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segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Being Paulo Brabo

ERK_PBSendo verdadeiro que “originalidade é a arte de esconder as fontes", nesta bacia das almas você acaba de descobrir uma das minhas mais privilegiadas. Considero Paulo Brabo leitura obrigatória para quem compreende que a teologia não está pronta e tem coragem para enfrentar o desafio constante da ressignificação da fé. – Ed René Kivitz

Dentre os três mosqueteiros da teologia brasileira, Paulo Brabo foi o herói que mais esculachou os cardeais protestantes e suas vacas sagradas.

Até mesmo pelo fato de, ao contrário de Gondim e Kivitz, não fazer parte do clero, Brabo mostrou larga vantagem em suas argumentações. Afinal, sem ter que, dominicalmente, se ajoelhar arrependido diante de qualquer ídolo evangélico-eclesiástico institucional, ele poderia chutá-los inclementemente; e isso fez com classe e sagacidade, ferindo os demônios por trás deles mas nunca os fiéis à sua frente.

Como ícone da blogsfera protestante (no bom sentido do termo), Brabo passou a servir de fonte para, como confessa Kivitz, ressignificação da fé, ou como diz a Bíblia, para renovação do entendimento.

Mais Menos do que isso, ele passou a ser copiado (mais por uns, menos por outros), mas descaradamente por todos nós patifes virtuais e reais [e esse tipo escancarado de contrição, de auto denúncia, já é uma imitação].

O fato é que seu estilo franco e gentil é contagiante. Suas fontes (excetuando-se Borges – que para muitos de nós ainda é um ilustre desconhecido) permanecem bem ocultas, afinal se auto encobertam num panteão infinito de escritos. Portanto o cara consegue, ser acima de tudo, original.

Vai aí alguns dos 7 pecados capitais na escorregadia armadilha que é blogar e seguir diariamente a Bacia das Almas, e agora (eu atrasado – algumas coisas boas ainda chegam primeiro no Brasil do que na Europa), o perigo maior, manusear seus livros (que se multiplicam mais rápido que cogumelos).

Jamais:

  1. Apresente-se como “principal dos pecadores” usando termos marcantes. Ex: patife, canalha, farsa, maltrapilho, etc.
  2. Vincule o Evangelho e escritos sacros com expressões fortes que são normalmente usadas para coisas “profanas”. Ex: rebeldia do Reino, subversão de Jesus, sensualidade da mensagem, transgredir para o bem.
  3. Use, de igual modo, termos chocantes e metafóricos para destacar ideias principais. Ex: prenhe de esperanças, parir escritos, beijar a ferida aberta pela própria pena.
  4. Procure roubar termos da literatura e das ciências literárias. O pior deles ainda é: O protagonista.
  5. Esbanje advérbios ou adjetivos (ou a união dos dois) para deixar claro o modo, a forma e a intensidade do que você quer dizer. Lembre-se sempre de uma contradição de sentidos. Ex. desesperadamente correto, constrangedoramente lúcido, lucidamente constrangedor, vivendo absurdamente na linha do possível.
  6. e 7. (Espaço reservado para você sozinho com sua consciência)

wolfman2Enfim, desde que Paulo Brabo alçou a fama e está em vias de se tornar pop, tanto Kvitz, como o Lou (que por coincidência, ou não, dividiram o sanduiche de mortadela no pátio do recreio do mesmo seminário), ou qualquer um de nós, seremos desmascarados pela nossa falta de originalidade.

Brabo se tornou uma fonte inescondível. E olha que a fama não é tão incompreensível assim quanto a popularidade.

*Imagens e citações tiradas sem todas as devidas autorizações, como de praxis, de acordo com o oitavo mandamento deste Blog que reza, não roubarás mas copiarás.

domingo, 10 de janeiro de 2010

Nicodemus adimite que Deus é mais poderoso no teísmo aberto que no calvinismo

000801_0430_0009[1] A capitulação:

Augustus Nicodemus disse...

Paulo Brabo,
Muito legal seu comentário e não posso deixar de concordar com você. Realmente, o Deus dos arminianos tem que ser um super Deus, para conseguir realizar seus planos em meio a todas as frustrações causadas pelo livre arbítrio dos homens. E o pior de tudo, é que se for o Deus dos teólogos relacionais, este Deus nem sabe que decisões eles vão tomar.

As dificuldades sentidas pelo Chanceler do Mckenzie, estão obviamente bem pra lá do que seria o debate teológico ali representado, se encontram porém na esfera filosófica que obrigatoriamente terá que colocar onipotência e onisciência concorrendo entre si. Se exagerarmos na onisciência (que embora "oni" pode ainda ser exagerada) parcela da onipotência terá que ser abocanhada, e vice versa.

Mas afinal o que Paulo Brabo disse que deixou Nicodemus assim de calças curtas?

A tática:

Paulo Brabo disse...

Embora não seja oficialmente uma coisa nem outra, preciso discordar: é naturalmente preciso muito mais fé para ser arminiano.
O calvinista tem fé de que tudo vai dar certo porque Deus exerce soberania sobre o que nos parecem, do nosso pobre ponto de vista, decisões independentes dos homens.
O arminiano crê que tudo vai dar certo *apesar* das decisões independentes dos homens. O Deus do arminiano é sensivelmente maior, porque é poderoso o bastante para garantir com absoluta segurança o resultado final mesmo tendo de lidar com as milhões de variáveis imprevisíveis com que tem lidar a cada instante.
Crer nesse Deus maior requer fé maior.

6/1/06 12:20 <--- aqui Helder Nozima

Após desarmar um teólogo do cacife de A. Nicodemus, Paulo desabafa:

A estratégia e o repartir dos despojos:

Posso dizer que compartilho da mesma e perplexa ojeriza às teologizações e apologéticas de alguns herméticos “guardiões da fé”. Pessoas com uma postura que prega e produz uma “ortodoxolatria pura e simples” - a recorrente heresia que afirma que somos salvos pela crença correta - e que não deixa de ser uma espécie de gnosticismo, com todas as suas idiossincrasias. Meu berço religioso navegava nessas águas.

Chega a ser constrangedor acompanhar os malabarismos mentais a que os “neo conservadores calvinistas” recorrem para manter voando a imponderável peteca do seu racionalismo. (…) Meus quinze minutos de glória vieram quando fiz um calvinista concordar comigo, por um momento (ele ainda não me conhecia e não tinha como saber que eu levaria o argumento para o lado oposto), que o Deus do teísmo aberto é necessariamente mais poderoso do que o Deus do calvinismo, por garantir a felicidade do resultado final, abrindo ao mesmo tempo da solução fácil que seria manipular todas as variáveis. (retirado d'aqui)

**Para os que chegaram do Cinco Solas o ponto que Brabo, Nicodemos e eu salientamos – cada um a seu modo - é que, se "Na Escritura, a onisciência divina abrange até mesmo aquilo que é contingente", como diz Carl Henry, Deus não é então o TODO poderoso da Escritura. Ele não seria tão onipotente assim, uma vez que existe outra maneira  de entendê-lo (aceita por tantos cristãos), também lógica, também bíblica e portanto também válida, que lhe conferiria mais poder).

* Todas as citações do (hoje) escritor Paulo Brabo não foram tecnicamente solicitadas e portanto também não tecnicamente autorizadas, para seu próprio constrangimento público.

* Todas as citações do (ontem) escritor A. Nicodemus não foram tecnicamente solicitadas e portanto também não tecnicamente autorizadas, para seu próprio vexame público.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Resposta tão fraquinha

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Em matéria de piores Blogs evangélicos, logo depois do Júlio Severo vem a Norma Braga.

Achei esses comentários na Net e não pude deixar de rir.

Norma disse...

[…] Não entendi o propósito de Paulo Brabo. […] Um Deus perfeito vive, sim, FORA do tempo. Isso nem deveria ser objeto de explicação, de tão óbvio. Então Paulo Brabo vai acreditar que, se Deus diz que Suas narinas inflam de ira, é porque Deus tem narinas mesmo etc. etc. Não dá. (13/2/06 01:46)

Paulo Brabo depois comentando (em off) o episódio

"…uma pessoa me perguntou se eu estava disposto a sustentar o meu antropomorfismo ao ponto de acreditar que Deus tinha nariz, e acusou-me, contraditoriamente, de racionalismo e de relativismo. Achei a resposta tão fraquinha que fiquei constrangido pela pessoa."

