Páginas

Mostrando postagens com marcador Pastoral. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Pastoral. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Reforma ou restauração?

“Pera lá”, não é puro jogo de semântica, não. A pergunta é essencial, se não, voltemos às metáforas originais:

Reformamos a casa, os prédios, as ruas, o guarda roupa, etc. Normalmente mexe-se na estrutura. Acrescenta-se novos cômodos, um novo estilo é adotado, coisas novas são acrescentadas, o antigo e ultrapassado é removido de forma mais radical e consistente.

Restauramos monumentos, obras de artes, fachadas. Não se mexe na estrutura, o modelo original tende a ser recomposto. Troca-se a casca. Conserva-se o antigo. Não acrescenta-se substancialmente nada novo.

Talvez a grande diferença esteja em que, o referencial da obra de reforma está no futuro, onde deseja-se chegar, e o da obra de restauração está no passado, na origem, de onde se partiu.

Se sou um reformado, lutarei para voltar à origem. E isso é problemático, pois estabelecer um ponto de origem - e todos sabem que estou falando do viver cristão, e do viver cristão, em comunidade –, não é tarefa fácil, e talvez nem seja factível. O mais comum é o reformado, com o passar dos anos, fixar seu ponto de origem na data do início da reforma, ou no período imediatamente anterior a seu início.

Por isso o movimento de reforma que inicia-se como revolucionário, acaba se tornando reacionário, pois por definição deveria ser um movimento progressista, mas na prática, é um movimento meramente conservador.

E eis aí a nossa frente a contradição! Não seria o reformador aquele que mira no futuro? Na teoria sim, mas na prática não.

Todo ideal que se chama de reforma, toda obra que chamamos de reforma, todo movimento que historiadores agruparam como reforma não passam de minuciosas restaurações.

Não é de se estranhar que não demoraram muitas décadas para as igrejas protestantes – filhas legítimas da reforma - reestabelecerem suas hierarquias, seus santos, suas tradições e encíclicas (todas de peso maior que as escrituras) e, evidentemente também, suas indulgências.

Muda-se a fachada mas a forma permanece a mesma (e esse ciclo vicioso já foi simulado e demonstrado de inúmeras e variadas maneiras, para todo tipo de gosto e desgosto, nas infinitas igrejas e seus cismas particulares que existem pelo Brasil afora e Américas em geral).

Assim sendo, ninguém ouse admirar-se pelo fato do caminho adotado por aqueles que buscam viver a verdade do homem de Nazaré esteja, pelo lado protestante, justamente na contra-mão da reforma (por mais contraditório que isso venha parecer).  Existe, por parte destes, um largo abraço acolhedor no peito dos irmãos de confissão católica romana. E destes, por sua vez, nos irmãos de confissão evangélica.

O que esses malucos – e me perdoem por não conseguir achar melhor adjetivo – pretendem, é justamente abalar as estruturas malignas, para que uma nova, mais sólida – que no caso não é sinônimo de rígida e provavelmente seja até o contrário -, mais benigna, mais amorosa, seja estabelecida. E isso exige um espírito inovador – não existem receitas de bolo, prontas –, é uma obra modernizadora, criadora, e na verdade, reformista.

Se não cutucamos ali, onde nos dói, não precisaremos estranhar que todo nosso empenho, não passe de uma linda obra de restauração (ainda que se chame de reforma). Exaltamos o histórico! Preservamos a história, mas nunca ousaremos escrevê-la com nossos próprios punhos.

Por isso é melhor definirmos logo nosso projeto: reforma ou restauração?

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Por que Jesus não riu?

- De onde você tirou isso?

- Na minha Bíblia está escrito que Jesus chorou, mas não tem nada sobre "Jesus riu"…

- Não tem nada mesmo, é verdade. Mas isso não quer dizer que ele nunca tenha rido…

- Mas um diácono já me disse que Jesus nunca riu!

- Por que você está tão preocupado com isso? O importante é que ele curou, pregou, morreu e ressuscitou. Vamos então nos concentrar nas coisas fundamentais reveladas, né!?

Os dois se entreolharam, o suficiente para ambos perceberem o quão pouco conheciam daquele homem, que chamavam de Senhor.

Um aproveitou aquela dúvida para estudar o tema, ler os comentários e preparar mais um esboço de pregação. O outro curioso, por sua vez, se deu a uma leitura mais atenciosa da Bíblia, dos Evangelhos, para ver se não tinha deixado escapar algum detalhe. Tentou também questionar outros e chegou até mesmo a perguntar ao próprio Deus, em oração, sem receber alguma resposta mais convincente.

Quando no domingo aquele tema foi trazido na pregação, aquele fiel se sentiu traído e totalmente constrangido. Tinha a impressão de que o sermão era só para ele. Mas depois ficou mais à vontade, quando ouviu que esta dúvida já tinha despertado, em outras ocasiões, o interesse de outras pessoas.

A risada é algo normalmente associada ao diabo. A famosa "risada satânica". Ou a expressão, o "diabo tá dando gargalhadas" disto ou daquilo. A Bíblia diz que bem aventurados são os que choram, e adverte, ai de vós que agora rides.

A dúvida era legítima, visto que o riso, por outro lado, é parte natural da vida, e diga-se de passagem uma das melhores.

Expressão de uma emoção tão humana e gostosa, o riso pode ser tão puro e cheio de significado como o riso de uma criança. Ou surgir no rosto de um idoso, que se esquece de suas amarguras e se deleita num momento inusitado. O riso de jovens apaixonados é cheio de vida. Ou cheio de energia como o de um adulto que conquista algo pelo qual lutou anos afim.

O brasileiro, um povo alegre, sofre para conseguir convencer o mundo e a si mesmo de sua seriedade em meio às suas risadas festivas. Talvez fosse esse o dilema daquele irmão, como ser um cristão sério e ao mesmo tempo alegre? Como sorrir e ao mesmo tempo franzir a testa?

