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domingo, 22 de julho de 2012

Viu buraco

Um vazio se viu no peito daquele que amou.

Um sentimento que não ousou ser traduzido em palavras, pois vazio era muito pouco e buraco não era nada, comparado àquela tristeza esmagadora.

Mas buraco, ainda que chulo e impreciso, se mostrava mais apropriado que vazio.

Ao olhar para as estrelas da escura noite de sua alma, avistava ao longe uma que já tinha se apagado: em seu lugar um buraco. Um buraco cuja força gravitacional era ainda maior que a do próprio vazio.

Quando a vida, ou a morte, toma de nossos braços pessoas que amamos, não deixa em troca vazios, mas buracos.

Então, naquela mesa não ficou um vazio, mas um buraco; nas tardes de sábado não ficaram vazios, mas buracos; no horário do telefonema não surge um vazio, mas um buraco. No futebol, na cozinha, no quarto, na cama, na vida, no peito… não um imenso vazio, mas um doloroso e viu buraco.

domingo, 3 de junho de 2012

No fim do dia

Cláudio não teria ficado um pouco mais na cama, quando o despertador tocou, se soubesse que morreria naquela noite, pelo contrário teria levantado mais cedo, antes do nascer do sol.

No escuro teria feitos suas rezas, as quais há anos não faz e já não se lembrava mais.

Teria ido lá fora, ver o sol nascer. Teria observado o dourado invadir o azul infinito do céu e teria medido sua pequenez.

Mas Cláudio não sabia que ia morrer no fim do dia. Ficou na cama até o último minuto e levantou-se apressadamente para o trabalho, para mais uma reunião “importante” que tinha. Mal tomou café, café solúvel, não viu o filho, não se despediu da mulher, pegou a pasta, saiu.

Sim, se num sonho naquela madrugada tivesse tido um presságio, talvez tivesse coado o café com mais gosto, teria ido na padaria e buscado um pão quentinho. Teria posto a mesa para toda a família, teria ido acordar a mulher com um beijo de bom dia. Se fosse um presságio, o sonho da noite, teria guardado sua tristeza só para si. Teria inventado uma desculpa para chegar atrasado no trabalho, teria mentido. Teria feito amor.

Mas Cláudio foi embora apressado.

No carro, num sinal, um menino pediu uma esmola. Cláudio teve tempo de fechar o vidro para não ser incomodado.

Mas se ele, Cláudio, soubesse que esse era o seu último dia nesse mundo, teria ido acordar o Lucas, teria beijado o filho, deixado ele escolher um brinquedo e brincado juntos. Teria se aprontado ao lado do Lucas, ele para o trabalho e ele para escola. Antes de se despedir do filho teria pedido pra ele um brinquedo para o menino do sinal.

Ele teria esperado o sinal ficar vermelho, aberto o vidro, perguntado para o menino o seu nome, descoberto que ele também se chamava Lucas, dado para ele uma boa esmola e o brinquedo e seguido em paz para o seu trabalho.

Mas quem sabe quando será o seu dia?

Na reunião tão importante, onde Cláudio aproveitou para humilhar o Humberto e impor seu ponto de vista, ficou decidido que a folha de pagamento teria que ser reduzida. Era a única chance de sobrevivência da empresa. Arrasado por ter que mandar gente embora, Cláudio se consolava pelo fato de estar salvando a pele dos que ficavam. Mas será?

Caso soubesse do seu fim trágico na noite que já se aproximava, teria preparado outros relatórios para a reunião. Teria ouvido o Humberto, teria entendido a importância de preservar a mão de obra que há anos era fiel àquele empreendimento.

Teria se despedido dos colegas com um sorriso leve no rosto. Teria enxergado nos olhos dos companheiros sua própria alma.

Mas Cláudio, quando já era noite, foi embora debaixo de um ar pesado e maldito. Não olhou no rosto de ninguém. pegou o seu carro, saiu e foi pro casa. Onde ele jamais chegou denovo.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

No meio do jardim tinha uma árvore

Tinha uma árvore no meio do jardim. Lá, onde o dilema divino era apenas trazer o homem ao mundo ético, e isso, de forma ética. Como fazê-lo entender o bem, sem conhecer o mal? Como criar luz, aparte das trevas? Como fazê-lo experimentar a vida, sem antes provar da morte?