Como disse um amigo meu: "se seguir a Jesus é ficar assim (como Severo e Braga)… não, nunca serei cristão!"

Leia também: A pessoa muda (ou passando a régua)

terça-feira, 19 de março de 2013

To lead, or not to lead

Difícil não ter ficado intrigado com os escritos da Bacia das Almas. Mais difícil ainda quando o tema esbarra no já intrigante reverendo Jim Jones, sua seita e o suicídio em massa lá pelos idos dos anos 70.
 
Assim, remedio-me valendo-me do papel deste Blog.
 
Jim Jones um homem que passou por minha cidade natal, Belo Horizonte, e voltou conturbado para os USA (o que espero não ter uma coisa tido nada a ver com a outra).
 
Paulo Brabo conhecidamente discípulo de Jacques Ellul, portanto um anarquista cristão, deixa anotado em seu Post:
Brabo, não siga líderes. Por tudo que é sagrado, não se torne um.
E mal percebe que não há pouco tempo é um. Para algumas teorias gerenciais, tenha até mesmo sempre sido um: Um Líder Nato.
 
Aqui é a hora, para garantirmos que estamos todos falando a mesma língua, para pormos de lado toda clareza semântica que envolve esse vocábulo tão curioso, líder. Sua origem  anglo-saxônica leader, depõe contra todo bom sentido que poderíamos emprestar-lhe.
 
Busquemos dois sentidos, entretanto, no Aurélio que se aproxima mais do tipo de Líder que Brabo se tornou:
1. Indivíduo que chefia, comanda e/ou orienta, em qualquer tipo de ação, empresa ou linha de idéias.
2.
Guia, chefe ou condutor que representa um grupo, uma corrente de opinião, etc.
Importantes expoentes do movimento cristão brasileiro como Rubinho, Lou, Gondim e Kiwitz, ou mesmo o Roger em terras germânicas, o mantém como referência para renovação do entendimento. Não é nenhum exagero dizer que Brabo, contradizendo o anarquismo de Ellul, serve de orientação para uma linha de idéias relativamente Nova e que é um dos mais autênticos  representantes, se não o principal, dessa corrente de opinião.
 
Se Brabo não é  líder  - o que em hipótese alguma pode ser interpretado pejorativamente - resta-nos dizer, que do seu veneno antídoto todos já bebemos. Pelo menos uma dose suficiente para nunca termos que escrever algo com o subtítulo de “confissões de um ex-viciado de ...”.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Beijando a ferida aberta pela própria pena

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Enquanto o inverno europeu me impedia de costumeiramente pedalar até o serviço, aproveitei para, nas viagens de trem, ir degustando a obra do paranaense: A Bacia das Armas.

Ali fui matutando uma postagem - Being Paulo Brabo – que me rendeu o tão cobiçado e definitivo lugar na calçada da fama, uma vez que nos 15 minutos de infâmia a coisa tinha ficado meio que obscura.

Tendo assim um texto meu na Bacia, pensei e repensei a possibilidade de pendurar as chuteiras, visto que a missão parecia ter-se cumprido. Vejam só, até mesmo São Volney reapareceu milagrosamente para comentar!

Falstini veio e confirmou a tese que eu sustentava com outro amigo conterrâneo - entre todos os sinônimos para “o impertinente” de que fomos taxados (descabido, inoportuno, inconveniente, importuno, insolente, rabugento), esse, irreverente, era a qualidade que mais combinava com os mineiros, portanto, a suspostamente intencionada pelo homem.

Aliás, aproveito para novamente deixar registrado que inúmeras vezes adjetivaram a mim e minha santa mãe, eu e toda minha família gerações acima e gerações abaixo, ou até mesmo eu e toda a torcida do meu querido time de futebol, cruzeiro. Ineditamente fui alvejado para atingir meus conterrâneos das Minas Gerais. Agora só o tempo dirá se por honra ou por infâmia.

Mas o que eu queria mesmo ressaltar foi os inúmeros emails em minha caixa postal. Uns usaram-na como confessionário para penitenciar seus plágios e outros apenas lembraram outras características braborianas. Vai aqui uma atualização, a lista é encabeçada pelo próprio autor:

  1. Apresente duas coisas diferentes e depois finja acreditar que são uma mesma.
  2. Apresente uma conclusão arbitrária e emoldure-a com um “naturalmente”, de modo a gerar perplexidade universal.
  3. Não esqueça das expressões irônica e sinônimas “se tudo der certo” e “salvo engano”.
  4. De um arremate final com uma curta frase de efeito que quase contradiz tudo o que foi anteriormente escrito, conduzindo o público a reler todo o texto pelo menos umas três vezes para tentar achar o elo da ideia perdida.
  5. Fechar os textos com uma imagem intrigante de um inseto.

Borges se refere a uma velha lenda, segundo a qual, cada leitor mais não é que um capítulo na vida de um livro. A profecia então se cumpriu.

Agora minhas poucas e humildes ideias foram condenadas a não descansarem ali [Como escrever como o Paulo Brabo] eternamente.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Honra a quem honra

Confesso que minha simpatia por ele, no início, ao ler suas colunas na Ultimato, não foi assim tão automática. Depois li o Artesãos de uma Nova História e comecei a entender melhor o pensamento desse nosso irmão, que tem estimulado e desafiado a alma evangélica brasileira.

Foi através de Gondim que cheguei a Brabo e foi através de Brabo que aprendi a respeitar mais Gondim. Quem afinal de contas me incentiva a ler quem, nesse jogo virtual amigo, é uma pergunta difícil de responder.

Sei que nosso amigo e colaborador Valdinei Gandra, do café teológico, teve o privilégio de em Joinville se encontrar e papear com Gondim e Paulo Brabo, por ocasião do Café Teológico.

De fato é de se respeitar que esse pastor, com todas as implicações do cargo e do ministério que exerce, tome uma atitude ousada em propor para o grupo social evangélico brasileiro uma nova visão cultural que chegue a desafiar os paradigmas vigentes. Os quais se mostram evidentemente falidos. Quem é que não tenha um mínimo de consciência cristã que também não se vê cansado com os exageros que se multiplicam por aí afora sob o nome de “evangélico”?

Dr. Russell Shedd acertou quando apontou Gondim como "o sucessor" de Caio Fábio e o “o grande nome do Evangelho no Brasil hoje” à frente do rebanho (independente de como isso seja interpretado). Ele tem sabido trilhar um caminho próprio e cristão. Sei que essa glória não é de forma alguma sua pretensão ou alvo. Nem existe um fórum para que esse "papado" seja estabelecido, como foi na época o caso da AEVB. Mas talvez em sua rede de relacionamentos tem havido um efeito multiplicador muito efetivo. Liderança é serviço e é isso que aquele irmão deixa transparecer.

Não sei, estou fora do Brasil há 10 anos, mas imagino que no mínimo em todos os seminários teológicos seu nome e pessoa seja uma referência. E em muitas igrejas também.

Deixando o contexto nacional e me voltando ao particular de minha existência, dou graças a Deus por ter achado nele a voz de quem aponta para o amor, para a paciência, para a verdade. De forma que isso vá além do corporativismo evangelical. E isso é uma grande ameaça para alguns ou até muitos, daí tantas críticas. De minha parte só tenho a agradecer!

Ano passado foi um ano especialmente difícil. Perdi minha mãe, que sofreu durante 2 ou 3 anos com demência. Estou há 3 anos desempregado, o que afeta toda minha vida, financeira, emocional, conjugal, espiritual, etc. Além disso passei há 7 anos mais ou menos por um processo traumático e complicado de desligamento da igreja que me havia enviado como missionário para Alemanha. Nessas horas as interrogações se multiplicam.