Uma natureza rica e exuberante em uma sociedade decadente e corrompida. Tanta violência, tanta injustiça, tanta pilantragem... tanta beleza, tanto ritmo, tanta solidariedade... fartura de um lado, miséria do outro. Será que Deus ri com o Brasil, ou será que ele chora?

Depois da reunião religiosa, o pregador cumprimentou aquele fiel. Como que mirando em um espelho, eles perceberam, no olhar do outro, que certas coisas não foram reveladas a sábios nem a entendidos, mas aos pequeninos.

Eles então se abraçaram e se despediram sem palavras. E cada um seguiu seu caminho dando boas risadas.

Pois de repente, não existia para eles nada mais importante no mundo do que o riso de um jovem galileu, que resistira ao tempo, a uma elite corrupta, a um império e a uma cruz.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

O jurista e o discriminado

Poucas coisas são mais justas do que o "olho por olho, dente por dente"; a graça, o amor e a misericórdia são algumas delas.

Lá estava ele mais uma vez sentado na roda de pecadores, seus amigos: publicanos, prostitutas, e gente da mesma laia, gente discriminada.

Isso já era demais para um certo jurista religioso de sua época (e ainda é demais para os de nossa), o qual montou uma arapuca:

“Mestre, o que eu tenho que fazer?”

A velha mentalidade mecanicista, “qual botão deve-se apertar, qual alavanca puxar?” Me diga, e eu simplesmente faço! Como formularia a Nike milênios mais tarde: just do it!

Mas o galileu de sandálias chutou a arapuca:

“O quê está escrito (exegese)? Como você lê (Eisegese)?”

Porque para Jesus as duas coisas claramente distintas deveriam andar juntas.

O jurista, eufórico, aproveita para recitar seu catecismo e não percebe que o Rabi, com os mesmos pauzinhos, a poucos chutados, refaz a arapuca, na qual o jurista acabava de cair:

“Bravo! Perfeito! Então não há pergunta… just do it…”

Já engaiolado, o jurista pia mansinho: “Mas pelo amor de Deus, quem é este cara que se chama próximo? Como você, Mestre Jesus, lê isso?” [Como se a cena por si só não oferecesse uma resposta].

A conversa assume, então, outro tom.

Os discriminados pelo sociedade judaica, prostitutas e publicanos, que naquele momento gozavam de prazer com a cara atordoada do jurista, fixaram seus olhares ávidos no contador de histórias.

“Um homem descia de Jerusalém para Jericó…”

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

sábado, 24 de dezembro de 2011

O Mito Natalício

Vivíamos o tempo glorioso do mito. O mito traduz melhor a verdade que a pura e simples descrição histórica. Como falar de um Deus que se fez criança, do mistério do ser humano, de sua salvação, do bem e do mal senão contando histórias, projetando mitos que nos revelam o sentido profundo do tais fatos? Os relatos do nascimento de Jesus contidos nos evangelhos, contem elementos históricos, mas para enfatizar seu significado religioso, vem revestidos de linguagem mitológica e simbólica. Para nós crianças tudo isso eram verdades que assumíamos com entusiasmo.

Leonardo Boff

Acho bom que uma vez por ano pelo menos, celebramos o Deus menino. O reino celestial, nos garantem os Evangelhos, tem características infantis. Cristãos festejam a fragilidade do bebê que dependeu dos braços maternos e das decisões paternas para sobreviver. Esvaziado, humilde e carente, Deus se revelou à humanidade numa estrebaria. Talvez nessa revelação repouse a mais alvissareira mensagem do cristianismo: Deus abraçou a humanidade em sua pequenez. Desde cedo, no desterro do Egito, conviveu com olhares odiosos. Criticado dentro de casa, soube amargar a incompreensão. Caçado e morto por sacerdotes e políticos promíscuos, experimentou o abandono derradeiro. No que sofreu, Jesus se tornou o patrono dos desgraçados, paraninfo dos sem-teto, amigo de proscritos. Ele é o ânimo dos que se desgastam pela justiça; o aceno de esperança para os que nadam contra a correnteza. Nele reside a promessa de que o bem semeado no mar da iniquidade jamais será esquecido.

Ricardo Gondim

sábado, 27 de agosto de 2011

Sobre a soberania e missões

Há 13 anos deixei o Brasil para ser missionário em uma Europa, dita, pós-cristã. Hoje meus conceitos mudaram: Missão? Pós-cristã? Islã? Igreja?

Sim, estou convicto, são crises pertinentes ao modelo messiânico, empreendedor e proselitista que abraçamos no passado. Não estou só nesta minha angústia.

Para o velho modelo só encontro saída (ou demanda) lógica, frente ao imigrante islâmico. Mas não seria só uma perpetuação do modelo, além de ser uma dura pedreira?

A alternativa apontada pelo sábio é a promoção da vida para além do modelo catequético, que viu num Centurião homem de enorme fé. Seria então esse nosso desafio no diálogo interreligioso?

Os ares brasileiros se diferem radicalmente dos ares europeus: No Brasil o turnover religioso é enorme, por isso a dinâmica da fé tende a ser mais aquecida, contudo mais efêmera. Na Alemanha a euforia é menor, a fé torna-se inerte, estática, porém mais sólida e substancial. Em uma outra ocasião gostaria de exemplificar isso.

Basta agora lembrar que a fé baseada no determinismo nos faz crer que Deus para tudo tem um plano hermético e detalhado. Toda boa surpresa deste divino destino parece corresponder a uma providência divina, afinal Deus é o o Jeová Jiré, o Deus da provisão.

Todo esse edifício teológico se desmorona entretanto quando as surpresas são desagradáveis. Jó, que viu seus filhos sucumbindo em uma catástrofe, não anda de mãos dadas com Abraão, que teve seu filho restituído das cinzas.

Europeus, acostumados a guerras e catástrofes, onde a fé e a cruz, desde os primórdios andaram abraçadas com a espada, não se iludem mais com um Deus soberano aos moldes gregos. Eles se sabem donos de seu próprio destino. Essa é certamente uma das razões porque o modelo ufanista Americano nunca achou solo fértil no velho continente. E nem achará.

