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quinta-feira, 24 de maio de 2012

No meio do jardim tinha uma árvore

Tinha uma árvore no meio do jardim. Lá, onde o dilema divino era apenas trazer o homem ao mundo ético, e isso, de forma ética. Como fazê-lo entender o bem, sem conhecer o mal? Como criar luz, aparte das trevas? Como fazê-lo experimentar a vida, sem antes provar da morte?

Sem o conhecimento do mal, o homem não reconheceria o bem. E sem o conhecimento do bem e do mal o homem seria uma eterna ingênua criança. Ele nunca alcançaria o status de “filho de Deus”, que, como Deus, conhecedor do bem e do mal.

Deus, como bom pai, queria um homem maduro, livre e independente. Um ser consciente de si mesmo e, por isso mesmo, com uma consciência pura capaz de discernir entre o bem e mal.

O primeiro homem, ao sair da forma, não era um ser livre.

Desconhecendo o bem ou o mal, não poderia fazer escolhas pautadas em sua própria consciência. Incapaz de julgar por si mesmo, o homem teria que, para não ser compararado a um robô pré-programado, ser capaz de, no mínimo, agir voluntariamente, de criar suas próprias escolhas.

O fruto da árvore que estava no meio do jardim, seja lá como o entendermos, é que traria poder ao ser humano, para agir no universo ético.

Por ser essencialmente bom, Deus não poderia induzir o homem a provar daquele fruto, pois é claro que o conhecimento ético leva o homem às catacumbas da morte.

Como um criador amoroso, Deus precisava garantir que o homem, criado à sua semelhança, fosse um ser moralmente livre, com vontade livre. Livre para amar, ou odiar. Livre para obedecer, ou desobedecer. Livre para se relacionar, ou para se isolar. Livre para viver, ou para morrer.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Por que Jesus não riu?

- De onde você tirou isso?

- Na minha Bíblia está escrito que Jesus chorou, mas não tem nada sobre "Jesus riu"…

- Não tem nada mesmo, é verdade. Mas isso não quer dizer que ele nunca tenha rido…

- Mas um diácono já me disse que Jesus nunca riu!

- Por que você está tão preocupado com isso? O importante é que ele curou, pregou, morreu e ressuscitou. Vamos então nos concentrar nas coisas fundamentais reveladas, né!?

Os dois se entreolharam, o suficiente para ambos perceberem o quão pouco conheciam daquele homem, que chamavam de Senhor.

Um aproveitou aquela dúvida para estudar o tema, ler os comentários e preparar mais um esboço de pregação. O outro curioso, por sua vez, se deu a uma leitura mais atenciosa da Bíblia, dos Evangelhos, para ver se não tinha deixado escapar algum detalhe. Tentou também questionar outros e chegou até mesmo a perguntar ao próprio Deus, em oração, sem receber alguma resposta mais convincente.

Quando no domingo aquele tema foi trazido na pregação, aquele fiel se sentiu traído e totalmente constrangido. Tinha a impressão de que o sermão era só para ele. Mas depois ficou mais à vontade, quando ouviu que esta dúvida já tinha despertado, em outras ocasiões, o interesse de outras pessoas.

A risada é algo normalmente associada ao diabo. A famosa "risada satânica". Ou a expressão, o "diabo tá dando gargalhadas" disto ou daquilo. A Bíblia diz que bem aventurados são os que choram, e adverte, ai de vós que agora rides.

A dúvida era legítima, visto que o riso, por outro lado, é parte natural da vida, e diga-se de passagem uma das melhores.

Expressão de uma emoção tão humana e gostosa, o riso pode ser tão puro e cheio de significado como o riso de uma criança. Ou surgir no rosto de um idoso, que se esquece de suas amarguras e se deleita num momento inusitado. O riso de jovens apaixonados é cheio de vida. Ou cheio de energia como o de um adulto que conquista algo pelo qual lutou anos afim.

O brasileiro, um povo alegre, sofre para conseguir convencer o mundo e a si mesmo de sua seriedade em meio às suas risadas festivas. Talvez fosse esse o dilema daquele irmão, como ser um cristão sério e ao mesmo tempo alegre? Como sorrir e ao mesmo tempo franzir a testa?