Encontrei consolo e respostas que me satisfizeram em seus escritos e vídeos. Que desbloquearam minha vida devocional e espiritual. Você me entende, não estou creditando tudo a Ricardo Gondim, mas sem dúvida ele desempenhou um papel fundamental.

Muito obrigado amigo Ricardo, quero mais uma vez, neste ano, te parabenizar pelo seu aniversário. Festeje com os seus chegados e tenha um ótimo dia, além de muiiiiiitos anos de VIDA!

Leia Também:

terça-feira, 26 de julho de 2011

As Quatro Chaves Douradas

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Passava em frente da casa de Albert Dürer, quando fui surpreendido por uma senhora japonesa me abordando com lágrimas nos olhos e gritos:

- Meu filho, meu filho! Perdi meus quatro irmãos em Fukushima, não perca os seus enquanto eles estiverem vivos. Não perca seus irmãos!

Ela me olhou bem nos olhos, com seus olhos orientais negros e balbuciou em meu ouvido:

- Depois de 200 anos vocês se encontrarão novamente.

Pensei: Pobre velhinha maluca…

Ela porém me abraçou fortemente e colocou em minhas mãos uma bolsinha vermelha, dessas que velhinhos usam para guardar suas miúdas moedas. E sumiu no Mercado Central de Nurembergue.

Somente uma pessoa com a genialidade de Paulo Brabo poderia abrir um livro tão profundo e complexo como o Gênesis e extrair dali a saga dos relacionamentos fraternais. Resumindo, é a história que se inicia com um irmão, Caim matando o outro, Abel, passando por um irmão fugindo do outro e termina com irmãos se reconciliando e vivendo juntos uns com os outros. A conturbada história do meu relacionar com os outros quatro filhos de meus pais não está muito longe de ser também uma saga – mas nada que se compare a Gênesis.

Ao abrir a bolsinha vermelha percebi que havia ali cinco pequenas chaves douradas, cada uma com uma letra e um número gravado.

Comecei também a chorar porque me lembrei dessas chaves. Eu já as tive um dia em minhas pequenas mãos. Elas eram minhas! Como eu brinquei com elas na minha infância… diariamente…

As letras eram as iniciais de nossos nomes, Ro, ME, P, D, Ra. E os números as nossas respectivas idades. Somei as idades e vi que juntos tínhamos 199 anos. Quando o próximo irmão aniversariar, e por uma horrorosa coincidência serei eu, faremos a fabulosa cifra de 200 anos sobre a face da terra. O reencontro estava profetizado.

Poucas músicas me fizeram chorar mais nos últimos tempos do que “Encontros e Despedidas” de Milton Nascimento. Não consigo ouví-la sem derramar a alma e lágrimas com frases do tipo “mande notícias do lado de lá”, “diz que fica” e “estou chegando é hora de partir”. Meu Deus que agonia é a separação!

A chave dourada com a inicial P de Paulo, foi usada na última década umas 3 vezes na Europa e umas 5 no Brasil. O que dá uma média de 1 vez por ano. É pouco. Eu sei, há irmãos que não se vêem há décadas. Na minha infância, não conseguia entender como meu pai morando só a dois Kilômetros de seu irmão, só o visitava uma vez por ano, só dois quilômetros…

Antes era porém diferente. Aquela minúscula chave abria o mundo dos esportes, da paixão por futebol, pelo Cruzeiro, por brincadeiras, por camaradagem. Era ela que abria as portas da diligência, da correção, da austeridade, da responsabilidade, de uma vida pautada pela lógica de uma sociedade que só funciona quando servimos o próximo. Foi o Paulo que se encarregou de me manter informado diariamente, através de seus telefonemas, quando nosso pai estava sendo operado no Brasil; vindo finalmente a largar de nossas mãos aqui, para se agarrar definitivamente nas de Deus, de Maria, de minha mãe, e de seus parentes que também já deixaram essa dimensão da vida. Não podia acreditar que recuperava aquela chavinha!

Com a chave das iniciais ME abria baús contendo livros, músicas e filmes. Foi a Maria Elisa, exercendo sua mentoria de irmã mais velha quem, com gosto pela vida, nos introduziu ao 14 Bis, Roupa Nova, Queen, Peter Frampton, e todos outros. É verdade foi com Paulo que assisti Gandhi na infância, mas foi na companhia de Elisa que assisti Superman e Star Trek e todos outros. Sua contagiante e radiante alegria e paixão pela vida que pode trazer luz como um sol ou sufocar nas horas mais quentes do dia, é a força que nos abriu a porta da Europa e me fez perseverar nos momentos mais difíceis aqui. Enquanto que com a chave P abria salas de conversação com papos análiticos e vastos, com ME eram conversas viscerais. Agora eu tinha essa chave em minha posse novamente!

Aquela minúscula chave contendo um D, que nasceu quase que agarrada ao meu calcanhar, me transferiu da posição de “mentorado” para “mentor”. Demorei uns bons anos para aprender como usar bem aquela chave e extrair as riquezas que ela guardava: coisas bobas como amizade, lealdade, companherismo, respeito e afeto. Quando finalmente fui alcançado e ultrapassado por Denise no mundo acadêmico, pude desfrutar da alegria de tê-la como colega de sala e do orgulho de vê-la vencendo e indo além de mim. Essa foi a última chave que perdi, tendo em vista que emigramos quase que simultaneamente para o continente europeu por razões matrimoniais. Eu e Denise colocamos em prática todo o melhor das conflitantes teorias desenvolvidas e testadas de antemão por Paulo e Maria Elisa. Agora aquela chave era minha de novo!

A última chave dourada com as letras Ra foi a que me abriu as dimensões de uma vida temperada pela presença de uma pessoa como Raquel. Um pouco mais nova do que nós quatro, Raquel mudou completamente as forças gravitacionais dos nossos relacionamentos. E mais do que isso ela trouxe o novo elemento do “de novo”. Foi ela que em nossa adolescência zelou para que não esquecêssemos tão depressa o valor da infância, que em nossa juventude não esquecêssemos o valor da adolescência, e que fatalmente em nossa rabujenta velhice nos lembrará da juventude. Lamento ter perdido essa chave tão rápido, pois cronologicamente foi a que pude usar menos, mas não menos intensamente. Não fui à formatura de Raquel, não fui ao seu casamento, não fui ao batizado de sua filha… Foi com aquela chave que aprendi abrir a caixinha com a tecla do esquecimento. Uma tecla que você aperta e não pensa mais nas pessoas que você ama e com as quais você não pode mais viver. Uma tecla anestesiante, um narcótico para o coração, um ópio. E agora, eu a tinha em minhas mãos!

Tentei em vão achar a velha japonesa na multidão, só queria agradecer-lhe… ou, abraçar-lhe pelo restante da vida e chorar com ela, pois era tarde de mais, eu também há muito já havia perdido meus irmãos no terremoto do viver.

Minhas chavinhas! Será que um dia as usarei novamente? Será? Meu Deus!

Fiquei ali com aquela bolsinha vermelha nas mãos contendo cinco chaves douradas. Parei em frente ao hospital Heilig Geist e debrucei-me num dos murinhos da ponte sobre o Pegnitz. Tomei a chave Ra. Apertei a tecla do esquecimento, depois lancei as chaves nas águas. Ali elas estariam bem guardadas. O merecido sepultamento, no frescor das cristalinas águas frias de um rio alemão.

sábado, 17 de julho de 2010

Precisa-se: Apóstolo com três anos de experiência

Caso 1

Juquinha estava recém chegado na igreja. Havia se convertido há um ano ou algo mais em outra comunidade. Após ser contatado por Milton veio a fazer parte daquela pequena igreja da periferia de São Paulo, que passava por uma semana de seminários sobre o tema “Descubra seu Dom Espiritual”.

Milton havia fundado e pastoreado uma grande igreja no Rio, e por razões que não cabem aqui, mudara-se para São Paulo. Era um homem calejado no meio evangelical, só ele dava o tom na SUA igreja, embora se esforçasse na humildade, não conseguia admitir outras autoridades espirituais, nem acima nem ao lado dele. Adorava fazer o papel de mentor e paizão, para aquelas pobres almas sofridas e aleijadas.