Sem o conhecimento do mal, o homem não reconheceria o bem. E sem o conhecimento do bem e do mal o homem seria uma eterna ingênua criança. Ele nunca alcançaria o status de “filho de Deus”, que, como Deus, conhecedor do bem e do mal.

Deus, como bom pai, queria um homem maduro, livre e independente. Um ser consciente de si mesmo e, por isso mesmo, com uma consciência pura capaz de discernir entre o bem e mal.

O primeiro homem, ao sair da forma, não era um ser livre.

Desconhecendo o bem ou o mal, não poderia fazer escolhas pautadas em sua própria consciência. Incapaz de julgar por si mesmo, o homem teria que, para não ser compararado a um robô pré-programado, ser capaz de, no mínimo, agir voluntariamente, de criar suas próprias escolhas.

O fruto da árvore que estava no meio do jardim, seja lá como o entendermos, é que traria poder ao ser humano, para agir no universo ético.

Por ser essencialmente bom, Deus não poderia induzir o homem a provar daquele fruto, pois é claro que o conhecimento ético leva o homem às catacumbas da morte.

Como um criador amoroso, Deus precisava garantir que o homem, criado à sua semelhança, fosse um ser moralmente livre, com vontade livre. Livre para amar, ou odiar. Livre para obedecer, ou desobedecer. Livre para se relacionar, ou para se isolar. Livre para viver, ou para morrer.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Morrer sem salvação?

Era uma dessas tardes quentes de domingo e, após a igreja, dois irmãos discutiam sobre os perdidos e sua missão evangelizadora:

- Se Deus já tem uma lista de salvos e perdidos, na verdade, só nos resta viver a vida sem maiores preocupações – argumentava Mário. O importante é que nosso nome esteja na lista certa!

- Mas isso é uma teoria, olha o que ouvimos hoje: Moisés quase riscou o próprio nome da lista. A coisa não tá assim toda amarradinha, não. Vamos pedir a conta? E Fernando fez sinal pro garçom.

Mario ficou um instante pensativo, coçou o cavanhaque e largou:

- Verdade… Jesus mesmo, lá em Apocalipse, queria também riscar alguns nomes. Mas isso só reforça o fato de que a salvação da alma de alguém é algo muito sério, para que possamos tomar o peso desta responsabilidade toda só sobre nossos ombros. Ou não?

- Mário, acho que o sermão te deixou um pouco perturbado? Deus não quer que você faça nada por medo ou culpa! Ele não vai cobrar o sangue de ninguém das suas mãos. É o que penso.

- Claro, meu brother! Mas há uma parte que nos cabe nesse latifúndio. Ou ficaremos de braços cruzados? Você acha que não devemos fazer nada como igreja, como cristãos? Você virou franciscano agora: acha que só devemos usar as palavras na evangelização quando for preciso?

- No fundo é por aí mesmo…

- É Fernando, mas se nós alcançamos a salvação foi porque alguém pregou o Evangelho pra gente.

- Salvação é um termo amplo. Há vários entendimentos… - Provocou Fernando.

Enquanto isso o garçom trazia a conta, que Mário pegou de sua mão e discutiu um pouco com Fernando sobre quem faria a gentileza.

- Não, não, deixa que hoje sou eu quem pago. Brother, não adianta relativizar, quem morre sem Cristo, morre sem salvação. É isso aí! Ponto final.

Foi quando Fernando, agradecendo o amigo, deu o último trago no copo de cerveja, limpou o beiço superior e despretensiosamente balbuciou:

- Ninguém morre sem salvação – sim, porque se não era salvo e morreu, a própria morte foi a sua salvação.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Para isso fomos feitos

pai e roger

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.

Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.

Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.

Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

Vinicius de Moraes

Leia também: Um ídolo despencou de meu panteão

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Eu não sabia que doia tanto

Nós_Quatro.JPG

Acho que é uma estratégia ostensiva de algum deus desesperado, essa saudade espraiada.

Agora sei que não sou só eu...

Saí de casa há um ano, foi quando percebi que só um espectro saiu de casa. Eu mesmo fiquei lá, há anos atrás...

Desde que vi Árvore da Vida a minha dor de saudade tem sido amplificada.