Mais uma vez o sábio destaca que é preciso notar que a inércia religiosa europeia não é fruto da teologia que adotou mas dos movimentos sociais que a promove – materialismo. Portanto, no projeto protestante que autonomiza os indivíduos também existem perigos. E um dos perigos vem do consumismo materialista.

Sei que os desafios missionários na Europa são muitos. Não estão nem longe de serem transpostos. Agora faz-se necessário, porém, detectar quais variáveis que podem contribuir ou obstruir a expansão do Reino aqui.

Sei que Deus está no controle, mas sei mais ainda que Ele não nos trará de bandeja um modelo pronto, uma receita de bolo. A Bíblia não revelará nada de novo sobre o assunto. Em sua santa soberania Ele, Jesus, nos convida a desenvolvermos o novo juntos: o modelo do momento. Um modelo que é eficaz, mas frágil. Que é efetivo, mas passageiro. Que não é uma fórmula mágica, infalível e eterna, mas que seja Vida e a vida em si mesma.

Evidentemente a peteca está em suas mãos; ou, terrivelmente, nas minhas…

quarta-feira, 20 de julho de 2011

A alternativa: Assuntos culturais

Uma a fraternidade informal e livre não é alternativa, mas a alternativa.

Não se trata naturalmente de simplesmente se reunir para bebericar café nas sextas à noite e discutir assuntos culturais. Mas não seria de todo errado afirmar que isso já seria um grande avanço.

Onde não existe a consciência de pertencemos a um corpo que se guie conforme o Espírito soprado por Cristo, as regras estabelecidas por homens irão fatalmente roubar a liberdade, a informalidade e a espontaneidade necessárias para o oxigênio e a vida desse Corpo.

A igreja é Jesus (ou deveria ser) em seus trinta anos de anonimato, no seio da sociedade, e os três ministeriais - no seio da sociedade: bebericando e discutindo assuntos culturais, portanto, claramente espiritual.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Uma soteriologia relacional em três parábolas

Uma moeda, uma ovelha, um filho: três perdidos, três achados.

O problema da moeda é que ela é um ser inanimado, sem vontade, sem consciência. Seu relacionamento com seu propieatário é meramente utilitário.

A moeda, ou dracma, possui todavia seu valor; e uma vez perdida, será com afinco buscada por sua dona, até ser encontrada. Móveis serão removidos, a poeira será varrida, os cantos serão vasculhados. Toda dracma perdida, deve ser e será achada.

Contente a mulher conta para a vizinhança toda seu fabuloso feito.

---

A ovelha possui uma dinâmica muito mais intensa de ralacionamento com seu proprietário. Ela está viva e tão animada que acaba se perdendo, por conta própria.

A ovelha possui também seu valor utilitário, mas esse nem se compara a seu valor sentimental. Seu dono não exitará em deixar outras 99 em perigo, para resgatar uma que fatalmente morrerá. O resgate de uma ovelha é uma questão de vida ou morte.

Uma vez resgatada é motivo de festa.

---

Por fim temos o próprio filho: sangue do próprio sangue, herdeiro, sucessor nos negócios e na vida. Com vontade própria, sentimentos e sonhos próprios o filho se une intimamente ou separa-se, até mesmo radicalmente, do pai. O bem estar do pai, dependerá miseravelmente do bem estar dos próprio filho, que no caso, escolheu seguir seu próprio caminho.

A busca do possuidor, nesse caso seria vã e inútil. O perdido não é nenhum objeto, mas sim um sujeito, e como tal, livre. O filho perdido deverá voltar com as próprias pernas, as mesmas que o levaram, um dia, para uma terra distante.

Tendo-se imolado o novilho cevado, festeja-se seu retorno. Um filho que volta é um filho que renasce. Ainda que tido por morto, nunca deixará de ser filho. Ainda que se enxergue como servo ou indigno, sempre será filho, e portanto, amado como tal.

--------------------

As pessoas se relacionam com Deus em categorias distintas.

Alguns vêem em Deus somente o lado utilitário. Deus me dá saúde, bens, e etc. Deus tem seu valor, na medida que é um meio para eu alcançar outros fins. Deus não é um ser pessoal, mas é um objeto, uma força.

Assim como vejo Deus, me projeto também diante dele. Talvez até mesmo por ignorância, a superficialidade de meu relacionamento com Deus se dá, ocasionalmente ou mesmo constantemente, nesse plano prático, material e impessoal da vida.

Deus também se importa com esse tipo de pessoa e a salvará. Exemplifico: imagine um xintoísta - ou até mesmo um ateu – que não saiba nada dos principais dogmas cristãos, mas que procura viver uma vida autenticamente xintoísta (ou materialista), reta, clara e honesta, segundo a vontade dos kami (ou da ética ateísta), assim, visita os doentes e presos, veste os nus, e dá de comer aos famintos. Ainda que tal pessoa se perca, um dia, será resgatada.

---

Uma segunda perspectiva do relacionar-se com o Criador é tê-lo como meu dono. Me sinto totalmente dependente dele. Reverencio-o e o admiro. Como um cachorro que lambe as mãos do dono e pula quando o vê chegar, eu o adoro. Meu relacionar com Deus já não é mais impessoal, mas ainda possui um caráter estremamente utilitário e talvez por isso mesmo afetivo. Quando perco-me de Deus, meu mundo vira um caos, a morte existencial é iminente.

Em minha miopia enxergo-me diante de Deus, no reflexo de minha própria sombra. Como sei que dependo de Deus, imagino que Ele dependa de mim e, de alguma forma, virá me resgatar. Como sou apegado ao criador, imagino Ele apegado a mim, e capaz de deixar tudo para me acudir.

