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sábado, 21 de janeiro de 2012

Clube da Capa Encardida

  

Anno MMLII

O Clube da Capa Encardida, conhecido também como Movimento da Capa Envelhecida, foi um movimento originado principalmente, mas não exclusivamente, na igreja evangélica brasileira, do final do milênio passado e início do atual.

O movimento foi obtendo dinâmica especial, e descentralizada, com a interação oferecida pela então recém chegada internet e suas redes de relacionamentos, com Blogs e mini-blogs.  Hoje, há mais de quinhentos anos de distância e, principalmente, devido ao seu caráter predominantemente anárquico, é difícil rastrear quais seriam os principais expoentes daquele movimento cristão brasileiro.

Uma lista fatalmente injusta e totalmente incompleta é aqui proposta: Tuco Egg, Rondinelly, Alysson Amorim, Volney Falstini, Ricardo Q. Gouvêa, Elienai Cabral Jr., Paulo Brabo, Rubinho Osório, Lou Mello, Ricardo Gondim, Nelson Costa e Roger Brand dentre tantos outros.

Servindo de orientação para uma linha de ideias relativamente novas e revolucionárias para a sua época, seus autores advogavam justamente a tese de que não havia nenhuma linha nova de ideias e que, eles mesmos, não eram orientadores de nada.

Os representantes daquela corrente de opinião insistiam em bater na tecla de que havia algo de errado com o cristianismo vivido no final do milênio passado (uma era de transição entre a modernidade e a pós-modernidade). As lógicas internas do paradigma evangelical brasileiro, da primeira década deste milênio, sopravam ventos institucionais muito rígidos, pois estavam amarradas aos ditames do sistema capitalista norte americano com seu consumismo maluco e a teologia (ideologia) que brotava deste solo competitivo, coorporativo e triunfalista.

O movimento em si não foi um movimento cismático mas de abandono. Abandono de lógicas e dogmas aprisionadores, em prol de uma liberdade mais individual (ou monástica), mas nem por isso, menos coletiva.

A teologia adotada de contornos mais literário e narrativo veio primeiramente complementando, depois embarcando e por fim suplantando a racionalidade do modernismo.

O abandono até mesmo, por muitos, da instituição “igreja” (como era então compreendida) não significou contudo o desleixo com tradições (a por G.K. Cherteston dita: voz democrática das gerações passadas), mas sim, a troca dos confortos da igreja formal e suas tradições (meramente de homens) pelo terreno não-mapeado do cristianismo secular.

O nome “Capa Encardida”, comumente interpretado de forma pejorativa e depreciativa pelos opositores do Movimento,  derivou da (arte gráfica e) cor da capa dos livros de alguns dos principais de seus autores.

“Heresias novas são na verdade tradições muito antigas” - Pablo Brabo

encardido - [Part. de encardir.] - Adjetivo.
1. Que se encardiu; que adquiriu cor acinzentada ou amarelada pela velhice:
papel encardido.
2. Bras. Carregado, ameaçador:
3. Bras. Diz-se de coisa sobre a qual é difícil opinar.

sábado, 27 de agosto de 2011

Sobre a soberania e missões

Há 13 anos deixei o Brasil para ser missionário em uma Europa, dita, pós-cristã. Hoje meus conceitos mudaram: Missão? Pós-cristã? Islã? Igreja?

Sim, estou convicto, são crises pertinentes ao modelo messiânico, empreendedor e proselitista que abraçamos no passado. Não estou só nesta minha angústia.

Para o velho modelo só encontro saída (ou demanda) lógica, frente ao imigrante islâmico. Mas não seria só uma perpetuação do modelo, além de ser uma dura pedreira?

A alternativa apontada pelo sábio é a promoção da vida para além do modelo catequético, que viu num Centurião homem de enorme fé. Seria então esse nosso desafio no diálogo interreligioso?

Os ares brasileiros se diferem radicalmente dos ares europeus: No Brasil o turnover religioso é enorme, por isso a dinâmica da fé tende a ser mais aquecida, contudo mais efêmera. Na Alemanha a euforia é menor, a fé torna-se inerte, estática, porém mais sólida e substancial. Em uma outra ocasião gostaria de exemplificar isso.

Basta agora lembrar que a fé baseada no determinismo nos faz crer que Deus para tudo tem um plano hermético e detalhado. Toda boa surpresa deste divino destino parece corresponder a uma providência divina, afinal Deus é o o Jeová Jiré, o Deus da provisão.

Todo esse edifício teológico se desmorona entretanto quando as surpresas são desagradáveis. Jó, que viu seus filhos sucumbindo em uma catástrofe, não anda de mãos dadas com Abraão, que teve seu filho restituído das cinzas.

Europeus, acostumados a guerras e catástrofes, onde a fé e a cruz, desde os primórdios andaram abraçadas com a espada, não se iludem mais com um Deus soberano aos moldes gregos. Eles se sabem donos de seu próprio destino. Essa é certamente uma das razões porque o modelo ufanista Americano nunca achou solo fértil no velho continente. E nem achará.

Mais uma vez o sábio destaca que é preciso notar que a inércia religiosa europeia não é fruto da teologia que adotou mas dos movimentos sociais que a promove – materialismo. Portanto, no projeto protestante que autonomiza os indivíduos também existem perigos. E um dos perigos vem do consumismo materialista.

Sei que os desafios missionários na Europa são muitos. Não estão nem longe de serem transpostos. Agora faz-se necessário, porém, detectar quais variáveis que podem contribuir ou obstruir a expansão do Reino aqui.

Sei que Deus está no controle, mas sei mais ainda que Ele não nos trará de bandeja um modelo pronto, uma receita de bolo. A Bíblia não revelará nada de novo sobre o assunto. Em sua santa soberania Ele, Jesus, nos convida a desenvolvermos o novo juntos: o modelo do momento. Um modelo que é eficaz, mas frágil. Que é efetivo, mas passageiro. Que não é uma fórmula mágica, infalível e eterna, mas que seja Vida e a vida em si mesma.

Evidentemente a peteca está em suas mãos; ou, terrivelmente, nas minhas…

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Venha adorar um outro Deus

Há sim um Deus maior. Há sim um Deus melhor. Há um outro Deus tão grande e bem maior que nosso Deus. Adoremos então esse outro Deus!

Se pensamos em nosso Deus, sob o prisma do típico e tradicional formato calvinista, veremos que o outro Deus é bem maior do que se quer imaginávamos. Explico, é bem simples:

Sob o formato calvinista Deus é onisciente, portanto conhece tudo, inclusive todo o futuro. Ou seja, Deus possui presciência. E é exatamente aqui, nessa jogada filosófica com o intuito de alargar os poderes divinos, que nosso Deus, contraditoriamente, é reduzido - Procura-se urgentemente por um Outro Deus maior!

Por que a presciência diminui nosso Deus?

A presciência parte de um conceito abstrato como “futuro”, tenta concretizá-lo e encapsula Deus dentro dele. Normalmente tenta-se traçar certos limites ao futuro, e concebê-lo num formato fechado. Preste bastante atenção, não estou dizendo fechado somente na linha do tempo, mas em todos os aspectos. Na linha do tempo imaginamos que o futuro se estenda ad infinitum, ou que atraca em uma espécie de nirvana, estado espiritual chamado “glória” ou “eternidade” que irá por fim à dimensão temporal. O futuro seria assim, de uma forma ou de outra, essa linha com curso determinado, portanto finita, ou este ponto final eterno, e portanto finito. Ou seja, o conhecimento de Deus sobre o futuro está limitado a esse limitado futuro, seja o de um conceito ou do outro.

Se pensarmos ainda em outros aspectos que envolvem o futuro - além da questão da medida de tempo e sua extensão - perceberemos o grande risco que é querer limitar o futuro. Todos os movimentos futuros, as atividades físicas, sociais, do espírito, e etc, formam um complexo de possibilidades, as quais só fazem sentido, enquanto futuro, num todo, como tais, possibilidades. Na medida em que tomamos esse conjunto de possibilidades e queremos tratá-lo como “realidade” do futuro, elas deixam de ser possibilidades e viram fatalidades.

Um Deus que pré-conhece um conjunto (limitado) de fatalidades é bem menor do que um outro Deus que não pré-conheça, mas está sempre a conhecer um conjunto a cada momento novo de infinitas possibilidades futuras.

Esse outro Deus não é só maior porque sua capacidade cognitiva seja estrondosamente maior, mas porque sua capacidade criadora também é absurdamente maior. Nosso Deus criou um futuro limitado, e seu conhecimento é limitado por esse futuro. Esse outro Deus é criador de um futuro diverso, abstrato e aberto, e seu conhecimento vai além desse futuro.

Adoremos portanto humildemente esse outro Deus.

sábado, 15 de janeiro de 2011

Conheceria Deus o futuro? (21)

O meu destino será como Deus quiser

Nosso protagonista tirou os tênis e deitou-se em umas pedras próximo à arrebentação e ficou a contemplar as ondas e o mar, talvez à procura daquela linda sereia. Em que canto ela havia se escondido?

Ao fundo, no bar da esquina, um grupo de amigos celebrava o fim de mais um dia de trabalho.

A cigana leu o meu destino
Eu sonhei!
Bola de cristal
Jogo de búzios, cartomante
E eu sempre perguntei
O que será o amanhã?
Como vai ser o meu destino?
Já desfolhei o mal-me-quer
Primeiro amor de um menino...