Uma natureza rica e exuberante em uma sociedade decadente e corrompida. Tanta violência, tanta injustiça, tanta pilantragem... tanta beleza, tanto ritmo, tanta solidariedade... fartura de um lado, miséria do outro. Será que Deus ri com o Brasil, ou será que ele chora?

Depois da reunião religiosa, o pregador cumprimentou aquele fiel. Como que mirando em um espelho, eles perceberam, no olhar do outro, que certas coisas não foram reveladas a sábios nem a entendidos, mas aos pequeninos.

Eles então se abraçaram e se despediram sem palavras. E cada um seguiu seu caminho dando boas risadas.

Pois de repente, não existia para eles nada mais importante no mundo do que o riso de um jovem galileu, que resistira ao tempo, a uma elite corrupta, a um império e a uma cruz.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

A potente mão de Deus

Não tem como negar que a Bíblia é uma fonte tremenda de inspiração espiritual, até mesmo quando nos deparamos com suas esquisitices: os massacres sanguinários do Velho Testamento ou com as loucuras apocalípticas do Novo, ou, Deus amando o mundo.

A Bíblia é valiosa.

As Escrituras são sagradas. Não há como duvidar que tenham sido inspiradas pelo próprio Deus.

E aí está o problema!

É difícil, senão impossível, extrair a inspiração Divina de seja lá o que for nesse mundão dEle. Qual a boa obra literária que não trará em si as contradições humanas, sua alma, seu espírito e, por que não dizer, também a revelação da fé e do Divino?

Qual obra de arte ou científica, qual invento técnico que não deixará transparecer vestígios, ou até mesmo grandes marcas, do poder criador Divino, da potente mão de Deus?

Não nos atesta a teologia que Deus o onipresente e está em todo lugar? Que nEle, por Ele, e para Ele são todas as coisas?

É bem verdade, sabemos disso muito bem, que Deus não está em tudo. Há por aí muita coisa estranha, maligna e diabólica.

O mal está até mesmo lá - e por que não dizer, principalmente lá - nos lugares onde se venera o Sagrado, o Divino e, se adora as Escrituras.

Nem sempre é fácil, e só um louco diria o contrário, a tarefa de “examinar tudo e reter o que é bom”.

E… se nesse “tudo” a própria Bíblia estiver inclusa … e se, um exame mais acurado revelar que ela contém erros, como afirma Barth, e por errada, carecer também de um exame mais acurado?

Ou pior: E se, mesmo que inerrante e limpa, for por homens errantes e impuros, como foram errantes e impuros todos os santos, mal interpretada?

Terrível coisa é cair na [potente] mão do Deus vivo!

domingo, 27 de novembro de 2011

Teofania

Os momentos em que Cláudio encontrou Deus marcaram o resto de sua vã e breve vida. Foi no final da tarde de um longo e pesaroso dia.

Cláudio era uma destas pessoas que preferia a solidão aos ajuntamentos. Sentia-se melhor ao ar livre, do que dentro de quatro paredes. Para orar, preferia um parque ou uma praça, do que uma igreja ou mosteiro.

E foi por isso que ele dirigiu-se ao por do sol e deitou-se naquele banco inconfortável.

Cláudio estava cansado, na verdade, exausto. Para sua idade era uma anomalia. Era para estar com todo pique, mas há muito já estava cansado da vida. Se via como um fracassado, ainda que tivesse galgado alvos ambiciosos; se via um derrotado na batalha consigo mesmo. Por que se achava sempre lutando com os mesmos problemas, as mesmas fraquezas, os mesmos medos, os mesmos vícios?

O ambiente a seu redor era opressor, não importa para onde olhasse, desde o âmbito familiar até o político, desde o eclesiástico até o mundano… Já havia sido usado e abusado diversas vezes em vários sentidos. A coisa parecia não ter fim, e além do mais, só ia piorando. O mal definitivamente venceria a batalha.

Foi com esse espírito que Cláudio contemplava as últimas e escurar nuvens que ainda se podia avistar no alto céu. Via surgir algumas estrelas que conseguiam se impor ao clarão da cidade. E lá na frente, mais abaixo, a linha avermelhada do horizonte já engolia por completo o sol. A noite chegava – “por que nasci do lado errado?” – suspirava Cláudio, fechando os olhos e quase que adormecendo.