Como fechamento do seminário eram feitas entrevistas com os participantes. Uma espécie de questionário vocacional para determinar os dons de cada um – o ponto é que a igreja precisava de maior comprometimento dos membros. Faltavam voluntários no louvor, na recepção, na cantina e na faxina.

- Meu filho, perguntou Milton a Juquinha, o que Deus te falou esses dias? Nós já estudamos sua ficha, com muito jejum e oração e sabemos mais ou menos onde poderemos te encaixar. Mas queremos saber primeiro o que você quer? Para o que você se sente chamado?

- Pastor, não se ofenda e permita-me chamar-te também de “meu filho”, estou convicto que tenho o dom apostólico. Não tenho dúvidas de que Jesus me chamou para ser um Apóstolo e seria bom que o senhor se acostume com isso. Agora na qualidade de Apóstolo, quero aplicar-lhe o teste vocacional, para que algumas coisas sejam colocadas em ordem…

Caso 2

Fico a imaginar a cena:

Os discípulos reunidos em um salão qualquer numa clausura de 10 dias.

André pega o violão, Maria Madalena abre um hinário recém criado – Queridos irmãos e irmãs, fiquemos de pé e façamos um período de louvor! E todos se põe a cantar. “Ressuscito-o-ou, ressuscito-o-ou, ressuscito-o-ou, aleluiaaaa, venceu a morte…”

Após o período de louvor Tiago faz uma leitura do Profeta Jonas seguida de uma pregação linda, exaustiva e cansativa interpretando os três dias no ventre do peixe como sendo os três dias de sepulcro. Logo depois convoca o grupo para mais um período de oração.

Enquanto isso Pedro num canto mais retirado do cenáculo examinava eufórico os rolos do saltério, com um brilho nos olhos, de como quem acabava de descobrir uma fórmula mágica.

Pedro não entendia bem porque coube a Tiago fazer a pregação e dirigir a reunião, afinal Jesus tinha deixado claro (pelo menos só para ele) que o cajado papal estava agora em SUAS mãos. “Se pelo menos Jesus tivesse dito aquilo na frente de todos… Mas seria muita pretensão querer preencher a vaga deixada por Jesus, o que aparentemente Tiago ambicionava fazer, mas preencher a vaga deixada por Judas não seria um pecado tão mortal assim…”

Mas agora, nos Salmos, ele acabara de achar a resposta para o que não sabia procurar.

“Naqueles dias Pedro levantou-se entre os irmãos, um grupo de cerca de cento e vinte pessoas e disse:”

Nas palavras de Paulo Brabo:

Pedro levanta-se e propõe (citando versos vagamente contraditórios do livro de Salmos) que o grupo reunido escolha um dos discípulos para unir-se aos onze apóstolos restantes, de modo a completar "o grupo dos doze".

A citação vaga de versos contraditórios à realidade (que ficou conhecida no meio como textos fora de contextos, que servem de pretextos) é uma prática danosa difícil de ser arrancada pela raiz. Nos lábios de Pedro, deixa-nos poucas escolhas: ou validamos a hermenêutica (das Escrituras), e desvalidamos Pedro; ou validamos Pedro, e desvalidamos a hermenêutica (das Escrituras); ou  descreditamos ambos.

A própria hermenêutica nos aconselhará, tanto antes como depois do episódio supra citado, a termos um pé atrás com os ímpetos de Simão filho de Jonas. Coisa essa que talvez passasse pelas cabeças daquele primeiro humilde grupo, mas a força dos argumentos neutralizava.

Como a paciência era muita, mas o tempo curto, o recrutamento foi feito, a seleção eliminou a maioria, sobraram dois. Por meio de um santo sorteio Matias ganha a vaga.

O fato de nem Matias nem Barsabás serem novamente citados na história depõe a favor de Matias, tendo em vista que 80% dos apóstolos são esquecidos nas páginas de Atos (de quais Apóstolos?).

Mas o episódio deixa-nos algumas lições práticas sobre a igreja:

  1. As escrituras são falíveis e ameaçadoras até mesmo nas mãos do primeiro papa;
  2. Os “papas” são falíveis e ameaçadores até mesmo (ou mais ainda) com as escrituras nas mãos;
  3. A igreja (institucional) primitiva era primitiva e ainda hoje continua primitiva, no pior sentido dessa palavra;
  4. A sorte, ou o acaso, já se infiltraria bem prematuramente nas quatro paredes eclesiástica, privilegiando uns em detrimento de outros

Sabedores de que a pressa não vem do Diabo, mas que ela É o Diabo, resta-nos então fazer o que Jesus mandara, e esperar, para ver o que o Espírito fará nos próximos capítulos.

(Continua…)

sábado, 21 de janeiro de 2012

Clube da Capa Encardida

  

Anno MMLII

O Clube da Capa Encardida, conhecido também como Movimento da Capa Envelhecida, foi um movimento originado principalmente, mas não exclusivamente, na igreja evangélica brasileira, do final do milênio passado e início do atual.

O movimento foi obtendo dinâmica especial, e descentralizada, com a interação oferecida pela então recém chegada internet e suas redes de relacionamentos, com Blogs e mini-blogs.  Hoje, há mais de quinhentos anos de distância e, principalmente, devido ao seu caráter predominantemente anárquico, é difícil rastrear quais seriam os principais expoentes daquele movimento cristão brasileiro.

Uma lista fatalmente injusta e totalmente incompleta é aqui proposta: Tuco Egg, Rondinelly, Alysson Amorim, Volney Falstini, Ricardo Q. Gouvêa, Elienai Cabral Jr., Paulo Brabo, Rubinho Osório, Lou Mello, Ricardo Gondim, Nelson Costa e Roger Brand dentre tantos outros.

Servindo de orientação para uma linha de ideias relativamente novas e revolucionárias para a sua época, seus autores advogavam justamente a tese de que não havia nenhuma linha nova de ideias e que, eles mesmos, não eram orientadores de nada.

Os representantes daquela corrente de opinião insistiam em bater na tecla de que havia algo de errado com o cristianismo vivido no final do milênio passado (uma era de transição entre a modernidade e a pós-modernidade). As lógicas internas do paradigma evangelical brasileiro, da primeira década deste milênio, sopravam ventos institucionais muito rígidos, pois estavam amarradas aos ditames do sistema capitalista norte americano com seu consumismo maluco e a teologia (ideologia) que brotava deste solo competitivo, coorporativo e triunfalista.

O movimento em si não foi um movimento cismático mas de abandono. Abandono de lógicas e dogmas aprisionadores, em prol de uma liberdade mais individual (ou monástica), mas nem por isso, menos coletiva.

A teologia adotada de contornos mais literário e narrativo veio primeiramente complementando, depois embarcando e por fim suplantando a racionalidade do modernismo.

O abandono até mesmo, por muitos, da instituição “igreja” (como era então compreendida) não significou contudo o desleixo com tradições (a por G.K. Cherteston dita: voz democrática das gerações passadas), mas sim, a troca dos confortos da igreja formal e suas tradições (meramente de homens) pelo terreno não-mapeado do cristianismo secular.

O nome “Capa Encardida”, comumente interpretado de forma pejorativa e depreciativa pelos opositores do Movimento,  derivou da (arte gráfica e) cor da capa dos livros de alguns dos principais de seus autores.

“Heresias novas são na verdade tradições muito antigas” - Pablo Brabo

encardido - [Part. de encardir.] - Adjetivo.
1. Que se encardiu; que adquiriu cor acinzentada ou amarelada pela velhice:
papel encardido.
2. Bras. Carregado, ameaçador:
3. Bras. Diz-se de coisa sobre a qual é difícil opinar.

sábado, 18 de dezembro de 2010

A estante

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Não me considero (mais) uma pessoa que devora livros. Já houve uma época, no primário, em que competia com minha irmã quem tinha a ficha da biblioteca mais cheia. Lá eu desenvolvi o hábito e o gosto pela leitura.