Diferente da sua situação, meus pais e irmãos estão todos vivos;

é a distância que me separa deles, a distância temporal principalmente, dos meus 8 anos de idade:

brincando em casa,

chupando laranja do pé (as lágrimas estão me atrapalhando aqui, só pra constar...),

mainha me arrumando pra igreja,

pra praça,

saindo pra feira com painho,

escutando as histórias dos vizinhos velhos,

sabendo de alguma coisa, mas nunca sabendo saber,

com esse tédio que a consciência carrega ao colo...ai meu Deus como eu soube apenas nesses últimos tempos que a salvação não tem nada a ver com moral, que se Deus salva é pelo reencontro, é só pela possibilidade de eu me reencontrar ali, todo, pleno, com um instantezinho apenas de lucidez e mergulhado de novo no poço indefinido e livre de eu-pequeno...

Perdão o desabafo, mas ainda não consegui dizer isso a um amigo que estivesse por perto, eu tô dizendo a um amigo de longe, cujo ombro só conheço de letras, eu tô dizendo pra ver se meu coração descansa...

Será que onde quer que eu esteja, doravante, vou sempre me sentir exilado? Meu Deus, por que me abandonaste tão longe de mim?

 

Rondinelly e sua mania de superar o prório Post com seus comentários brilhantes

em Luto com o luto

[se o seu coração, amigo, descançou depois dessa, não sei… mas o meu deu uma boa e estranha estremecida]

domingo, 23 de outubro de 2011

O pão que o diabo amassou

media.imagefile.3b6c4b35-4747-4b06-b145-17796488b191.normalizedWerner Künast deu um último trago, lançou a fumaça pelo canto da boca e atirou a gimba do cigarro no asfalto gelado. Obstinadamente ele a pisava com a ponta do sapato. Tentava assim apagar a brasa que esfumeava e os pensamentos que o atormentavam durante aquele prazeroso vício.

Doutor Künast lembrava, com um gosto amargo na garganta, do colega que, durante a fracassada investigação, que até então não levara a resultado algum, tirara a sua própria vida. Lembrava do maior teste de DNA já realizado no país com a participação de cerca 13.000 homens e jovens e que levara também a nenhuma pista.

Dez anos se passaram e não havia nenhum indício de solução para o assassinato violento de Tobias, um garoto de 11 anos, cujo corpo foi achado nas margens de um lago da cidade, com sinais de abuso sexual, 37 facadas e órgãos sexuais mutilados.

Há poucos meses a nação se comovia com caso semelhante.

Mirco, um garoto de 10 anos, filho de uma família evangélica pentecostal, havia em condições brutais sido assassinado. 115 dias Mirco ficou desaparecido. Várias buscas, que mobilizaram contingente enorme de policiais e soldados do exército levaram também a resultado algum. Uma série de pistas acabou conduzindo a Olav H., um pai de família, um cidadão aparentemente comum, que confessou o hediondo crime e conduziu ao corpo da vítima.

Para o cristianismo tais criminosos são homens que não podem ser tão rapidamente classificados como não humanos. Para a psicologia não existiria cura definitiva para tais pessoas com desvios sérios, ávidas por exercerem poder e controle em suas piores formas…

No caso do menino Tobias, policiais que vigiavam material pornográfico infantil na internet chegaram ao endereço IP do computador do culpado, Rolf H, um padeiro, que colecionava e comercializava material de pedofilia.

Parado, em frente àquela padaria da Hauptstrasse de Weil am Schönbuch, o experiente criminalista observava clientes entrarem e saírem com seu pacote de pães para um pacífico e familiar café da manhã. Mal sabiam que comeriam o pão preparado pelas mãos do próprio demônio.

Com um mandato policial em mãos o comissário pode investigar o sombrio apartamento do suspeito e encontrar ali material de sobra que o incriminaria, inclusive fotos do pênis amputado, que era ostentado como um troféu pelo feito.

Se os pensamentos, a fumaça ou o frio, não se sabe, mas os olhos do duro comissário estavam envoltos em uma tênue camada de lágrimas.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Projeções

Quando professor Eduardo viu as brasas nos olhos de Kátia, logo percebeu que não era com ele que ela falava, mas com seu pai, o pai dela:

- O senhor é um incompetente! Um fracassado! Ninguém entende nada do que você fala. Você é um ditador. Ninguém aqui aguenta mais você! O melhor que você faz é sumir, pegue suas coisas e vá embora!