E vai chegando o amanhecer
Leio a mensagem zodiacal
E o realejo diz
Que eu serei feliz
Sempre feliz...

Como será amanhã?
Responda quem puder
O que irá me acontecer?
O meu destino será
Como Deus quiser

Como será?...

( F I M   D A   P R I M E I R A   P A R T E )

Leia mais em A Saga de Joaquim - ou conheceria Deus o Futuro?

sábado, 2 de outubro de 2010

A eleição e o arbítrio

“Ninguém faz o mal voluntariamente, mas por ignorância, pois a sabedoria e a virtude são inseparáveis.” Sócrates

Qual a sua opinião sobre a eleição?

Você acredita que o resultado das pesquisas será o resultado das urnas?

Você acredita que tudo, a essa altura, já está determinado?

Você acredita que Deus já sabe quem são os eleitos? Você acredita que eles já foram, até mesmo, eleitos pelo próprio Deus?

Você acredita em destino?

Assim como um grão de areia não forma um monte, e nem 3, 10 ou 100 grãos de areia irão formar um monte, todos deveríamos saber que nosso voto, individual, ou até mesmo de um grupo, não elegerá um presidente.

Paradoxalmente sabemos, todavia, que um monte de areia só pode ser formado por muitos grãos de areia. Ou seja, um presidente só pode ser eleito com nossos votos. Com uma quantidade enorme de NOSSOS votos.

Quem consegue mover um grão ou cem, não determinará o destino das eleições, todavia quem consegue mover um caminhão será mais efetivo.

Especialmente hoje é besteira falar que votamos em programa político, em um partido ou ideologia. Nós votamos nas pessoas e o que elas representam.

Mais do que isso, sou fortemente tentado a dizer que essas pessoas representam bem menos ideais políticos, e muito mais qualquer outra coisa mais superficial como: sexo, raça, classe social, religião, faixa etária, beleza física e etc.

A grosso modo, votamos num candidato se ele é gordo ou magro, se ele é feio ou bonito. E não se ele se mostra convincente em seus argumentos para resolver os problemas de segurança, economia ou ambientais.

Claro que todos desejam, em primeira linha o melhor candidato para o Brasil, ou… para si próprio. Mas a escolha de um BOM presidente requer uma BOA escolha: uma escolha inteligente.

Seria possível de fato separar as ideias das pessoas?

Um debate sempre será pessoal e subjetivo! Não combatemos ideias, combatemos pessoas. Isso pode ser visto especialmente hoje no Brasil, onde os quatro principais candidatos são de esquerda. As ideias são as mesmas, as pessoas é que são diferentes!

Logo, uma pessoa de direita começa o jogo já limitado em suas opções de escolha. Ela não é livre para votar de acordo com sua vontade, pois não há um candidato de direita. Ou haveria? Sim! Ele poderia votar no José Maria Eymael do PSDC Partido Social Democrata Cristão. Mas normalmente não faz isso, primeiro pois não o conhece, segundo pois ele não tem chances de ganhar.

E assim, nós, eleitores, vamos fazendo nossas LIVRES escolhas. Em parte essa liberdade é tolhida pelas opções limitadas que aí estão, em parte ela é tolhida, pelas escolhas que nós mesmo já fizemos no passado, e que repercutem no presente.

Alguns acreditam que Deus é quem tem TODO o Poder e quem controla TUDO. Assim seria ele o principal ator a determinar o futuro político do Brasil: “Se o candidato A,B ou C ganhar foi porque Deus quis…”

Discordo. Primeiro se Deus tivesse verdadeiramente TODO esse PODER como proclamam por aí, Ele não precisaria ter controle de nada. O controle é só para os impotentes. Um mecanismo para averiguar o que saiu fora de seu PODER.

Se colocarmos Deus como sendo o cara determinador, é bom ficar claro que Ele nos chama para a responsabilidade junto com Ele. Ele não determina tudo, e não determinará tudo sozinho, ele nos dará espaço para também atuarmos no teatro de nossa própria existência, para sermos co-autores do roteiro de nossa vida. Mas, seria ridículo pensar que tudo está só em nossas mãos e nas de Deus. Há outros atores, então, o destino é determinado por uma série de pessoas, inclusive os cartolas, e por uma serie de elementos, inclusive a natureza e os astros.

Mas você é livre para escolher, sua vontade é livre para escolher quem você quiser, baseado nos critérios que você quiser.

Nem toda informação do mundo te dará toda a certeza de uma escolha certa. E esse é o ponto, a escolha exigirá uma boa dose de fé e confiança. Não tenha então medo de exercer sua fé e confiança nos homens. Você não é ingênuo e sabe que eles irão mesmo te decepcionar.

Meus candidato?

Sei e reconheço o papel fundamental do PSDB e do FHC em algumas melhorias do Brasil nas últimas décadas. Na época estudantil já viajei quilômetros para ir a comício do Lula. Votei nele e sei também que ele e o PT contribuíram bastante para a sociedade brasileira.

Voto porém esse ano em Marina, nem tanto por ela ser cristã, nem tanto por sua ênfase na sustentabilidade. Mas voto na pessoa dela: uma mulher de fibra, humilde na origem e no caráter, tem um tom de voz agradável, um olhar intrigante de alguém que já foi candidata a freira e ministra do meio ambiente, empregada doméstica e senadora.

Temo que os que não votam nela, não o fazem por desejarem o pior para o Brasil, mas por ignorarem as riquezas dessa pessoa de nossa Amazônia brasileira.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Porque acredito no destino (3)

Recapitulando para finalizar: quando eu afirmo acreditar no destino a pergunta que fica no ar é, e você? Afinal você é do tipo de pessoa que não acredita no destino? Normalmente os cristãos (evangelicais) evitam essa palavra, e também outras do mesmo naipe: sorte, coincidência e contingência…

Então vem a maçante indagação: O que é destino? E a maçante resposta, destinar é “determinar com antecipação; fixar previamente”. Esse é o sentido que uso aqui e é o sentido que deveria sempre ser dado a esse termo, pois dele derivam todos os demais, variando somente o sujeito ativo da frase. Quem é que determina? Deus? A natureza? O indivíduo? O meio? Os astros? Os políticos? Os empresários? Ou os cartolas?

Se colocarmos Deus como sendo o cara determinador, é bom ficar claro que Ele nos chama para a responsabilidade junto com Ele. Ele não determina tudo, e não determinará tudo sozinho, ele nos dará espaço para também atuarmos no teatro de nossa própria existência, para sermos co-autores do roteiro de nossa vida. Mas, seria ridículo pensar que tudo está só em nossas mãos e nas de Deus. Há outros atores, então, o destino é determinado por uma série de pessoas, inclusive os cartolas, e por uma serie de elementos, inclusive a natureza e os astros.

Se Deus não pode saber o que decidiremos por nossa livre vontade daqui há uma hora ou 10 anos, Ele nos garante que está ao nosso lado, sob a sombra do relógio da praça ou sob o calor do relógio de sol. Ou seja, Deus resolveu entrar no tempo e jogar os 45 minutos do segundo tempo com a gente, sujeito a prorrogação e pênaltis. A diferença é que pra Ele 15 minutos de prorrogação é como o campeonato inteiro e o campeonato inteiro são como 15 minutos.

Apesar de seu problema de percepção do tempo, Deus procura usar bem do tempo que lhe cabe, assim Ele determina coisas, Ele faz suas escolhas com antecipação, Ele planeja. E tudo isso baseado em fatos que estão fora d’Ele.

Suas escolhas podem afetar as escolhas de Deus!

Com todo o confete que já jogamos sobre o “presente” em detrimento das sombras e luzes que pousam sobre o futuro, em determinadas circunstâncias, de crise em especial, o futuro é a única coisa que nos interessa – ainda que a solução esteja um segundo embaixo de nossos narizes – não importa, em época de angústia o presente é uma merda e não queremos de novo uma merda para o dia de amanhã – com perdão da expressão.

Então paramos na pergunta: e Deus se importa? Será que um excesso de confiança não me levaria a acomodar, e deixar de fazer alguma loucura necessária para sair da situação, ou uma falta de confiança não me levaria a desesperar e fazer alguma loucura desnecessária que só agravaria a situação?

Quando tomei como exemplo os casos extremos como resolver um problema de saúde, achar um emprego, achar um cônjuge ou escolher uma profissão, é porque já passei por isso e sei que não existe receita de bolo. Sei que se tivesse que passar por alguma destas crises novamente, minha experiência não valeria nada, ou, quase nada. Talvez ela servisse para eu entregar os pontos de vez, mais rapidamente, pois tudo isso é muito doloroso e rouba nossas forças emocionais completamente.

Resumindo se é que eu aprendi alguma lição nas horas de crise e poderia passar para frente é isso: o destino existe, ele é uma ação conjunta. Nós podemos determinar nosso futuro de forma limitada, Deus também é limitado em relação a nosso futuro, Ele está na jogada, mas sempre atento à nossa liberdade, à nossa vontade, à nossa fé. Outros fatores e vontades estão também em jogo e Deus não atropelará tudo para “nos dar o futuro que esperamos”.

Ainda que nada dê certo, que nenhum alvo seja alcançado, que tudo se frustre. Na pior das hipóteses, Ele estará sofrendo com a gente, na gente; e isso por mais doloroso que seja, é a melhor das hipóteses; pois é um sinal de que o consolo estará logo ali, na próxima esquina do tempo, guardado por Deus, nas mãos do destino.