Já li muitos livros de Fernando Sabino, já li livros de budismo. Nunca li Paulo Coelho. Que me lembre nunca li um livro de poesia. Teve um tempo que não conseguia ler livro algum. Após minha formatura e vinda para o exterior desfiz de todos os meu livros técnicos (Marketing, RH, finanças, Sustentabilidade e essas coisas). Me desfiz também dos livros religiosos.

Dos religiosos destaco Yancey e Swindow, “Maravilhosa Graça” e o “Despertar da Graça” respectivamente. Foram os dois livros que mais positivamente marcaram minha caminhada cristã.

Ultimamente refiz minha biblioteca com livros tipo arquivo pdf que baixamos na net. Leio-os eventualmente através do Adobe Digital Editions. Uma outra interessante ferramenta é o GooReader que te proporciona os livros da Google Livros em uma estante virtual em seu PC. Para intercâmbio estou na rede social Skoob.

Mas como o bom mesmo é o livrinho na mão para se ler onde quiser. Tratei de fazer minha primeira aquisição via Amazon: Brian Mclaren, “Uma ortodoxia generosa”, dica de nosso amigo Rondinelly.

Trouxe também do Brasil, três preciosidades que já vinha cobiçando há algum tempo. O “Creio, mas tenho dúvidas”, que já devorei; e dois livros de Paulo Brabo, “Em 6 passo, o que faria Jesus” e o famoso e premiado “A Bacia das Armas”, dos quais já vinha tirando algumas munições para enfrentar nossas hipocrisias do dia a dia.

O que quase me entristece é saber que por mais que devore livros, jamais conseguirei ler todos que gostaria. O pior ainda é verificar que em cada momento da vida, em uma releitura, um livro, o mesmo, se mostra cada vez diferente, cada vez outro.

Veja também: Livros

sábado, 29 de janeiro de 2011

O Calvinismo (segundo Paulo) Brabo

…pesando 400 anos e com treinadores peso-pesado como Martinho Lutero e Calvino, está o calvinismo, sistema teológico característico das igrejas de tradição reformada. Os títulos já dizem tudo sobre a sua origem histórica: o calvinismo ostenta ser extensão fiel da postura teológica geral da reforma protestante do século XVI – refletindo em especial o pensamento de João Calvino e de seus discípulos imediatos.

No que interessa para a nossa discussão é preciso dizer que o calvinismo enfatiza tanto a tremenda soberania de Deus (Deus faz o que quer) quanto a tremenda incompetência do homem (o homem é incapaz de fazer por si mesmo qualquer coisa de bom).

O calvinista crê encontrar na Bíblia que Deus é soberano, e entende com isso que o livre-arbítrio humano é coisa que não existe. O homem, atolado até o pescoço na fossa do pecado, não tem qualquer inclinação, capacidade ou independência moral para desejar a Deus, quanto menos o cacife para escolher tomar o lado divino a fim de encontrar a salvação. Os que são salvos são salvos por iniciativa inconcidional de Deus tomada na eternidade antes do tempo começar a se desenrolar – ou seja, não com base em qualquer mérito, disposição em mudar ou manifestação de fé do indivíduo favorecido.

A morte sacrificial de Cristo não beneficia toda a humanidade, mas apenas essa porcentagem de eleitos que Deus escolheu em sua misericórdia e sem precisar dar explicações a ninguém. Essa graça concedida em favor dos eleitos é “irresistível” – isto é, do mesmo modo que não fez nada para merecê-la, o predestinado não tem liberdade para rejeitá-la e vai acabar cedendo a ela na hora certa, e para sempre. Os outros, predestinados à destruição, não tem por um lado espaço de manobra para mudarem o seu próprio destino, por outro direito a reclamarem dele.

Não é sem fundamento bíblico que o calvinismo deita essas propostas aparentemente paralisantes e deterministas. O apóstolo Paulo, em particular, parece fornecer ampla credencial para cada um dos pontos defendidos pelos calvinistas. Para citar uns poucos exemplos:

Porque os que dantes conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos; e aos que predestinou, a estes também chamou; e aos que chamou, a estes também justificou; e aos que justificou, a estes também glorificou (Romanos 8:29-30).

…que nos salvou, e chamou com uma santa vocação, não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e a graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos eternos (2 Timóteo 1:9).

Assim, pois, isto não depende do que quer, nem do que corre, mas de Deus que usa de misericórdia (Romanos 9:16).

O CALVINISMO ENFATIZA A SOBERANIA DE DEUS E A INCOMPETÊNCIA DO HOMEM.

O conceito de predestinação parece também ter feito parte integrante do discurso do próprio Jesus e de outras tradições apostólicas:

Se o Senhor não abreviasse aqueles dias, ninguém se salvaria; mas ele, por causa dos eleitos que escolheu, abreviou aqueles dias (Marcos 13:20).

Os gentios, ouvindo isto, alegravam-se e glorificavam a palavra do Senhor; e creram todos quantos haviam sido destinados para a vida eterna (Atos 13:48).

Ancorado nessa qualidade de testemunhos o calvinismo sustenta que a soberania divina deve ser entendida em termos de um controle firme de Deus sobre as rédeas da história. A liberdade de escolha de que o homem crê desfrutar é ilusória, visto que o desenrolar do enredo, em especial no que diz respeito a baixas e resgates individuais, já foi definido por Deus antes das câmeras começarem a rodar.

As particularidades do sistema calvinista refletem com exatidão as condições ideológicas do mundo em que nasceu. A reforma protestante levantou-se em grande parte como reação aos abusos teológicos, sociais e políticos da igreja católica do seu tempo. Os reformadores mostravam particular indignação para com a obsessão circular da igreja católica com as “boas obras”, obras alegadamente meritórias e/ou sacrificiais através dos quais o adorador podia garantir – e muitas vezes comprar – a sua salvação. Os reformadores criam, e com acerto, que o Deus da Bíblia não admite barganhas; ele exige performance mas não aceita subornos e não reconhece méritos, promovendo a reconciliação exclusivamente através de sua própria postura cavalheiresca, a que os autores do Novo Testamento dão o nome de graça.

O calvinismo é o resultado de se levar a idéia de predestinação às suas últimas conseqüências lógicas. Se Deus predestinou, a graça é irresistível. Se Deus predestinou, não foi para todos que Jesus morreu. Se Deus predestinou, a liberdade humana é uma ilusão e uma farsa. Se Deus predestinou, ele conhece o futuro por inteiro e a história está pronta – apenas não terminou de ser filmada.

[…]

Os calvinistas rebatem com o que creem ser as inadmissíveis conseqüências teológicas do teísmo aberto. O Deus do teísmo aberto é, reclamam eles: [1] menos do que onisciente, porque não conhece o futuro, [2] menos do que onipotente, porque não será capaz de impor a sua vontade se estiver restringido pela liberdade humana, [3] menos do que absoluto e eterno, por estar sujeito ao avanço linear do tempo no próprio universo que criou e [4] menos do que onipresente, porque o futuro não é uma realidade presente para ele.

CALVINISMO: Em defesa da soberania de Deus

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Teologia alguma

O que estou mais perto de endossar é o que se chama hoje teologia narrativa, teologia que é assistemática e aberta, evocativa ao invés de explicativa, e é portanto essencialmente teologia alguma. Paulo Brabo

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Palavra final

image%5B105%5D[1] Chegamos ao fim de uma era. O Cristianismo virou uma página e ao longo dos anos ficará cada vez mais claro o momento de transição que vivemos. O velho se vai e novo já vai tomando forma.

Francis Schaeffer representa o velho. Embora tenha de alguma forma contribuído para o surgimento do novo ele mais fez fortalecer o velho.

O velho é expresso pela mentalidade de que a fé cristã estaria baseada num livro [roubo aqui uma expressão que aflorou no debate de Paulo Brabo no Lançamento de seu Livro "Bacia das Almas"]. Esta é a velha mentalidade, que tem como paladino FS e, em sua forma mais extrema, uma série de fundamentalistas (a maioria em continente norte americano).

Aparentemente pode-se pensar que essa mudança já havia ocorrido há mais tempo, com a teologia liberal e tantas outras correntes que contestariam o fundamentalismo, e não seria nada novo. Provavelmente foi Schleiermacher (que não é nem citado por Schaeffer) quem deu o ponta pé inicial nas mudanças.