Eduardo não entrou em confrontação, não entrou na defensiva. Quando achou espaço, simplesmente pediu desculpas e disse que estava profundamente entristecido com a situação das coisas:

- Se eu puder fazer algo para reverter as coisas, esteja certa que farei…

Kátia saiu furiosa, cuspindo marimbondos. Tudo que desejava é que aquelas palavras tivessem saído dos lábios de seu pai, e não das do seu professor.

***

Quando Márcia viu da janela de sua casa o menino gritando lá de baixo, da calçada, ela logo percebeu que o problema não era com ela, mas com a sua mãe, a mãe do menino:

- A senhora é uma vaca! Ou você me devolve agora minha bola ou eu chamo a polícia. Quem você pensa que é para roubar os brinquedos da gente?

- Já te falei que sua bola não caiu aqui, meu filho, mas vou olhar mais uma vez. Se eu não achar eu te dou uma nova de presente.

Quando ela chegou ao portão, o menino já havia ido embora, chorando de ódio por ter que ir para casa e se reencontrar com a mãe.

***

Carlos não reagiu, pois ao perceber o tremor nos lábios e mãos de Felipão, sabia que o moleque não falava com ele, mas com Deus.

- Você pensa que é o dono de tudo, não é? Seu filho da puta! Só porque você tem grana, e usa roupinha nova e anda perfumado? Hoje você vai ver que seu poder é de merda. Você vive em seu condomínio fechado e nem se quer olha para gente aqui debaixo… Agora você vai ver quem é que manda nessa porra aqui.

Carlos viu que Felipão iria puxar o gatilho. No último segundo que lhe restou, olhou  ainda bem nos olhos de Felipão e sussurrou uma prece: “Meu Deus, perdoa esse cara que não sabe o que faz”.

Depois, já caído, a última coisa que sentiu foi o sangue lhe encharcar a camisa.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Luto com o luto

Morro de saudades.

Não sei se seria essa só uma força de expressão, mas é assim mesmo que me sinto. Parece que ando morrendo por sentir a falta de tudo e de todos.

É triste essa separação. E agora, ainda mais, que a morte veio levar meus velhos (e só agora percebo que eles se foram algumas décadas antes do que eu havia planejado) a saudade do Brasil é temperada com esse dissabor.

É muito melancólico, eu sei, mas meu peito está tão apertado. Então queria chorar sem parar, por todos esses anos longe. Chorar pelo destino que me separou - sem o meu consentimento.

Neste instante vejo, foi isso que fiz nas minhas últimas idas ao Brasil. Só fiz isso: luto.

Que droga - agora chega o maldito sentimento de vazio. Mas eu sei que esse vazio só pode ser uma desagradável ilusão... Eles estão com Deus… Como tem sido difícil rezar sem o pai. Parece que vem todo o sentimento de quando a gente estava rezando para ele, vem toda a carga de fé que depositamos naquelas orações. É claro que nossa fé não diminuiu com isso, mas a dor da perda do pai é inevitavelmente grande.

Não sei se ainda chorei o suficiente.

Talvez seja uma repressão inconsciente que venha em nossas cabeças. Eu vivo no conflito que manifestei na época: Meu pai estava morrendo e eu ficava falando para ele que tudo ia dar certo, por que eu não chorei e o abracei e lhe falei do meu medo e desespero de perdê-lo? Mas aí eu lembro que ele detestava isso. Foi tão difícil ser forte para ele.

É muito ruim reprimir essa dor, esse medo, mas é ruim também se entregar a ela. Desta forma, continuo chorando aos pouquinhos, quase todos os dias, quase o dia todo.

terça-feira, 5 de julho de 2011

O fracasso da Cruz

Como eu ia dizendo, a ética ou moral divinas não têm o seu ponto alto no Sinai, mas no Gólgota; não na força da Lei, mas na fraqueza da Cruz. E isso nos perturba deveras, nos confunde.

Hoje, já estamos cansados de saber que Jesus ressuscitou e que subiu ao céus. Estamos até mesmo convictos de que ele, um dia, voltará triunfante em glória. Mas não é essa majestade que nos seduz, que nos conquista: Deus nos cativa pelo fracasso da cruz.

Somos como aquele torcedor que ao ligar a televisão, já no meio do jogo, sem ter simpatia por um ou outro time, de repente, se vê torcendo para o mais fraco. Torcemos por Cristo por causa das chibatadas que levou, por causa da coroa de espinhos, por causa dos cravos em suas mãos e pés. Pelas suas chagas somos sarados.