Foi então que percebeu um sujeito ofegante se aproximando de seu banco.

Não abriu os olhos. Mas sabia, de uma estranha e incômoda forma, que era Deus. Nunca isso lhe havia acontecido. Numa hipócrita reverência, preferiu permanecer de olhos fechados.

Deus se assentou em seu banco, aos pés de Cláudio, e permaneceu em silêncio, talvez também a contemplar o firmamento, ou a se despedir da luz do dia. Quem sabe se Deus não estava a observar Cláudio ali deitado, que por sua vez sentia em seus pés o calor do corpo divino?

Deus deitou-se ao lado de Cláudio. Este, ainda de olhos fechados, num impulso automático, estendeu um braço para acolher e abraçar a Deus. Cláudio ficou deliciosamente assustado e sentiu seu coração acelerar.

De repente, Cláudio começou a duvidar se seria Deus mesmo. Não sentia nenhum perfume, mas também nenhum mau cheiro. O corpo daquele que agora se via entrelaçado ao seu não denunciava se feminino ou masculino. Também não sabia se de um adulto ou criança. Era certamente um indivíduo humano. Cláudio sentiu-se tentado a expiar, mas ali deitado, conteve-se em acariciar a cabeça de Deus.

Em alguns minutos as dúvidas se dispersaram.

O rapaz ficou ali ouvindo o respirar da divindade, contínuo, ininterrupto, eterno. Embora estivesse bem próximo não ouvia batidas do coração. Deus parecia dormir.

Quando, quase que de ímpeto, num impulso de amarga lucidez,  se dispôs a levantar-se; lembrou-se… Lembrou-se de Jesus, que Ele, em meio a tempestade de águas violentas, dormia em um barquinho, com a cabeça sobre um travesseiro.

Cláudio acalmou-se. Abraçou Deus um pouquinho mais forte e tentou também pegar no sono.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Como falar de teologia (ou: Falar de si mesmo)

Teologia é uma palavra muito suspeita. Seu significado mais razo seria o estudo, ou a lógica, de Deus. E aí reside o problema: desde quando Deus é um objeto de estudo dos humanos?

Aliás essa pretenção, de se chegar a um conhecimento pleno de qualquer objeto que seja, é um perigo que assombra qualquer campo de conhecimento humano. Os cientístas, os doutores, os mestres não são os donos do conhecimento e nem muito menos do objeto que dispuseram a examinar.

Foi Cristo mesmo quem jogou na cara daqueles sábios de sua época, "vocês examinam as escrituras, mas não querem me conhecer".

Conhecer a Cristo, que é uma e a mesma coisa, que conhecer a Deus, envolve muito mais que nossa congnição. Mais do que isso, a própria teologia e os muitos séculos do cristianismo, nos convencerão que conhecer a Deus envolve em negar ou ir contra, muitas vezes, nossa própria cognição.

Por isso a narrativa, que não passa de uma leitura indireta dos fatos, foi a maneira escolhida por Jesus para ensinar as coisas dele e de seu reinado. À parte do ensino, Jesus falou menos e se relacionou mais. Curto e grosso: Jesus pregou menos e viveu mais. Tagarelou pouco e fez muito.

Eis o desafio, para que um teólogo (ou um crente qualquer) não caia nessa armadilha (da soberba do conhecimento): deixar que Deus permaneça como sujeito ativo da história, um companheiro da aventura da vida, um paráclito. [Talvez os catecismos tenham sido todos um grande erro...]

Assim, é melhor falarmos sobre (e expormos) nós mesmos, com todas nossas contradições, dúvidas e incongruêcias, em nossa própria experiência de vida; do que tentarmos explicarmos Deus em nossas vidas como um fator fixo. Por que ficarmos teorizando conceitos mil, nos quais Ele nunca se permitirá limitar?

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

O muito mais Complicado

O Deus [preconcebido] nos provê com tamanha estabilidade que a experiência de perdê-lo envolve nada menos do que a aterrorizante experiência de ser abandonado. Tal jornada escuridão adentro pode ser tão pouco natural e tão assustadora que evitamos a todo custo esse caminho estreito, usando até mesmo de violência contra quem nos encoraja a fazê-lo.