FS, todavia, se desponta (nos anos 70) como a voz do movimento evangelical para dar legitimação intelectual às crenças fundamentalistas. Ricardo Gouvea assim expressou sua análise do livro de Schaeffer:

A intelectualidade evangélica adotou este livro como alicerce nos anos 70, para enfrentar o existencialismo, o movimento "hippie", o marxismo e a contracultura em geral. O livro convencia que o cristianismo não era incompatível com o estudo e a reflexão. É um pena que Schaeffer estivesse tão equivocado em suas idéias centrais.

É lamentável também que Francis Schaeffer comece por Aquino e passe por uma série de personalidades da história somente pescando desacordos e tentando apontar desatinos em suas filosofias e maneiras de ver o mundo - atitude essa típica da corrente fundamentalista. Ao longo do Blog (Lendo a Morte da Razão) e da leitura que fiz daquele livro pude ver que, ao contrário do que FS afirmava, cada um deles tinha alguma contribuição interessante para a fé cristã.

A fé, descrita pela própria Bíblia, muitas vezes prescinde do elemento racional. Hora ela o aceita, hora (e são muitas essas vezes) o rejeita. Daí a necessidade d'o salto' (tão combatido por FS).

A era pós-moderna chegou e trouxe com ela essa ênfase num subjetivismo que permite ao indivíduo vivenciar sua fé, de acordo com (ou além de) os limites de sua própria racionalidade. Não há como extrair do ser humano o elemento existencialista apontado por filósofos franceses e tantos outros da modernidade.

Esse é o desafio que se coloca frente à igreja cristã de nosso tempo: como se reinventar em uma lógica onde a Bíblia (e as pregações derivadas dela) não seja mais o centro da vida comunitária (ou da fé comunitária)?

A fé judaico-cristã não é de fato baseada num livro, mas o livro, sim, é baseado na fé judaico-cristã. Deduzimos daí não sua centralidade, mas sua grande importância.

Minha sugestão fica (contra) baseada em outro título de Francis Schaeffer: "um Deus que fala*". É hora da igreja recolocar a tônica no Deus dos antigos que era primordialmente "um Deus que ouvia".

*He is There and He is Not Silent

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Conheceria Deus o futuro (14)

4897075_ba9f3a3732d6807902d3f98929a0aac1_large[1]O que Paulo Brabo teria a dizer sobre o tema?

 

 

 

7 - Creio que Deus pode saber o futuro porque tem sabedoria de sobra para prever os infinitos desdobramentos de cada possível iniciativa livre e ao mesmo tempo poder e recursos para garantir que a sua palavra prevaleça no final sem intervir mais do que eventualmente no traçado "natural" das coisas. Creio que a presciência de que a Bíblia fala é geral e não específica, ligada mais ao poder de influência e de intervenção de Deus (conforme ao tom geral da narrativa da Escritura) do que à predeterminação rígida dos fatos. Não creio que Deus tenha como conhecer antecipadamente a decisão livre que um homem vai tomar no futuro, mas creio que ele seja poderoso o bastante para garantir que essa decisão livre não vá interferir de modo destrutivo nos propósitos futuros de Deus para a humanidade em geral (ou, algumas vezes, nos seus propósitos para o homem que tomou a decisão); creio que ele seja poderoso o bastante para conhecer todos os futuros possíveis provenientes de todas as decisões livres de todos os homens, e ainda assim prover para que nenhuma dessas possibilidades coloque em risco qualquer aspecto do seu propósito geral. Creio que Deus conheça cada homem e todos homens o bastante para ter uma excelente idéia do que vai acontecer e que está absolutamente preparado para qualquer contingência. Qualquer contradição que possa haver entre a idéia de um Deus Todo-Poderoso e homens livres faz parte daqueles mistérios indizíveis nos quais acreditamos em comum.

 
8 – Quando a Bíblia fala de um jeito que parece que Deus nem conhece o futuro e que muda de idéia o tempo todo, está falando disso mesmo. Creio arriscado dizer que seria de outra forma, ou qualquer ponto de vista bíblico poderia ser colocado em dúvida. Se há aparente contradição entre o que a Bíblia diz e a nossa teoria, melhor é reavaliar a teoria - ou abrir maior espaço para contradições aparentes. Trata-se de um mistério daqueles nos quais acreditamos em comum. Eu não diria que Deus está "fora do tempo" em qualquer sentido importante, e não creio que seria do caráter de Deus nos passar uma impressão errada do que está acontecendo. Se ele diz que não muda de idéia, como disse mais de uma vez, cabe-me acreditar. Se ele diz que mudou de idéia, não sou eu a duvidar de que ele possa fazê-lo. A contradição diz respeito ao meu ponto de vista, não ao dele. Não deve ser o meu ponto de vista a limitá-lo, nem que seja com a boa intenção de proteger a sua soberania. Deus é soberano o bastante para não precisar da minha defesa.

12/2/06 16:52 <----- Extraído daqui.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Será preciso morrer

por Paulo Brabo

1187808422"Alcançar a individuação é conciliar consciente e inconsciente, e vivemos doentes os que vivemos adiando essa jornada e esse destino. Porém em geral preferirmos a doença, porque intuímos em nosso silêncio (intuímos corretamente) que para encontrar a individuação é preciso transgredir todos os limites do conforto, dos privilégios e das prerrogativas. Para curar-se da doença é preciso escolher a morte e o esvaziamento. É necessário mendigar o conforto no desmembramento e na tragédia.

Não temos como saber se sobreviveremos à contemplação da nossa imagem na semelhança do espelho; porém, se nossa narrativa deve avançar, será necessário nos despirmos das ilusões e nos vermos como realmente somos.

Ou seja, será preciso morrer."

Fonte: Bacia das Almas, título original: Alcançar a individuação

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Des-propósitos para 2011: fazer ou ser

Confesso: já fiz minhas listas para o ano novo e, de certa forma, ainda me alimento delas, porque incompletas e vencidas, ainda que inconscientemente. A grande maioria delas foram encabeçadas por um versículo bíblico – geralmente adquirido em um sorteio de fim ano na igreja. Mas aboli esta prática, seu poder mágico esgotou-se para mim.

Com meus pais aprendi que o fazer vem depois do ser. Com eles também aprendi que o ser é um presente de Deus que deve ser buscado primeiro no vazio, na inatividade, na solidão, no silêncio, no próprio Deus, para depois deixar-se encarnar, preencher, realizar-se, congregar e sonorizar-se.

Algo assim é o que a Bíblia nos revela quando aponta que “no princípio era o Verbo” e que antes de Tudo existir e acontecer, era Deus. Ou seja, Ele não fazia, não tinha, ele, no princípio, somente era.

O fazer não muda em nada a essência do ser, somente a reflete, a torna patente.

Esse pensamento vem na contra-mão de tudo que se observa e experimentamos hoje, em todas as áreas, inclusive (para não dizer principalmente) na religiosa. Onde há uma obsessão por fazer (e ter).

Um ex-dependente de igreja* denunciou essa ideia, de forma ultra constrangedora:

É a obsessão que faz com que você sinta estar perdendo tempo trancado no escritório, quando poderia estar lagarteando na praia; faz com que se sinta culpado por estar lagarteando na praia, quando há tanta coisa para fazer em casa; faz você sentir que está perdendo tempo fazendo o serviço da casa, quando há aquele bom livro para ler; faz você sentir-se mal por estar lendo o livro, quando poderia estar aproveitando a companhia dos filhos; faz você sentir-se mal por estar gastando tempo com os filhos, quando tem a monografia para terminar; faz você sentir-se mal por ver-se obrigado a escrever a monografia, quando poderia estar vivendo!

Ou colocado novamente por ele em termos mais agressivos:

Você já fez um cruzeiro pelo Caribe? Confere. Fez pós-graduação e mestrado? Confere. Já teve uma árvore e plantou um filho? Confere. Foi a um show de Antony and the Johnsons/Zeca Pagodinho/André Rieu/Lagoinha? Confere. Já passou o final de ano no Club Mediterranée? Quê? Não? Você ainda não viveu, cara – e não vai aparentemente chegar a viver, a não ser que tenha o rosário de lembranças corretas para ostentar.