Essa lucidez é porém abalada quando nos encontramos em crise e estamos vulneráveis à tentação. O Diabo parece nos incitar para que mostremos nosso poder, ou desafiar a que demonstremos o poder de Deus, esquecemos-nos assim, rapidamente, da sedutora fraqueza.

Note a pequena, porém gritante diferença: não negamos o poder, ou a possibilidade de ação e intervenção divinas; o que não se deve é fazer disso um show, uma necessidade. Deus não é um show maker, Deus é um íntimo amante.

As ruas de Nazaré e as poeiras dos caminhos da Galileia assistiram por trinta anos um menino transformar-se em homem, numa forma pacata num viver singelo. Um dia o extraordinário despontou e começou a sacudir aquelas pedras e aqueles rios e lagos. Milagres foram feitos, pessoas foram curadas, comida foi multiplicada, mortos ressuscitaram, demônios foram expulsos, água virou vinho.

Todo palco foi preparado para um ato. Todo poder sobrenatural dos céus foi convocado e exercido durante três anos na preparação de uma cena, a cena do fracasso: Ali no Gólgota homens e ladrões encaram Jesus crucificado e lhe propuseram um sarcástico desafio, “você salvou a tantos, então salve-se a si mesmo”. Todo seu potencial havia se esgotado. Ele se esbarrara em seus próprios limites – se for possível… afaste de mim – não era possível, nem mesmo para o “todo poderoso” Jesus de Nazaré. Ele não podia salvar-se a si mesmo.

Jesus deixou patente que o que lhe prendia àquela cruz era uma força maior que todo poder que Ele já havia demonstrado - e Ele havia mostrado poder de sobra. O fracasso da Cruz é o símbolo de alguém que amou desesperadamente. A ressurreição tem seu peso, mas não seria nada se viesse antes da morte, contornando o calvário. A ascensão ao céus deixaram os homens boquiabertos, mas nada que se compare a loucura ou escândalo da cruz. A segunda volta de Cristo alarga nossos horizontes, mas não chega nem perto da perspectiva insana oferecida pela Cruz.

A fé de um Cristo fracassado, de um Deus nu e morto pendurado no madeiro é o que verdadeiramente impulsiona nossos espíritos a se lançarem sepultura a fora, a deixarem as cadeias do inferno que mordazmente nos acorrenta.

A moral da Cruz, antes de fazer separação entre o bem e o mal, entre o certo e o errado, ela vem, muito mais, resgatar o verdadeiro e único valor de uma alma, de um ser humano, o real valor de toda e qualquer pessoa, o meu e o seu valor.

Enquanto o Sinai trovejava medo o Gólgota irradiava graça. A morte do Sinai gerava medo e causava pânico, a morte da cruz gera amor e quietude. A ética do Sinai é a ética da força e da condenação, a ética da cruz é a da fraqueza e do perdão. A impotência da Cruz supera a prepotência do Sinai.

O amor lança fora o medo – como todos nós já há muito deveríamos saber.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Wannsee: conversando que a gente se entende

Nada como um grupo de homens sérios reunidos para discutirem e buscarem uma solução final para um grande problema.

Assim foi o começo de uma trágica página da história: o Holocausto.

Acima a primeira parte do filme em inglês.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Um prazer tão grande no ódio

Será que amar o inimigo quer dizer que não devemos puni-lo? Não, de maneira alguma. […] Na minha opinião, portanto, é perfeitamente correto que um juiz cristão sentencie um homem à morte ou que um soldado cristão mate o inimigo em combate. Sempre pensei assim, desde que me tornei cristão e desde muito antes da guerra, e meu pensamento não mudou em nada agora que estamos em paz. Não vai adiantar citar "Não matarás". Existem no grego duas palavras: uma geral para matar, e outra específica para assassinar. Quando Cristo pronunciou esse mandamento, ele usou a palavra equivalente a assassinar nos três relatos: em Mateus, Marcos e Lucas. Disseram-me que a mesma distinção existe no hebraico. Nem todo ato de matar é assassinato, da mesma forma que nem todo ato sexual é adultério. Quando os soldados se dirigiram a João Batista perguntando-lhe o que fazer, ele nem de longe sugeriu que abandonassem o exército; tampouco o fez Cristo quando conheceu um sargento-mor romano — que eles chamavam de centurião.