[…]Quem quer convidar pessoas a entrar nesse mundo sombrio e incerto, tem de estar preparado para caminhar ele mesmo por um caminho difícil e por vezes perigoso, pois no processo acaba trazendo à superfície toda uma multidão de ansiedades que gastamos muito tempo e muitos recursos reprimindo.

(Deus, unplugged)

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Uma paixão louca e voluntária

A filosofia e a arte da reflexão nos ensinam que, muitas vezes, o problema não se assenta nas respostas, mas, sim, nas perguntas. Portanto, parto do pressuposto que é enganosa uma pergunta do tipo: Podem os homens escolherem naturalmente a Cristo? Um sofisma que leva a falsas conclusões. E assim desvia-se dos reais problemas que Cristo intencionou solucionar.

Verdade é que o contexto e ênfase de João 15 está em outro assunto. Não retiro contudo o direito de qualquer um querer extrair de um versículo isolado uma verdade relevante. Mas parece, no caso, não ser relevante. Senão vejamos:

Quais perguntas poderiam nos guiar a algo mais produtivo?

Enumero pelo menos três:

  1. Quais frutos Jesus espera de seus discípulos?
  2. Quais as condições para um discípulo dar frutos?
  3. Qual o objetivo de Jesus ao dirigir estas palavras a seus discípulos?

Você notará que tudo então girará em torno do amor, amizade, alegria, paz, que são o fruto do Espírito. Esse fruto, que se resume em amor, só tem razão de ser frente a relacionamentos interpessoais. O foco, então, será completamente outro. As bases da teologia serão outras.

Assim, só então, vale a pena meditar no sentido da afirmação do Nazareno, “Vocês não me escolheram, mas eu os escolhi…”, que será repetida logo adiante, “…vocês não são do mundo, mas eu os escolhi, tirando-os do mundo…”

Gosto de pensar que escolhemos as pessoas que amamos. Amor é um sentimento, sim. Infelizmente, não podemos amar uma pessoa, se ao mesmo tempo, sentirmos repulsa por ela. A decisão por amar, deve ser acompanhada de uma correspondência com a alma.

O amor é um ato voluntário e racional, mas também sentimental. Infelizmente nossa teologia, por tentar diminuir a ênfase (tão popular) do amor emocional, acaba por subestimar essa tão importante variante. E isso é perigoso. As pessoas notarão rapidamente se não a amarmos de coração (apaixonadamente). E o inverso será também notório.

Aqui chegamos então ao ponto:

Jesus amou voluntariamente seus discípulos. Foi escolha dele.

Deus amou o mundo, de tal maneira… Deus escolheu amar o mundo.

Deus Pai e Filho se apaixonaram voluntariamente por nós, homens criados à sua imagem e semelhança, mas também por nós, “homens totalmente depravados”. O primeiro movimento nessa direção e nessa questão será sempre de Deus.

Essa é uma clara mensagem de João 15, amor, amizade, alegria, paz, enfim todo relacionamento interpessoal se assenta sobre escolhas pessoais – seria isso o livre arbítrio? Devemos seguir Jesus, e também fazer nossas escolhas: escolhê-Lo, escolher pessoas a serem amadas por nós.

Passando por esse caminho veremos que o homem natural não só pode, como deve, naturalmente, escolher a Cristo. Uma escolha extremamente difícil, que se tornará fácil, quando percebermos que Ele, apaixonada e loucamente, já antes, nos escolhera.

sábado, 27 de agosto de 2011

Sobre a soberania e missões

Há 13 anos deixei o Brasil para ser missionário em uma Europa, dita, pós-cristã. Hoje meus conceitos mudaram: Missão? Pós-cristã? Islã? Igreja?

Sim, estou convicto, são crises pertinentes ao modelo messiânico, empreendedor e proselitista que abraçamos no passado. Não estou só nesta minha angústia.

Para o velho modelo só encontro saída (ou demanda) lógica, frente ao imigrante islâmico. Mas não seria só uma perpetuação do modelo, além de ser uma dura pedreira?