Leia também:

*(Dedico essa série a uma pessoa amiga que aprendi a respeitar e amar - espero que ela saiba que me refiro a ela).

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Porque acredito no destino (2)

Será que Deus se importa com meu futuro? Será que Ele pode mudar o rumo das coisas? Será que Ele quer alguma mudança? Poderia Ele mudar o que Ele mesmo já determinou?

Essas são algumas perguntas que eu poderia fazer para justificar meu interesse pelo tema. Não se trata aqui de simples especulação mental. Muito mais do que isso, o tema destino ou futuro se aplica ao nosso relacionamento com Deus. Por exemplo, quando estamos orando, é bom termos uma clareza de quem afinal é o Deus ao qual nos dirigimos. Eu sei que a Bíblia nos condena a “não sabermos o que pedir como convém”, mas por outro lado, ela nos chama para uma certa eficácia na oração.

Destaquei na primeira postagem a importância de se entender que Deus está dentro do tempo. Eu poderia até concordar com você que, por ser infinito e ultrapassar toda nossa razão, todo nosso poder de compreensão e entendimento, Deus até esteja fora do tempo; mas teríamos também que juntos dar o braço a torcer e confessar que Ele, então, fez de tudo para que entendêssemos que está bem dentro do tempo, bem próximo da gente.

O outro ponto fundamental que me convence do destino e me faz entender melhor a Deus, é que Ele, Deus, faz as suas escolhas. E isso me assusta em dois aspectos:

1) Quando Deus escolhe uma coisa, Ele tem boas razões para tal e dificilmente mudaria de escolha, a não ser que a base que o orientou na escolha seja alterada. E isso me leva ao segundo ponto;

2) As bases das escolhas divinas só podem se situar fora d’Ele.

Vamos analisar o caso mais complexo e comum que é a chamada predestinação (da qual já se falou, e já falamos mais do que o suficiente); depois peguemos algum caso mais leve.

A Bíblia afirma que Deus escolhe pessoas: Reis, apóstolos, profetas, discípulos, e etc. Em alguns momentos veremos ela se referindo aos eleitos de Deus, aqueles que hão de herdar a vida eterna.
Minha leitura da história de Saul me leva a crer que Saul tornou-se um predestinado, primeiramente para reinar:
“No dia anterior à chegada de Saul, o SENHOR havia revelado isto a Samuel: “Amanhã, por volta desta hora, enviarei a você um homem da terra de Benjamim. Unja-o como líder sobre Israel, o meu povo; ele libertará o meu povo das mãos dos filisteus. Atentei para o meu povo, pois o seu clamor chegou a mim”. 1Sam 9:15-16
Todos sabemos que Saul tornou-se rei, reinou, mas depois de um tempo ele foi predestinado para não mais reinar:
“O SENHOR o rejeitou como rei de Israel!” 1Sam 15:26
Saul havia preenchido certos pré-requisitos da exigente lista divina, os quais ele mesmo, mais tarde, veio negligenciar. Provavelmente alguns deles foram a obediência e a humildade.
Sabemos do restante da história. Davi entra em cena pois era melhor do que Saul. Se torna um predestinado e fica no trono até a morte.

De certa forma sabemos que Davi alcançou a vida eterna, por outro lado é comum a dúvida: e de Saul o que foi feito? Ele perdeu sua salvação? Não irei especular aqui sobre isso. Pode ser que Saul tenha sido salvo, pode ser que não… Não acho nada na Bíblia sobre o caso específico dele, e no fundo, pouco me importa se Saul foi salvo ou não. Acho que, me permita a ironia, como Deus, queremos que todos sejam salvos, ou não?

Mas é fato que existe uma expressão na Bíblia que fala de Deus “riscando o nome de alguém do livro da vida”, e isso me leva a crer que a questão da salvação, ainda que seja algo garantido e muito certo, permanece ainda em aberto, sujeito a alguns fatores; dentre eles o arbítrio pessoal, e também a as obras da pessoa.

Por mais sincera que uma pessoa possa ter sido em sua fé, se ela não conseguiu transformar essa fé em ações concretas de amor, eu seria fatalmente levado a crer e afirmar que paralelamente à sua fé existiram outros interesses mais fortes que concorreram e sufocaram aquela fé tão sincera, como por exemplo, riquezas, prazeres e os confortos deste mundo.

Nesse ponto alguns já estão se armando contra o que digo e classificando-o como uma suposta apologia à salvação pelas obras. Creio que as boas obras não podem salvar, mas a total ausência delas pode ser altamente comprometedor.

Se as escolhas divinas se baseiam n’Ele mesmo, sob a lógica: “Escolho aquele que escolhi”; ou “meus critérios são insondáveis”, ou “tenho misericórdia de quem eu quiser”…  Deus se tornaria mais injusto do que o mais injusto dos homens caídos; mais arbitrário do que o mais cego juiz; suas razões seriam mais aleatórias e irracionais do que as de qualquer louco. A Bíblia não nos deixa entender assim! Pelo contrário, ela afirma que a loucura de Deus é mais sábia do que a sabedoria humana.

Se as escolhas divinas se baseiam n’Ele mesmo, não podemos falar de escolhas, pois escolhas envolvem critérios. Deveríamos então falar sorteio. Poderíamos dizer que Deus faz uma espécie de sorteio. Nós somos os sorteados de Deus! O povo sorteado! Não, Deus sonda os corações e ali Ele acha os critérios que está procurando: humildade, fé, mansidão, caridade. Ah, mas tudo isso vem de Deus, ninguém pode produzir isso por si próprio! – diria alguém. E eu digo: Claro! Mas nós podemos cultivar essas coisas, podemos multiplicá-las, ou podemos abafá-las e por fim, tirá-las de nossa vida.

Para fechar o exemplo da salvação, penso que Deus usa claramente do critério da humildade: Todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo. Qualquer pessoa, cristã ou não, que num momento de crise (que seja), se humilhar e clamar a Deus por socorro, será socorrida, será salva. Por outro lado, qualquer que fincar pé no seu orgulho, e numa evidente crise, arrogar que não precise de ajuda… estará fadada à perdição. Ou melhor, se a pessoal, cristã ou não, se orgulha e pisa sobre outros para se defender de qualquer crise e nunca ter que pedir socorro, ainda que ela diga para Jesus, “Senhor, Senhor”, a queda dela estará bem próxima, e provavelmente não haverá tempo para clamar por socorro.

Partindo para outros exemplos menos complexos que a salvação, pensemos no caso de resolver um problema de saúde, achar um emprego, achar um cônjuge ou escolher uma profissão. Existem nessas três áreas casos em que não há drama algum. Tudo segue o curso normal da vida e tudo se resolve de forma rápida e satisfatória - talvez esses casos sejam exceções… Pois, normalmente as pessoas ficam presas pelo menos numa dessas áreas, se não em todas.

Nessa hora surge a crise e vêm aquelas perguntas: Será que Deus se importa com meu futuro? Será que Ele pode mudar o rumo das coisas? Será que Ele quer alguma mudança?

Normalmente a pessoa pensa, o melhor é não se preocupar com o futuro e viver o presente. Mas são questões assim que ameaçam a existência; elas são questões do presente! Talvez um dia ou dois a pessoa pode achar algum outro assunto para se distrair e pensar antes de dormir, mas não a semana inteira ou mês inteiro.

Outro pensamento conflitante é: Deus pode todas as coisas! Então sou fatalmente levado a crer que ele irá de uma forma ou de outra reverter a situação a meu favor, de acordo com meus desejos.

Será que essa atitude não nos leva muitas vezes a fazer corpo mole? Como sair dessa sinuca de bico? Isso gostaria de escrever mais a frente e assim finalizar a série.

(Continua)
Leia também: Porque acredito no destino

domingo, 4 de julho de 2010

Porque acredito no destino

É muito divertido ver cristãos afirmarem convictamente que o destino não existe e por outro lado, sem pestanejar, acreditarem piamente na predestinação. A explicação seria que para eles o destino seria uma entidade a parte, separada da divindade, quase uma outra divindade; enquanto a predestinação seria uma ação do Deus judaico-cristão.

Eu acredito no destino, no sentido mais restrito da palavra, que é “onde” se chegará um dia. “Onde” pode ser um lugar ou uma situação de vida. Se você pega um ônibus com destino a Camboriú, pode-se dizer que, com boas chances, seu destino já está traçado e em algum tempo você chegará a ele: Camboriú. Todos nós somos em certa medida donos de nosso próprio destino.

Sobre o termo predestinação já falei certa vez, ele compreende um pleonasmo em si mesmo, afinal toda “destinação” é e só pode ser “pré”. Mas se entendermos que a predestinação é um destino traçado por Deus, e que esse destino é muitas vezes fixo e imutável então teria também que admitir que creio na predestinação.

Eu creio no destino no seu sentido mais amplo. Acredito que boa parte de nosso futuro está escrito nas leis naturais e muito dificilmente fugiremos dele. Creio porém que alguma parte dele já foi desejado e planejado por Deus e também teremos pouca probabilidade de escaparmos dele.

Se você estiver atento à minhas afirmações perceberá que eu deixei espaço suficiente para introduzir um outro termo que também já chamei de pleonasmo: o (livre) arbítrio, afinal todo arbítrio tem que ser livre, se quiser ser arbítrio. Remedando o Brabo (se é que essa idéia ainda não foi por ele reformulada) também digo:

Não creio que Deus tenha como conhecer antecipadamente a decisão livre que um homem vai tomar no futuro.