Nesse caso também Deus salvará tal alma, ainda que ela não tenha noção nenhuma da doutrina do novo nascimento ou batismos. Seja ela um cristão nominal, um islâmico ou judeu, que viva sua religiosidade sem ter em Deus o Pai amoroso revelado por Jesus, tal pessoa será salva. Ela possui seu valor para Deus, ela é amada por Deus.

---

A terceira perspectiva, a mais intensa, é também a mais completa.

Nela nos vemos diante de Deus num patamar mais que utilitário, mais que puramente afetivo. Na verdade, a perdição é o caminho de ida e volta, que nos ensinará essa lição. O filho deixa o pai para entender, a utilidade e o valor do seu aconchego, de sua amizade, de sua paternidade, de sua própria filiação.

No meu relacionamento com Deus, compartilho do mesmo teto, da mesma mesa e de sua incondicional confiança. Se me perco ou afasto desse lar, sei que foi por minha livre escolha, e sei que o retorno também custará minha própria iniciativa.

Os filhos pródigos também voltarão à casa. E serão recebidos – por favor, não pense que aqui me refiro à igreja, ou a um crente desviado - O filho que se perde, pode ser perfeitamente um cristão ou não. É aquele que se relaciona com intimidade com Deus. Que tem Deus como Pai, amigo ou irmão (sem dúvida uma visão especial, mas não exclusiva, do cristianismo). Uma vez perdida essa intimidade, também essa pessoa, no momento adequado, cairá em si e voltará. E será recebida com festa.

--------------------

Você poderá achar que com isso estou advogando o universalismo. Não é o caso. Sobre a perdição, Jesus contou outras parábolas; essas aqui tratam porém de salvação.

Sobre a interdependência entre aquele que procura e o perdido, temos uma clara e embaraçosa contradição: A dracma sendo o mais dependente dos três personagens perdidos, é a que mostra menor interdepência frente a seu possuidor. O inverso acontece com o filho, que sendo o mais independente, é o que mais necessita do pai, e o pai dele.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Quem comigo não ajunta

Não sou nenhum corta-jaca*, como alguém já insinuou, não tenho razões nenhumas para isso. Nem precisava ficar aqui me explicando… Existe certa proximidade, certa afinidade de idéias. Fora isso estamos a quilômetros de distância. Nem nunca trocamos um aperto de mão ou olhar.

Alguns ataques pesados que o Ricardo recebe, dos que tive e tenho notícia, acabam contudo, de uma maneira ou de outra, me atingindo. Conto porque.

Mas antes sinto-me forçado a salientar que, na questão da Ultimato, sentiria a mesma indignação e revolta, ainda que o fato ocorresse com alguém com quem não tenho afinidade quase nenhuma, como Augusto Nicodemos - por exemplo. Suponhamos que a Mckenzie o dispensasse, da noite para o dia, alegando não concordar com algo que ele escreveu, sei lá, a favor do vinho, por justificar a presença de professores liberais, ou por ter se sentado à mesa com Sérgio Pavarini… não importa. Acharia, da mesma maneira, a decisão arbitrária e contra a liberdade de expressão. Veria, da mesma forma, a máquina institucional atropelando a individualidade, na pessoa de um indivíduo (para ser enfático).

Ou seja, a questão vai muito mais além do que um gosto ou afinidade pessoal, quando tomo meu tempo para opinar sobre essas perseguições e fogueiras (que agora são chamadas de “micro ondas”).

No caso do Caio Fábio, a história é longa e tentei explicá-la aqui: Caio Fábio - O fim de alguém que já foi alguém (pra mim). Mas a questão é a mesma, o Caio quer proclamar um Deus que controla tudo… um deus que para mim já não existe mais, e para isso desse o pau no que eu creio. Não, não meu amigo, assim não.

Todos aqueles ataques (e isso não é diferente desse último vindo de Tom Cavalcanti**) é que eles tocam primeiro em Gondim, claro, mas acabam mexendo com minha fé e naquilo que acredito. Eles ferem minhas crenças, minhas idéias. E não preciso ficar lendo ou ovindo isso calado (para isso que existe hoje Internet, Blog, Tweeter e essas coisas - Como disse meu irmão, antigamente você tinha uma boca e dois ouvidos, hoje você tem dois ouvidos e dez dedos).

escrevi alguma vez sobre isso, não se engane: Um debate sempre será pessoal e subjetivo! Não combatemos ideias, combatemos pessoas.

Quando penso nos três pontos gondinianos, e te convido a pensar com a gente, veremos que eles estão no cotidiano de nossa fé, de nossa prática:

  • Um Deus de liberdade e consequentemente amoroso, que não controla tudo; (já refletimos fartamente esse tema aqui)
  • Garantir ao próximo (seja ele gay ou não) o direito à liberdade (via estado) de serem donos de sua própria história e não serem discriminados por isso;
  • Não rotular a Europa tão rapidamente como pós-cristã, mas reconhecer ali um avanço dos valores do Reino que se mostram na cidadania.

Nesse terceiro ponto, que Flávio Cavalcanti** arremata seu texto, me incomodei. Aliás o texto todo é horrível! Até pensei em pegar parágrafo por parágrafo e mostrar, pela própria Bíblia, pelas próprias passagens citadas por ele, como Deus esteve em cada caso em diálogo com os homens e que nunca a coisa foi assim imposta, absoluta, de cima para baixo como Cavalcanti quer dar a entender… Mas como alguém comentou lá, (exegese rasteira, generalização boba). Desisti, não vale a pena. Mas quero tocar na questão da Europa.

Pois bem, escreveu ele:

Como diriam os caipiras mineiros: […] cristianismo triunfante é aquele que ninguém vai mais à igreja.

Primeiro: caipira mineiro é a avó! [Estou brincando.]

Esta questão de ir ou não à igreja é, em minha opinião, algo super importante a ser revisto pelas igrejas institucionalizadas. Hoje não vou mais à igreja, e não me sinto melhor nem pior do que ninguém.