A alternativa apontada pelo sábio é a promoção da vida para além do modelo catequético, que viu num Centurião homem de enorme fé. Seria então esse nosso desafio no diálogo interreligioso?

Os ares brasileiros se diferem radicalmente dos ares europeus: No Brasil o turnover religioso é enorme, por isso a dinâmica da fé tende a ser mais aquecida, contudo mais efêmera. Na Alemanha a euforia é menor, a fé torna-se inerte, estática, porém mais sólida e substancial. Em uma outra ocasião gostaria de exemplificar isso.

Basta agora lembrar que a fé baseada no determinismo nos faz crer que Deus para tudo tem um plano hermético e detalhado. Toda boa surpresa deste divino destino parece corresponder a uma providência divina, afinal Deus é o o Jeová Jiré, o Deus da provisão.

Todo esse edifício teológico se desmorona entretanto quando as surpresas são desagradáveis. Jó, que viu seus filhos sucumbindo em uma catástrofe, não anda de mãos dadas com Abraão, que teve seu filho restituído das cinzas.

Europeus, acostumados a guerras e catástrofes, onde a fé e a cruz, desde os primórdios andaram abraçadas com a espada, não se iludem mais com um Deus soberano aos moldes gregos. Eles se sabem donos de seu próprio destino. Essa é certamente uma das razões porque o modelo ufanista Americano nunca achou solo fértil no velho continente. E nem achará.

Mais uma vez o sábio destaca que é preciso notar que a inércia religiosa europeia não é fruto da teologia que adotou mas dos movimentos sociais que a promove – materialismo. Portanto, no projeto protestante que autonomiza os indivíduos também existem perigos. E um dos perigos vem do consumismo materialista.

Sei que os desafios missionários na Europa são muitos. Não estão nem longe de serem transpostos. Agora faz-se necessário, porém, detectar quais variáveis que podem contribuir ou obstruir a expansão do Reino aqui.

Sei que Deus está no controle, mas sei mais ainda que Ele não nos trará de bandeja um modelo pronto, uma receita de bolo. A Bíblia não revelará nada de novo sobre o assunto. Em sua santa soberania Ele, Jesus, nos convida a desenvolvermos o novo juntos: o modelo do momento. Um modelo que é eficaz, mas frágil. Que é efetivo, mas passageiro. Que não é uma fórmula mágica, infalível e eterna, mas que seja Vida e a vida em si mesma.

Evidentemente a peteca está em suas mãos; ou, terrivelmente, nas minhas…

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Cinco fundamentalistas e um jogo

Cinco fundamentalistas, cristão, muçulmano, hindu, ateísta e judeu, se encontram para um embate. Filhos de pais multibilionários: banqueiros, magnatas do aço, xeques do petróleo, industriais da informática e telecomunicações, enfim acionistas majoritários de conglomerados de empresas. Um americano, outro árabe,  o outro indiano, um russo e o último israelita. Todos cinco formados na mais tradicional escola religiosa de seus antepassados. Em uma só palavra ortodoxos. Todos cinco com graduação e MBA nas melhores Universidades do planeta.

Ex-colegas de estudos, agora, se reúnem em um hotel em Liechtenstein para, de uma vez por todas, eliminarem a única diferença que sempre os impediram de serem apenas bons amigos: a religião.

Mesa redonda, forrada de feltro verde, baralho no centro. Fichas coloridas, pintadas, redondas, quadradas,  retangulares, agrupadas em montes diversos postas a frente de seus cinco possuidores. Segurança máxima cercava o local. Uma fortuna incalculável estava em jogo!

Quem me contou a história não se lembrava mais quem embaralhou, mas foi o árabe quem cortou e deu as cartas. O indiano à sua esquerda tomou a primeira, a segunda, a terceira carta e assim por diante, foi deitando-as a sua frente: reis, damas e valetes. A cada carta posta sobre a mesa, rezava com seus lábios um nome dentre tantas das suas divindades, Brama, Radha, Shiva.. Lá pela tantas gritou, “Canastra! Canastra!” e rindo eufórica e histericamente foi puxando as fichas para si.