Eu sei que é constrangedor para nós cristãos admitirmos, após vários séculos, que Deus não é tão onisciente assim como apregoamos. O fato é que ainda que Deus tivesse o poder para saber o que eu ou você escolheremos para fazer amanhã depois da janta, Ele simplesmente prefere ficar educadamente de fora. Até mesmo em situações em que insistimos com Ele para que venha e decida por nós ou ainda conosco, ele se limita a deixar toda a responsabilidade e autoridade da escolha sobre nossos ombros, por uma simples questão de liberdade e amor.

E aqui gostaria de destacar dois pontos que, sem eles, não chegaremos nunca a entender nosso relacionamento com Deus. Meu pai gosta muito de citar São Vicente de Paulo que segundo ele alguma vez teria dito:

“Confio como se tudo dependesse de Deus; ajo como se tudo dependesse de mim.”

Embora essa frase pareça esconder alguma sabedoria (como na verdade acontece com tudo que nossos pais falam nesse tom), ela só vem esconder a verdade que seria uma formulação mais ou menos assim:

“Confio e ajo como se quase tudo dependesse de Deus e quase tudo de mim mesmo”.

O tudo aqui significa nada mais nada menos que nosso destino, nosso futuro. De quem ele depende afinal? Tanto de um como de outro!

O problema é que, e agora vou ao primeiro ponto a ser destacado, à semelhança de G. K. Chesterton (e tantos outros) queremos situar Deus fora do tempo e do espaço. Se Deus está situado de fato fora do tempo ele não é o Deus brasileiro que tanto acreditamos e muito menos o Jesus Cristo descrito nos Evangelhos.

“Eu sou aquele que era, que é e que há de vir”. Desde o início Deus já se movia, agia dia a dia, e estava sujeito às maravilhas e revezes do tempo. Em Cristo, Ele só veio deixar isso escandalosamente patente. Se deixamos Deus fora do tempo, aí mesmo é que não poderemos falar de predestinação, nem plano divino, nem nada sobre Deus, a encarnação, crucificação e ressurreição seriam ridículas. Você pode até me falar que Deus é bem maior que o tempo ou espaço, mas não me diga que ele se situa fora dele. Em caso de dúvida visite um doente ou um preso, dê de comer a um faminto, vista um descamisado, sem dúvida alguma você encontrará Deus neles, de forma bem concreta situado no tempo e no espaço.

Uma vez entendido que Deus se situa também no tempo, teremos que entender um outro ponto para avançarmos no nosso relacionamento com Ele, quando o assunto em pauta é o nosso destino: Deus faz suas próprias escolhas. E esse é o meu segundo ponto. Mas falemos sobre isso uma outra vez…

(Continua)

terça-feira, 29 de junho de 2010

Conheceria Deus o futuro? (20)

A Sereia

Ao sair na Av. do Estado em direção à Av. Central, Joaquim começou a sentir o cheiro salgado do mar. Não demorou muito para achar um lugar para estacionar o carro na Av. Atlântica. Apesar do cansaço e da fome, ele decidira não comer nada, fazer uma espécie de jejum – se pela igreja ou por algum conhecido lhe chegara o valor daquela disciplina, não sabia ao certo, mas de alguma forma sentia-se impelido a jejuar – afinal sua cabeça estava um turbilhão.

A viagem até ali não havia sido longa, mas intensa. Olhou no relógio e viu que essa hora a mulher não estava em casa. Aproveitou então para ligar e deixar um breve recado na secretária, assegurando que estava bem, e viajara com um amigo para uma entrevista de emprego e só voltaria amanhã (mentiu), que ela não se preocupasse.

O mar estava sereno. A tarde ensolarada mas não muito quente. As pessoas passeavam descontraídas na orla marítima. A brisa lhe sussurrava vida.

Seus sentidos recusavam ainda a aceitar aquela situação toda: O que ele afinal de contas estava fazendo ali? Será que encontraria alguém, uma espécie de anjo com uma mensagem celestial? Que coincidência teria sido aquela de uma voz interior lhe guiar até aquele carro com uma chave na porta? E aqueles corpos na estrada, será que também essa seria sua última jornada rumo à descoberta do céu ou inferno? E a blitz? Por que será que o guarda não lhe pedira carteira de motorista ou os documentos do carro?

Para todas as perguntas, Joaquim, não conseguia achar uma só resposta lógica.

Foi quando ele avistou no mar uma linda sereia. No início pensou ser só uma mulher a nadar. Mas não havia mais ninguém na água só ela, e deu um salto deixando aparecer sua calda com escamas. Pensou ser uma brincadeira, uma promoção e aproximou fixando os olhos na mulher que ria para ele.

Quando fugiu de uma onda que quase lhe molhou o tênis, desconcentrou-se e a sereia mergulhando sumiu no verde azul do mar.

(Continua)

Leia mais em A Saga de Joaquim - ou conheceria Deus o Futuro?

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Bem aventurados ou bem sucedidos?

-Roger, pena que as coisas não saíram como você quis… Alguém me falou em uma das minhas últimas idas ao Brasil. Fiquei indignado! Não expliquei meu fracasso. Não argumentei. De certa forma aquela amiga tinha razão e por isso meu embaraço. Mas eu não me sentia um fracassado. Na pior das hipóteses considerava a minha derrota a minha maior vitória, e de certa forma esse havia sido o plano. Mas será mesmo que havia sido tudo planejado assim?

Eu deixara o Brasil em 1998. Já estava quase uma década na Europa. Nesse tempo tinha acrescido a meu currículo os cargos de distribuidor de panfletos nas ruas de Londres, faxineiro em Viena, carregador de caminhão e ajudante de pintor na Holanda, lavador de panelas, empacotador de arroz, faxineiro em cinemas e manicômio e finalmente porteiro noturno em um Hotel próximo da estação Vitória. E assim me casei, e com o salário da Tanja, minha esposa, pagávamos as nossas contas. Nos mudamos para a Alemanha.

Aqui a coisa continuou profissionalmente desse jeito: fazedor de sanduíches, garçom no café da manhã de um hotel e finalmente um bico de digitador em uma associação de criadores de cachorro Boxer – foi quando pela primeira vez, após 10 anos de formado em administração de empresas, pude ver novamente um PC na minha frente como objeto de trabalho. As últimas vezes que trabalhei em um computador no Brasil tinham sido quando lecionava em um curso técnico de contabilidade e trabalhava como pesquisador júnior.

Comecei esse assunto, pois queria tocar mais uma vez no tema que tanto tenho dado voltas nesse Blog: Planos divinos, o futuro, a soberania divina, o sinergismo de Deus e seus humanos.

Na verdade a idéia era refazer as perguntas que fiz e não foram publicadas no Blog Púlpito Cristão. O meu amigo Beto, que postou um texto sobre Teísmo Aberto (do Caio Fábio), foi quem pediu para eu conferir a babaquice (desculpem não achei outra palavra) do autor do Púlpito Cristão.

A Teologia Relacional e o Teísmo Aberto (dos quais conheço muito pouco ou nada) foram quem me abriram a perspectiva, até então fechada, de que Deus não conheceria o futuro. NÃO HAVIA UM PLANO!

E se ele todavia tivesse um, o que supostamente escapuliu aos planos de Deus? (Aliás esse era um outro objetivo deste texto agora, tentar articular algo sobre administração, resultados e sucesso em resposta ao Neto).

No fundo, todos esses são temas muito difíceis; e dificilmente conseguiríamos generalizar para encontrarmos princípios universais. A verdade se encontrará na particularidade de cada caso, de cada pessoa.

Ainda que abominemos a Teologia da Prosperidade e lei do toma-lá-da-cá - e a abominamos - é difícil negar que Deus, de alguma forma é galardoador daqueles que o buscam, e que esse galardão pode vir (e vem) muitas vezes de forma material e palpável, assim como de forma abstrata e espiritual. E esse é justamente o ponto, quem pode discernir se determinada conquista ou derrota, perda ou ganho, seja no plano material ou espiritual foi um benefício ou um malefício, uma bênção ou uma maldição?

Existem casos, porém, e não são raros, nos quais o mal é óbvio e evidente. Exemplo bíblico? Jó!

Quando encaramos o mal de frente torna-se muito difícil enxergarmos a Deus em qualquer lugar desse universo. Por isso há uma difícil questão teológica e filosófica: como pode haver um Deus bom e soberano se existe o mal? Para essa pergunta surgem duas respostas:

  1. A primeira, da qual me libertei, dirá tudo é plano de Deus. Ele é soberano. Nós só enxergamos o lado avesso do tapete, de um sábio tapeceiro. Não podemos entender quando um mal nos aflige, e devemos confiar que Deus tem um plano maior. Se José foi quase morto pelos próprios irmãos e vendido como escravo para o Egito é porque Deus queria proteger a família de Jacó da fome que haveria de abater a terra. O problema dessa idéia é que se ela confessa que Deus está sob o controle de tudo, e pode transformar o mal em bem, ela nega que Deus seja onipotente ou que seja benigno, pois Ele não pode (ou não quer) simplesmente valer-se sempre do bem para atingir o bem. De vez em quando, por alguma razão oculta, Deus é tentado a fazer o mal, e o faz, para atingir seus objetivos benignos.
  2. A segunda que me parece mais plausível, é que Deus permanece benigno, Ele jamais se valeu ou valerá do mal. O mal existe por uma questão lógica de liberdade. O mal acontece não porque Deus planejou. Deus é amor, e ainda que haja o mal Ele permanecerá lado a lado do ser humano, o amando. Isso também não significará que Deus deixou de ser soberano, ou onipotente. Não, mas Deus mesmo, se contém, se refreia, para que o homem tenha espaço de ele mesmo, agir, seja para o bem ou para o mal, ou seja ele dá ao homem o que eu chamo simplesmente de “possibilidade de escolha” (afinal só é escolha se for livre) e que comumente é entendido por livre arbítrio. Então alguém poderia dizer: Ah!… então Deus criou o mal para que haja liberdade, um mal para que surja um bem?! – Não! – já respondo – O contrário, ele criou um bem, a liberdade, que implica, necessariamente na possibilidade dos homens (ou anjos) optarem pelo mal.