Eu vivo na Europa (já morei um ano na Áustria, um na Inglaterra, Holanda e vivo há mais de 10 na Alemanha) e sei do que falo. Aliás vim para Europa com a finalidade de falar de Jesus para uma geração “pós-cristã”. Te digo, ouça bem: Isso não existe! O Lou e o Beto já me aconselharam sobre isso, escrever sobre as igrejas na Alemanha. Ainda farei isso, mas terei que separar a Igreja das instituições – tarefa nada fácil.

Queria ver o que seria dos espiritualistas brasileiros se os “humanistas” europeus parassem de enviar suas ofertas, ajudas humanitárias, staff e etc. Sem dúvida muitas igrejas, ONGs, escolas e hospitais fechariam as portas. Não quero aqui entrar no debate, colonialismo, imperialismo, teoria da dependência, e etc. Só quero chamar a atenção para que não pensemos que o cristianismo evangélico brasileiro seja melhor ou mais espiritual do que o atual cristianismo Europeu.

“Para alguns autores, a decadência do protestantismo na Europa não é, verdadeiramente, uma decadência, mas o cumprimento de seus objetivos: igrejas vazias e cidadãos cada vez mais cidadãos, mais preocupados com a questão dos direitos humanos, do bom trato da vida e do meio ambiente.” R. Gondim

Tem muito para ser dito sobre o assunto, até mesmo passando pela Renascença, pelo Iluminismo, pela a Revolução Francesa, talvez até pela própria Reforma Protestante. Precisaríamos voltar à colonização dos Estados Unidos e entendermos um pouco mais da fonte, do tipo de cristianimso evangelical, que bebemos hoje. Com menos frequência do que aqui n’A Teologia Livre’ faço isso com calma lá no Blog em que releio duas das obras de Francis Schaeffer.

Mas evidentemente existe também o gosto e a afinidade pessoal. Até mesmo porque, segundo cremos - e nisso o filósofo e blogueiro Paulo Brabo há de concordar comigo (ainda que ele me julgue um impertinente, que nega a raça e desça do muro se envolvendo em polarizações) – o evangelho é a crença, não em uma cartilha (ou catecismo), mas em uma Pessoa. E mais do que a confissão dessa crença é o relacionamento com essa Pessoa.

Ninguém melhor que Jó expressou o que esse relacionamento pessoal, essa amizade, deveria significar e até onde ele deva ir – mesmo não se tratando de nenhum desesperado e de nenhum apóstata, a citação fala alto. Mas temos visto o oposto. A história se repete, é de se lamentar.

“Um homem desesperado deve receber a compaixão de seus amigos, muito embora ele tenha abandonado o temor do Todo-poderoso. Mas os meus irmãos enganaram-me” - Jó

--------------

*Se gostou aqui vai mais alguns adjetivos do Aurélio para bajulador: adulador, adulão, aduloso, babão, baba-ovo, banhista, cafofa, chaleira, chaleirista, cheira-cheira, chupa-caldo, corta-jaca, engrossador, enxuga-gelo, escova-botas, incensador, lambedor, lambe-botas, lambe-cu, lambe-esporas, lambeta, lambeteiro, louvaminheiro, puxa-saco ou puxa-sacos, sabujo, xeleléu, xereta

** Dizem que trocar o nome é pior do que matar o home

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Como chutar um missionário para escanteio

Lá estávamos reunidos para decidirmos “o caso do pastor Mauro*”. Era uma reunião de emergência da liderança do grupo ministerial.

Então minhas suspeitas tinham se confirmado…Me lembrava bem do culto de despedida do Mauro. Não havia engolido aquele teatro de jeito nenhum. Ainda mais que ao final, quando fui me despedir de Mauro, ele me olhou bem nos olhos com um sorriso sem graça e balbuciou: Engraçado, não é? Não se mexe em time que está ganhando…

Durante a pregação ele havia, num tom para lá de triste, explicado como que o grupo de pastores, sob jejum e oração, havia chegado à decisão de seu retorno. Ele mesmo tinha sentido sua dívida moral com a igreja que o enviara, e agora precisava de ajuda. Era “muitíssimo importante” que alguém retornasse e acudisse a igreja (a saber o pastor titular) que havia caído em erro doutrinário. Pois é, Mauro sentiu que esse alguém era ele. E o enviariam de volta.

Estranho que uma peça, que inicialmente era tão essencial, tão rapidamente se tornara supérflua. Quando Mauro chegou era um homem de Deus. Tinha um projeto para um país asiático, e foi se desenvolvendo ali naquela comunidade. Aos poucos os holofotes se voltaram para ele. Não faltou quem dissesse que isso causaria ciúmes e inveja.

A verdade é que Mauro nunca teve o carisma do pastor sénior, mas suas pregações causavam impacto. Suas ministrações atingiam o coração das pessoas. Ele mostrava simpatia para com os feridos. Não que fizesse isso intencionalmente afim de roubar a cena. Era o jeito dele, que por sinal era bem simples.

Chegou a fazer uma primeira viagem à Asia. E estava encaminhando seus planos, quando foi chutado para fora de campo. Por que? Como pode ser isso?

Ali ouvindo sua pregação, me despedindo dele, fui embora para casa indignado e furioso. Como pode uma encenação dessas? E tudo com um pano de fundo espiritual… Se o Mauro não voltar até abril, para mim, isso é tudo uma farsa. (A despedida tinha sido algo em torno de outubro ou novembro).

Não demorou muito e aquele que tinha sido enviado para ajudar é quem agora “estava precisando de ajuda”. Agora de peça supérflua era promovido oficialmente a empecilho. E a reunião tinha sido convocada para estudarmos o seu caso.

- Foi meu mentor, que tem olhos de águias, quem me alertou, “o que este homem faz aqui?” Expliquei que ele liderava uma célula, que pregava vez ou outra e tinha seu projeto para a Ásia. “Olha, meu querido, que esse homem se encosta aqui e vocês não se livram mais dele”.

Essas foram as palavras com que o pastor sénior abriu a reunião.

A frigideira estava no fogo, o óleo estava quente, e o homem iria ser fritado. Esses filhas da mãe nunca mais vão trazer o Mauro de volta, pensei.