Os ânimos se exaltaram. Todos gritavam e tentavam segurar o indiano que esbraveja e ria incontrolavelmente. Foi preciso a intervenção dos seguranças.

O russo com sua testa suada, a mão gorda e branca começou a embaralhar as cartas. Postou-as para o americano cortar. Deu quatro cartas para cada jogador. Enquanto seus colegas olhavam seriamente as cartas que receberam, o russo deixou as suas fechadas sobre a mesa. De repente começou a chorar, um choro que foi tornando-se em riso estridente.

Puxou a primeira carta, “Tudo é o acaso”, um ás de ouros, a segunda, “Tudo é obra do destino”, um ás de copas, a terceira, “Tudo é contingencial”, um ás de espadas e por fim, esbravejou “É só sorte!” E puxou um ás de paus… com a cara então séria avançou sobre as fichas, esbravejando: “Não há Deus, não há Deus!”

Novamente confusão.

Quando os ânimos foram arrefecidos. O judeu já tinha o baralho nas mãos. Embaralhou-o e colocou-o no centro da mesa.

Tirou uma única carta: Deixou-a virada, incógnita.

Olhou nos olhos de cada jogador e virou a carta, era um Joker.

Levantou-se e gritou, “há um só Deus”!

E puxou a fichas para si.

Mais confusão.

Após a intervenção dos seguranças, o baralho foi para as mãos do muçulmano. Que olhou para o judeu e pediu que tirasse uma carta e colocasse novamente incógnita no centro da mesa.

Deu um trago no cigarro que tinha na mão, embaralhou novamente e tirou uma segunda carta e deitou-a ao lado da outra, no centro da mesa.

Virou a primeira displicentemente, um Joker. E postulou para seus colegas balançando a cabeça afirmativamente “há sim um só Deus: Alá”. E virou a outra, outro Joker. E gritou com todos os pulmões: “… e Maomé é seu profeta”. E avançou sobre as fichas abraçando a mesa.

E foi mais uma hora de confusão.

Por fim o cristão tinha o baralho em mãos. Como o muçulmano tinha feito, pediu que o judeu tirasse uma carta e a deitasse no centro da mesa. O judeu recusou-se.

Pediu então que o muçulmano, tirasse duas cartas e as deitasse lado a lado no centro da mesa, pelo que esse o atendeu.

O cristão então virou a primeira, um Rei de Ouros. “Há sim um só Deus!” Disse ele olhando para os outros jogadores. Virou então a segunda carta, um Valete de Ouros. “Mas em três pessoas: Deus Pai, Filho e…”, E puxou uma carta do meio do baralho virando-a, uma Dama de Ouros, “e Espírito Santo”.

Então sob o olhar perplexo dos colegas o Cristão avançou sorridente sobre todas as fichas.

Nova confusão.

Não se sabe como e quem deu o primeiro tiro. Os cinco foram encontrados mortos. A Interpol abafou o caso.

E o vencedor foi encontrar-se, na companhia de seus colegas, com a Divindade da sua fé, ou quem sabe, com nenhuma.

terça-feira, 5 de julho de 2011

O fracasso da Cruz

Como eu ia dizendo, a ética ou moral divinas não têm o seu ponto alto no Sinai, mas no Gólgota; não na força da Lei, mas na fraqueza da Cruz. E isso nos perturba deveras, nos confunde.

Hoje, já estamos cansados de saber que Jesus ressuscitou e que subiu ao céus. Estamos até mesmo convictos de que ele, um dia, voltará triunfante em glória. Mas não é essa majestade que nos seduz, que nos conquista: Deus nos cativa pelo fracasso da cruz.

Somos como aquele torcedor que ao ligar a televisão, já no meio do jogo, sem ter simpatia por um ou outro time, de repente, se vê torcendo para o mais fraco. Torcemos por Cristo por causa das chibatadas que levou, por causa da coroa de espinhos, por causa dos cravos em suas mãos e pés. Pelas suas chagas somos sarados.

Essa lucidez é porém abalada quando nos encontramos em crise e estamos vulneráveis à tentação. O Diabo parece nos incitar para que mostremos nosso poder, ou desafiar a que demonstremos o poder de Deus, esquecemos-nos assim, rapidamente, da sedutora fraqueza.