Por isso quando me indagam, metas para 2011? Só tenho uma resposta: viver sem metas, ou seja, viver, só isso.

*Paulo Brabo em “Em 6 passos o que faria Jesus”

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Por uma boa postura cristã na polis

Assumamos que Bráulia Ribeiro esteja certa e que tudo seja uma questão de liberdade X controlismo.

Assumamos também que Paulo Brabo esteja certo e que seja tudo uma questão de distribuição de renda X manter o status quo.

“Quando ouvi a reclamação e essas acusações, fiquei furioso. Fiz uma avaliação de tudo e então repreendi os nobres”. Neemias

Se você estiver vindo pela mão da injustiça social, na mesma que Neemias se viu, você estará trafegando fatalmente pela esquerda. E nosso amigo paranaense está completamente certo ao reafirmar a tônica comunista comunitária do Evangelho do Reino de Deus.

É um mensagem, então, de libertação, que visa a igualdade. Na via à esquerda não existe uma distribuição, mas uma RE-distribuição, uma devolução, daquilo que foi tirado, roubado, tomado indevidamente.

Os privilegiados pelo status quo nunca irão, por si só, abrir mão de seus privilégios sem que haja uma reforma (ou, como queiram, uma revolução). Foi isso que Neemias deu cabo em Israel atendendo o clamor dos oprimidos.

“Por isso convoquei uma grande reunião contra eles…” Neemias

Cabe ao estado nesse momento, limitar a liberdade de uns, para que os outros ganhem a sua. Cabe ao estado, então, controlar o ganho de uns, para que a perda dos outros não saia do controle. Foi isso que aconteceu em Israel.

Quem trafega na contramão da esquerda, nesse caso, será fatalmente de direita.

“Devolvam-lhes imediatamente suas terras…” Neemias

Cabe lembrar, aqui, que essa é a situação histórica do Brasil. Povos inteiros foram oprimidos, roubados e vendidos como escravos. A sociedade brasileira foi formada com base na opressão do povo europeu (branco) sobre os povos indígenas (cujas terras foram conquistadas) e sobre os povos negros (tomados como escravos). E tudo com a santa bênção do cristianismo das épocas sobre a governança dos papas, bispos e padres.

Assim conseguimos nos tornar hoje em um gigante, com os piores índices de distribuição de renda do planeta. (Meu Deus que vergonha…)

Mas temos que admitir, apesar disso, e ainda que raramente, existem outras realidades. Onde há justiça social e a distribuição de renda é mais ou menos igualitária. E pasmem minhas senhoras e senhores, não penso nem de perto nos Estados Unidos da América – uma nação prima do Brasil que conseguiu através das vantagens pós guerra I e II, do famoso calote no padrão Dolar/Ouro assumir a postura imperialista de sua mãe Inglaterra.

Nesse caso (como na Suíça e em países escandinavos) a coisa muda de figura. (Não irei aqui adentrar-me em David Ricardo e n’A história das riquezas das nações’. E se a Suíça se enriqueceu foi com o dinheiro dos judeus após a guerra, ou como paraíso fiscal guardando propinas de políticos corruptos (sic pleonasmo) da América Latina e do mundo inteiro).

Imaginemos tais nações em seu status-quo hoje, onde há pleno emprego e os salários são dignos. E toda a população goza de dignidade civil.

Aqui se você vier pela mão da justiça social (e desculpem-me não me ocorrer nenhum clássico exemplo bíblico) você estará então trafegando pela direita. Não há o que ser distribuído. O status quo deve ser preservado. E não haveria porque o Estado limitar ou controlar ninguém.

Quem vier na contramão querendo revolucionar a coisa, é de esquerda.

O que me pergunto é de que lado (ou ao lado de quem) eu estou?

E você?

Perguntei a um sábio se ele era de direita ou esquerda, ele escreveu livros. Já uma criança, me respondeu: Depende! de quem vem, ou de quem vai?

terça-feira, 28 de julho de 2015

A depravação total do homem europeu alemão ou grego (Parte 1)

Não é de se estranhar que ‏@LeonardoBoff e @jungmosung, sendo ambos teólogos católicos com forte colorido marxista, acompanhem com certo pânico e total indignação o desenrolar da política econômica da zona do euro nos últimos dias. Para o ítalo brasileiro e para o coreano brasileiro a trama europeia possui uma clara vítima, o grego, e um claro vilão: o alemão.

O alemão e sociólogo Max Weber, que não encontra ressonância em escolas materialistas e por isso não é tido como referencial pelos catedráticos supra-citados, teria em seu famoso livro, “A ética protestante e o espírito capitalista” decifrado a xarada em três ou quatro linhas. As nações industrializadas europeias funcionam dentro de um estilo de vida, onde o trabalho, a acumulação de riquezas e o avanço tecnológico são molas intrínsecas ao sistema capitalista vigente. Para Weber, o padrão econômico das nações ricas européias é muito mais que consequência da exploração da mão de obra ou de nações pobres, mas simples fruto de uma cultura baseada em valores religiosos que reforçam em muito os aspectos profissionais da vida. Num jargão famoso, “enquanto os alemães vivem para trabalhar, os italianos trabalham par viver”.

Trabalhar para viver seria também a lógica dos gregos, se eles com o fruto de seu trabalho estivessem na condição de pagar suas contas. Mas suas contas foram adulteradas. Não foram pagas. Eles viveram bem. Comeram e beberam. Se aposentaram cedo e no final precisaram pegar mais dinheiro emprestado. Os gregos também, com dinheiro público, sustentavam sua igreja, cristã ortodoxa.

Se a igreja ortodoxa grega foi objeto de estudo de Max Weber, não sei. Mas parece-me que eles ao contrário dos protestantes, e até mesmo dos católicos, reforçavam o aspecto pedagógico da obra salvadora de Cristo em detrimento da redenção vicária através da cruz. Nós abraçamos nossa imperfeição sabendo que ela deve nos acompanhar até o calvário, para ali ser desfeita. Os ortodoxos através dos ensinos e exemplos de Jesus procuram de desembaraçar de suas imperfeições no dia a dia.

Ou como explicou Paulo Brabo:

No pen­sa­mento ortodoxo a salvação instila uma mudança real na natureza humana; não se trata — como nor­mal­mente cremos aqui no Ocidente — de uma mudança relativa e tem­po­rá­ria, a ser melhor implan­tada em momento oportuno. Para nós, o homem é salvo da con­de­na­ção; para os cristãos ortodoxos, é salvo da medi­o­cri­dade. Para nós o homem é salvo para viver com Deus um dia; para os ortodoxos, é salvo para viver como Deus hoje.

Weber nos apontaria que os gregos, dentro de sua ética religiosa, não poderiam ter trilhado o caminho da predestinação para se sentirem eleitos e enfrentarem em paz o juízo final, pois a salvação não era para aquele dia, mas para hoje. Assim também, Weber nos mostraria que os gregos por consequência não precisavam demonstrar através de sua prosperidade a graça alcançada imerecidamente. Assim os gregos poderiam se concentrar (aliás como sempre fizeram) em aspectos humanísticos e filosóficos, artísticos e esportivos, na ética e na estética do viver e não em coisas práticas do mundo econômico.

Vemos pois que estamos falando de dois paradigmas de duas visões distintas de mundo.

A questão que fica então, é se existe uma imposição de uma visão sobre a outra. Ou não será que um povo se viu seduzido pelos bônus de uma e quis voluntariamente abraçá-la sem ter que arcar com seus intrínsecos ônus? Quis viver o ócio de uma sem ter que viver com integridade o seu negócio?

Mas talvez essa ainda não seja a verdadeira questão.