[…]

"Bem, se podemos condenar os atos do inimigo, puni-lo e mesmo matá-lo, qual é então a diferença entre a moral cristã e a moral comum?" - Imagino que alguém dirá.Toda a diferença do mundo. […] Talvez sejamos obrigados a matar, mas não devemos alimentar o ódio nem gostar de odiar. Podemos punir, se isso for necessário, mas não devemos gostar de punir. Em outras palavras, os sentimentos de ressentimento e de vingança devem ser simplesmente exterminados de dentro de nós.

[…]

Talvez isso se torne mais fácil se lembrarmos que é dessa forma que ele [Deus] nos ama. Não pelas belas qualidades que julgamos possuir, mas simplesmente porque cada um de nós é um "eu". Pois, na realidade, não existe mais nada em nós que seja digno de amor: nós, que encontramos um prazer tão grande no ódio que abdicar dele é mais difícil que largar a bebida ou o cigarro...

C. S. Lewis em Cristianismo Puro E Simples

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Estranho e misterioso sentimento

PaiEstava eu fazendo o trajeto costumeiro casa-trabalho, em minha velha bicicleta, quando me vi forçado a parar e sentar-me na calçada.

É que há poucos dias, ao ler sobre o falecimento do ex-vice presidente José de Alencar, um estranho sentimento me incomodou deveras, e não sabia exatamente o que era.

Fui surpreendido com a morte do ilustre conterrâneo, pois ele mostrava-se vitorioso em sua longa luta contra o câncer. Mas o fato nem tanto assim me condoeu, visto que os laços afetivos que me ligavam àquele reconhecido cristão quase inexistiam.

Mas senti um nó na garganta seguido de um profundo e obscuro vazio, que não entendia. Então desviei os pensamentos e me agarrei a outro tema qualquer. E os dias se seguiram em sua marcha rotineira.

Mas ontem, no caminho para o trabalho, como que do nada, fui assaltado pela ideia que explicava meu assombro frente ao falecimento de José de Alencar: É que - não sei como explicar isso sem me sentir um pouco ridículo - por alguma ou outra razão, numa conversa e outra com meu falecido pai, surgia a figura de Alencar. (Meu pai havia também há alguns anos lutado contra um câncer e vencido).

Pois é, de repente ficou claro o sentimento que me incomodava e não conseguia decifrar, um desejo natimorto de ligar para o Brasil. Uma vontade louca de pegar o telefone e papear com meu velho. Lamentar a morte do político mineiro, aproveitar para falar um pouco de política, futebol e religião. Contar do trabalho, contar das minhas filhas, da Tânia, e ouvir suas histórias… sobre sua saúde, sobre suas doenças. Ouvir sua voz…

Encostei a bicicleta, sentei-me ali, e as lágrimas foram pingando silenciosamente uma por uma na poeira do caminho.

terça-feira, 12 de abril de 2011

temor mor

Temor temor temor temor temor temor temor temor temor temor temor temor temor temor mor temor mor temor mor temor mor temor mor temor mor temor mor temor temor mor morte temor mor morte temor mor morte temor mor morte temor mor morte temor mor morte temor mor morte a morte a morte a morte a morte a morte a morte temo a morte a morte a morte a morte a morte a morte a morte temo a morte temo a morte temo a morte temo a morte temo a morte temo a morte temo a morte temo a morte temo a morte temo a morte temo a morte temo a morte a morte a morte a morte a morte amor te amor te amor te amor te amor te amor te amor te amor te amor te amor te amor te amor te amor te te amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo: não temas.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Predestinações poéticas

Por que será
que morte rimará
com corte
com forte
com sorte
com norte

Nunca entendi
porque amor
rima com dor
com sabor
com fervor
com calor

Fico maluco em pensar
que louco
rima com pouco
com sufoco
com soco
com toco

E gente
rimará com mente
com sente
com contente
com lente

Me admiro com o fato
de vida rimar
com lida
com partida
com homicida

Já percebestes que luz
rima com seduz
com conduz
com Vaduz
com cuscuz

Quem fez afinal
com que Jesus
rimasse com luz
com vida
com gente
com louco
com amor
com morte e
com cruz

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Não brinque com a predestinação ou destino

Jacó tinha 9 filhos.

Já avançado em idade e muito doente, resolveu chamar os nove para a partilha.

Seu Jacó, homem experto e vivido, sabia de toda a burocracia, taxas, impostos, honorários e diferentes encargos e amolações que pesariam sobre sua fortuna após seu falecimento. Quis então driblar tudo isso e dispor o mais rápido possível seus bens para os filhos.