Note a pequena, porém gritante diferença: não negamos o poder, ou a possibilidade de ação e intervenção divinas; o que não se deve é fazer disso um show, uma necessidade. Deus não é um show maker, Deus é um íntimo amante.

As ruas de Nazaré e as poeiras dos caminhos da Galileia assistiram por trinta anos um menino transformar-se em homem, numa forma pacata num viver singelo. Um dia o extraordinário despontou e começou a sacudir aquelas pedras e aqueles rios e lagos. Milagres foram feitos, pessoas foram curadas, comida foi multiplicada, mortos ressuscitaram, demônios foram expulsos, água virou vinho.

Todo palco foi preparado para um ato. Todo poder sobrenatural dos céus foi convocado e exercido durante três anos na preparação de uma cena, a cena do fracasso: Ali no Gólgota homens e ladrões encaram Jesus crucificado e lhe propuseram um sarcástico desafio, “você salvou a tantos, então salve-se a si mesmo”. Todo seu potencial havia se esgotado. Ele se esbarrara em seus próprios limites – se for possível… afaste de mim – não era possível, nem mesmo para o “todo poderoso” Jesus de Nazaré. Ele não podia salvar-se a si mesmo.

Jesus deixou patente que o que lhe prendia àquela cruz era uma força maior que todo poder que Ele já havia demonstrado - e Ele havia mostrado poder de sobra. O fracasso da Cruz é o símbolo de alguém que amou desesperadamente. A ressurreição tem seu peso, mas não seria nada se viesse antes da morte, contornando o calvário. A ascensão ao céus deixaram os homens boquiabertos, mas nada que se compare a loucura ou escândalo da cruz. A segunda volta de Cristo alarga nossos horizontes, mas não chega nem perto da perspectiva insana oferecida pela Cruz.

A fé de um Cristo fracassado, de um Deus nu e morto pendurado no madeiro é o que verdadeiramente impulsiona nossos espíritos a se lançarem sepultura a fora, a deixarem as cadeias do inferno que mordazmente nos acorrenta.

A moral da Cruz, antes de fazer separação entre o bem e o mal, entre o certo e o errado, ela vem, muito mais, resgatar o verdadeiro e único valor de uma alma, de um ser humano, o real valor de toda e qualquer pessoa, o meu e o seu valor.

Enquanto o Sinai trovejava medo o Gólgota irradiava graça. A morte do Sinai gerava medo e causava pânico, a morte da cruz gera amor e quietude. A ética do Sinai é a ética da força e da condenação, a ética da cruz é a da fraqueza e do perdão. A impotência da Cruz supera a prepotência do Sinai.

O amor lança fora o medo – como todos nós já há muito deveríamos saber.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

O Cavalheirismo Divino

Em seu afã por defenderem o atributo poder da divindade, muitos teólogos anulam seu amor. Fazem de Deus um impotente, capaz de destruir o mundo com água ou saraiva ou terremotos, mas não de salvar uma alma penitente.

Limites e liberdade andam juntos. Um Deus que não é absolutamente onipotente, não é um Deus limitado, mas sim livre; livre até mesmo para poder não poder o que bem entender. Deus em seu amor optou por poder também não saber e/ou determinar todo o futuro.

Deus não pode, não porque não queira. Ele não pode, não porque não deva. Ele não pode por simples incapacidade. Por exemplo, Deus é incapaz de cometer um assassinato. Deus é impotente para violentar uma criança, mulher ou ser humano. Deus não planeja catástrofes naturais. Deus não arquiteta dilúvios. Campos de concentração e assassinatos em massa não são dirigidos ou controlados por Deus.

A origem do mal não está em Deus. O mal em última análise não tem origem lógica ou no Logos (por definição), por isso então: mal. O mal está na ausência de Deus.

O conceito de um Deus onipotente no sentido absoluto tem sua origem mais na tradição grega do que na bíblica, essa diz, por exemplo, ser impossível que Deus minta. A onipotência grega é matemática, cartesiana, mecânica. A onipotência bíblica é pessoal, passional, amorosa. O amor é uma forma de onipotência. Só quem ama pode tudo.