Um outro pastor, parente do sénior, atacou logo em seguida.

- Ele nos falou que não concorda em tudo com o senhor… eu perguntei a ele em que não concordava, e ele se esquivou dizendo que eram coisas não essenciais. Veja só! [E eu pensando que mal haveria nisso…]

- O projeto dele para Ásia nunca foi muito claro. Primeiro tinha o chamado para o país, depois queria formar missionários, uma escola missionária. Disse um outro missionário. [Tive que por um momento concordar, mas tudo parecia suspeito, por que chegar a essa conclusão assim tão tardiamente e justamente naquela hora?]

Fiquei ouvindo tudo aquilo calado. Talvez meu erro… Mas o que adiantaria interromper o circo? Já me sentia fora daquilo tudo. Queria era achar um pretexto para me debandar, para sair de vez daquela bolha sufocante. Aliás, tudo indicava que em breve eu seria a bola da vez. Para quê então catalisar as coisas? Fiquei calado, boquiaberto.

Mais tarde pude com certa distância e um pouco mais de maturidade entender a fraqueza daqueles pretextos: O plano missionário não seria uma construção conjunta? Quantos de nós não chegara ali com um projeto inacabado que com o tempo foi se moldando e se consolidando? Qual de nós que não havia misturado os sonhos de Deus com os seus próprios e vice-versa?

- Agora o pastor titular (aquele que tinha caído em erro doutrinário) tinha ligado e precisávamos dar uma resposta. O homem (o Mauro) tá lá dando problemas… Não sabem o que fazer com ele.

- O melhor é deixar ele inativo. Aplicarmos uma castigo.

E assim puseram uma pedra no caso.

Depois disso não demorou muito saí também daquela comunidade. Ao sair fiz questão de levantar a poeira sobre o caso. O que provavelmente acelerou meu desligamento.

Depois também encontrei-me uma série de vezes com meu amigo Mauro, que me recebeu sempre bem e me contava como sua caminhada ia evoluindo.

De fato ele voltou mais uma vez àquela comunidade e foi enviado à Ásia para uma curta visita. Acho que foi uma maneira de tentarem repararem o erro. Mas o estrago já havia sido feito.

Até onde eu sei o jogo deles ainda continua, afinal ele é o mesmo que acontece aí mesmo, na igreja mais próxima de sua casa.

O problema é que bolas jogadas para escanteio sempre voltam ao jogo e podem causar mais perigo de gol ainda.

[*nome mudado]

Leia também Bem aventurados ou bem sucedidos?

sexta-feira, 4 de março de 2011

Predestinações poéticas

Por que será
que morte rimará
com corte
com forte
com sorte
com norte

Nunca entendi
porque amor
rima com dor
com sabor
com fervor
com calor

Fico maluco em pensar
que louco
rima com pouco
com sufoco
com soco
com toco

E gente
rimará com mente
com sente
com contente
com lente

Me admiro com o fato
de vida rimar
com lida
com partida
com homicida

Já percebestes que luz
rima com seduz
com conduz
com Vaduz
com cuscuz

Quem fez afinal
com que Jesus
rimasse com luz
com vida
com gente
com louco
com amor
com morte e
com cruz

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Seu Blog não é um Púlpito

Ainda que Chesterton considero o clérigo como uma peça tão fundamental e ao mesmo tempo tão estranha, como um gato no jardim de sua infância, mantenho lá minhas reservas.

Dentre os principais motivos ocultos em eu escolher a primeira saída pela esquerda, no anel rodoviário da já tão pavimentada via da carreira ministerial, foi o horror de ter que participar obrigatoriamente de cerimônias formais e muitas vezes teatrais como casamentos, funerais e festas de quinze anos, e ali ter que desempenhar um papel repetitivo e, no mínimo, questionável.

A verdade é que nunca encarei como serviço pastoral ser mestre de cerimonias. Mas esse é um quesito indispensável no curriculum de um candidato ao púlpito.

Nunca engoli muito bem a autoridade eclesiástica no âmbito sacramental. Penso que a sociedade, seja famílias ou indivíduos tem outros mecanismos, verdadeiramente bíblicos e funcionais para oficializarem certos acontecimentos - e vou mais longe - para buscarem as bênçãos e proteções dos Deuses; mas isso é tema para outra postagem.

Restaria então ao cargo episcopal, seja ele exercido por um padre, apóstolo, bispo ou pastor, as pregações dominicais. E esse é o assunto no qual quero me deter. E para isso vou comparar o púlpito com um Blog, onde obviamente as diferenças são gritantes.

Primeiro, seguir um Blog, não envolve os benefícios, compromissos e chateações de se estar seguindo um pastor, sendo membro de uma igreja. Em contrapartida, ser o líder de uma igreja (e me restrinjo aqui somente à tarefa de pregar) não envolve os benefícios, compromissos e chateações de tocar um Blog. Ambos porém (Blog e púlpito) podem, nos dois sentidos, ser perigosos, com consequências perturbadoras.

Por isso mesmo, em um sermão, que geralmente é feito domingo após domingo por uma mesma pessoa, assume-se que “Deus está falando” à comunidade. E quando esse deus começa a falar besteira após besteira, de acordo com o sistema (episcopal, congregacional, presbiteriano, ou seja lá o que for), dá-se um jeito de jogar seu porta voz para escanteio. O mesmo pode acontecer, entretanto, se Deus começar a dizer coisas incômodas demais para a comunidade.

Todo o processo para se desocupar um púlpito é doloroso e traumático. Trocar de igreja também não é lá tarefa das mais agradáveis. Parar de seguir um Blog basta um ou dois clics.

De certa forma, uma vez membro de uma instituição religiosa, você se obriga a escutar semanalmente a mesma ladainha, com perdão da palavra. Seguir um Blog, não envolve obrigação nenhuma, ainda que você possa lê-lo todos os dias.