Na reunião ao pé de sua cama comunicou aos demais filhos que todos os seus bens tinham sido transferidos, conforme ele e seu advogado haviam nos últimos dias preparado, para o nome do filho caçula, Mateus.

Enquanto vivo continuaria arcando com as despesas tributárias e todas outras demais dos bens, após sua morte porém Mateus, jovem honesto, de confiança e querido por todos, iria fazer a transferência para os irmãos conforme disposto no testamento [o qual não teria mais efeito legal nenhum, pois não possuía mais nada] que Jacó acabara de ler para sua prole.

Uma vez acertada as coisas, muitas lágrimas derramadas por todos os nove e naturalmente também pelo velho, o homem pode dormir em paz. Mas não morreu. Não naquela noite e nem na seguinte. Na verdade Jacó viveu ainda muito tempo.

E todos voltaram para suas casas. E foram na manha seguinte despertados e chocados com a macabra notícia do acidente e morte de Mateus.

Jacó viveu o suficiente para não ver solucionado o inventário de seus bens que agora estavam no nome do falecido Mateus.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Assim sem avisar

RogerInglat1Ah amigo
meu doce e bom amigo
sem fazer as malas partiu

Não faça isso assim
fugir sem avisar
sem deixar um adeus
sem dar um abraço

Porventura estava descontente
com esse seu filho negligente
aplicaste tua última disciplina

pagou na mesma moeda
subiu sua colina
tomou seu caminho
e bem sozinho
sumiu
 

Ah a vida
essa traiçoeira inimiga
que nos rouba bons amigos
que abre feridas
zomba da nossa dor
com uma navalha e um corte
ri da nossa sorte
cala uma velha amizade
com a sutileza da morte

Ah meu velho amigo
por que tudo tão de repente
só quis seu último beijo
um último olhar
um último sorriso
que eu sei você me deu
também um dia sem avisar
e eu por não sabê-los últimos
perdi-os todos

lá longe
em algum tempo
em algum lugar

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Naquela mesa ele contava histórias

Naquela mesa ele sentava sempre
E me dizia sempre o que é viver melhor
Naquela mesa ele contava histórias
Que hoje na memória eu guardo e sei de cor
Naquela mesa ele juntava gente
E contava contente o que fez de manhã
E nos seus olhos era tanto brilho
Que mais que seu filho
Eu fiquei seu fã
Eu não sabia que doía tanto
Uma mesa num canto, uma casa e um jardim
Se eu soubesse o quanto dói a vida
Essa dor tão doída, não doía assim
Agora resta uma mesa na sala
E hoje ninguém mais fala do seu bandolim
Naquela mesa ta faltando ele
E a saudade dele ta doendo em mim
Naquela mesa ta faltando ele
E a saudade dele ta doendo em mim

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

O livro da vida [minha]

Semana passada fui a terras brasileiras, à província das Minas Gerais. A mesma Beagá que, dias antes, chorara copiosamente a morte de um de seus cidadãos honorários me recebeu calorosa e ensolarada – talvez só orgulho pelo seu novo status de emergente.

Precisei fechar um dos mais intensos capítulo do livro de minha vida: a despedida de meu pai.

Aquelas páginas saíram encharcadas de lágrimas. A tinta das letras borraram o enredo e estragaram aquilo que um dia intencionou ser uma boa comédia. Precisei fazer várias revisões.

Ao encontrar com familiares, amigos, vizinhos e conhecidos de papai, fui vendo personagens ressuscitarem como heroicos titãs. Eles que há muito, em capítulos anteriores, haviam sumido, afugentaram monstros horríveis que assombravam os calabouços de minha alma. Outros brotaram como fadas e seus encantos, enchendo minha bagagem com elixires e porções mágicas, para enfrentar os perigos vindouros. Já outros aparecerem como que em visões, como mentores que revisavam um por um os principais pontos da missão a ser cumprida nos capítulos seguintes.

Agora eu, o protagonista, retorno solitário para terras germânicas, para meu castelo, para os seios e lábios de minha linda rainha e nossas três princesinhas. As quais em uma conspiração tomaram posse das tintas sagradas e da pena secreta, e vão rabiscando e ilustrando páginas futuras dessa breve aventura, que eu chamo de “minha” vida. Mal sabem o que isso lhes custará um dia…