Na verdade, qualquer pessoa com um pingo de razão chegará a conclusão óbvia de que esta temática esbarra em nossa capacidade de entendimento, e que há um mistério insolúvel por trás disso tudo. O qual poderá, em parte, ser desfeito somente no plano pessoal, ou não.

  • Será que estes defensores da interpretação Bíblica correta não percebem esse limite da razão?
  • Será que eles não percebem que autores chamados de liberais, como Schleiermacher, vieram acrescentar ao pensamento teológico essa virtude de declarar, não “A morte da razão”, mas o seus limites míopes?
  • Será que ao defenderem a interpretação mais fiel das Escrituras, eles estão cientes que Deus não credenciou ninguém, além do Espírito Santo, como o interpretador irrepreensível? E que toda leitura da Bíblia é uma interpretação, e não passará de uma mera interpretação?

Assim dificilmente extrairemos da Bíblia os reais indicadores do sucesso, além daqueles que Jesus mesmo apontou nas “bem aventuranças”. E ali você, dificilmente conseguirá separar o material do espiritual, o terreno do celestial. E pior ainda, não conseguiremos distinguir onde, exatamente, uma bem aventurança aponta um resultado positivo a ser acrescentado ou um um negativo a ser diminuído. Como Paul Tournier certa vez expôs, tudo será um ciclo de receber e dar, dar e receber. E as duas coisas são necessárias e boas quando feitas no momento certo debaixo das motivações certas. Só para dar um exemplo: o misericordioso, só é bem aventurado, quando exerce sua misericórdia de forma íntegra. Não é virtude nenhuma passar a mão na cabeça de todo e qualquer bandido, em nome da misericórdia. Da mesma forma, alcançar misericórdia só será bênção, quando acompanhada do devido arrependimento, caso contrário será mero pretexto para a causa de maiores males pessoais e alheios.

Voltando a minha história, sei que não foi plano de Deus, nem o meu próprio que eu fizesse dívidas em um país estrangeiro, que vivesse tanto tempo longe de minha família e amigos que ficaram no Brasil, que quase jogasse no lixo um diploma universitário que conquistei duramente, que vivesse privações. Minha sorte poderia ter sido outra, mas não foi (pelo menos não naquela época). Por outro lado, tive outros ganhos, e sou grato a Deus por eles. De certa forma, muitos dos ganhos que tive, foram planejados e até mesmo frutos conscientes da trilha amarga que tive que passar. Mas tive também perdas, jamais planejadas, que jamais se compensarão. Os ganhos porém me consolaram e consolam muito por elas.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

O que supostamente escapuliu aos planos de Deus?

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Graças à pergunta do Neto no texto Um Deus flexível, poderei, como já queria fazer, deixar didaticamente algo claro.

Se Davi ousou comparar seu Deus com sua própria profissão, usando o pastoreio de ovelhas para compor um dos mais belos salmos; não acho ser maior heresia usar minha própria profissão para entender um pouco melhor meu Deus.

O administrador, apesar das várias correntes e teorias que postulam não exatamente isso, faz somente quatro coisas: P-planeja, O-organiza, D-dirige, C-Controla, o famoso PODC da administração.

De alguma forma o Planejar entra como a primeira das funções administrativas, que são cíclicas, como representadas no diagrama ao lado. Como tudo na ciência, não existe uma linha divisória clara de onde começa uma função e termina outra. Mas o modelo teórico é válido e ajuda muito na prática.

O que eu acrescentei (por mérito ou vexame próprio) foi localizar o foco cronológico dessas funções:

  • Planejamento: foco no futuro
  • Organização e Direção: foco no presente
  • Controle: foco no passado

Nas atividades de planejamento o administrador ou equipe administrativa estará olhando para o futuro e estabelecendo alvos e metas. Em organizar recursos e dirigir pessoas eles estarão envolvidos com o presente. Finalmente, em dado momento, o administrador irá olhar os processos e resultados obtidos com esforços passados e controlá-los (ver o que escapuliu aos planos). O controle forçosamente irá gerar novos planos; e dá-se início a novo ciclo.

Como vejo Deus como um exímio administrador do universo (e de nossas vidas também) entendo que ele cumpre diligentemente suas funções de PODC. Nosso foque volta-se então para o C de Controle. Se Deus tem tudo sob controle, e Ele tem, isso implicará necessariamente no estabelecimento de novos planos, uma vez que os resultados obtidos e os processos nem sempre estão de acordo com o originalmente planejado. Algo escapuliu e escapole aos planos do Todo Poderoso.

Então vamos à pergunta do Neto:

O que supostamente escapuliu aos planos de Deus?

Darei três, dentre vários, exemplos bíblicos:

  1. O fruto proibido: Estava planejado que Adão o comesse?
  2. A jornada do povo hebreu no deserto. Estava planejada para quantos dias?
  3. Quando os samaritanos pediram que Jesus não entrasse em sua cidade. Jesus planejava não entrar lá?

No meu entender nessas três situações Deus tinha outro plano original que precisou ser revisto e alterado: expulsando Adão e Eva do Éden, prolongando a travessia do deserto, e dando prosseguimento à viagem sem pernoitar em Samaria.

Concluo lhe fazendo uma pergunta aparentemente óbvia:

Neto, se olharmos o mundo à nossa volta (as manchetes dos jornais), ou mesmo nossa vida e coração, será que faltariam exemplos de coisas que abundantemente escapam aos planos de Deus?

Dizer que Deus tem tudo sob o controle implica forçosamente em concordar que nem tudo é plano de Deus. Em outras palavras, coisas podem escapulir dos planos de Deus, mas não do seu controle.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Conheceria Deus o futuro? (19)

Deus é brasileiro

Quando Deus plantou a árvore do conhecimento do bem e do mal no meio do jardim não poderia adivinhar o que aconteceria versículos à frente. Na verdade Ele nem imaginava o Apocalipse em que isso tudo iria terminar.

Admito, não creio nem como P. Brabo, nem como Molina; embora me aproxime dos dois em suas crenças. Admitir que Deus tenha potencial para prever o futuro, não ajuda em nada. Seria o mesmo que admitir que Ele teria potencial para mentir ou negar-se a si mesmo. Ele tem potencial mas jamais faria tais coisas. Da mesma forma que sabemos que é impossível que Deus minta, e que Deus não pode ser tentado pelo mal, sabemos também que é impossível para Deus adivinhar o futuro. Ele planeja - é verdade - mas ele não cuida do dia de amanhã, pois “esse cuidará de si mesmo”.

Deus não se ocupa do futuro. Não que ele esteja fora do tempo. A existência temporal de Deus e os problemas consequentes foram e são em Jesus vivenciados. Desde que Ele criou o tempo e o espaço, Deus esteve envolvido no temporal, e não distante em um além qualquer. Mais ainda, em Cristo, Ele mergulhou de cabeça, do alto da metafísica Ele se infiltrou na tridimensionalidade da física. Deus não somente é mas Ele veio a existir.

Em resumo, acredito piamente que Deus tem muito mais capacidade para improvisar e criatividade para lidar com contingências e imprevistos, do que poder para ficar calculando, planejando e controlando tudo o que acontece.

Nesse sentido não seria errado afirmar que Deus é muito mais brasileiro do que imaginamos.

Creio num Deus livre e não em um que está amarrado por seus planos, por seu passado.


- Leia também: A Saga de Joaquim - ou conheceria Deus o Futuro?

segunda-feira, 29 de março de 2010

Conheceria Deus o futuro? (parte 18)

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A Blitz

Joaquim parou o carro e esperou friamente o guarda se aproximar. Medo? Não. Confiança? Também não. Só uma certa indiferença e uma curiosidade sobre o que aquilo daria.

O policial pediu os documentos.

Sem muito pensar, como puro reflexo, Joaquim tirou de sua carteira o único documento que tinha em mãos, o de identidade e o entregou ao guarda rodoviário - não possuía carteira de motorista e nem os documentos do carro.

O policial tomou a carteira de identidade e fincou o olhar no infinito por alguns segundos de eternidade. Depois devolveu-a Joaquim e o liberou.

Aliviado, nosso protagonista deu partida no motor e foi embora pensando o que aquilo tudo significaria. De alguma forma parecia que um anjo da guarda o estava acompanhando.

(Continua)

Leia mais em A Saga de Joaquim - ou conheceria Deus o Futuro?

