união dos dois) para deixar claro o modo, a forma e a intensidade do que você quer dizer. Lembre-se sempre de uma contradição de sentidos. Ex. desesperadamente correto, constrangedoramente lúcido, lucidamente constrangedor, vivendo absurdamente na linha do possível.
  6. e 7. (Espaço reservado para você sozinho com sua consciência)

wolfman2Enfim, desde que Paulo Brabo alçou a fama e está em vias de se tornar pop, tanto Kvitz, como o Lou (que por coincidência, ou não, dividiram o sanduiche de mortadela no pátio do recreio do mesmo seminário), ou qualquer um de nós, seremos desmascarados pela nossa falta de originalidade.

Brabo se tornou uma fonte inescondível. E olha que a fama não é tão incompreensível assim quanto a popularidade.

*Imagens e citações tiradas sem todas as devidas autorizações, como de praxis, de acordo com o oitavo mandamento deste Blog que reza, não roubarás mas copiarás.