O poder intrínseco da palavra é das ideias está presente no discurso falado de um púlpito, como no escrito em um Blog. Isso é a grande e talvez única semelhança. Tanto um como outro pode alcançar públicos diferentes em circunstâncias, dimensões e ambientes diferentes. Ambos podem auxiliar pessoas em seus processos de mudança, em suas descobertas e e auto-descobertas, em seus relacionamentos com Deus e com o próximo (que no fundo é a mesma coisa).

Cabe lembrar que, dependendo do Blog, você poderá comentar ou não as pastagens. E isso é uma tarefa que, ainda que tida por incômoda e infrutífera por alguns, estimo-a altamente. Os comentários sobre um sermão sempre serão feitos após o estrago já estar em andamento, e dificilmente terão o mesmo efeito incômodo que de um comentário irreverente numa postagem. Da mesma forma um comentário pertinente enriquece o texto e proporciona uma certa interação que nas pregações nunca serão bem-vindas e a todo custo evitadas.

Alguém pode ainda lembrar, “você esqueceu do aconselhamento. Essa é a tarefa do clérigo”. Replico, será? Há controvérsias.

domingo, 24 de janeiro de 2010

Um Deus que entrou no tempo

k0479932[1] "Sou culpado, por que Deus não perdoa? Sou inocente, por que ele não põe fim à angústia e prova minha inocência diante dos meus inimigos? (Sal 38; Sal 44; Sal 79). Uma resposta teórica para todas essas perguntas não existe, nem mesmo no novo testamento. A única resposta verdadeira é: Jesus Cristo.

Essa resposta já era oferecida nos salmos. […] Nós não podemos mais carregá-las, tome você elas [misérias e agressões] e carregue-as você mesmo, só você pode acabar com o sofrimento. […] Jesus Cristo é a única ajuda no sofrimento; pois nele está Deus entre nós.

Por nossa causa ele gritou na cruz: 'Meu Deus, meu Deus, por que você me abandonou?'

Então nós sabemos que não existe mais nenhuma dor sobre a terra, na qual Cristo não esteja ao nosso lado, conosco sofrendo, orando, o único Ajudador."

Dietrich Bonhöffer – em 'Os Salmos'

domingo, 3 de janeiro de 2010

Corações (per)turbados

EV401-014[1] Escrever também é preciso.

Se os escritos lúcidos brotam da paz de espírito, os revolucionários, da alma angustiada. Mas se como lembrou bem a Gabi,

"da alma angustiada brota a paz de espírito. Onde estará a paz senão na luta (agonia) de viver?"

Ela está, segundo meu insignificante parecer, corretíssima: agonia e paz são duas inimigas que andam sempre de mãos dadas. Afinal não seria assim com outros sentimentos? Coragem e medo, virtude e vício, fé e desesperança, amor e ódio?

Por não se ter mais medo, não ressuscita-se a coragem. Sem o perigo dos vícios, elimina-se as virtudes. Onde tudo é certo e previsível, não necessita-se de fé. (Não digo fé, no sentido de se operar um milagre; nem no sentido de resignar-se frente às supostas "inexplicáveis razões" do Todo Poderoso.)

Também amor e ódio andam de mãos dadas no coração humano. Não pensemos que o brado de Cristo no calvário tenha sido uma pergunta filosófica: "Deus meu por que me desamparaste?" Ainda que envolta no contexto piedoso do salmo 22, dela se extraí toda a história do conflito de ódio entre Deus e homem, entre homem e homem. Não seria essa ao mesmo tempo uma história de paixão?

Algumas raras vezes a perturbação vem de não se estar verdadeiramente perturbado, de ter-se acostumado, de estar-se insensível com os males desse mundo. Nesse exato momento faz-se uma mudança de mente, de espírito, que é invariavelmente seguida de uma confissão, que não passa da fé que mencionei acima. Pois é nessa perturbação que a proposta do Reino de justiça e paz, se traduz em palavras revolucionárias e lúcidas, as quais precisam necessariamente ser proclamadas.

(Bendita seja a internet que nos proporcionou essa válvula de escape, antes reservada somente aos profissionais da mídia, política ou cátedra).

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Papai nunca mais encha a cara…

Se não eu filmo e coloco na net pro mundo inteiro ver seu estado deprimente.

Me prometa. Nunca mais álcool!! Ouviu?

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Caciquismo Evangélico

Não é novidade o fato de que durante muito tempo a vida política brasileira foi fortemente influenciada por coronéis e caudilhos. Também não é novidade que, embora este tipo de influência hoje seja menor, estas figuras manipuladoras de opinião acabaram por dar lugar ao que hoje chamamos de “caciques” políticos.

O caciquismo, assim como o coronelismo e o caudilhismo, remonta ao tempo do Brasil Imperial. No entanto, esta figura sofreu, de certa forma, uma espécie de evolução.

Hoje, o cacique se impõe em determinada comunidade, cidade ou região valendo-se das muitas artimanhas herdadas do coronelismo e do caudilhismo. Dos coronéis, herdou as formas de imposição de sua autoridade pelo medo aos seus subordinados, já dos caudilhos, herdou a jeito astucioso de dominar as massas pelo seu carisma e espírito de liderança autoritário (possui em seu discurso forte apelo emocional). Poderia mencionar vários nomes destes “caciques”, porém isto não se faz necessário, visto que, apresentando estas características básicas, fica fácil discerni-los na sociedade.

Entretanto, o que realmente quero tratar aqui não é a existência e características deste tipo de gente em nossa sociedade. Mas, sim, o fato de que, infelizmente, este traço cultural tem sido recepcionado por muitas denominações evangélicas. A ignorância cultural do povo e a herança da tradição sacerdotal católica, na qual o padre é uma grande figura dotada de poder dominador sobre a sua comunidade, têm favorecido o surgimento de poderosos “caciques” político-religiosos em meio evangélico.