(Coninua…)

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

As pedras sambam

vmo0770 por Alysson Amorim

As recentes alertas do Paulo Brabo, fulcradas em Michel Foucault e Ivan Illich, merecem a melhor atenção dos nossos ouvidos: a Igreja, depois de um tempo, apodrecida pelo processo de institucionalização, torna-se contraproducente, de uma "contraprodutividade paradoxal", no dizer de Illich, porquanto não almejada pelos seus idealizadores.
De uma comunidade saudável, onde há espaço garantido para afirmação da personalidade e vazão da criatividade, é levada ao ponto antípoda de seu projeto inicial, vendo atrofiada sua vocação de espaço emancipador e hipertrofiada as relações de poder que negam o sujeito, objetivando-o.
A graça é assassinada em nome da instituição: a confiança é depositada no objetivo, no quantitativo e na uniformidade, no que resulta a morte da personalidade e a mecanização do homem, no que resulta também na postura frequente de negação da arte na liturgia, ou da redução desta ao utilitário - kitsch. A arte situa-se na esfera da subjetividade, da autonomia, do simbólico, da espontaneidade, das transformações internas, em suma, na esfera da Graça. Quando é negada ou manipulada denuncia a presença dominadora da técnica que escraviza o homem. Eis a crítica situação da Igreja.
Suspeito que as pedras estão clamando ao som do samba que come solto no bar da Esquina: enquanto isso a comunidade pia se reúne para traçar as estratégias que salvarão o mundo, que salvarão estes sambistas inveterados.

Extraído de Fraternus 2007

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Caio Fábio - O fim de alguém que já foi alguém (pra mim)

“Lembro-me com nostalgia e em alguns casos, com lágrimas, de um tempo não muito remoto em que o Caio Fábio movia auditórios com raciocínios claros e profundos.” Ricardo Gondim

No Brasil, provavelmente ninguém trabalhou mais para divulgar esta singela revolução do que o sempre incandescente reverendo Caio Fábio. Um de seus livros mais populares escrito em 2002 mas que recupera idéias de obras anteriores, chama-se precisamente Sem barganhas com Deus. O evangelho, explica Caio Fábio, existe para denunciar e reverter aTeologia Moral de Causa e Efeito, que permanece sendo, em última análise, a teologia da igreja cristã – “uma quase-graça que, não sendo totalmente-graça, é des-graça”. Paulo Brabo

É dificílimo colocar em poucas linhas todo o sentimento de indignação que Caio Fábio evoca por sua postura covarde e primitiva. Mas vou tentar, sabendo desde já que, fracassarei.

O primeiro obstáculo, admitamos, é que esta mesma postura covarde e infantilizada já me agradou e serviu em muito para nossa diversão quando seus “inimigos”, alvejados pela sua verborragia eram os mesmos que os nossos. Assim me deliciei ao vê-lo chamando de Frouxo Júlio Severo, ou descendo a marreta no Malafaia ou no pessoal da Renascer. Isso sem falar nas memoráveis aparições no Fantástico na década de 90 para explicar, em nome da comunidade evangélica, que Edir Macedo não era evangélico.

Pois bem, de repente sua artilharia voltou-se contra Gondim. Há muito que ser dito sobre o porque dessa escolha, mas não quero me adiantar.

Descobri o ícone dos Evangélicos brasileiros tardiamente. Aliás, a primeira vez que alguém sugeriu-me haver um HOMEM DE DEUS (um ícone), chamado Caio, eu logo me antipatizei com a coisa. Foi um simples convite para assistir um vídeo em uma reunião de jovens.

Mas não demorou muito, na época da Universidade, que a figura de alguém que “com raciocínios claros e profundos” me cativou. Nem tanto pela suposta clareza, mas pela profundidade. Ele foi uma peça importante para minha auto-afirmação no ambiente “ostil” universitário, como evangélico. Foi na época quando as revistas de Caio começaram a circular nas bancas e ele tinha um progama na TV. Além disso ele apresentou o projeto de caridade “Fábrica da Esperança”, além de conseguir aparecer ao lado de Betinho, o famoso “Irmão de Henfil”, em uma marcha para Paz.

A única pessoa, naquela época, que sugeriu-me ser Caio Fábio nenhuma flor que se cheire foi meu pai. Católico, foi presenteado com um vídeo do Caio. “Logo desse camarada. Não gosto dele. Por que você não me deu então, pelo menos, algo do Fanini”. Estranhei sua atitude.

Esse fascínio, de então, é o que causa agora a segunda dificuldade de se poder por um fim definitivo no sujeito. É bem verdade que a coisa toda já foi por água a baixo faz tempo. Mas sempre houve um fio de esperança.

Nunca engoli o “Reverendo’ novamente em seus programinhas da Web (Youtube), sempre com um ou dois serviçais a tira colo, que não servem para nada, a não ser dizerem “sim Caio, sim Caio”, e serem interrompidos quando começam a dizer algo por si mesmo.

Pois bem, senhoras e senhores, num desses programas que eu coloco a cima, podemos ver aquilo que, pra mim, é o fim da picada. (O cara é muito otário - me perdoem o desabafo). Faço uma pequena pausa e repito aqui alguns comentários de um último post meu sobre o assunto:

“Quanto a Caio, independente de verdade ditas ou não, sua teologia deveria tê-lo ensinado auto-controle e respeito. Não darei um view sequer em seu vídeo. É assim que se trata uma criança mal criada.” Thiago Meirelles

“Desta vez, o Caio Fábio conseguiu até ser elogiado pelos hipócritas da ala que sempre fala mal dele. Esse tipo de coisa, é uma das mais nojentas que ocorrem no meio evangélico: a pessoa não presta e eu passo a vida criticando-a, até que ela ataque alguém que eu também estou atacando. Aí sou capaz, no auge da hipocrisia, de parabenizar alguém que, na verdade, desprezo a maior parte do tempo, e também me despreza. Vergonha.” Andrea

É curioso que Caio Fábio quando descreve seu alvo da vez (geralmente pessoas) ele revela sempre os mesmos traços em todas elas. Aventureiros, aprendizes, moleques que sempre desejaram segui-lo por veneração ou até mesmo inveja,etc. Que como bom mestre, sempre acolheu a todos como filhos na fé. Ensinou a eles tudo o que sabem, deixava-os carregar sua bíblia... Em seguida mostra-nos todos como verdadeiros "judas", que o traíram e o entregaram para o sacrifício. "Complexo de messias mal ressucitado". Cegam-se as luzes dos holofotes. Todos estes sem exceção ao abrirem a porta de suas geladeira de madrugada, já vão logo emitindo suas teologias achando que já estão filmando. Quanto aos adjetivos por ele usados ao se referir ao Gondim, o Caio deve ter se convertido a tal da "preferencia nacional".. Diógenes

Não consigo deixar de comentar que Caio começa usando a figura de Jimmy Swaggart para criticar a suposta antiga postura pentecostal de Gondim. Meu Deus, será que o cara não tem espelho em casa? Por que ele não usa o Jimmy para criticar sua própria postura? Ninguém melhor do que ele mesmo protagonizou um escândalo sexual de teleevangelista no melhor estilo americano, no estilo Swaggart.

Não duvido que qualquer líder esteja sujeito a tais escândalos. Creio que todo líder tem o direito e o dever de poder recomeçar (sob certas condições). Caio não preencheu nenhuma delas.

Também não posso deixar de comentar sua necessidade em explicar que não tem tempo para estar na internet, twittar e etc… Hipócrita, mas não cansa de fornecer material para ela, como se as outras pessoas como eu e outros criticados por ele estivéssemos aqui por que temos tempo de sobra.

Para fechar, gosto de lembrar uma entrevista (que infelizmente foi tirada da Net) de um dos papas do movimento evangélico brasileiro, o Russel Shedd. Ele ali afirmava que ninguém poderia negar que Caio Fábio tinha sido “o cara” a cara da igreja brasileira. E logo em seguida cita Gondim e uns outros dois ou três como o prováveis sucessores de Caio nesse papel.

Claro que essa sucessão mexeu com os brios do Amazonense. Por zelo teológico que não foi sua abundância em chamar o outro de bundão tantas vezes assim em tão poucos minutos.

É uma postura muito covarde e primitiva (usada contra meus “inimigos” é válida), mas assim, gratuitamente, por inveja, rancor, ou seja lá o que for, contra alguém que respeitamos, não merece mais que um post de adeus e até nunca mais.