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Conheceria Deus o futuro (17)

O primeiro emprego

go2.wordpress[1] Joaquim sentou-se à mesa, enquanto tomava seu café, observava um menino que diligentemente limpava as mesas e colocava os talheres ao lado dos pratos. Isso transportou-o para a experiência de seu primeiro emprego - um dos acontecimentos mais relevantes de sua pacata vida. Lembrou-se de quando, em São Domingos, aos 12 anos de idade,  foi substituir Zinho, seu irmão, e trabalhar como garçom num bar central da cidade. A emoção foi grande mas durou pouco pois mudaram logo depois para Maringá e não deu nem para viver intensamente aquela alegria. Não teve nem carteira assinada.

O seu verdadeiro primeiro emprego foi aos 14 anos, no Rio de Janeiro, com carteira assinada, quando foi contratado como office-boy para trabalhar no escritório de engenharia do Dr. Marcus Kaz, que ficava no 10  andar da Rua México, 11, na Esplanada do Castelo. Esta foi de fato a sua primeira experiência como empregado e que durou quase três anos. Fazia a faxina do escritório e os serviços de rua, exceto banco. Seu chefe era um paranaense, amigo da família, que era o contador da firma e no escritório só havia dois funcionários, ele e Joaquim. O Dr. Marcos Kaz era engenheiro e só ficava visitando suas obras. Não parava no escritório. Joaquim morava na baixada fluminense, distrito de Nova Iguaçu e levantava todos os dias às cinco da manhã para tomar o trem suburbano da Central do Brasil e ir para o centro do Rio. Era o final da década de sessenta e foi com este emprego que aprendeu a andar pelas ruas do Rio de Janeiro, a conhecer detalhadamente o centro do Rio e alguns de seus bairros, principalmente Vila Isabel onde morava seu chefe e Laranjeiras, onde morava o seu patrão e onde sempre tinha que ir a serviço de um deles. Foi um aprendizado riquíssimo para um jovem simples que chegava do interior do Paraná e que descobria os encantos, os perigos e os desafios da Cidade Maravilhosa, numa época menos perigosa do que hoje.

O primeiro emprego lhe veio à memória e o que isto representava para a vida de todos. Em sua alma essa experiência estava fortemente cunhada como primeiro e efetivo exercício de independência e cidadania. A conquista da autonomia tanto sonhada e dos primeiros trocados que ganhamos para com eles adquirir os primeiros objetos que desejava possuir sem ter que pedir dinheiro ou autorização a ninguém.

Nosso desempregado já estava ao volante quando ainda relembrava de tudo aquilo. Seu coração, contudo, se acelerou de verdade quando se viu obrigado a reduzir a velocidade e passar por uma blitz da polícia rodoviária. Sua vã cautela não ajudou em nada: o guarda fez sinal para ele encostar o veículo.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Conheceria Deus o futuro? (16)

180px-Jean_Calvin[1] Chamamos predestinação o eterno decreto de Deus pelo qual houve por bem determinar o que acerca de cada homem quis que acontecesse. Pois ele não quis criar a todos em igual condição; ao contrário, preordenou a uns a vida eterna; a outros, a condenação eterna. Portanto, como cada um foi criado para um ou outro desses dois destinos, assim dizemos que um foi predestinado ou para a vida, ou para a morte. (Calvino)

Ainda que minha ou sua Bíblia omitisse um versículo onde fosse, de forma tão clara e tão contundente, declarado que a vontade de Deus é que todos homens sejam salvos, assim mesmo, eu e você saberíamos e creríamos cega e obstinadamente nisso. Foi justamente essa a expressão maior de toda a vida do carpinteiro que viveu na Galiléia dos gentios, concordando assim absolutamente com o caráter do Deus bom, agradável e perfeito, que ele mesmo em aramaico chamava de papai.

Nisso não há novidade alguma, afinal esse foi o propósito de Deus enviar Jesus, não para julgar (condenar) o homem (humanidade) mas para salvá-lo.

Desta maneira torna-se também impossível (uma vez que já era desnecessário) conciliar a afirmação bíblica com a supra citada de Calvino, que diz ser o querer divino criar homens para a perdição.

A meu entender, Deus, de forma alguma, se veria frente a duas vontades conflitantes, como se afirma, e teria assim que optar por seu desejo de glória – a qual se revelaria no juízo de pecadores, algo como que uma demonstração de poder e autoridade. Não, Deus não é de forma nenhuma esse monstro! A glória de Deus está justamente em sua fraqueza para salvar pecadores, e quantos mais se convertem a Ele, mais glória.

Calvino argumenta que a predestinação seria necessária para que a salvação se faça mediante a graça e não segundo as obras. Aliás, Calvino cerca essa doutrina com um tão sensível campo minado, que caso alguém ousar escapar dela corre o sério risco de, por essa mesma razão, não fazer parte do seleto grupo de eleitos.

O versículo bíblico que alicerça essa ruína teológica está em Romanos 9:16:

"Portanto, isso não depende do desejo ou do esforço humano, mas da misericórdia de Deus."

Me parece que essa passagem é muitas vezes mal interpretada.

De que dependeria então a salvação? Qual a sua causa? Se a causa está no homem, seria uma questão de merecimento, mas se está em Deus, seria mera graça. E nessa passagem fica claro que a causa primeira da salvação está em Deus, em sua misericórdia. Mas será que Deus não tem misericórdia de todos?

Dois capítulos adiante Paulo mesmo irá afirmar no versículo 32:

Pois Deus colocou todos sob a desobediência, para exercer misericórdia para com todos.

Deus é Deus de misericórdia e ele quer exercer misericórdia para com todos os homens assim como que ele quer que todos sejam salvos, independente do que signifique o "todos" no versículo acima.

Mas será que a misericórdia de Deus dependeria só de um desejo soberano e arbitrário divino?

A própria Bíblia mais uma vez nos aponta o caminho para resposta, em certa passagem ela diz que "aquele que encobre suas transgressões nunca prosperará, mas aquele que as confessa e deixa alcançará misericórdia". Isso está também de acordo com passagens que afirmam que Deus dá graça aos humildes. Ou seja, existe evidentemente o lado humano, não que cause a misericórdia divina, mas que a alcança. Nesse caso, a vontade humana se afina com a vontade divina:

"a um coração humilhado e contrito Tu não desprezarás"; e

"todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo".

É evidente porém que essa humildade, essa confissão e abandono do pecado, não dependem inteiramente do desejo e do esforço humanos. Por outro lado também, Deus não poderia provocá-las nos homens. O Espírito Santo convence, e até mesmo contende com o homem (mas não para sempre), e nunca jamais o forçará, nem determinará (provocará) sua decisão.

"não por força nem por violência, mas pelo meu Espírito, diz o Senhor dos exércitos".

Sobre esse aspecto a Bíblia é por demais clara, não são as ameaças ou os açoites nem mesmo a dor que nos levam ao arrependimento: "A bondade de Deus que nos conduz ao arrependimento". Deus não nos predestina ao arrependimento, ele não nos induz, não nos força, ele nos conduz. O dicionário Aurélio fornece uma definição precisa e rica para o verbo conduzir, que traz clareza ao sentido dos papéis divinos e humanos na conversão:

Ir na companhia de, guiando, orientando, e/ou em sinal de respeito, ou de cortesia; levar: A criança conduzia o cego.

Como uma criança que conduz um cego. Como cegos, vamos com nossas próprias pernas e forças, mas temos Deus nos segurando a mão. A cada passo sente-se a misericórdia que se condiciona somente à sinceridade de um coração contrito.

Por isso Romanos 11:32 está corretíssimo, não depende nem do querer nem do esforço do pecador. Muito pelo contrário, depende sim de sua total rendição. O esforço é convertido em fraqueza e quebrantamento, o próprio querer é convertido em abnegação e pelo deixar-se levar.

Por isso Romanos 11:32 não exclui absolutamente o querer nem o esforço humanos, só afirma que a salvação não dependerá primordialmente deles. Apenas reforça a idéia de que se não fosse a misericórdia divina o querer e esforços humanos seriam em vão; ou em outras palavras, o homem pode querer e até mesmo se esforçar para ser salvo, mas se não alcançar a misericórdia divina, não adianta de nada. Se seu esforço e querer não redundarem num arrependimento sincero, que precisamente significa a rendição de seu querer e esforço próprio, tudo será em vão.

Foi Cristo mesmo quem afirmou de forma paradoxal:

Porque o que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á, mas o que perder a sua vida por amor de mim e do Evangelho, salvá-la-á.

Notemos que Jesus não afirma ser necessário querer perder, mas sim a ação de perdê-la (querendo ou não) é que produz o resultado. Ao contrário, na perdição da primeira afirmativa, o querer desempenha o papel determinante. Quem está preocupado em salvar sua vida irá perdê-la. Simplesmente querer salvar a própria vida pode ter raízes por demais egoístas. Por isso não depende de quem quer.

Na salvação a escolha ou arbítrio humano não deriva de uma ação, necessariamente lógica, nem de sua vontade (querer), mas vem necessariamente da fé. Ele está perdido, logicamente a salvação seria melhor que a perdição, ele poderia porém ver-se ou não perdido e necessitado de ajuda. Se quiser ser salvo e se esforçar para isso, perder-se-ia, mas se, escolher clamar (a Deus) por socorro, em um simples ato de fé, (e isso se dá de várias e diferentes formas, em várias e diferentes situações e períodos de vida) será salvo.

O quer viria antes então, a fé ou a escolha humana? Não poderia ambas virem juntas? Não seria o ato de fé, já uma escolha moral, como alguém que escolhe dar ou não crédito a determinado indivíduo?