Outro fator que tem corroborado para a existência deste tipo de fenômeno é o ávido interesse (por parte dos evangélicos) de participar da política e galgar posições, quando nela já estão inseridos. Na realidade, o interesse pelo poder político fomentou muitos líderes a assumissem características do “caciquismo”.

O que é dito aqui é comprovado pela forma de fazer política de muitas das denominações brasileiras. Suas práticas podem ser vistas claramente em época de eleições: afirmando que tal pessoa (geralmente um candidato oficial da denominação) será “luz” no congresso nacional, na camara dos deputados estaduais ou na câmara dos vereadores, algumas denominações têm encabrestado seus membros (votos). Há suspeita de, até mesmo, vendas de votos de seus membros para candidatos corruptos. Nestas igrejas, em tempos de eleição, é muito comum ouvir coisas do tipo:

“Vamos orar para que Deus eleja o Fulano!”

“Quem dentre os que aqui estão se comprometem com a candidatura de Cicrano?”

“Quem é do ‘corpo’ vota em quem é do ‘corpo!’ ”


"É preferível errar votando em irmão do que em ímpio!"


Estes são apenas alguns dos chavões existentes dentro destas denominações para encabrestar os membros/eleitores. São realizadas também várias pregações, nas quais se utiliza a vida de José, Daniel, Neemias, dentre vários outros personagens bíblicos, para fundamentar o ardente desejo da liderança da igreja de possuir influência política . E ai de quem se opor à visão da liderança da igreja; este torna-se imediatamente um rebelde.

Infelizmente, este tipo de coisa trás conseqüências drásticas à igreja, dentre várias, eis algumas:

-A falta de interesse por parte dos líderes de proporcionar o crescimento e amadurecimento integral dos membros: uma vez crescidos, maduros e com consciência cristã de seu papel na sociedade, estes se tornariam “problemáticos”, pois, certamente não se deixariam fazer parte de “currais” eleitorais.

-abandono do modelo bíblico quanto a forma de manifestar a igreja. O retorno ao modelo sacerdotal veterotestamentário de liderança: o líder se torna o canal exclusivo da mensagem divina (o porta-voz de Deus): sendo desta maneira mais fácil impor sua autoridade sobre a comunidade de crentes. Havendo, também, com isso, o impedimento do exercício do sacerdócio universal e dons dos crentes.

-adoecimento da igreja. Uma igreja na qual seus membros não exercem o sacerdócio universal (cada crente um ministro), na qual o evangelho não é pregado integralmente, onde os membros não exercitam seus dons é uma comunidade que caminha fragilmente dentro de uma sociedade tomada pelo pecado e que dificilmente se manterá saudável.

-abandono do modelo bíblico de liderança. Segundo o modelo bíblico neotestamentário, o líder não é aquele que subjuga o rebanho para se aproveitar dele, mas, sim, aquele que doa sua vida ao rebanho e o serve. Então, o modelo bíblico de liderança é o do líder-servo (1º Pe 5-2,3).

É imprescindível que levemos a sério esta questão. Talvez, nas comunidades das quais façamos parte esta não seja a realidade vigente, no entanto, se somos mesmo um só corpo, devemos nos importar e batalhar pela saúde da igreja. Podemos fazer isto orando, vivendo a igreja como ela é descrita na Bíblia, pregando e ensinando a fé que uma vez foi entregue aos santos!

Deus nos ajude!

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Como orar?

Certa vez, Jesus se encontrava num cantinho orando. Mal havia terminado, foi surpreendido com uma solicitação: “Senhor, ensina-nos a orar”. Esse pedido surgiu de uma ansiedade: querer ser igual aos outros. Sim! Os discípulos de João sabiam orar, mas aqueles/as que andavam com o Mestre ainda não. Ao abrir sua Bíblia no livro de Lc 11,1-4, você verá que oração não é imitação. Não há fórmulas sobre o que dizer e o que não dizer quando se fala com Deus.

Há pessoas que dizem que não sabem orar. Não há problema nisso. Elas não são diferentes de ninguém. Se quem andava com Jesus precisou aprender, quanto mais a gente! Não importa o tempo de igreja, todos somos e sempre seremos analfabetos em oração.

Só que as palavras do nosso Salvador não foram para resolver o sentimento ansioso no coração dos seus seguidores. Eles não estavam ali para competirem com os discípulos de João Batista. Pouco aprenderam, aliás, sobre o relacionamento entre os dois, Jesus e João, que era fruto da amizade entre suas mães, Maria e Isabel. Por isso, o Senhor vai retirar o foco de sua ansiedade e colocar seus olhos no Pai.

A partir daí, daquele que iguala todos nós à condição de filhos e filhas, aprendemos que nosso objetivo é glorificar o seu nome paterno, tendo esperança na chegada de seu reino. Seja qual for o nosso problema, nada pode nos impedir de esperar em Deus, de acreditar que o futuro está nas suas mãos. Dizer “venha o teu reino” é o mesmo que dizer “eu acredito num amanhã melhor”.

Então, Jesus mostra onde os olhos dos discípulos/as deveriam estar: no pão de cada dia. E aqui ele nos ensina que o nosso trabalho é uma graça divina. Não merecemos nada, é ele quem nos dá tudo. Se há uma coisa que deveríamos fazer todos os dias, isto é agradecer pelas atividades que podemos realizar, através das quais recebemos o nosso sustento.

De nossa parte, no entanto, sempre falhamos. E assim pedimos perdão. Precisamos fazê-lo principalmente quando deixamos de perdoar uns aos outros. É justamente este mal, da falta de perdão, que faz o mundo perigoso, já que corremos o risco de cair na tentação de não ter interesse em transformar a realidade em que vivemos, ignorando toda a maldade que há ao nosso redor.

Se deixarmos Deus nos ensinar a orar, com certeza seremos livres de tamanha tragédia. Afinal, oração é aprender com Jesus. Não adianta querer falar palavras bonitas só para imitar o discurso de alguém. Não adianta usar a língua se não houver ouvidos. Sem os ensinamentos do Senhor é impossível orar. Nossa vida é a nossa oração!