Deus só é todo poderoso porque ama. Se não amasse não poderia nada. O amor é mais forte e maior que o poder. Quando em minha teologia ou hermenêutica o poder de Deus atropela seu amor, preciso repensar seus pressupostos. Deus caminha junto. Às vezes vai na retaguarda, às vezes nos ultrapassa, mas nunca nos atropela.

Deus não é poder, Deus é amor.

O incrível não está em Jesus pegar no chicote para por ordem no Templo (Sua casa), mas em Ele ter demorado tanto para fazer isso.

Se Deus usa de violência ou agressão, só pode ser um poder disciplinador, que visa o meu bem. Ele açoita e castiga os que ama. Por isso nem toda cacetada  pode vir de Deus. Os açoites de Deus Pai visam o meu bem, o bem do filho. Sua vara e seu cajado me consolam. (Pauladas cheias de ódio não vem de Deus).

Quando Jesus ora, não a minha vontade mas a Sua. Ele não só mostra obediência, mas nos revela liberdade. Liberdade para obedecer e – mesmo assim - manter sua própria vontade, distinta da do Pai.

Deus nunca impõe seus valores à base da força, Jesus é a prova encarnada desse cavalheirismo divino. Às vezes não se sabe se está obedecendo, prestando favor, ou agindo por motivos próprios. No jogo de interesses, a autoridade nem sempre é clara. Quando o amor porém entra em cena, as relações de autoridade e poder perdem em força, o que falará mais alto é o tamanho do amor.

A ética ou moral de Deus não tem o seu ponto alto no Sinai, mas no Gólgota; não na força da Lei, mas fraqueza da Cruz.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Nunca os conheci

Partindo dos atributos onipotência, onipresença e onisciência jamais chegaremos ao Deus revelado por Jesus. Ele esvaziou-se dessas coisas (se é que as possuía). Jesus, para nos revelar Deus, esvaziou-se daqueles três atributos, não deixando, porém nunca de ser pessoal e amoroso.

Para conhecermos quem é Deus precisamos sondar cuidadosamente a humanidade de Jesus.

Parece-me que Deus não é onisciente, nem tanto por limitação, mas por opção. "O dia de amanhã cuidará de si mesmo", aconselhou-nos o Carpinteiro de Nazaré.

Deus, então, para manter-se coerente e dá-nos o exemplo, deixa o futuro cuidar de si mesmo.

Antes que você tire Deus do tempo e do espaço, advogo minha posição ao trazê-lo, novamente, para estas dimensões tão rasas. Afinal foi Ele mesmo quem deu o primeiro passo nessa direção, deixando seu paço celestial e vindo nascer num estábulo.

Jesus foi, aliás, um homem inteligentíssimo que gostava muito de metáforas, eis uma delas:

"Até os cabelos da cabeça de vocês estão todos contados".

Quer outra?

"Contudo, nenhum deles [pardais] cai no chão sem o consentimento do Pai de vocês".

O que o Mestre dos Mestres está falando aqui é figurativo. Deus não mantém um banco de dados com o número de cabelos de nossas cabeças, nem está assinando formulários para autorizar morte de pardais. Ele está apenas dizendo que Deus está no comando, por isso não precisamos temer ao mal,  mas sim a Deus, nosso Pai. O mal está aí, e parece triunfar, mas Deus é maior do que o mal! Não há razão para temer. Para deixar isto bem claro Jesus precisava usar uma ilustração bem forte.

A suposta onisciência de Deus, que não passa de uma subdivisão de sua suposta onipotência, deve ser relativizada se quisermos vislumbrar um Deus mais pessoal e mais real.

Gosto quando o salmista diz “tu me sondaste e me conheces…”, ou “sonda-me e conheces o meu coração, prova-me e conheces os meus pensamentos”. É também notório quando Deus diz a Abraão, “agora sei que não me negarias o teu próprio filho”.

Deus está se esmerando na atividade de conhecer-nos, talvez a mais ousada ação nesse sentido foi ter tornado-se homem.

Mesmo assim ele não conseguirá conhecer todos, especialmente aqueles que estão ocupados em profetizar, em realizar milagres e em expulsar demônios no nome dele. A esses ele terá que revelar também sua desconcertante não onisciência:

“Nunca os conheci.”