Essa atitude deixa transparecer tanto a fé como as obras da pessoa. Como ensinou são Tiago:

"uma pessoa é justificada por obras, e não apenas pela fé."

E nisso a escolha humana, visto que somos agentes e temos uma escolha, desempenha um papel fundamental e não a (pré) escolha divina. Uma vez que Esse já escolheu, por si, que todos sejam salvos, será agora a escolha do indivíduo que determinará seu próprio futuro.

Essa liberdade de escolha nunca foi tirada ou perdida pelo homem. Tanto antes da queda, lhe era possível escolher comer ou não do fruto da árvore da vida, como após a queda lhe foi ainda possível. Tanto antes da conversão, como após a conversão o homem continua livre para escolher se alimentar ou não da Vida. Por que a Vida é o próprio Deus, é Cristo, é o Logos, presente, entre nós.

Leia também:

O que penso da predestinação (ou respondendo Clóvis – 2)
Conheceria Deus o futuro? (parte 3)

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Conheceria Deus o futuro? (15)

KS89815[1] O livro

Por que Deus deixou aquela tragédia acontecer? – pensava Joaquim, enquanto parava o carro no primeiro posto que avistou.

Só então percebeu o tanto que estava suando e trêmulo.

Ele lembrava do dia em que seu pai morrera em um acidente de carro; e dos gritos de sua mãe jurando que filho dela jamais dirigiria automóvel. Logo no ano seguinte ele completaria 18 e poderia tirar carteira, mas manteve-se fiel ao voto da mãe. Mais tarde, quando mais velho resolveu quebrá-lo, foi tarde demais. Lamentou amarguradamente, a vida inteira, o fato de não poder ter seu próprio carro e dirigir…

Joaquim desligou o motor, olhou no relógio, estava cedo. Até chegar ao seu destino - o qual nem sabia ao certo - deveria durar mais umas quatro horas. O tanque ainda estava três quartos cheios.

Ainda perturbado com a cena do desastre não conseguia parar de pensar: - Como poderia Deus deixar um carro preparado em frente a sua casa e ao mesmo tempo jogar um caminhão em cima de um ônibus lotado? Será que foi o diabo que fez uma ou outra coisa, e Deus não teria nada a ver com toda essa história?

Nessa hora lembrou de dar uma vasculhada no veículo, para ver se achava documentos ou algo mais. Quebra sol, porta malas, embaixo dos bancos e tapetes, nada. O carro estava limpo. Ele somente encontrou no porta luvas um livrinho de capa cinza, na capa estava escrito Gideões, Novo Testamento e Salmos. Fora isso nada mais.

Folheou o livrinho para ver se não haveria algum papel ou cartão lá dentro. Também nada. Como por acaso reteve o livreto aberto em determinada página e seus olhos deitaram-se na frase que dizia:

"Sou Aquele que Vive. Estive morto mas agora estou vivo para todo o sempre! E tenho as chaves da morte e do inferno".

Ao ler aquilo, fechou o livro assustado e jogou-o no banco. Saiu, fechou o carro e tratou logo de ir tomar um café.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Conheceria Deus o futuro (14)

4897075_ba9f3a3732d6807902d3f98929a0aac1_large[1]O que Paulo Brabo teria a dizer sobre o tema?

 

 

 

7 - Creio que Deus pode saber o futuro porque tem sabedoria de sobra para prever os infinitos desdobramentos de cada possível iniciativa livre e ao mesmo tempo poder e recursos para garantir que a sua palavra prevaleça no final sem intervir mais do que eventualmente no traçado "natural" das coisas. Creio que a presciência de que a Bíblia fala é geral e não específica, ligada mais ao poder de influência e de intervenção de Deus (conforme ao tom geral da narrativa da Escritura) do que à predeterminação rígida dos fatos. Não creio que Deus tenha como conhecer antecipadamente a decisão livre que um homem vai tomar no futuro, mas creio que ele seja poderoso o bastante para garantir que essa decisão livre não vá interferir de modo destrutivo nos propósitos futuros de Deus para a humanidade em geral (ou, algumas vezes, nos seus propósitos para o homem que tomou a decisão); creio que ele seja poderoso o bastante para conhecer todos os futuros possíveis provenientes de todas as decisões livres de todos os homens, e ainda assim prover para que nenhuma dessas possibilidades coloque em risco qualquer aspecto do seu propósito geral. Creio que Deus conheça cada homem e todos homens o bastante para ter uma excelente idéia do que vai acontecer e que está absolutamente preparado para qualquer contingência. Qualquer contradição que possa haver entre a idéia de um Deus Todo-Poderoso e homens livres faz parte daqueles mistérios indizíveis nos quais acreditamos em comum.

 
8 – Quando a Bíblia fala de um jeito que parece que Deus nem conhece o futuro e que muda de idéia o tempo todo, está falando disso mesmo. Creio arriscado dizer que seria de outra forma, ou qualquer ponto de vista bíblico poderia ser colocado em dúvida. Se há aparente contradição entre o que a Bíblia diz e a nossa teoria, melhor é reavaliar a teoria - ou abrir maior espaço para contradições aparentes. Trata-se de um mistério daqueles nos quais acreditamos em comum. Eu não diria que Deus está "fora do tempo" em qualquer sentido importante, e não creio que seria do caráter de Deus nos passar uma impressão errada do que está acontecendo. Se ele diz que não muda de idéia, como disse mais de uma vez, cabe-me acreditar. Se ele diz que mudou de idéia, não sou eu a duvidar de que ele possa fazê-lo. A contradição diz respeito ao meu ponto de vista, não ao dele. Não deve ser o meu ponto de vista a limitá-lo, nem que seja com a boa intenção de proteger a sua soberania. Deus é soberano o bastante para não precisar da minha defesa.

12/2/06 16:52 <----- Extraído daqui.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Conheceria Deus o futuro? (13)

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O ônibus

Enquanto Carla apreciava a linda paisagem, Paulo tentava se concentrar no último capítulo de "Senhor dos Anéis". Juçara, que sentava logo a frente, resolvia mais uma página de Sudoku e preparava-se para começar a seguinte. Alexandre a seu lado deliciava-se com as 500 músicas gravadas no seu IPod especialmente para aquela viagem.

Roney prometia para seu filho Rodrigo que voltaria no carnaval para buscá-lo novamente.

Mais à frente, Andréa scaneava com os olhos e mente as páginas do livro de química, tentando memorizar a matéria da prova. Janete voltava feliz, mal podendo esperar o momento de contar em casa que tinha conseguido o emprego. Júlio pensava irritado na discussão que tivera com a vizinha e as mil permutações de respostas que poderia ter dado a ela ao invés de ter se retirado calado. Marquinho conversava com João Carlos sobre as estratégias a serem apresentadas ao novo cliente. Teresa pensava se tirava o Laptop ou se descansava mais um pouco.

Um pouco mais a dianteira Júnia tentava responder os infindáveis porquês de seu filho Lucas; e Lucas tentava compreender o micro universo no qual sua mamãe lhe inserira a quatro anos atrás. Já seu Geraldo respirava ainda rancor contra seu filho, que também chamava-se Lucas, e pensava em uma maneira de dar-lhe uma boa lição por ter batido seu carro, o que obrigou-lhe a fazer aquela viagem de ônibus.

No centro do ônibus, Vítor olhava para o vazio com os olhos banhados em lágrimas, pensando como contaria para sua esposa que os médicos haviam detectado um tumor no seu cérebro. Dona Maria das Graças rezava seu terço prestando atenção no trânsito e na estrada. Vanessa estava, enquanto isso, ao lado, irradiante de felicidade por ter conseguido adiantar a passagem e o encontro com o novo namorado. Mário lia a reportagem política nas páginas de uma revista, e Anildes observava simuladamente, no reflexo da janela, a fisionomia de Mário.

Pedro e Mateus discutiam futebol. Ezequiel ouvia a conversa dos dois com um pouco de dó, um pouco de raiva e muita vontade de entrar no meio mas nenhuma coragem para fazê-lo. Letícia pensava desesperada e obstinadamente na recente descoberta de traição do marido.

Daniel estava aborrecido por ter esquecido um objeto.

Ernane estava confuso por ter-se apaixonado por um amigo do cursinho.

Maria estava aliviada por passar alguns dias longe de casa.

Débora estava contente por ter voltado para seu antigo amor.

Na primeira fila, Virgílio lia a Bíblia, Ronildo pensava na hipocrisia da religião, Filipe dormia e Denise arregalava os olhos assustados para José, o motorista.

Já esse não pensando em nada, somente agia rapidamente seguindo seus reflexos, para desviar o ônibus de uma carreta que invadira a pista e viera a atingir seu veículo em cheio, lançando-o pela ribanceira abaixo.

Desde o momento do acidente até o início dos trabalhos de resgate passaram-se exatamente 80 minutos; neste mesmo tempo 4 crianças morriam dia AIDS só no Zimbábue, outras 960 morriam de fome pelo mundo e 2320 nasciam na China.

Ao dirigir lentamente pelo local da tragédia, seu Joaquim ficava impressionado com as luzes das sirenes e as caras suadas e sujas de amargura e desespero dos anti-heróis anônimos. Ficou então evidente para ele, ao contemplar aquela fileira de corpos deitados no asfalto, que sua fé lhe conduzira até o reino dos mortos.

A partir dali sabia que sua vida, à semelhança daquelas almas, havia ficado definitiva e irrevogavelmente para trás.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Uma parábola e o fim do debate arminianismo x calvinismo

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A maioria das pessoas sensatas que conheço conseguem conviver bem com as duas realidades: livre arbítrio x presciência divina, sem o versus no meio.

Já, as poucas pessoas sensatas que conheço conseguem perceber que ambos os termos são exageros etimológicos. Primeiro, porque toda destinação só pode ser “pré”: Não há como darmos um destino para algo a não ser de antemão. Segundo, porque todo arbítrio é livre: Se não for livre não é arbítrio, não é escolha, é imposição.

Se reduzirmos esse antigo embate teológico aos termos “destinação” e “escolha”, veremos que no fundo ele se resume a uma só palavra: “vontade”. Vontade tem, no seu sentido ativo, tudo a ver com futuro.

Daí a conseqüência lógica de, uma vez havendo o exercício da vontade e havendo conseqüências futuras, averiguarmos as "responsabilidades", pelo lado humano ou divino (que como todos sabem deveria ser onisciente).

Eis a relevância do post de Clóvis Onisciência e responsabilidade extraído de um tal de Carl Henry.

Antes de estragar esse lindo debate com minha estranha posição ou estranhas citações me reportarei àquilo que Jesus disse sobre o assunto enquanto andou por essas bandas em carne e osso. O problema é que Ele põe fim à discussão. Tudo começou quando alguém lhe perguntou quem era o seu próximo e ele contou uma historinha que ficou conhecida como parábola do bom samaritano, antes disso ele já havia dito no versículo 21:

"Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas dos sábios e cultos e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, pois assim foi do teu agrado."

A historia foi mais ou menos assim:

"Um homem descia de Jerusalém para Jericó, quando caiu nas mãos de assaltantes. Estes lhe tiraram as roupas, espancaram-no e se foram, deixando-o quase morto.

Aconteceu estar descendo pela mesma estrada um sacerdote (que era arminiano). Quando viu o homem, passou pelo outro lado. (pois pensou, se ele está assim foi fruto de sua própria escolha – deveria ter-se previnido ou escolhido um caminho mais seguro - ou da escolha de alguns bandidos, em última análise, é um problema social que vivemos é culpa dessa tirania de Roma e eu não tenho nada a ver com isso, não é "minha" responsabilidade.)

E assim também um levita (que era calvinista); quando chegou ao lugar e o viu, passou pelo outro lado. (pois pensou, se ele está assim foi fruto do plano de Deus – deve estar sendo punido - ou Deus usará essa situação para punir os assaltantes, quem sabe até tudo não resultará no bem desse pobre coitado, afinal só podemos enxergar esse lado feio do tapete e eu como eleito prefiro permanecer do lado bonitinho).

Mas um samaritano (que não sacava nada de teologia); estando de viagem, chegou onde se encontrava o homem e, quando o viu, teve piedade dele
Aproximou-se, enfaixou-lhe as feridas, derramando nelas vinho e óleo. Depois colocou-o sobre o seu próprio animal, levou-o para uma hospedaria e cuidou dele.

No dia seguinte, deu dois denários ao hospedeiro e lhe disse: 'Cuide dele. Quando eu voltar lhe pagarei todas as despesas que você tiver'. (pois pensou, porque ele está assim eu não sei… mas poso fazer disso um plano de Deus para mim, e da minha escolha o plano de Deus pra ele).

Jesus sempre que não dá ponto sem nó e nunca deixou o tapete ao avesso. Pergunta e responde:

"Qual destes três você acha que foi o próximo do homem que caiu nas mãos dos assaltantes?"

"Aquele que teve misericórdia dele", respondeu o perito na lei. Jesus lhe disse: "Vá e faça o mesmo".

A Parábola do bom samaritano põe fim ao debate, arminianismo x calvinismo. No fundo podemos trocar a bel prazer as correntes, católico x protestantes, católicos x ortodoxos, pentecostais x tradicionais e assim por diante. E assim, ele põe fim a todo debate teológico.

Resta-nos então lembrarmos o propósito maior daquela parábola que é mostrar-nos quem é o nosso próximo. Está claro: Aquele que tem misericórdia de nós (que ironicamente não é um arminiano e nem um calvinista).

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

O plano "B" de Deus (2a)

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Uma vez passada a limpo a questão filosófica pensemos pelo lado teológico.

Para abordarmos a questão pelo lado da teologia pensei em citar algumas das principais passagens bíblicas onde Deus precisou lançar mão de um outro plano para que seu objetivo maior fosse alcançado. Algumas dessas passagens que me vem de início à mente são as dos primeiros reis de Israel, Saul e Davi; ou o tempo a mais que Israel permaneceu no deserto; ou a proposta que Ele fez a Moisés de a partir dele começar uma nova nação; ou outras várias experiências conflitantes vividas até mesmo por Jesus.

Mas como teologia não se resume só em Bíblia e este texto ficaria muito extenso, resolvi então em dividi-lo. Nessa primeira parte então, da análise teológica, tentarei fazer uma reflexão mais prática do assunto.

O lado teológico prático

Deus já foi comparado e chamado de rei, pastor, escudo, guerreiro, arquiteto, oleiro e outras demais figuras. Hoje, se fizéssemos um enquete de quem é Deus para a maioria dos evangélicos, eles provavelmente diriam: Deus é um homem de negócios. Talvez ninguém diga isso de forma consciente e aberta, mas se pudéssemos extrair o que as pessoas realmente pensam e acreditam, sem dúvida essa seria a resposta que paira no subconsciente das massas: Deus é um empresário!

O Deus dos negócios é um deus que sempre lucra e nunca toma prejuízo. [Ele nunca fecha no vermelho]. Mais do que colher onde não semeou, esse deus, nunca permite que o joio cresça em seu campo e se porventura crescer ele o arranca de imediato.

Como alguém já disse, as pessoas tendem a tornar-se semelhantes ao deus que elas adoram. Não é então por acaso que hoje impera uma teologia do triunfalismo.

O deus empresarial triunfalista tem um planejamento estratégico perfeito. Assim, semelhantemente, seus adoradores estão sempre na crista da onda, pois estão sempre dentro do plano do seu deus, eles desconhecem frustração, fracasso e derrota. Eles nunca precisam de um "plano B"! Qualquer revés é sempre seguido de uma explicação, justificação, ou sublimação, lógica para demonstrar que tudo não passou do "plano" de "deus"… Isso, quando não varrem por completo a mazela para debaixo do tapete da alma.

Por isso, normalmente, este tipo de pessoa só se relaciona com espíritos dependentes, sobre os quais exerce uma função paternalista ou de mentor. Dificilmente elas se colocam na posição de carência, pois sua espiritualidade a força a ser "um herói (heroína) da fé". As igrejas estão abarrotadas de pessoas assim: por um lado os paizões, por outro os dependentes, numa infância eterna.

Fora do ambiente eclesiástico há as pessoas que vivem num mundo real, cheio de contingências e atropelos, essas evitam os triunfalistas, pois de longe percebem que não há sinceridade, em toda aquela lógica perfeita do plano de Deus. Não, elas preferem se relacionar com gente de verdade.

Nenhuma frase expressa melhor o espírito desta teologia do que a impressa por Bill Brigth:

"Deus te ama e tem um plano maravilhoso para sua vida."

A piedade deste tipo de cristão é problemática. Não só por causa das "infindáveis petições típicas da oração triunfalista" como bem expressou (Ricardo Gouvea) mas principalmente porque a oração dirigida a um Deus empresário, é feita a um Deus patrão, e não a um Deus que é servo, amigo, pai, mãe, filho, amor.

Em primeira vista, pode até parecer que as "infindáveis petições", diminuem Deus, pois Deus é colocado no lugar de servo e o fiel no lugar de senhor, mas esse é um jogo paradoxal. Lembre-se que o próprio Cristo ensinou que o maior é o servo de todos, o que se faz menor.

A coisa se resume então, não em quem manda em quem, ou não em quem serve quem, mas está numa atitude humilde versos uma atitude orgulhosa. Ela pode achar que Deus está servindo-lhe ou até mesmo que ela está a serviço de Deus, isso não importa tanto. O cerne da questão está em que o "deus planejador", com propósitos, é um deus manipulador, que usa seus empregados só para para atingir seus propósitos. Como não poderia ser diferente, o jogo se inverte e o empregado quer, então, usar seu Deus patrão para atingir o seus próprios alvos (de poder, influência, etc.) transvestidos (claro) de "planos de Deus".

A pergunta paulina ecoa: quem afinal de contas sabe o plano de Deus? Quem compreendeu o seu intento?

Não me entenda mal: é óbvio que Deus tem planos, que Ele revela seus planos aos homens. Não obstante o relacionar homem-Deus vai bem além de planos, alvos e resultados. Um Deus relacional se interessa muito mais pela viagem, do que pelo destino. Interessante que Jesus se apresentou como "o caminho" e não como "o destino". Mas não podemos confundir caminho com plano! O plano é só uma pré-representação hipotética, teórica, do caminho. O caminho é o desenvolvimento real e concreto do plano, com todos os imprevistos, contratempos que forçam revisões no plano original. Daí a necessidade muitas vezes de um "plano B".

No mínimo, o "plano B" de Deus revela graça frente à nossa incapacidade de permanecermos no plano A. No máximo, ele mostra que Deus está aberto e disposto a colocar simples mortais como eu e você, com nossas fraquezas, bem à frente de seus divinos e imutáveis planos.